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segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Wendy Goldman visitando a fábrica Madygraf (ex-Donnelley)

Wendy Goldman: “Não poderia estar num lugar melhor que este”.

Sábado, 27 de setembro de 2014 – Edição do dia – A historiadora estadunidense está na Argentina, convidada pelo grupo de mulheres Pão e Rosas. Uma de suas atividades foi visitar à gráfica ex-Donnelley de Garín que está funcionando sob controle operário. 


Por Gabriela Jaime e Clara Liz

      Traduzido de http://laizquierdadiario.com/Wendy-Goldman-No-podria-estar-en-un-lugar-mejor-que-este



Terminada a conferência de Wendy Goldman, para mais de 600 pessoas no auditório da Faculdade de Ciências Sociais (Universidad de Buenos Aires – UBA), [na quinta-feira, 25] Pão e Rosas (precursor da primeira edição em castelhano do seu livro “La mujer, el estado y la revolución”) a convidou para conhecer a experiência da fábrica Madygraf, ex-Donnelley, hoje sob gestão de seus trabalhadores. E, como não poderia ser de outra maneira, para conversar com a Comissão de Mulheres.
Durante a visita Wendy Goldman conversou com os trabalhadores sobre cada detalhe do processo de produção, mas também sobre a organização dos trabalhadores, sua história de luta e a situação atual da fábrica sob gestão operária.
Uma questão importante ressaltada pelos trabalhadores foi que a Madygraf é uma das fábricas maiores e mais modernas da indústria gráfica, por isso há interesse econômico de rematá-la, pelo alto valor do maquinário.
Um dos momentos mais interessantes deste diálogo com os trabalhadores se deu quando Wendy lhes perguntou por que não se contentavam em conseguir a legalização da cooperativa Madygraf e exigiam a expropriação, para estatizar a fábrica sob controle operário. A resposta foi contundente: “Porque somos trabalhadores e os trabalhadores não querem se transformar em patrões”.
Os trabalhadores a convidaram para tomar mate e comer petiscos preparados na cozinha da Madygraf. Espertos, os trabalhadores oferecem mate doce para ganhar sua simpatia, pois suspeitavam que os amargos não seriam do agrado dos paladares estrangeiros que não estão acostumados ao sabor da erva.
Nesse momento da visita se juntam as primeiras integrantes da comissão de mulheres que presenteiam Wendy com a jaqueta azul de Donnelley usada por seus trabalhadores, bordadas com a frase: “Famílias nas ruas, nunca mais!”
Depois se dirigem ao lugar onde funcionará a futura creche da Madygraf. Sol, da comissão de mulheres, explica que a urgência em organizar o jardim infantil é porque as mães necessitam trabalhar, inclusive as que até agora não trabalhavam fora, até que os trabalhadores da Madygraf voltem a receber seus salários que estão retidos pelo síndico da falência.
Wendy pergunta quantas crianças atenderiam. São entre setecentos e mil filhos de trabalhadores, mas Sol informa que estão organizando uma pesquisa para conhecer melhor as idades, condições de vida de cada família etc.
Em seguida, escuta atentamente a história de vida e solidariedade compartilhada pelos trabalhadores da [corrente sindical e política] Bordó Gráfica e suas famílias, narrada pelas mulheres.
Mas o relato mais incrível foi o das meninas dessas famílias operárias que contaram com palavras comoventes o que sentiram ao viver esta situação e acompanhar seus pais e mães nesta luta.
Uma das mães presente nos mostrou seu celular, com um desenho feito por sua filha de cinco anos. Após uma passeata em defesa do pagamento dos salários, na qual a menina foi com a mãe e o pai, ela desenhou os trabalhadores bravos. “Estão bravos porque querem que paguem seus salários”, explicou a menina.

