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segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Os encochadores e o machismo de cada dia

Por: Letícia Oliveira

Após horas e horas de expediente de trabalho, mulheres em todo o país são forçadas pela péssima qualidade do transporte público a pegar ônibus, trens e metros extremamente lotados. FOTO UOL.


Nos últimos dias recebemos a denúncia de que havia um grupo público do Facebook intitulado "Encochadores" divulgando matérias e histórias repugnantes de casos de assédio sexual nos transportes públicos. Tal grupo defende e propagandeia essa prática livremente pela web sem nenhum tipo de punição ou investigação.
Os encochadores e o machismo de cada dia
Após horas e horas de expediente de trabalho, mulheres em todo o país são forçadas pela péssima qualidade do transporte público a pegar ônibus, trens e metros extremamente lotados. A prática de assédio sexual, a qual faz referência esse grupo do Facebook, é um dos maiores medos de cada trabalhadora em nosso país. É certo dizer que quase toda mulher já passou por isso em uma ida ou volta ao trabalho, e que sentiu-se totalmente indefesa para evitar tal abuso. De fato, o que se pode fazer? Em um transporte tão lotado, não há muito para onde fugir, e por vezes diversas mulheres, como me foi testemunhado a partir das denúncias que abrimos no Facebook, desistem de fazer qualquer coisa e torcem para que o abuso da "encochada" acabe o mais rápido possível.
Os "encochadores" relatam livremente a sua repugnância: "meu junior durasso pra fora da cueca... só sei que na plataforma da estação anhangabaú eu já estava cutucando a polpa da bunda esquerda dela bem a vontade esfregando de leve... quando entramos lá dentro me posicionei e já mergulhei meu pau deitando no meio da bunda dela... a que sensação d bem estar maravilhoso... rs... dai eu deixei ele reto e entuxava no meio dela a calça entrou mais ainda... rs... ela quieta o tempo todo até a estação carrão na saida apertei a bunda dela... aaaahhhhhhh... fiquei com essa ecochada até agora no pensamento... rs".
Independentemente das denúncias realizadas por uma série de mulheres, o Facebook mantém a página ativa, alegando que "não fere os princípios de comunidade do Facebook".
Ao fazer uma alegação como essa o Facebook nos leva a compreender ainda melhor uma triste realidade: no machismo de cada dia, que perpassa todas as relações, principalmente as de trabalho, abusos como este estão muito longe de ser considerados por qualquer empresa ou grande coorporação como uma violência como de fato é.
O prazer que estes homens sentem não é nem de longe um desvio social. É apenas uma expressão mais aguda do que a sociedade nos educa todos os dias através das relações de trabalho e da ideologia dominante presente em cada filme, novela, propaganda ou jornais produzidos pelas grandes coorporações de imprensa. Aprendemos em todos esses espaços que a mulher vale muito pouco ou quase nada, recebendo em média 2/3 do salário de um homem, e se for negra, menos da metade do salário de um homem branco.
Reagir ou não reagir, eis a questão
As mulheres vivem todos os dias de sua vida com a ameaça constante de algum tipo de violência moral, sexual ou doméstica. O Brasil lidera os rankings de casos de violência, tendo totalizado no primeiro semestre do ano passado mais de 260 mil denúncias de violência doméstica. No ano passado, o IPEA revelou que a cada 90 minutos uma mulher é assassinada no Brasil vítima de violência doméstica. Em 2013, o Sistema Único de Saúde brasileiro recebeu cerca de 2 mulheres por hora com sinais de violência sexual, totalizando mais de 2300 casos, sem contar as mulheres atendidas no sistema privado e as multidões de mulheres que por vergonha deixam de procurar auxílio médico nesse tipo de situação.
Por essa realidade, não são poucas as mulheres que evitam andar sozinhas durante a noite, usar roupas curtas ou envolver-se com pessoas desconhecidas. Apesar de corretas em sua prevenção, essas medidas dão a entender que o problema da violência sexual é culpa da própria mulher. Que seus hábitos e vestuário são os grandes culpados por aquele trauma, quando na verdade o culpado por toda essa violência que sofremos é um sistema econômico que desenvolve uma ideologia machista totalmente favorável a sua dominação.
Ao convencer o conjunto dos trabalhadores de que as mulheres são inferiores, facilitam a super exploração de metade da humanidade e economizam com serviços que, se não cumpridos pelas mulheres, sairiam bastante caros para esses que precisam de tanto lucro, como são os serviços de lavanderia, cuidado de filhos e idosos, alimentação, etc.
Contra a sua própria responsabilização sobre cada um desses casos de violência, o Estado burguês nos culpabiliza ao passo que cria Globelezas e mulheres submissas em suas novelas e, se durante o dia rouba nosso dinheiro, à noite tenta nos fazer escandalizar nos jornais com os casos de estupro.
Nenhuma mulher deve se envergonhar ao ser assediada nos transportes ou em qualquer outro lugar. A vergonha deve ser carregada por esses homens e pela burguesia que lucra todos os dias com a nossa opressão, inclusive com os transportes cada vez mais lotados que pagam suas festinhas privadas e seus ganhos extras com corrupção.
É possível que o transporte seja um lugar agradável?
Sim! A vontade de todo trabalhador ao sair do trabalho é pegar um metro, um trem ou um ônibus sem estresse. A qualidade de vida de uma realidade dessa é impensável para nós hoje em dia. A única justificativa para que o transporte siga sendo assim é o fato de que é gerido e administrado pelos que não usam o transporte como meio de locomoção e que dele não extraem nada a não ser os lucros exorbitantes.
Durante as recentes jornadas do transporte e as que colocaram o Brasil no cenário da juventude internacional em junho de 2013 já defendíamos que a única saída para que o transporte fosse de fato público, de qualidade e atendesse às necessidades dos trabalhadores era a partir da estatização sob controle dos trabalhadores e usuários.
Nesse espaço, a partir da clareza de que a opressão à mulher não deve ser reproduzida pelos trabalhadores pois a nós de nada serve essa ideologia, é possível que as mulheres trabalhadoras e usuárias do transporte possam pensar medidas efetivas de combate ao assédio sexual nos trens, metros e ônibus. Não houve por parte das administradoras públicas e privadas nenhuma medida efetiva de combate a essa prática a não ser campanhas estéreis e esparsas que jamais passaram pela solidariedade entre as trabalhadoras e as usuárias ou em campanhas de vigilância dos próprios usuários para denunciar e repreender cada caso que presenciassem.
Os homens são parceiros na luta contra o assédio?
Neste tipo de discussão é comum que as mulheres passem a encarar todos os homens como seus inimigos na luta contra a opressão. A verdade é que os homens, apesar de parcialmente beneficiados pelo machismo dentro de suas casas e pelo direito que recebem de nos insultar na rua, tocar em nossos corpos ou nos violar, não são os que verdadeiramente ganham com o machismo. Apenas a burguesia - proprietária dos meios de reprodução da vida como as fábricas, os bancos e outros - ganha qualitativamente não apenas com a opressão às mulheres, mas também com o racismo, a homofobia, a transfobia, a xeonofobia e todas as possíveis formas de opressão. Esse é o melhor caminho que ela encontra para dividir e enfraquecer a classe trabalhadora e lucrar mais ao determinar postos de trabalho mais precários para aqueles que não obedecem o padrão "homem, branco, heterossexual".
Portanto, a melhor luta contra a opressão é aquela que se faz lado a lado, trabalhadores e oprimidos, numa luta unitária contra toda forma de opressão e exploração, negando a divisão das fileiras operárias e abraçando a causa de todos aqueles, trabalhadores ou não, que sofrem cotidianamente da opressão de gênero, raça, etnia ou nacionalidade.
Assim, é possível reconhecer que em cada vagão de metro, trem ou em cada ônibus em todo o mundo as mulheres encontrarão nos trabalhadores e nas outras mulheres solidariedade para interromper o assédio que estiverem sofrendo, e que a tarefa de cada uma dessas mulheres é lutar para que possa, junto aos seus irmãos de classe e oprimidos, determinar o que será feito de cada um desses vagões e ônibus através de um controle operário e popular dos transportes.
Registros de telas usados para a denúncia de conteúdo feita ao Facebook:




Texto original : Palavra Operaria
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terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Os concursos de beleza e os padrões de beleza que a sociedade capitalista impõe as mulheres

Por: Odete Cristina

Mulheres lindas, altas, com cabelos perfeitos, corpo esbelto e curvilíneo, rosto encantador, vestidas em longos vestidos de gala. O imaginário dos concursos de belezas está muito presente na vida das mulheres em nossa sociedade.

