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terça-feira, 30 de setembro de 2014

Pão e Rosas no ato pela legalização do aborto em São Paulo

Participação do grupo de mulheres Pão e Rosas no ato pela legalização do aborto (28/09), em São Paulo



No Dia 28 de setembro – Dia Latino Americano e Caribenho pela Legalização do Aborto – ocorreram atos em diversas cidades da América Latina para lutar por esse direito das mulheres decidirem sobre seu próprio corpo. Em São Paulo o ato se deu na Avenida Paulista organizado pela Frente Feminista pela Legalização do Aborto e contou com a participação de diversas organizações de mulheres.

Frente à proximidade das eleições, vimos que muitas organizações não deram peso devido para o ato, mais preocupadas com as campanhas eleitorais e separando isso da luta pelos direitos das mulheres. As mulheres da Marcha Mundial de Mulheres, ligadas ao PT, estiveram presentes mas não tinham sequer um candidato que pudesse falar em defesa do aborto no ato, justamente porque o PT se cala sobre esse assunto. O mesmo podemos dizer do PSOL, que não levou nenhum candidato ao ato para prestar solidariedade à luta das mulheres. Já o PSTU, apesar de comparecer com duas candidatas (Ana Luiza, candidata à deputada federal, e Arielli, candidata à deputada estadual), não deu nenhum peso do partido para o ato, comparecendo com pouco mais de uma dezena de militantes.

O grupo de mulheres Pão e Rosas esteve presente com um bloco organizado muito expressivo para lembrar a morte de Jandira e Elisângela, duas jovens que morreram recentemente vítimas de aborto clandestino no Rio de Janeiro. Jandira desapareceu após entrar num carro que a levaria para a clínica clandestina e depois seu corpo foi encontrado mutilado e carbonizado. Elisângela morreu num hospital após um aborto clandestino mal sucedido que perfurou seu útero. O bloco do grupo de mulheres Pão e Rosas em SP carregava faixas, cartazes e seus integrantes vestiam camisetas que exigiam Justiça para Jandira e Elisângela e cantavam “Jandira, não vai passar! O aborto vamos legalizar!” e “Todas as Jandiras nós vamos vingar com a luta operária e popular!”.



























O Pão e Rosas esteve presente também, junto à secretaria de mulheres do SINTUSP (Sindicato de Trabalhadores da Universidade de São Paulo), que acabam de sair de uma greve exemplar e vitoriosa, para exigir saúde pública de qualidade e que as mulheres tenham direito ao aborto seguro e gratuito, garantido pelo SUS 100% estatal. Babi, trabalhadora do Hospital Universitário da USP e do Pão e Rosas, lembrou que a greve de trabalhadores lutou em defesa do HU, contra sua desvinculação da universidade, que abre caminho para a privatização do hospital e também recordou que existem mais de 800 mulheres na fila do “Papanicolau” no HU por falta de enfermeiras que possam realizar um exame tão simples. As mulheres do Pão e Rosas cantavam “Saúde de qualidade já! SUS sob controle operário e pupolar!”. Babi finalizou dizendo: “Parte da nossa luta pelo direito ao aborto legal, seguro e gratuito passa também por defender os hospitais universitários contra o sucateamento e a privatização, para que o aborto seja realizado pelo SUS 100% estatal”.



O Pão e Rosas lembrou também que estamos nos aproximando das eleições e que existem duas mulheres entre os três principais candidatos à presidência do país. Marília, demitida política do Metrô de São Paulo e do Pão e Rosas, lembrou que tanto Dilma quanto Marina negam às mulheres o direito elementar a decidir sobre os seus corpos e suas vidas. “Aécio, Marina, não sou da sua laia! Fora já com a Dilma e leva junto o Malafaya!” e “Não somos uma no poder, somos milhares pelas ruas lutando por nossos direitos, com as mulheres da USP como exemplo!” eram dois dos gritos que mais se ouviam das mulheres do Pão e Rosas. Marília finalizou fazendo um chamado: “Quero dialogar em especial com as companheiras da Marcha Mundial de Mulheres, pois estamos a muitos anos lutando juntas pela legalização do aborto mas as companheiras insistem em depositar confiança no governo de Dilma e do PT, que já mostrou em mais de 12 anos de governo que não vai nos dar esse direito elementar. Nós vamos arrancar nosso direito através da organização das mulheres nas ruas!”.