Maria diz a Wendy que o nascimento da comissão de mulheres, no contexto da luta contra as demissões, que ainda não terminou, fortaleceu a unidade das famílias trabalhadoras e isso fez com que a comissão de mulheres continuasse atuando. Todas concordam que isso foi porque haviam entendido a necessidade não apenas de se organizar em defesa do trabalho de seus maridos, mas também por suas próprias reivindicações como mulheres.
Anahí relata que conquistar esta organização foi custoso, tiveram que se impor e fazer discussões políticas até com seus companheiros. Contando casos divertidos, mas cheias de convicção, iniciaram a mudança na relação de irmandade e solidariedade em suas famílias. Como elas cantavam em uma de suas canções: “corações valentes, dos patrões e dos maridos, independentes”.
Wendy se despediu dizendo que o que viu diante de si é maravilhoso e que não poderia estar num lugar melhor que este.
Os trabalhadores e a comissão de mulheres da Madygraf estão escrevendo uma história diferente de tudo o que nos têm ensinado que é natural e inevitável. Um caminho de emancipação, de luta contra a exploração e a opressão.

Veja o vídeo com filhos e filhas de trabalhadores da Madygraf. Uma das crianças, Priscila, de 11 anos, explica para Wendy que os trabalhadores votaram o nome Mady para a cooperativa em homenagem a uma das crianças, filha de um trabalhador, que tem paralisia infantil. Diz também que os filhos estão em muitas passeatas com seus pais e mães, e decidiram chamar-se “Pequenos de pé”, para mostrar que apoiam a luta dos seus pais.

https://www.youtube.com/watch?v=x0RSGbifwXQ



terça-feira, 23 de setembro de 2014

Em vermelho vivo

Terça-feira, 23 de setembro de 2014 – Edição do dia – 

Legalizaram o aborto 50 anos antes da Grã Bretanha; descriminalizaram a homossexualidade 77 anos antes da Alemanha; permitiram o divórcio 70 anos antes da Argentina. Como tomaram, há quase um século, o céu por assalto?  


Andrea D’Atri

A revolução russa de 1917 transformou tão radicalmente a vida privada que se compararmos aquelas medidas e as ideias que as inspiravam com a política social e os valores que prevalecem atualmente diremos que o mundo atrasou cem anos. Esta é a primeira conclusão que se depreende da leitura de “A mulher, o Estado e a revolução” da historiadora norte-americana Wendy Z. Goldman que na quinta-feira 25 se apresentará no auditório da Faculdade de Ciências Sociais (Universidad de Buenos Aires - UBA).
Sua investigação demonstra, minuciosamente, que para a direção do Partido Bolchevique a emancipação feminina era uma tarefa fundamental que se sustentava em quatro pilares programáticos: a incorporação das mulheres ao trabalho assalariado, a socialização do trabalho doméstico, a extinção da família e o amor ou união livre. O bolchevismo encarnava a herança libertária das rebeliões de escravos da Antiguidade que havia ressuscitado nas seitas igualitaristas e comunistas do início do capitalismo. Era herdeiro do socialismo utópico e também dessa crítica implacável que Marx e Engels haviam alvejado, com ironia, o matrimônio burguês e a família no Manifesto Comunista: uma herança revolucionária que a princípio do século XX pode tomar forma em um dos países mais atrasados do mundo, transformando a vida de milhões de seres humanos.
O stalinismo necessitou da derrota física de uma geração inteira de bolcheviques para fazer retroceder estas conquistas no terreno da vida privada. Porém, a consequência do bolchevismo se mostra – neste livro de Wendy Z. Goldman – como uma verdadeira antítese. As mulheres voltaram aos seus lares; o trabalho doméstico recaiu novamente sobre suas costas; a família tradicional se fortaleceu inclusive pela propaganda estatal e o amor livre foi qualificado como “desvio pequeno-burguês”. Daí em diante todas as correntes políticas tributárias do stalinismo estabeleceram que as mulheres e suas demandas eram secundárias na luta revolucionária.
Atualmente, quando as relações interpessoais se degradam na satisfação do individualismo mais grosseiro; quando o trabalho flexibilizado e precário impõe que todos os vínculos de emprego se submetam ao contrato temporário; quando a vida pessoal foi despersonalizada é tentador o espelhismo conservador de matrimônios e famílias tradicionais que se apresentam como oásis em meio ao deserto. Junto com o enterro da revolução o capitalismo sepultou também a audácia que alimentava a imaginação revolucionária para transformar a vida privada.
Por isso o livro de Wendy Z. Goldman é importante não apenas para reconstruir estes aspectos menos conhecidos da façanha da Revolução Russa de 1917, mas também para que em nossa luta presente e futura por uma sociedade liberada do jugo da exploração incluamos a disputa contra os valores e costumes impostos pela classe dominante e sua cultura.