Mulheres lindas, altas, com cabelos perfeitos, corpo esbelto e curvilíneo, rosto encantador, vestidas em longos vestidos de gala. O imaginário dos concursos de beleza está muito presente na vida das mulheres em nossa sociedade.
Mas essa é uma realidade distante da grande maioria das mulheres, que apenas acompanham esses concursos pela televisão ou pela internet. Pois, suas vidas são quase sempre tomadas pela jornada extenuante de trabalho, pelo cuidado com a casa, com os filhos e com os maridos ou, quando jovens, pelos estudos e a vida de “adolescente comum”. Todo o glamour e elegância dos concursos de beleza passam muito longe da realidade cotidiana da maioria das mulheres dentro desse sistema capitalista.
Recentemente uma sul-africana, Rolene Strauss, foi eleita Miss Mundo. Rolene é alta, magra, com longos cabelos lisos e olhos verdes, dona de um perfil físico muito diferente de suas conterrâneas, em sua grande maioria negras, com cabelos crespos e olhos escuros, exploradas e oprimidas por anos de segregação racial e pelo racismo ainda muito forte na África do Sul. O tipo físico da Miss Mundo 2014 está muito mais próximo de todas as suas adversárias do concurso, mesmo sendo mulheres de vários lugares do mundo, do que da maioria das mulheres sul africanas.
Isso se dá porque esses concursos de beleza não representam as mulheres de todos os países do mundo, mas sim, todas aquelas que reproduzem o tipo físico ideal imposto pela sociedade. Todas as integrantes desses concursos, apesar dos diferentes países, seguem o mesmo padrão: são altas, magras, corpo perfeito, sempre lindas e elegantes. Esses concursos elegem aquela que atende o padrão de beleza mais adequado dentro dos padrões impostos por uma sociedade machista, que enxerga a mulher como um produto.
Além propagandearem a mulher mais bela de todas, reafirmando dessa forma a lógica de competição entre as mulheres, esses concursos servem com artifícios para que a poderosa indústria da beleza venda seus produtos. Ao estabelecerem um padrão de beleza, tão diverso da realidade da maioria das mulheres, eles abrem caminho para que esse padrão seja almejado e para isso oferecem o seu produto como meio de alcançar essa beleza.
Tudo isso faz com que todos os anos milhares de mulheres sofram com transtornos alimentares e psicológicos, derivados da preocupação com o peso ideal, alimenta a indústria das cirurgias plásticas e a venda de produtos de beleza, que supostamente são a solução dos problemas das mulheres. Esses concursos afetam a subjetividade das mulheres de uma forma tão intensa e sutil que muitas vezes não nos damos conta. Mas estamos sempre querendo chegar ao peso ideal, insatisfeita com nossos corpos, com nosso cabelo, tudo porque não estamos dentro dos padrões estabelecidos pela sociedade.
Milhares de mulheres entram em depressão ou desenvolvem outras doenças porque não correspondem ao perfil de mulher bonita que o capitalismo impõem. Para além disso, milhares de mulheres sofrem com a inferiorização da sociedade e delas próprias diante de sua aparência física, isso atrapalha não só subjetivamente, mas também nas relações pessoais, sendo muitas vezes um empecilho para que elas se relacionem com outras pessoas.
Os concursos de beleza são um meio de perpetuar um padrão de beleza universal da mulher. O capitalismo impõem um tipo ideal de beleza afetando, dessa forma, a subjetivamente da maioria das mulheres que claramente não fazem parte desse padrão e vendendo assim os seus produtos. Mas faz isso de forma sutil e com tantos requintes de elegância e glamour que na maioria das vezes essas mesmas mulheres são o público que assiste fervorosamente esses concursos, na esperança de que um dia possam chegar a esse padrão de beleza ideal.
Original: Palavra Operaria
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quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

O debate entre Anitta e Pitty e a liberdade sexual das mulheres no capitalismo.

Por: Odete Cristina




Sábado passado foi ao ar um debate entre as cantoras Anitta e Pitty sobre a liberdade sexual das mulheres, antes mesmo do programa ir ao ar já havia gerado polêmica. O debate se iniciou pelo fato de que ambas discordaram sobre o avanço nos direitos conquistados pelas mulheres. Anitta afirmou que as mulheres estão quase iguais aos homens nesse quesito, o que Pitty discordou, pois para ela ainda precisamos conquistar muitas coisas. Depois avançou para um debate sobre o comportamento das mulheres.
Em primeiro lugar é preciso refletir sobre o que são esses direitos que Anitta aponta que a mulheres conquistaram no marco da sociedade em que vivemos. Vivemos em uma sociedade capitalista que usa da opressão de gênero e sexual para explorar ainda mais. Com o ascenso do neoliberalismo houve um processo maior de feminização do trabalho e também uma maior concessão nos direitos democráticos, como por exemplo o direito ao voto.
As mulheres burguesas conquistaram o direito de trabalhar, mas as mulheres pobres historicamente sempre trabalham. Não existe uma equiparidade salarial entre homens e mulheres dentro da nossa sociedade, sendo que as mulheres ganham até 30% menos que os homens, e quando são negras esse percentual se reduz pra quase 50%. Essa famosa conquista do direito ao trabalho é na verdade uma necessidade imposta pelo sistema capitalista que precisava aumentar seu exército de mão de obra. Além disso, os baixos salários pagos as mulheres servem como justificativa para rebaixar o salário de toda a classe trabalhadora.
Também é preciso refletir o que significa o direito ao voto no marco da democracia burguesa que vivemos hoje. Onde partidos pequenos e que representam os trabalhadores não podem ter candidaturas, nem sequer se legalizar e o cenário político é dominado pelos grandes partidos que servem aos interesses da burguesia. Nem mesmo uma mulher no poder pode garantir que as demandas das mulheres sejam atendidas. Para garantir sua governabilidade Dilma faz acordos com as bancadas religiosas e reacionárias do congresso e se cala sobre o direito ao aborto, deixando que milhares de mulheres morram todos os anos. Durante o seu governo houve um aumento na terceirização do trabalho, que em sua maioria são mulheres que precisam enfrentar uma dupla ou até tripla jornada de trabalho, pois o trabalho doméstico ainda recai sobre os ombros das mulheres. Os números de feminicídios e a violência contra a mulher ainda são chocantes.
Ao contrário do que diz Anitta estamos longe de alcançar os mesmos direitos que os homens. E apesar de Pitty pontuar isso, ela não faz um questionamento mais profundo sobre quem é o verdadeiro responsável pela repressão sexual feminina, se limitando a dizer que os homens não devem opinar sobre o que as mulheres fazem ou como se vestem. Contudo, dentro de uma sociedade divida em classes sociais como a nossa é muito difícil que todas as mulheres tenham os mesmos direitos. Pois o capitalismo usa da opressão histórica das mulheres, aliada a exploração e repressão dos nossos corpos para manter sua dominação. Para manter a dominação de uma classe sobre a outra.
Outro ponto polêmico foi quando Anitta afirmou que mulheres precisam “se dar ao respeito”, o que Pitty logo se posicionou contrária. Antes de cair em um debate moralista, o que pareceu para mim a polêmica entre as duas, gostaria de debater sobre como a repressão sexual, não só das mulheres mas de todas as pessoas, está profundamente relacionada com a sociedade em que vivemos e a dominação capitalista.
Para que o capitalismo triunfe é necessário que as pessoas trabalhem oito, dez horas por dias em um ritmo alienante e que não tenham o direito de exercer livremente sua sexualidade ou desenvolver qualquer outra potencialidade. O capitalismo se utiliza da repressão dos nossos desejos e do controle dos nossos corpos para garantir sua dominação.
O machismo ainda está muito presente na sociedade e isso parte da visão que vê a mulher como uma propriedade, inicialmente do pai, depois do namorado ou marido. Uma mulher que exerce plenamente sua sexualidade ou que veste-se como quer, vai contra a noção de que a mulher é mais uma propriedade do homem e contra o controle que o sistema possui dos nossos corpos. Como afirmava Marx as ideias dominantes de uma época são sempre as ideias dominantes da classe dominante dessa época. Enxergar a mulher como uma propriedade e reprimir nosso direito a plena liberdade sexual faz parte das ideias dominantes da burguesia para garantir a sua dominação e exploração sobre a maioria da população.
Por isso nossa luta pela liberdade sexual e combate ao machismo deve ser entendida como uma luta maior contra todo esse sistema de exploração e opressão que perpetua a repressão aos nossos corpos e da nossa sexualidade. A nossa luta deve ser parte de um novo projeto que revolucione não só os meios materiais, mas também os meios culturais. Uma sociedade onde todos possam exercer livremente sua sexualidade, livres de toda opressão e exploração.
Original: Palavra Operaria
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quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Diana Assunção: “Na Faculdade de Medicina da USP há métodos profissionalizados de estupro”