Veja as intervenções:



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sábado, 20 de setembro de 2014

Quantas Jandiras mais?! Direito ao aborto legal seguro e gratuito já!

Declaração do grupo de mulheres Pão e Rosas frente ao dia 28 de setembro - dia latino americano e caribenho pela legalização do aborto



Quatro anos se passam e assistimos ao mesmo filme: disputa eleitoral e barganha dos direitos das mulheres. Duas entre os três principais candidatos são mulheres e todos estão a serviço dos empresários, banqueiros e latifundiários, aliados à conservadores e religiosos.

No último ano do mandato de Dilma Rousseff, a primeira presidente mulher do Brasil, vemos que a atual candidata a reeleição cumpriu bem sua promessa ao “povo de deus”, feita em 2010: nenhuma palavra do seu governo sobre a situação do aborto no Brasil. Mais que isso, os últimos quatro anos (assim como os 8 anteriores, em meio aos quais se firmou o acordo Brasil-Vaticano) serviram para aquecer cada vez mais a relação entre o governo PT e os setores religiosos no parlamento, coroando um Marco Feliciano a frente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias. Para não perder toda a conquista na relação com religiosos e conservadores, em 2014, Dilma segue negando qualquer avanço na legislação atual com relação ao aborto. Em estudo feito em 2013, tramitavam no Congresso 34 proposições relacionadas ao tema do aborto, sendo que 31 propunham retrocessos na atual legislação, sendo alguns propostos por políticos da base aliada do PT.

Já Aécio Neves (PSDB) mantém firme o programa contrário à legalização do aborto, e Marina Silva (PSB) declara aos quatro ventos que “pessoalmente é contra”, mas “esse debate precisa ser feito com muito cuidado e responsabilidade; ele envolve questões filosóficas, éticas, morais e espirituais”, reafirmando que deve ser sucedido por um plebiscito, colocando a decisão sobre a vida e o corpo das mulheres brasileiras nas mãos de todo eleitorado brasileiro, que se pautará apenas pelas suas convicções pessoais e que possui composição cerca de 48% masculina.

Estima-se que, em 2013, 850 mil mulheres recorreram ao aborto clandestino no Brasil – cerca de 2330 por dia - sendo que o SUS realizou cerca de 243 mil curetagens, aproximadamente o mesmo número de internações por doenças como câncer. Além disso, o aborto é a quinta causa de mortalidade materna. Jandira Magdalena dos Santos, 27 anos e dois filhos, foi uma dessas 2330 mulheres no dia 27 de agosto, no Rio de Janeiro, quando saiu de casa para realizar um aborto clandestino em uma clínica e nunca mais voltou. Onde está Jandira?

Assim como a maioria dessas mulheres, Jandira tomou a decisão de interromper a gravidez por medo de perder o emprego, além da dificuldade de já ser mãe de dois filhos. Para além de ser um elemento democrático de poder decidir pela própria vida, a legalização do aborto deve ser encarada como uma questão de saúde pública – e não como uma questão de “moral religiosa e espiritual”, como diz a candidata Marina Silva. Milhares de mulheres, trabalhadoras, solteiras, casadas, religiosas, a maioria negras, morrem todos os anos devido às consequências de um aborto mal feito. Morrem pela falta de opção para poder decidir se querem ou não ser mãe, pois não podem interromper a gravidez, mas também não possuem condições materiais para a maternidade.