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Conheça a edição brasileira do livro “Mulher, Estado e Revolução”, publicado pela Edições Iskra e Boitempo Editorial. Prólogo de Diana Assunção, diretora do Sintusp e fundadora do grupo de mulheres Pão e Rosas Brasil.

Para adquirir o livro mande email para: paoerosasbr@gmail.com

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Wendy Goldman lança "Mulher, Estado e revolução" no Brasil




Em maio de 2014, a historiadora Wendy Goldman estará no Brasil para um ciclo de conferências de lançamento de seu premiado  Mulher, Estado e revolução: política familiar e vida social soviéticas, 1917-1936, publicado pela Boitempo Editorial. Durante os dias 19, 20 e 21 de maio ela passará pelas cidades de Campinas, São Paulo e Rio de Janeiro em eventos gratuitos e sem necessidade de inscrição, seguidos de sessões de autógrafos.

Ganhador do prêmio Berkshire Conference, o livro examina as mudanças sociais pelas quais passou a sociedade da União Soviética nas duas décadas após a revolução de 1917, com foco nas mulheres e a relação que estabeleceram com o Estado revolucionário. Analisando a estrutura familiar, a sexualidade, o casamento e o divórcio na União Soviética, a obra explora como as mulheres responderam às tentativas bolcheviques de redefinição da instituição familiar.

Programação completa:

Campinas
Quando: 19/05 | 17h30 | Debate “A emancipação das mulheres: o debate e os desafios da luta contra o machismo como parte da experiência da revolução russa”
Com: Wendy Goldman, Diana Assunção e Renata Gonçalves
Onde: Unicamp | Auditório I do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH)
Realização: Boitempo, Edições Iskra e Grupo de Pesquisa “Para Onde vai o Mundo do Trabalho?”
Apoio: Programa de Pós-Graduação de Sociologia da Unicamp, Programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais da Unicamp e Centro Acadêmico de Ciências Humanas (CACH)

São Paulo
Quando: 20/05 | 19h30 | Debate com Wendy Goldman, Andrea D’Atri (Argentina), Sofia Manzano e Diana Assunção
Onde: USP | Anfiteatro de História | FFLCH 
Realização: Boitempo, Edições Iskra e FFLCH/USP
Apoio: Sintusp

Rio de Janeiro
Quando: 21/05 | 16h | Debate com Wendy Goldman, Andrea D’Atri (Argentina), Diana Assunção e Carlos Eduardo Martins
Onde: UFRJ | Sala 109, Evaristo de Moraes Filho | Térreo | IFCS 
Realização: Boitempo, Edições Iskra e Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia (PPGSA) Apoio: Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Confirme presença na página do evento no Facebook
Confira mais informações dos eventos no site da Boitempo
Acompanhe a página especial do livro no Facebook aqui

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Mulher, Estado e revolução
Política familiar e vida social soviéticas, 1917-1936
Wendy Goldman

A Boitempo, em parceria com a Edições ISKRA, publica o premiado livro Mulher, Estado e revolução: política familiar e vida social soviéticas, 1917-1936. Escrito por Wendy Goldman, historiadora e professora da Universidade Carnegie Mellon (EUA), especializada em estudos sobre a Rússia e a União Soviética, a obra ganhou o Berkshire Conference Book Award ao examinar as mudanças sociais pela qual passou a sociedade soviética nas duas primeiras décadas pós-revolução, com foco nas mulheres, e na relação que estabeleceram com o Estado revolucionário.

O livro retrata as grandes experiências da libertação da mulher e do amor livre na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) depois da Revolução – e por que falharam, quando entrou em cena a burocracia stalinista. “Seu tema é a difícil relação entre vida material e belos ideais”, afirma Goldman. O livro examina as condições materiais da União Soviética logo após a Revolução e explora questionamentos relevantes para qualquer movimento social: quando um novo mundo poderá ser criado? Quais são as condições necessárias para se realizar ideais revolucionários? É possível que se crie total liberdade sexual para homens e mulheres sob condições de desemprego, discriminação e persistência de atitudes patriarcais? O que podemos apreender dessa experiência, depois da Revolução Russa? Combinando história política e social, o livro recupera não apenas as lições discutidas por juristas e revolucionários, mas também as lutas diárias e ideias de mulheres trabalhadoras e camponesas.