Esta matéria contribui muito para quebrar o silêncio de anos nesta instituição. Os casos relatados são revoltantes. Estamos falando de pessoas que estão se formando como médicos e utilizam entorpecentes e inclusive outros produtos para facilitar um abuso sexual. Os relatos mostram que já há um método profissionalizado de estupro.

Esta semana o site ponte.org publicou uma completa e detalhada matéria com o título“Violência sexual, castigos físicos e preconceito na Faculdade de Medicina”(http://ponte.org/violencia-sexual-castigos-fisicos-e-preconceito-na-faculdade-de-medicina-da-usp/) que escancara os atos aberrantes de violência que permeiam esta renomada Faculdade. Sobre esta matéria e suas denúncias, Diana Assunção, diretora do Sindicato dos Trabalhadores da USP e responsável pela Secretaria de Mulheres do Sintusp declarou que “Esta matéria contribui muito para quebrar o silêncio de anos nesta instituição. Os casos relatados são revoltantes. Estamos falando de pessoas que estão se formando como médicos e utilizam entorpecentes e inclusive outros produtos para facilitar um abuso sexual. Os relatos mostram que já há um método profissionalizado de estupro. Que médicos estão se formando? E quando se escancara esta situação a preocupação de muitos é com a imagem da Faculdade de Medicina. Alguém está preocupado com a vida de talvez centenas de jovens que vão viver com o trauma de um estupro e um abuso? Ou que simplesmente tem que aguentar uma humilhação pelo simples fato de ser mulher?”
Diana Assunção também responsabiliza a Universidade de São Paulo pela situação “A Faculdade de Medicina simplesmente não toma nenhuma atitude em relação a situação, portanto encoberta esses casos. Inclusive o deputado Adriano Diogo (PT) que preside a Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa declarou que foi pressionado pelo próprio diretor da Faculdade, o professor José Otávio Costa Auler Junior, para não realizar a Audiência ocorrida no último dia 11. O Reitor Zago, também médico formado pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, simplesmente não se pronuncia sobre esta situação. Além disso, é um fato que o campus da USP hoje é palco para um número de estupros que desconhecemos a quantidade porque a Reitoria não divulga os números”.
Frente a esta situação e à proximidade do dia 25 de novembro, dia internacional contra a violência às mulheres, Diana considera necessária uma grande campanha e medidas de frente-única que reúnam sindicatos, movimentos feministas, de direitos humanos. “É fundamental neste momento a mais ampla unidade pra enfrentar este pacto do silêncio na Faculdade de Medicina, pois irá mexer com a burocracia universitária que fica calada pra não manchar a considerada melhor Faculdade de Medicina do país. Devemos fazer atos, manifestações, videos, cartazes, tudo o que for necessário para enfrentar estes burocratas e também os futuros médicos que praticam o estupro nesta Faculdade. Se trata de uma luta necessária que pode se tornar um exemplo no combate ao assédio sexual e aos estupros. Exigimos que a Reitoria da USP se posicione sobre este caso, bem como sobre o caso de machismo e racismo na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto e divulgue de uma vez por todas os números de denúncias de estupro dentro da USP”. Para finalizar, Diana completou dizendo que “Em nossa greve buscamos colocar com força a luta das mulheres e contra o machismo, a homofobia, a transfobia. No próximo mês teremos o V Encontro das Mulheres Trabalhadoras da USP que queremos que ajude na organização das mulheres trabalhadoras e que também possamos levantar com força a luta contra todas as formas de violência às mulheres”.


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O exame Papanicolau, a decadência da saúde pública e a luta pelos nossos direitos

Nos marcos da vergonhosa crise de assistência médica e frente a todo o descaso do governo para com as condições de vida da população pobre e, em especial da mulher, e levando em consideração a importante campanha da Secretaria de Mulheres do Sintusp para colocar fim à fila de mais de 1.000 mulheres aguardando para ter acesso ao exame do papanicolau na USP o site Palavra Operária entrevistou Gilson Dantas, médico, setentista e doutor em sociologia pela Universidade de Brasília, e procuramos levantar questões sobre a importância de exames como o Papanicolau para a saúde da mulher e também sobre o descaso do Estado burguês sobre a assistência básica à saúde e os processos de saúde e doença. 