Vivemos em uma sociedade que nos obriga a sermos mães, mas não cria condições para isso. Além de garantir o direito ao aborto, o Estado deve também garantir que todas as mulheres que desejam ser mães possam ser com dignidade. Para isso, é necessária a garantia de um acompanhamento pré-natal e parto de qualidade, garantidos pelo SUS, e também garantia de estabilidade no emprego. Mas mais que isso, é preciso que haja creches, lavanderias e restaurantes públicos, que façam com que a maternidade deixe de ser um fardo a ser carregado pelas mulheres trabalhadoras, que enfrentam as duplas e triplas jornadas de trabalho: a funcionária, a dona de casa e a mãe.

E em meio a esse escandaloso caso de Jandira - que envolve um ex-policial e uma técnica de enfermagem, donos da suposta “clínica” - que traz à tona a realidade de milhares de mulheres, as duas presidenciáveis mulheres Dilma Rousseff e Marina Silva dão as costas a esse banho de sangue e sapateiam em cima do estado laico para abrir os braços aos milhares de votos dos religiosos, duramente disputados pelas duas candidatas, que seguem em sua corrida maluca para ver quem consegue rifar mais direitos das minorias para ganhar mais votos dos conservadores.

A Marcha Mundial de Mulheres (MMM), que apoia o governo Dilma, nas eleições de 2010 justificou que o recuo da candidata era uma questão “tática” diante do rótulo de “abortista”, pela direita.  Agora, a MMM diz que o problema para não garantir o exercício do Estado laico é a falta de uma reforma política, necessária também para diminuir a representatividade da bancada religiosa no parlamento. Só não dizem que Dilma se mantém aliada da Igreja católica, como se mostrou no debate da CNBB, e dos setores evangélicos para governar e se reeleger, mantendo seu acordo de não mexer em uma vírgula da legislação existe, que permite o aborto apenas em casos de estupro, risco de morte para as mulheres e de fetos anecéfalos. Sem dizer que pelos cálculos e projeções dos pastores, a bancada evangélica aumentará cerca de 30%, justamente porque conta com aliança eleitoral com Dilma e o PT.

Integramos o Movimento Mulheres em Luta (MML) e achamos positivo que o candidato à presidência Zé Maria do PSTU defenda a legalização do aborto em sua campanha, mas é fundamental que esta campanha tome corpo e seja orgânica nos locais de trabalho e estudos e não apenas para os dias como o 8 de março e 28 de setembro, ou fique apenas nas resoluções de Encontros como é feito pela esquerda. No I Encontro Nacional do MML em 2013, defendemos como campanha prioritária a legalização do aborto, além da campanha contra a violência às mulheres, pois dizíamos que nas eleições mais uma vez este direito elementar na vida das mulheres seria relegado. Também defendemos no Seminário do MML em agosto deste ano que esta campanha fosse tomada como plano de ação efetivo pelo MML.

Para nós é fundamental a frente única por este direito tão elementar na vida das mulheres, e achamos fundamental que as mulheres trabalhadoras estejam na linha de frente para arrancarmos este direito para todas as mulheres.

Não podemos permitir que as campanhas eleitorais sejam escritas com o sangue de milhares de mulheres! Nem que nossas vidas e nossos corpos, nosso direito de escolha sejam pautados pelos setores mais reacionários e retrógrados, pelas Igrejas e seus candidatos aliados! O desaparecimento de Jandira é responsabilidade do Estado e do Congresso Nacional, que a colocaram nessa situação de risco por ter que recorrer à clandestinidade!