Ao chegarem ao poder em 1917, como resultado de uma revolução, e com esperanças de construir um mundo novo, muitos juristas, educadores e outros militantes sonharam com novas possibilidades. Os bolcheviques lutavam para que, sob o socialismo, a instituição “família” definhasse; para que o trabalho doméstico não remunerado das mulheres fosse substituído por lavanderias, creches e refeitórios comunitários; para que o afeto e o respeito mútuos substituíssem a dependência jurídica e financeira como base das relações entre os gêneros. Uma geração de legisladores soviéticos se empenhou em concretizar essa visão e como parte dela, em 1920, legalizaram o aborto, que passou a ser considerado um serviço público e gratuito.

É importante destacar que os bolcheviques tiveram uma política aberta sobre as relações pessoais, especialmente considerando o atraso social e cultural da Rússia. A ideia de “amor livre” e as relações hierárquicas entre pais e filhos foram temas amplamente debatidos. “Em uma cultura patriarcal, os pais exerciam um controle tremendo sobre as mães e as crianças. Tomavam decisões sobre o matrimônio, a educação e o trabalho. Os bolcheviques queriam abolir esse controle, em favor dos direitos do indivíduo, do ser humano”, afirma Goldman. "Questionaram as hierarquias de todo tipo, não somente aquelas dentro da família. O Exército Vermelho foi reconstruído sob novas regras, mais democráticas em termos de relações entre oficiais e soldados. As escolas tornaram-se mistas, e os professores, estudantes e trabalhadores criaram Sovietes para governá-las. Os juristas discutiam o ‘desaparecimento’ da lei e do Estado e faziam leis destinadas a alentar esse objetivo. Inclusive desafiaram as hierarquias na arte e na música. Na década de 1920, os músicos soviéticos experimentaram uma ‘orquestra sem diretor’. Foi um momento de grande nivelamento e de experimentação apaixonante em todas as áreas da vida”.

No entanto, uma década e meia depois, com a atuação de forças contrarrevolucionárias, a legalidade do aborto foi revogada e a experimentação social deu cada vez mais lugar a soluções conservadoras, que reforçaram as amarras da família tradicional e o papel reprodutivo da mulher. A autora analisa nesse contexto como as mulheres responderam às tentativas de refazer a família, com Stalin defendendo a “volta à família e ao lar”; e como suas opiniões e experiências foram utilizadas pelo Estado para atender as suas próprias necessidades. A edição brasileira do livro será enriquecida com fotografias da época e textos complementares, como o texto de capa de Liliana Segnini, professora do Departamento de Ciências Sociais da Unicamp, e o prólogo escrito por Diana Assunção, historiadora e militante dos direitos das mulheres.
Dia Internacional da Mulher, 1917, Pitsburgo, Rússia


Trecho do livro:
“Uma vez que havia expectativa generalizada de que a família iria definhar, a questão de como organizar o trabalho doméstico provocou extensa discussão. Lenin falou e escreveu repetidas vezes sobre a necessidade de socializar o trabalho doméstico, descrevendo-o como ‘o mais improdutivo, o mais selvagem e o mais árduo trabalho que a mulher pode fazer’. Sem poupar adjetivos duros, escreveu que o trabalho doméstico banal ‘esmaga’ e ‘degrada’ a mulher, ‘a amarra à cozinha e ao berçário’ onde ‘ela desperdiça seu trabalho em uma azáfama barbaramente improdutiva, banal, torturante e atrofiante’. Lenin obviamente desprezava o trabalho doméstico. Argumentava que ‘a verdadeira emancipação das mulheres’ deve incluir não somente igualdade legal, mas também ‘a transformação integral’ do trabalho doméstico em trabalho socializado.”

Sobre a autora:
Wendy Goldman é professora do Departamento de História da Carnegie Mellon University e especialista em estudos políticos e sociais sobre a Rússia e a União Soviética. Autora de diversos livros sobre o terror stalinista, gênero e classe trabalhadora, já foi traduzida para o russo, espanhol, italiano, alemão, francês, tcheco e japonês.  Com o livro Mulher, Estado e revolução, ganhou o Berkshire Conference Book Award, em 1994. É diretora de um intercâmbio universitário entre a Carnegie Mellon e a Universidade Estadual para Humanidades, em Moscou.