Qual a importância do exame de colo de útero, o Papanicolau, para a saúde da mulher?
Gilson Dantas: Para a mulher de vida sexualmente ativa e também na faixa aproximada dos 25 aos 65 anos, este exame, que é simples, rápido e barato, é o mais indicado para surpreender uma inflamação, uma infecção ou até uma doença sexualmente transmissível no início; também pode descobrir algum foco no colo uterino onde está se iniciando um processo pré-cancerígeno ou mesmo um câncer inicial. Pode descobrir uma verruga vaginal, uma candidíase, enfim é um bom exame de rotina, para ser feito anualmente, no caso de mulheres mais sadias, ou de 3 em 3 anos em outros casos, e que pode surpreender no início uma enfermidade ou até uma inflamação que não está dando, por exemplo, sintomas ainda. Uma doença que não é “visível” passa a ser visível com esse exame de citologia do colo do útero. Essa é sua importância. Em outras palavras, este exame elementar, que integra a chamada “atenção à saúde básica”, é um direito mais do que óbvio e natural de toda mulher que dele necessita. Jamais poderia ser negado ou dificultado. Ele pode, vale sempre repetir, dentre outras coisas, descobrir um câncer de colo uterino (chamado de câncer cervical) quando ele está mal começando. Como é um câncer que demora dez anos para se desenvolver, sua descoberta quando ele ainda é pré-câncer, permite mudar estilo de vida, alimentação, higiene e, dessa forma, fazer com que em dois anos, aquele foco que poderia se desenvolver como câncer, seja completamente curado. E lembremos, só para dar um número, que segundo dados do próprio governo (do INCA, Instituto Nacional do Câncer), em 2011 tivemos 15 mil casos de câncer uterino, com 5 mil mortes; e este câncer é o 4º que mais mata mulheres com câncer no Brasil; em ordem de frequência, ele é o 3º mais frequente (os outros dois são mama e intestino). Ora, todos nós sabemos que a mulher rica tem total acesso a qualquer tipo de exame e à qualidade de vida; a conclusão portanto é que negar o Papanicolau é escolher QUEM vai morrer de câncer uterino. É simples assim. E cruel assim: tanto que um estudioso do assunto procurou traçar o perfil de qual é o tipo de mulher que morre desse tipo de câncer e o que foi que ele descobriu? Que quem mais morre dele é a mulher não-branca, de menos escolaridade, mais pobre, e também a mais cheia de filhos, com ênfase na mulher da zona rural. É claro que esses estudiosos, de resto bem pagos, não vão se indignar com esse apartheid organizado, com essa crônica de um crime anunciado – executado contra as mulheres pobres, negras e de periferia – mas penso que é nosso dever nos indignarmos e organizarmos a luta contra isso, no sentido de mudar esse “destino” que os diferentes governos burgueses organizam contra nós, cotidianamente.
Então o Papanicolau vem a ser um exame preventivo, a mais importante medida de prevenção do câncer de colo de útero?
Gilson Dantas: Em primeiro lugar é uma brutal irresponsabilidade do governo não oferecer este exame para toda mulher, com rapidez, gratuito e em todo bairro. Ele dá uma ideia de como está a saúde da parede vaginal e uterina, se tem inflamação ou alguma alteração de qualquer tipo, verruga, candidíase etc. Mas prevenção mesma, mais profunda, tem que ser entendida de outra forma. Pense comigo: se uma população é obrigada a morar no meio do esgoto e pega muita verminose, qual é a verdadeira prevenção: o exame de fezes, para descobrir que você tem a parasitose ou eliminar o esgoto? Você vai fazer o exame, vai tomar o medicamento e vai voltar a pegar o verme ao pisar de novo no esgoto. Esse é o xis da questão. Portanto, é certo que o Papanicolau é aquela coisa imediata, um direito natural, como tantos outros, e que são sistematicamente negados ao povo pobre. Essa é a primeira coisa. A outra é que nem toda mulher desenvolve câncer uterino. Ele não é um problema de “qualquer mulher”. Compare aquelas que moram no Morumbi ou Jardins com aquelas que vivem em Carapicuíba. A taxa de câncer é brutalmente diferente. A verdadeira prevenção tem a ver com as condições do bairro, transformar as condições de vida e de trabalho que o governo degrada ou deixa degradar todos os dias enquanto suga nosso sangue, nosso suor para gerar sua riqueza e ainda por cima arranca impostos e tarifas públicas caras sem retribuir em serviços. Grandes epidemias e doenças foram vencidas no século XIX através da urbanização, da coleta de esgoto, da oferta de água e outros meios de vida, muito mais por essa via do que pela medicina em si mesma. Portanto cuidado com o discurso do governo: ele adora vender vacinas, tratamentos caros e NUNCA discutir como se origina o câncer e outras doenças. Por exemplo, por que 90% das mulheres têm contato alguma vez na vida com o HPV – um vírus comum – e apenas algumas delas desenvolvem câncer? O vírus está ali, passa por ali, mas somente algumas irão adoecer por conta dele. A resposta é que a causa do câncer uterino nunca foi e nem é o vírus mas sim falta de boa alimentação, a conquista de menos horas de trabalho, melhor higiene, melhores condições de vida, mais lazer. No caso do povo pobre: o fim da exploração do trabalho. O controle da própria atenção médica e da vida, escola, creches públicas e urbanização do bairro, que tem que ser obra dos próprios trabalhadores e suas famílias. Por isso junto com o Papanicolau temos que arrancar todos os nossos direitos à vida. Total proteção à saúde da mulher para sua vida sexual, reprodutiva e saúde em geral terá que ser conquista dos próprios trabalhadores.
Nós temos uma presidente mulher, governos que se sucedem e nunca a saúde da mulher e nem da classe trabalhadora pobre é prioridade. Como você vê essa questão?
Gilson Dantas: Veja que nós estamos diante de um problema de classe. Ter ou não ter acesso ao Papanicolau, no Brasil, é um problema de classe. Antes de ser presidente mulher, ou presidente petista, tucano, peemedebista, todos eles são governos que defendem os interesses da classe que vive do nosso trabalho. Sua prioridade são os grandes banqueiros e o empresariado. São eles que financiam as campanhas daqueles. A nossa resposta também tem que ser de classe. Temos que tomar nosso destino nas nossas mãos. De novo vamos ao exemplo do Papanicolau: é um exame muito necessário já que antes da mulher ter os sintomas de um câncer instalado, que são sangramento, dor após o sexo, o Papanicolau permite descobrir a doença; pois bem, trata-se de um exame pouco invasivo, barato, custaria menos de 50, 70 reais, portanto de baixa tecnologia; o governo poderia contratar pessoas do próprio bairro, em massa, treiná-las para aprender a colher a amostra (aprender o jeito de colher, de preparar a lâmina, reconhecer as células no microscópio, montar equipes, estruturas e pronto, em um mês nenhuma mulher em nenhum bairro, ficaria sem o seu exame. E perto de casa, não é necessário estrutura de hospital. Treinamento, microscópios, iodo e vinagre, espátulas, uniforme, luvas algumas coisas mais e não tem mistério, estaria tudo resolvido e barato. Por que não é? Porque não é prioridade de governo. Mas e as 15 mil mortes em 2011? Ué, e quem disse que o governo vai se importar se forem 20 ou 40 mil? São mulheres pobres! A madame rica se cuida e se trata. Quanto ao governo, dos ricos, só está preocupado com as aparências, o ministério da saúde é aparência, os postos de saúde são aparência, o INCA é aparência (aliás, o INCA outro dia fazia campanha de coleta de chinelos e arroz para doar para as pacientes com câncer, imagine só onde anda a prioridade!!). O ministério da Saúde tem um orçamento que não chega a meio bilhão de reais, mas esse mesmo governo paga juros todo dia de uma dívida do tamanho do PIB, isto é, assumiu dívida de 2,2 trilhões de reais com os banqueiros. Para os banqueiros, trilhões, para a saúde nem meio bilhão... Compare os números e avalie você mesmo se saúde é prioridade. Os leitos do SUS, que por si mesmos já são horrorosos, crescem menos que a população. Mas não é só leitos e nem apenas falta de Papanicolau: quem disse que água, transportes, mobilidade urbana, emprego, qualidade de vida para o povo pobre é prioridade para Dilma ou para Alckmin? Ou para Aécio? Alckmin deixou a água entrar em colapso em São Paulo, enganou a opinião pública o quanto pôde, apenas preocupado com sua reeleição! Dilma é mulher e onde está o Papanicolau para a mulher brasileira? São governos do blábláblá, de jogo de cena com programas do tipo “minha mulher minha vida”, mas a verdade definitiva é que temos que tomar nosso destino nas nossas mãos e levantar um movimento a partir do bairro, dos trabalhadores da saúde, da aliança combativa bairro-juventude trabalhadora e estudantil para impor nossos direitos mais elementares e naturais – como o da água, da assistência básica de saúde – arrebatados por governos de classe cujos interesse jamais será o Papanicolau, nem creches e nem atenção integral à saúde da mulher pobre e trabalhadora.


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quinta-feira, 5 de junho de 2014

DOSSIÊ: PECADOS & CAPITAIS

Por Andrea D’Atri, especialista em Estudos da Mulher, fundadora do Pan y Rosas da Argentina e dirigente do PTS, Partido de los Trabajadores Socialistas.