As demandas das mulheres devem ser arrancadas pelas mãos das milhares de mulheres vítimas da clandestinidade do aborto, das mulheres trabalhadoras que desejam ser mães e não possuem condições! O direito ao aborto deve ser uma demanda de toda classe trabalhadora para a segurança de todas as mulheres, e por isso deve ser feito com qualidade, gratuito e garantido pelo SUS. Mas as Jornadas de Junho do ano passado nos gritaram mais uma vez o descaso em que se encontra a saúde pública, que é abandonada pelos governos em prol de garantir o lucro de banqueiros e empresários. Os trabalhadores da USP protagonizaram uma greve histórica de quase 4 meses e desde o começo lutaram por uma educação e saúde públicas de qualidade, denunciando a falta de enfermeiras no Hospital Universitário e a consequente fila de 850 mulheres para fazer o Papanicolau, exame fundamental na prevenção contra o câncer de colo de útero. Transformaram a defesa do HU em uma causa popular, buscando se ligar à população contra sua privatização e por uma saúde pública de qualidade, que vem sendo cada vez mais atacada pelo governo Alckmin (PSDB), candidato de Aécio à reeleição para o governo de SP. Por isso também nos somamos à luta contra a desvinculação do HU!

Um SUS de qualidade, que garanta o direito ao aborto e o direito à maternidade só será possível se este sistema for totalmente público, gerido e controlado pelos trabalhadores da saúde e seus usuários. Pelo acesso irrestrito à contraceptivos gratuitos e de qualidade e educação sexual nas escolas!


Basta de mulheres mortas por abortos clandestinos! Aparição de Jandira Já!

Educação sexual nas escolas para decidir, anticoncepcionais gratuitos e de qualidade para não abortar, direito ao aborto legal seguro e gratuito para não morrer!

Pelo direito ao aborto legal, seguro, gratuito e garantido pelo SUS! Por um SUS 100% público, controlado pelos trabalhadores e usuários!

Pelo direito à maternidade! Por creches, restaurantes e lavanderias públicos!

Pelo fim do acordo Brasil-Vaticano! Por um estado laico de fato!

quinta-feira, 5 de junho de 2014

DOSSIÊ: PECADOS & CAPITAIS

Por Andrea D’Atri, especialista em Estudos da Mulher, fundadora do Pan y Rosas da Argentina e dirigente do PTS, Partido de los Trabajadores Socialistas.

Tradução de Ana Carolina Fulfaro e Flávia Ferreira
Texto publicado pela Revista Ideas de Izquierda, edição n.7, março de 2014. 
Versão em espanhol: http://ideasdeizquierda.org/pecadoscapitales/#more-1258


A hipersexualização das imagens publicitárias, os programas de televisão e as revistas; a inclusão de personagens gays, lésbicas ou trans em novelas e filmes e, de outro lado, a extensão do matrimônio igualitário em diversos países e o desenvolvimento de espaços gayfriendlys nas grandes metrópoles, poderiam nos fazer acreditar que a sociedade contemporânea alcançou os ideais de “liberdade sexual” reivindicados nos anos 60.
Nessa década, uma profunda “revolução sexual” acompanhou a onda de radicalização social, política e ideológica, desafiando as tradições de uma moral conservadora. Durante e depois da Segunda Guerra Mundial – especialmente nos países centrais e nas zonas urbanas -, a maior tecnificação do trabalho doméstico, que reduziu o tempo necessário para sua realização, foi pré-condição para a incorporação massiva das mulheres nas universidades e no mercado de trabalho. Mais tarde, junto com a massificação do uso de contraceptivos, essas condições propiciaram a retardação da idade para o casamento e, consequentemente, favoreceram o aumento das relações sexuais “pré-matrimoniais”, a tendência à diminuição da taxa de natalidade e a postergação da maternidade até idades mais avançadas. A geração que cresceu sob essas condições sociais, econômicas e políticas, deu origem a segunda onda do feminismo e ao movimento de reivindicações da população não heterossexual, pondo em cheque as normas que regem o comportamento sexual e as relações sexo-afetivas.
Contudo, a liberdade sexual conquistada durante aqueles radicalizados anos se reconfigurou nas décadas seguintes com a força de derrotas sociais, políticas e culturais, como liberdade de mercado: a voracidade capitalista mercantilizou, em uma escala sem precedentes, tudo aquilo que a moral burguesa havia construído como “vida privada” e que os movimentos sociais tinham se esforçado para demonstrar que eram construções sócio históricas, dispositivos biopolíticos, lógicas culturais no marco das sociedades de classe. A identidade sexual, o desejo e a fantasia se transformaram, então, em objetos de lucro, a níveis industriais1.