Ficha técnica:
Título: Mulher, Estado e revolução: política familiar e vida social soviéticas, 1917-1936
Título original: Women, the State and Revolution: Soviet Family Policy and Social Life, 1917-1936
Autora: Wendy Goldman
Prólogo: Diana Assunção
Orelha: Liliana Segnini
Páginas: 400
ISBN: 978-85-7559-364-6
Preço: R$ 49,00
Editoras: Boitempo e Edições ISKRA

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terça-feira, 6 de maio de 2014

Boletim Pão e Rosas - Especial Metroviárias



Não podemos aceitar operar um trem e trabalhar nas estações com mulheres sendo assediadas!

          A realidade da violência contra a mulher e estupros no nosso país é gritante. São mais de 50 mil mulheres estupradas por ano e uma média de 5 mil mulheres mortas. Contando com as que não denunciam por medo, vergonha ou por desacreditar da polícia, que na maioria dos casos comprem um papel de humilhá-la ainda mais (até mesmo nas Delegacias da Mulher), os números são ainda piores. Essa discussão ficou evidente pela pesquisa publicada pelo IPEA, que divulgou um dado de que 65% dos entrevistados concordavam com a frase “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”. Posteriormente, assumiram o erro e divulgaram o dado correto de 26%, que não deixa de ser um número alto. Também ganhou destaque o assédio nos transportes depois da propaganda do Metrô e do governo do estado de SP que dizia que “o trem cheio é bom porque dá pra xavecar a mulherada”. O que eles querem é justificar os assédios, justificar o machismo e tirar o foco da responsabilidade que têm por conta da superlotação.
            O Metrô de São Paulo está no olho do furacão. Somente este ano já foram registrados cerca de 20 casos. Nós, trabalhadoras e trabalhadores do Metrô, não podemos aceitar trabalhar em estações ou operar trens normalmente, enquanto tem mulheres sendo assediadas ou violentadas! Por isso nós do Pão e Rosas interviemos no Seminário da Campanha Salarial do Metrô propondo uma verdadeira campanha contra o assédio sexual. Achamos que trabalhadores e trabalhadoras do Metrô podem, junto com a população usuária, fazer efetivamente diferença para dar um basta nessa situação!
            Lutamos para que a Secretaria de Mulheres do Sindicato dos Metroviários elabore, junto às metroviárias e usuárias, uma ampla campanha com fotos, cartazes, vídeos e painéis, além de um anúncio sonoro nos vagões contra o assédio. Que o Metrô disponibilize espaço na TV do trem e nos painéis publicitários para esta campanha. E nós, operadores e operadoras de trem e funcionários das estações, devemos emitir esse anúncio, deixando claro que os metroviários estão do lado das mulheres no combate à violência, chamando a que as mulheres denunciem os casos para a secretaria de mulheres do sindicato e denunciando a responsabilidade do governo e da empresa. Devemos lutar por comissões de metroviárias e usuárias a partir da Secretaria de Mulheres do Sindicato dos Metroviários para apurar os casos de assédio e exigir punição dos agressores. As mulheres violentadas ou assediadas devem ter direito a licenças remuneradas no trabalho e assistência financeira garantida pelo Metrô, com tratamento físico e psicológico!
                 Acreditamos que essa é a forma de colocar as metroviárias e metroviários em ação, buscando fazer a diferença na luta contra o assédio e se aliar a população usuária, em especial às mulheres. Nada a ver com a política do PSTU (em nome do Movimento Mulheres em Luta) de distribuição de alfinetes, que não à toa perdeu a votação no Seminário da Campanha Salarial do Metrô, já que os trabalhadores não consideram que se trata de uma campanha efetiva ou a política também defendida pelo PSTU da implantação dos vagões exclusivos para mulheres nos horários de pico, uma medida que segrega a mulher, naturalizando a situação de assédio.
                 Chamamos todos que tem acordo com a perspectiva que apresentamos aqui a se somar na luta cotidiana contra a opressão às mulheres!