Tradução de Ana Carolina Fulfaro e Flávia Ferreira
Texto publicado pela Revista Ideas de Izquierda, edição n.7, março de 2014. 
Versão em espanhol: http://ideasdeizquierda.org/pecadoscapitales/#more-1258


A hipersexualização das imagens publicitárias, os programas de televisão e as revistas; a inclusão de personagens gays, lésbicas ou trans em novelas e filmes e, de outro lado, a extensão do matrimônio igualitário em diversos países e o desenvolvimento de espaços gayfriendlys nas grandes metrópoles, poderiam nos fazer acreditar que a sociedade contemporânea alcançou os ideais de “liberdade sexual” reivindicados nos anos 60.
Nessa década, uma profunda “revolução sexual” acompanhou a onda de radicalização social, política e ideológica, desafiando as tradições de uma moral conservadora. Durante e depois da Segunda Guerra Mundial – especialmente nos países centrais e nas zonas urbanas -, a maior tecnificação do trabalho doméstico, que reduziu o tempo necessário para sua realização, foi pré-condição para a incorporação massiva das mulheres nas universidades e no mercado de trabalho. Mais tarde, junto com a massificação do uso de contraceptivos, essas condições propiciaram a retardação da idade para o casamento e, consequentemente, favoreceram o aumento das relações sexuais “pré-matrimoniais”, a tendência à diminuição da taxa de natalidade e a postergação da maternidade até idades mais avançadas. A geração que cresceu sob essas condições sociais, econômicas e políticas, deu origem a segunda onda do feminismo e ao movimento de reivindicações da população não heterossexual, pondo em cheque as normas que regem o comportamento sexual e as relações sexo-afetivas.
Contudo, a liberdade sexual conquistada durante aqueles radicalizados anos se reconfigurou nas décadas seguintes com a força de derrotas sociais, políticas e culturais, como liberdade de mercado: a voracidade capitalista mercantilizou, em uma escala sem precedentes, tudo aquilo que a moral burguesa havia construído como “vida privada” e que os movimentos sociais tinham se esforçado para demonstrar que eram construções sócio históricas, dispositivos biopolíticos, lógicas culturais no marco das sociedades de classe. A identidade sexual, o desejo e a fantasia se transformaram, então, em objetos de lucro, a níveis industriais1.

A mercantilização da sexualidade

Com a liberação das fronteiras para o fluxo de capitais e o colapso das economias dos países semicoloniais, aumentou enormemente, não somente o deslocamento das massas trabalhadoras, mas também, os “exilados” econômicos e o tráfico de pessoas. Como parte deste fenômeno global, expandiu-se em escala mundial o tráfico de mulheres para a exploração sexual, reduzindo a prostituição individual e voluntária praticamente a um conceito meramente acadêmico2.
Além disso, a indústria pornográfica - sob as condições criadas pelo desenvolvimento das novas tecnologias, a revolução das comunicações e internet – alcançou números astronômicos: se em 1975, nos EUA, a pornografia hardcore produziu um valor dentre 5 e 10 milhões de dólares, as estimativas atuais rondam entre os 10 mil e 13 bilhões, dos quais, pouco menos da metade seriam investimentos legais3. Em poucos anos, a pornografia abandonou a marginalidade quase criminosa para se transformar em uma indústria próspera. Isso propiciou, por sua vez, a sindicalização e o controle sanitário de seus trabalhadores e trabalhadoras, a fama de produtoras, cineastas, atores e atrizes que adquiriram renome no mercado e o desenvolvimento de inúmeros subgêneros para satisfazer as mais variadas e ocultas fantasias. Mas no limite da regulamentação e massificação deste próspero negócio, surgiram não somente subgêneros críticos do modo heterossexista e misógino que se representa habitualmente nesses filmes – como a pornografia feminista, a pornografia gay, lésbica, etc. – mas também, a produção e comercialização clandestina de filmes nos quais as mulheres são submetidas sem seu consentimento, como também, outras em que se registram torturas, estupros e assassinatos reais para o “entretenimento dos consumidores4.
E assim como os corpos e as fantasias tornaram-se mercadorias valiosas para a sede de ganho da indústria do sexo, o mesmo aconteceu com a sexualidade heteronomativa do casal monogâmico. Uma série de normas e prescrições – exigências impossíveis de cumprir no acelerado e competitivo mundo do trabalho flexibilizado e de turnos rotativos – se impõem através de revistas, programas de televisão e especialistas do sexo. Misturados com explicações supérfluas de pretensões pseudocientíficas, como “A ejaculação precoce, um problema dos dois” ou “A química do amor: como é o mapa de um cérebro apaixonado”, as mídias nos oferecem os títulos que instruem as mulheres ao amor romântico e ao casamento, ainda que “modernizados” em relação a esta hiperssexualização da cultura e gerando novos nichos de mercado: desde os inofensivos “No escritório: como encarar uma relação?”, até os mais ousados que propõem “Ponto G: como aumentar o tamanho e a sensibilidade” ou “Sexo express: os 9 melhores lugares para uma ‘rapidinha’”5. Artigos como os mencionados podem ser encontrados nas revistas de domingo dos periódicos mais prudentes, que nos aconselham a ter um melhor, maior, saudável (e “correto”, quer dizer, heterossexual e monogâmico) desempenho sexual.
Tudo se vende, tudo se compra. Desde uma mulher, até o joguinho sexual que as boas esposas adquirem numa reunião de amigas; desde as fantasias mostradas em imagens cinematográficas, até os medicamentos para tratar a disfunção erétil, que é vendido sob prescrição médica. O que fazia parte desse complexo fenômeno chamado de “vida privada” foi exposto na vitrine.

A impotência sexual e o consumo

À medida que o sexo se transforma literalmente em “moeda corrente”, são aproveitados, ao mesmo tempo, pelo capitalismo, o disciplinamento dos corpos e desejo sexual. Enquanto aumenta a mercantilização da sexualidade, paradoxalmente, a impotência sexual tem se transformado em um dos motivos mais frequentes de consulta médica e psicanalítica6.
Sob os ritmos do trabalho flexibilizado e precário em que milhões de seres humanos foram mergulhados, toda a vida ficou submetida ao contrato temporário: a aceleração do ritmo dos processos econômicos acelerou também os ritmos da vida social. As técnicas de produção e os processos laborais se transformaram em voláteis, transitórios e acelerados; tudo é instantâneo e descartável: desde as mercadorias até os estilos de vida e as relações. Reproduzimos uma longa citação do sociólogo Zygmund Bauman que representa o que foi assinalado: “Na ausência de uma segurança a longo prazo, a ‘gratificação instantânea’ é uma estratégia razoavelmente aceitável. (...). A postergação da gratificação perdeu seu encanto. (...). As precárias condições sociais e econômicas formam homens e mulheres (ou os obrigam a aprender por mal) para perceber o mundo como um recipiente cheio de objetos descartáveis, objetos para usar e jogar; o mundo de conjunto, incluindo os seres humanos. (...). É assim que a política deliberada da ‘precarização’ levada adiante pelos operadores do mercado de trabalho se vê auxiliada e instigada (e em seus efeitos é reforçada) pelas políticas da vida, sejam estas adotadas deliberadamente ou na falta de outras opções. Ambas produzem o mesmo resultado: a decomposição e a restrição dos vínculos humanos, das comunidades e das relações”7.
Então, acabamos em uma armadilha: nesse fluxo incessante, onde a tecnologia possibilita uma hiperconexão global, que garante a comunicação sem obstáculo geográfico nem temporal, a solidão tem se tornado um dos “maus” da época. E o individualismo conduz a relações efêmeras, superficiais e utilitárias, porque justamente o que se busca no outro, não é o outro, mas alguém que remedeie o mal estar, o “vazio interior” que conduz os vertiginosos ritmos da vida contemporânea8. Daí que alguns especialistas falam da “sobrevalorização” (e poderíamos adicionar, idealização) que adquire, novamente, a vida de casal, como uma segurança utópica contra a solidão a que nos confina a agitação de uma vida precária e completamente flexibilizada.
A privatização dos serviços públicos e a “desprivatização” da vida íntima foram acompanhadas de uma política de ampliação da cidadania que conferiu maiores poderes ao Estado sobre nossos corpos, nossas relações sexo-afetivas e nossas práticas eróticas: a política de direitos, o mesmo movimento que inclui proporções mais amplas da população – aqui se tem outra discussão: a estimativa concreta do alcance desta amplitude -, as integra sob as normas que são pré condição necessária para a exclusão de novos setores. Por isso, a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo tem gerado um importante debate teórico-político, em que as críticas não somente provém dos grupos mais reacionários da sociedade, as igrejas e os partidos conservadores, mas também de setores da comunidade LGBT que questionam os valores de exclusividade, monogamia, estabilidade, convivência, etc. que regem o casamento.
É o paradoxo que atravessa todos os movimentos sociais logo após os anos 70: a inclusão de direitos democráticos elementares nos códigos de leis do Estado capitalista, que implica, como contrapartida, estabelecer a punição com que o Estado e suas instituições vão direcionar a quem desrespeite esse direito9. “Existe pouco investimento no que pode transformar a pobreza, a dependência e precariedade da vida das mulheres, mas existem numerosas leis penais para proteger as mulheres”, destaca Larrauri10.
As consequências da opressão e a existência de classes sociais não podem ser abolidas através da lei. Os novos membros que queiram se juntar ao clube não podem escapar do exame médico. Irão ingressar ao mundo de direitos, se ajustando as regras estabelecidas para seu exercício. A milhões de seres humanos, o novo cartão de cidadania apenas permite que se sintam membros do clube, ainda que continue sendo interditado o uso de suas instalações.