 Lutar pelas demandas das trabalhadoras terceirizadas nessa campanha salarial!

Recentemente, as trabalhadoras da Higilimp (limpeza da L1 Azul) se organizaram e fizeram uma grande campanha nas eleições da CIPA, com apoio dos Metroviários pela Base e do Pão e Rosas. Conseguiram eleger uma bancada da CIPA que pela primeira vez não tem nenhuma representante direto da empresa, o que representa um novo passo no sentido da luta contra as condições de trabalho semi-escravas que essas trabalhadoras estão submetidas! Nós do Pão e Rosas defendemos que, além de nossas demandas e das demandas dos usuários, devemos defender também as demandas das trabalhadoras terceirizadas (maioria mulheres) nessa campanha salarial para fortalecer ainda mais essa luta!
- bilhete de serviço para todos os terceirizados do Metrô!
- Pagamento do VA para as trabalhadoras da Higilimp!
- Plano de saúde para os terceirizados! Que qualquer atestado seja aceito pelas empresas e que não tenha nenhum desconto por falta justificada!
- Licença maternidade de 6 meses para as terceirizadas!


É só uma piada?!
 
            Por meio de declarações feitas por pessoas que participaram de treinamentos oferecidos pelo metrô, sabemos que há instrutores fazendo colocações machistas, racistas e homofóbicas. Israel Cravo, instrutor do treinamento de bilheteria, é um deles e, não à toa, foi e é alvo de muitas reclamações vindas de pessoas que se sentem ofendidas e desrespeitadas por seus comentários. Quando questionado sobre o caráter preconceituoso do que diz, este instrutor afirma que está apenas fazendo brincadeiras e piadas “inofensivas”.
             Há muito tempo ocorrem casos de abuso sexual no metrô de São Paulo e percebemos que ao invés de promoverem discussões críticas sobre o assunto, contribuindo para que haja a compreensão de como essa situação é humilhante e agressiva às vítimas, alguns instrutores reforçam e perpetuam preconceitos através de suas observações e “piadas”.
          No Brasil, 15 mulheres são mortas por dia, uma a cada uma hora e meia. Negros são assassinados três vezes mais do que brancos e um homossexual é morto a cada 28 horas no país, sendo que 44% de todos os casos letais de homofobia do planeta ocorreram aqui.
            Não deve haver nenhum espaço para comentários e piadas preconceituosas no treinamento do metrô de São Paulo. Este comportamento deve ser completamente repudiado e combatido, pois reproduz e perpetua graves preconceitos e, sendo assim, contribui para que pessoas continuem sendo desrespeitadas, excluídas, agredidas e assassinadas.
         Por tudo que foi colocado, exigimos a retirada do instrutor Israel Cravo do treinamento de bilheteria! Já houve inúmeras reclamações sobre a postura preconceituosa deste instrutor e não existe justificativa para que ele continue dando o treinamento. É urgente que uma pessoa que respeite as diversidades humanas assuma este treinamento! Estaremos atentas a qualquer comportamento e colocação preconceituosa.
            Há, além disso, o anúncio de que o metrô conta com mil agentes de segurança treinados para receberem as vítimas de assédio sexual. No entanto, sabemos que esta é uma propaganda enganosa! O metrô não oferece treinamento para que os funcionários saibam lidar de maneira adequada com essa situação e assim, além de fazer com que a vítima não tenha o acolhimento necessário, a empresa coloca os funcionários em uma posição delicada ao terem que enfrentar uma realidade para a qual não foram preparados.
          É imprescindível que o metrô forneça um treinamento voltado para o atendimento às vítimas de opressão, com participação das secretarias de mulheres e de negros do sindicato.
Todxs merecem dignidade e respeito!

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Venha junto com o Pão e Rosas ao Lançamento da Cartilha sobre Violência contra a Mulher do Movimento Mulheres em Luta!
Dia 10/05, a partir das 14h, no sindicato dos Metroviários!

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GRANDE LANÇAMENTO do livro A MULHER, O ESTADO E A REVOLUÇÃO!
Inédito em português!
Com a presença da autora, a historiadora norte-americana Wendy Goldman e também Andrea D’Atri (autora do prefácio da edição Argentina e dirigente do Pan y Rosas Argentina), além de Diana Assunção (autora do prólogo à edição brasileira e dirigente do Pão e Rosas Brasil)
Dia 20 de Maio em São Paulo!


terça-feira, 29 de abril de 2014

As lições de 1917 na luta pela emancipação das mulheres

LANÇAMENTO MULHER, ESTADO E REVOLUÇÃO

Por Rita Frau, professora e da Executiva Nacional do Movimento Mulheres em Luta

Artigo publicado no Jornal Palavra Operária, n 104.                                                              
http://www.ler-qi.org/As-licoes-de-1917-na-luta-pela-emancipacao-das-mulheres

Nos dias 19, 20 e 21 de maio, em Campinas, São Paulo e Rio de Janeiro respectivamente ocorrerão as conferências de lançamento do livro “Mulher, Estado e revolução” com a presença da autora, a historiadora norte-americana Wendy Goldman. A publicação, uma coedição da Boitempo Editorial e Edições ISKRA, conta com prólogo de Diana Assunção.

Nem mesmo as mais avançadas “democracias” capitalistas conseguiram conceder às mulheres de forma simples e rápida direitos elementares como o direito ao aborto ou a possibilidade de se divorciar quando quisesse, de acordo com seus sentimentos. Mas foi com a classe operária chegando ao poder, em uma revolução que desatou com uma greve de mulheres operárias, que foi possível conhecer as medidas mais avançadas no que diz respeito a luta pela nossa emancipação. “Mulher, Estado e revolução” vem a publico mostrar os grandes debates entre os bolcheviques para lidar com o avanço nas medidas de libertação das mulheres e o fato de que só seria possível a emancipação completa das mulheres em uma sociedade efetivamente comunista, onde se impusesse o fim do valor, do dinheiro, da mais-valia e assim de todas as classes sociais. Por isso o estado operário de transição colocou em cena todo o processo de “metamorfose” interna da revolução, como já apontava Leon Trotsky em sua Teoria da Revolução Permanente.
Da socialização das tarefas domésticas para livrar as mulheres deste serviço atrofiante até a necessidade de que as mulheres passassem a dirigir o estado operário, muito se debateu e avançou no processo de libertação das mulheres. Como muitos bolcheviques diziam, todas as leis implementadas no estado operário deveriam, conforme se avançasse para o fim das classes, definhar. As leis eram dialeticamente implementadas também como forma de proteger as mulheres diante das mudanças radicais da sociedade, a contradição entre a forma de organização familiar capitalista – que impunha a dependência financeira das mulheres em relação aos homens – e o ideal do amor livre onde as relações estariam livres dos entraves capitalistas e cada relação seria definida por sentimentos mútuos.
Como Edições ISKRA queremos que esta elaboração seja um aporte para a luta das mulheres no Brasil, mas queremos retomar o debate que já completa mais de um século entre marxistas e feministas sobre qual a estratégia de luta das mulheres. Enquanto o feminismo da igualdade é expressão da integração cada vez mais profunda ao Estado burguês através de ONG´s e grupos feministas ligados ao governo que continuam enaltecendo a possibilidade de emancipação das mulheres no capitalismo, vemos também uma série de “feminismos” que se reivindicam radicais e que voltam a negar as contradições de classe voltando-se exclusivamente para a implementação de medidas individuais contra os homens. Todos estes feminismos são funcionais uns aos outros, algumas vezes com roupagem mais de esquerda, outras vezes mais radical, mas todos nutrem-se de um profundo ceticismo na classe operária – e às vezes ódio de classe – para buscar respostas imediatas a opressão cotidiana que vivem as mulheres.

Este livro é portanto uma ferramenta científica para trabalhadores e trabalhadoras, jovens e estudantes, avançarem em uma compreensão revolucionária da emancipação das mulheres, e também uma ferramenta de combate a todo tipo de ideologia feminista que em sua estratégia terminam negando a única possibilidade de emancipação para as mulheres: a tomada do poder pela classe operária, como fizeram as operárias e operários russos em 1917. Estamos na primeira fileira das demandas mais sentidas das mulheres, sobretudo as trabalhadoras, negras e pobres, e intervimos no movimento real de mulheres existente, mas com estas perspectiva revolucionária porque queremos ser sujeito do fim desta sociedade que nos relega somente miséria e opressão.