DAS FEMINIST SEX WAR À PORNOGRAFIA FEMINISTA

Nos anos 70, o nicho do mercado pornográfico explodiu no ceio da “revolução sexual”: expandiu-se os cinemas onde eram projetados somente filmes pornográficos, a pornografia foi legalizada em vários países, etc. Rapidamente, o desenvolvimento das filmadoras domésticas permitiu que a indústria tivesse um crescimento exponencial, não somente devido ao baixo custo de produção que a nova tecnologia possibilitou, mas também porque o consumo se deslocou das salas de cinema aos domicílios particulares, com todos os benefícios de opções que isso preparava. Isto gerou o que ficou conhecido como Feminist Sex War (Guerra dos sexos feminista), um intenso debate ocorrido, principalmente nos Estados Unidos sobre qual deveria ser a posição do feminismo em torno da pornografia, que dividiu o movimento entre quem lutava pela proibição e quem a defendia, argumentando com o direito à liberdade de expressão.

A experiência sexual entre uma pessoa e uma coisa

Assim define a pornografia, a jurista feminista norte-americana Catharine MacKinnon11. Junto com Andrea Dworkin, no debate dos anos 70, argumentaram que a pornografia é constituinte da subjetividade masculina: através dela, os homens aprendem a reproduzir a situação social de subordinação das mulheres. Questionaram, ainda, que nesses filmes, as mulheres foram estigmatizadas como objetos, ao mesmo tempo em que foram excluídas da produção e até de seu consumo.
“Na sociedade industrial contemporânea, a pornografia é uma indústria que produz em massa, por dinheiro, invasão, acesso, possessão e uso sexual por e para os homens (...). É um tráfico de mulheres sofisticado tecnologicamente (...). Nesta perspectiva, a pornografia, com a violação e a prostituição em que participa, institucionaliza a sexualidade da supremacia masculina, que funde a erotização do domínio e a submissão com a interpretação social do masculino e do feminino. O gênero é sexual. A pornografia constitui o significado dessa sexualidade. Os homens tratam as mulheres segundo o que veem que são as mulheres. A pornografia constitui quem são”, observa MacKinnon12. A pornografia teria um potencial constitutivo: não somente se trata da reprodução de imagens degradantes das mulheres, mas também da construção da mulher “como uma coisa a serviço sexual dos homens”13.
Mas assim como os filmes do “super-soldado” Rambo não são a causa do incremento do gasto militar no governo Reagan, mas sim, a forma de propaganda com que tenta legitimar essa política – isso era necessário também, para reparar o olhar das massas ao exército norte-americano derrotado no Vietnã -, os filmes pornográficos reproduzem – no âmbito exclusivo do sexo nas relações heterossexuais – a milenar subordinação social das mulheres que as democracias capitalistas não se mostraram capazes de eliminar desde a raiz.

A ilusão liberal de liberdade

Quem defendeu a legalidade da pornografia, se baseou na Primeira Emenda da Constitucional dos Estados Unidos que se refere a liberdade de expressão. De acordo com a interpretação predominante, garantir a diversidade de expressão na democracia impediria a imposição de apenas algumas ideias, ou ideias apenas de determinado grupo social; assegurando a possibilidade de opiniões divergentes das ideias hegemônicas, seria possível aos cidadãos escolher e tomar decisões menos coagidas.
As respostas de MacKinnon atingiram dois aspectos cruciais e controversos. Por um lado, sustentando que a Primeira Emenda busca proteger as expressões heterodoxas ao discurso hegemônico, mas que a pornografia “é” o discurso dominante no que se refere às relações entre os gêneros, que a pornografia tem o poder de dizer as mulheres quem elas são e o poder de tratá-las de acordo com essa definição. Mas mais centralmente, afirma que a pornografia não é expressão, opinião ou discurso, mas sim, é nitidamente violência sexual contra as mulheres. Por isso, não cabe à Primeira Emenda, mas à XIV, que exige dos Estados a proteção igualitária de todas as pessoas perante a lei.
Recentemente, outra voz se levantou nesse debate. Dentro do ativismo queer, algumas mulheres que exercem ou exerceram a prostituição e a pornografia defenderam sua atividade como escolha, sustentando ainda que se trata de opções isentas de coerção: “corpo da mulher, direito da mulher”. No entanto, a posição das feministas autodenominadas “pró-sexo”, não se limita somente à defesa da liberdade individual, mas defende também os benefícios que a pornografia proporcionaria às mulheres, oferecendo uma vasta visão das possibilidades sexuais, lhes permitindo experimentar sexualmente sem os riscos “da rua”, etc.14. As pró-sexo deram origem ao que se conhece atualmente como o “pós-pornô”, onde a representação heteronormativa da sexualidade, hegemônica na indústria pornográfica, é criticada e combatida mediante a produção de outras representações heterodoxas das fantasias, dos corpos e das sexualidades. No entanto, a partir de um ângulo oposto ao de Catharine MacKinnon, o pós-pornô também parece atribuir à história das sexualidades, uma capacidade constituinte formidável.
Os estereótipos são sedimentos históricos de relações sociais estabelecidas com base na primária divisão sexual do trabalho, o surgimento da propriedade privada e a consequente necessidade de controlar a sexualidade das mulheres (quer dizer, assegurar para o proprietário a capacidade reprodutiva das mulheres que garantiria a sua linhagem). A ideia de que a fantasia sexual, o desejo, a identidade ou orientação sexual e a própria prática sexual, por si só tenham o poder de contestar a milenar relação sexual de opressão masculina heterossexista sobre as mulheres e pessoas não-heterossexuais, se mostra exageradamente pretensiosa. Valorizamos seu espírito inconformado contra tanto puritanismo imposto não só pela direita conservadora, mas também pela política dos direitos que reconhece, prega e exige um maior controle do Estado de classe e patriarcal sobre nossos corpos. Mas a humanidade que está sujeita a disciplina (também sexual) imposta pela exploração do trabalho e a família baseada no casal heterossexual monogâmico para garantir a reprodução da força de trabalho – justificadas e legitimadas pelos discursos religiosos reproduzidos nos meios de comunicação, etc. – não pode alcançar uma verdadeira libertação sexual através do exercício individual de performances sexuais diversas.
Como marxistas, hasteamos as bandeiras democráticas que nenhuma democracia do mundo pode içar até o topo do mastro: somos contrários a toda proibição, limitação ou interferência do Estado e outras instituições contra a pornografia.
Mas não somos espectadores neutros na batalha cultural que se trava não apenas na indústria pornográfica, mas também nos meios de comunicação, acerca das representações das mulheres, da relação entre os gêneros, da sexualidade, etc. Enfrentamos o machismo e o heterossexismo, revelamos sua origem no fundamento da sociedade de classes, denunciamos a apropriação que o capitalismo contemporâneo tem feito dessas velhas relações de subordinação e opressão para fortalecer seu poder na exploração de milhões de seres humanos. Estamos abertamente na luta de classes contra as redes de tráfico e todas as formas de violência contra as mulheres. E, acima de tudo, lutamos por uma sociedade de produtores livres, onde a sexualidade humana se expanda em suas infinitas possibilidades, não só em vínculos sexo-afetivos, mas também nas mais diversas formas de relacionamento entre as pessoas, a arte e a cultura de massas – incluindo a pornografia -, liberada das coações físicas, econômicas, sociais e culturais que hoje a restringem.

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DO ANTIGO LENOCÍNIO15 À ORGANIZAÇÃO SINDICAL CONTEMPORÂNEA

Apesar de ser considerado o “ofício mais antigo do mundo”, as características atuais da prostituição diferem enormemente do lenocínio religioso exercido na civilização Suméria ou o que praticava as hetairas gregas16. Contra toda a mistificação social da prostituição, Engels já a denunciava como uma instituição social que “mantém a antiga liberdade sexual... em proveito dos homens”. Em seguida, acrescenta que ainda que a prostituição seja reprovada socialmente, a reprovação “nunca se dirige aos homens que a praticam, mas somente às mulheres; que são desprezadas e rechaçadas, o que afirma mais uma vez como lei fundamental da sociedade, a supremacia absoluta do homem sobre o sexo feminino”17. Para Engels, a prostituição surge em contrapartida à aparição da família baseada no matrimônio monogâmico. “Tudo o que a civilização produz é também duplo, ambíguo, equívoco, contraditório; por um lado, a monogamia, e por outro, o heterismo18, incluindo a sua forma extrema, a prostituição”19.
Essas mesmas características se mantém por de milhares de anos. Contudo, considerar a prostituição como uma instituição igual a si mesma, nas distintas sociedades, impede que vejamos quais são os vínculos imbricados que mantidos com o capitalismo – modo de produção que alterou drasticamente as relações sexo afetivas, o matrimônio, a família, etc. – e que lhe confere novas configurações, além de abrir novas questões e debates teóricos e políticos.

Revolução industrial e moral vitoriana

Foi somente no início do capitalismo e, mais precisamente, no período de máximo desenvolvimento da “revolução industrial”, que a prostituição adquiriu as características modernas. Em meados do século XIX na Grã Bretanha, pela primeira vez na história a população urbana era maior que a rural. A superpopulação de pobres em Londres dava lugar a novos fenômenos e formas de vida: enquanto a rainha Vitória ordenava alargar as toalhas para que os pés das mesas não fizessem os homens lembrarem das pernas femininas, nos bairros do Leste os bordéis se multiplicavam e as mulheres eram prostituídas nas ruas da próspera metrópole20.
Analistas de diferentes ideologias concordam que, durante essa época, a pobreza é uma das causas mais importantes que empurram as mulheres para a prostituição. Mas, como esclarece Bebel, “alguns dos que se ocupam dessa questão começam a perceber que a triste situação social sob a qual sofrem várias mulheres poderia ser a principal causa de tantas delas venderem seus corpos; mas este pensamento não avança até a conclusão de que, portanto, é necessário criar outras condições sociais”21.

Neoliberalismo e indústria do sexo

As mais recentes décadas de restauração capitalista deram uma dimensão incomum à prostituição. Para Sheila Jeffreys, a convergência da tolerância da “liberdade sexual” e a ideologia do livre mercado, fizeram a prostituição ser reconstruída “como ‘trabalho’ legítimo que funciona como base da indústria do sexo, tanto a nível nacional quanto internacional”22. O objetivo de sua investigação – com dados e denúncias de distintos lugares do mundo – é demonstrar que a prática da prostituição se transformou em um dos negócios – legal e ilegal – mais rentáveis no mundo. Além disso, tenta argumentar que a prostituição forçada de mulheres e meninas sequestradas por redes de tráfico é a base de uma indústria mais ampla que abarca desde os clubes de strip-tease, o turismo sexual, a pornografia, até o “fornecimento” de mulheres para as bases militares ou “matrimônios” combinados mediante contratos de compra e venda.
Além de suas próprias avaliações a respeito, são muitos os estudos que sustentam suas conclusões sobre o aumento sem precedentes do “negócio capitalista” que se tornou a prostituição e a ligação com as redes de tráfico de pessoas junto a indústria pornográfica, o turismo sexual, etc. Vejamos alguns dados significativos: segundo Fondation Scelles, mais de 40 milhões de pessoas são prostituídas no mundo inteiro; a ONU estima que o número de vítimas de tráfico, a nível mundial, é de 2 milhões e meio de pessoas, dos quais 85% são destinados à exploração sexual.
Os destinos turísticos da prostituição – que foram promovidos nos anos 80 e 90 – foram, em princípio, aqueles países vizinhos aos conflitos bélicos aonde descansavam as tropas norte-americanas durante as guerras da Coréia e Vietnã (como Filipinas e Tailândia). A retirada das tropas deixou uma “capacidade ociosa” em termos de indústria do sexo: milhares de mulheres que serviram sexualmente aos soldados estrangeiros, bordéis, bares de strip-tease e outros negócios que precisavam de novos clientes. O turismo sexual ocupou o lugar dos fuzileiros navais norte-americanos. Os cafetões do sudeste asiático encontraram a possibilidade não somente de comercializar as mulheres, mas também de vender o estereótipo da fêmea submissa. Jeffreys atribui ao fato de que “permite aos homens de países em que as mulheres estão avançando até a igualdade (...) comprar a subordinação da mulher de outros países, graças ao seu maior poder aquisitivo”23.

Tráfico de mulheres e trabalho sexual: abolição ou regulamentação?

De acordo com um relatório de 2006 do Escritório das Nações Unidas contra a Droga e o Delito, 87% das vítimas de tráfico foram destinadas a exploração sexual. Algumas feministas denunciam que o tráfico está se tornando o principal modo de abastecimento para a indústria mundial do sexo, fornecendo mulheres forçadas a “trabalhar por dívidas” na prostituição de rua ou em prostíbulos, em clubes de strippers, na pornografia, etc.
Mas enquanto isso acontece – transformando o grupo de mulheres que se prostituem sem ser exploradas por um cafetão, em algo cada vez mais minoritário -, a Organização Internacional do Trabalho, grandes organizações internacionais pelos direitos civis e distintos Estados, impulsionam a sindicalização das mulheres em situação de prostituição. No feminismo, a brutal contradição entre a proliferação das redes de tráfico, o crescente número de mulheres desaparecidas e/ou sequestradas e, por outro lado, a forte pressão internacional pela legalização da prostituição, acendeu novamente o silenciado debate entre abolicionistas e regulacionistas do século XIX.
Um extenso debate – impossível de abordar neste espaço -, em que o regulacionismo propõe que o Estado legalize a prostituição e, portanto, que se regulamente a instalação de prostíbulos, as formas de exploração das mulheres, os controles sanitários e, por outro lado, o abolicionismo, que considera a prostituição como uma forma de violência contra as mulheres, combate o proxenetismo e luta por bani-lo. Este debate, atualmente, se expressa como uma tendência que defende a prostituição como trabalho e, portanto, seu enquadramento como qualquer outro ofício, com direito a sindicalização e, por outro lado, uma corrente que considera possível que a sociedade descarte o consumo da prostituição – o que conduziria a sua desaparição -, mediante o fortalecimento do poder punitivo do Estado voltado contra o cliente24.
As regulacionistas defendem que os danos que ocasiona a estigmatização social da prostituição é mais daninho que o que as abolicionistas veem como as pesadas consequências psicológicas de seu exercício. As abolicionistas questionam as regulacionistas sobre a estreita linha que separa o sindicato como uma organização para proteger os direitos das mulheres de uma nova organização proxeneta. Contudo, tanto umas quanto outras colocam no mesmo Estado capitalista que legitima e reproduz a milenar opressão às mulheres, a responsabilidade de regular a vida das prostitutas ou a responsabilidade de castigar os consumidores.
Longe do moralismo, o marxismo reconhece que a prostituição é inseparável da sociedade de classes e, desse modo, é inseparável do capitalismo. Mas reconhecer que somente acabando com todas as formas de exploração e opressão, poderemos acabar com a prostituição, não é razão para não defender os direitos das pessoas que estão nessa situação – dentre as quais, as mulheres são maioria absoluta -, a sua auto-organização, livre da interferência de proxenetas (sejam cafetões ou empresários) e do Estado (seja regulacionista ou punitivo). Combatemos a estigmatização, a perseguição e marginalização social, ao mesmo tempo, em que denunciamos e enfrentamos a repressão policial à prostituição. Denunciamos a cumplicidade das forças repressivas do Estado, seus funcionários políticos, a justiça e empresários poderosos no funcionamento e na impunidade com que operam nas redes de tráfico. Contra a utopia abolicionista, acompanhamos e promovemos a luta de exigir do Estado capitalista e de seus governos a garantia de um trabalho digno, acesso a saúde, a educação, moradia e um salário que atenda às necessidades básicas das pessoas. Mas fazemos isso, tendo em no horizonte, uma sociedade cujas horas para o ócio sejam abundantes e as insatisfações com as necessidades mais básicas sejam uma vaga lembrança da pré-história humana.

1
Já analisamos em números anteriores, quais foram as condições sociais, econômicas e políticas sob as quais ocorreram essas transformações em relação aos movimentos sociais de igualdade de gênero e liberdade sexual. Observamos como, simultaneamente, os movimentos emancipatórios – que se mobilizavam contra o Estado, para denunciá-lo ou exigir dele, e vinculavam sua demanda com uma crítica social e política ao capitalismo – se transformaram em associações civis para lobby, o monitoramento das políticas públicas e a implementação de microprojetos assistencialistas. Ver “A emancipação das mulheres em tempo de crise mundial” de A. D’Atri.
http://nucleopaoerosas.blogspot.com.br/2013/08/a-emancipacao-das-mulheres-em-tempos-de.html


2
As origens do tráfico de mulheres para exploração sexual se remete à Antiguidade, quando em suas expedições de conquista, os exércitos vencedores não somente submetiam os povos vencidos a escravidão, como também “selecionavam” as mulheres mais belas entre as escravizadas para servir como cortesãs aos homens do poder político. Porém, a dimensão global que alcançam as redes de tráfico na atualidade, não tem precedentes. Este fenômeno deu lugar a novos debates entre abolicionistas e regulacionistas da prostituição, incluindo uma nova posição, a “decisionista”. VerDo antigo lenocínio à organização sindical contemporânea”.


3
Segundo dados da Forrester Research. Para a revista Forbes, os investimentos da pornografia em 2001 se estimavam entre 500 e 1800 milhões de dólares em vídeos, milhões por internet e outro tanto por revistas, além de 30 milhões por telefonia, etc.


4
Nos anos 70 se desenvolveu um grande debate no feminismo sobre a posição em relação à pornografia. Atualmente, esse debate tem sido reavivado com o surgimento das correntes pós feministas autodenominadas “pró-sexo”, que se referenciam a teoria queer. Ver “Das feminists sex war à pornografia feminista”.


5
Artigos da seção “Pareja y sexo” do site www.entremujeres.clarin.com.


6
Embora também tenha surgido a reivindicação por contemplar a assexualidade como uma nova orientação sexual, diferenciada da abstinência ou o celibatário.


7
Zygmund Bauman, Modernidad Líquida, México DF, Fondo de Cultura Económica, 2009.


8
De fato, na psicanálise já se fala da passagem da predominância da neurose a extensão das patologias do caráter, especialmente das personalidades narcisistas, caracterizadas pela intolerância extrema ao fracasso ou a crítica.


9
Nos debates jurídicos, se coloca a tendencia, dos anos 80 em diante , em considerar a gravidade social de um problema em função de sua criminalização. Com o desmantelamento do Estado de bem-estar social, os problemas sociais se chocam com o sistema penal.


10
E. Larrauri, “La intervensión penal para resolver un problema social”, em Semiario de Teoria Constitucional y Filosofia Política, mimeo, 2011.


11
C. MacKinnon é uma das juristas mais reconhecidas no âmbito do direito das mulheres. Representou legalmente as mulheres bósnias sobreviventes aos ataques sexuais do exército sérvio durante a guerra dos Balcãs, onde conceituou estupro como genocídio e conseguiu uma decisão histórica que obrigou a indenização das vítimas.


12
C. MacKinnon, Hacia una teoria feminista del Estado, Madrid, Ediciones Cátedra, 1989.


13
Nancy Prada Prada, “¿Qué décimos las feministas sobre la pornografía? Los orígenes de un debate” revista La Manzana de la Discordia Vol 5, Bogotá, 2010.


14
As feministas pró-sexo tem suscitado debates mais agudos, colocando que a pornografia permitiria às mulheres desfrutar daquilo que, na vida, é repudiado, como o estupro. “Porque uma mulher saudável fantasia ser estuprada? (...) Talvez porque seja agradável imaginar um homem particular que está tão incomodado por ela, que deve tomá-la” (...). É melhor para as mulheres se reprimirem?”, se pergunta Wendy McElroy em “A Feminist Defense of Pornography”, Free Inquiry Magazine 4, Vol 17, 2006.


15 Lenocínio é uma prática criminosa que consiste em explorar o comércio carnal alheio, sob qualquer forma ou aspecto, havendo ou não mediação direta ou intuito de lucro (cafetinagem). No Brasil é crime segundo os Artigos 227 a 230 do Código Penal e não se confunde com prostituição. Entende-se por lenocínio um conceito amplo, do qual seriam espécies o crime de favorecimento à prostituição ou à libidinagem. Compõe-se de atividades que entram no conceito clássico de lenocínio, que, compreende toda ação que visa a facilitar ou promover a prostituição de outras pessoas, ou dela tirar proveito..  Proxenetismo (ou “cafetinagem”) é o ato que consiste em obter benefícios econômicos da prostituição de outra pessoa. (Nota da tradução- sugestão)
16
Embora não deixe de ser sugestivo que ainda hoje nos deparemos com mulheres que são sequestradas e exploradas sexualmente, como acontecia com as escravas nos antigos impérios – que eram raptadas e arrancadas de suas terras nativas para ser oferecida ao serviço sexual dos dignitários vencedores.


17
F. Engels. El origen de la familia, la propiedad privada y el Estado, Buenos Aires, Claridad, 1941. 3.


18 O heterismo (antigo sistema de prostituição da Grécia Antiga, espécie de “amor livre” apenas para os homens) é uma instituição social como outra qualquer, e mantém a antiga liberdade sexual... em proveito dos homens. Embora seja, de fato, não apenas tolerado, mas praticado livremente sobretudo pelas classes dominantes, ele é condenado em palavras. E essa reprovação, na realidade, nunca se dirige contra os homens que o praticam e sim, somente, contra as mulheres, que são desprezadas e repudiadas, para que se proclame uma vez mais, como lei fundamental da sociedade, a supremacia absoluta do homem sobre o sexo feminino. Fonte: http://www.ufrgs.br/e-psico/subjetivacao/familia/familia-texto.html Nota da tradução.
19
Idem.


20
Uma pesquisa da época mostra que mais de 90% das mulheres detidas pelo exercício da prostituição na prisão de Millbank eram filhas de operários, enquanto as mães de mais da metade delas, haviam sido domésticas, vendedoras ambulantes ou lavadeiras. Outros estudos mostram de que maneira aumentou o número de mulheres dedicadas a prostituição, ao passo que aumenta a incorporação de mulheres como operárias em distintos ramos industriais e no comércio. Citado por J. Walkowitz em Prostitution and Victorian Society, Cambridge, Cambridge University Press, 1980.


21
A. Bebel, La mujer y el socialismo. La Habana, Editorial de las Ciencias Sociales, 1979.


22
Sheila Jeffreys. La industria de la vagina. La economía política de la comercialización global del sexo. Barcelona, Paidós, 2011.


23
Idem.



24
Uma das campanhas mundiais de mais destaque é a que tem como slogan “Sem clientes não há tráfico”.