A mercantilização da sexualidade

Com a liberação das fronteiras para o fluxo de capitais e o colapso das economias dos países semicoloniais, aumentou enormemente, não somente o deslocamento das massas trabalhadoras, mas também, os “exilados” econômicos e o tráfico de pessoas. Como parte deste fenômeno global, expandiu-se em escala mundial o tráfico de mulheres para a exploração sexual, reduzindo a prostituição individual e voluntária praticamente a um conceito meramente acadêmico2.
Além disso, a indústria pornográfica - sob as condições criadas pelo desenvolvimento das novas tecnologias, a revolução das comunicações e internet – alcançou números astronômicos: se em 1975, nos EUA, a pornografia hardcore produziu um valor dentre 5 e 10 milhões de dólares, as estimativas atuais rondam entre os 10 mil e 13 bilhões, dos quais, pouco menos da metade seriam investimentos legais3. Em poucos anos, a pornografia abandonou a marginalidade quase criminosa para se transformar em uma indústria próspera. Isso propiciou, por sua vez, a sindicalização e o controle sanitário de seus trabalhadores e trabalhadoras, a fama de produtoras, cineastas, atores e atrizes que adquiriram renome no mercado e o desenvolvimento de inúmeros subgêneros para satisfazer as mais variadas e ocultas fantasias. Mas no limite da regulamentação e massificação deste próspero negócio, surgiram não somente subgêneros críticos do modo heterossexista e misógino que se representa habitualmente nesses filmes – como a pornografia feminista, a pornografia gay, lésbica, etc. – mas também, a produção e comercialização clandestina de filmes nos quais as mulheres são submetidas sem seu consentimento, como também, outras em que se registram torturas, estupros e assassinatos reais para o “entretenimento dos consumidores4.
E assim como os corpos e as fantasias tornaram-se mercadorias valiosas para a sede de ganho da indústria do sexo, o mesmo aconteceu com a sexualidade heteronomativa do casal monogâmico. Uma série de normas e prescrições – exigências impossíveis de cumprir no acelerado e competitivo mundo do trabalho flexibilizado e de turnos rotativos – se impõem através de revistas, programas de televisão e especialistas do sexo. Misturados com explicações supérfluas de pretensões pseudocientíficas, como “A ejaculação precoce, um problema dos dois” ou “A química do amor: como é o mapa de um cérebro apaixonado”, as mídias nos oferecem os títulos que instruem as mulheres ao amor romântico e ao casamento, ainda que “modernizados” em relação a esta hiperssexualização da cultura e gerando novos nichos de mercado: desde os inofensivos “No escritório: como encarar uma relação?”, até os mais ousados que propõem “Ponto G: como aumentar o tamanho e a sensibilidade” ou “Sexo express: os 9 melhores lugares para uma ‘rapidinha’”5. Artigos como os mencionados podem ser encontrados nas revistas de domingo dos periódicos mais prudentes, que nos aconselham a ter um melhor, maior, saudável (e “correto”, quer dizer, heterossexual e monogâmico) desempenho sexual.
Tudo se vende, tudo se compra. Desde uma mulher, até o joguinho sexual que as boas esposas adquirem numa reunião de amigas; desde as fantasias mostradas em imagens cinematográficas, até os medicamentos para tratar a disfunção erétil, que é vendido sob prescrição médica. O que fazia parte desse complexo fenômeno chamado de “vida privada” foi exposto na vitrine.

A impotência sexual e o consumo

À medida que o sexo se transforma literalmente em “moeda corrente”, são aproveitados, ao mesmo tempo, pelo capitalismo, o disciplinamento dos corpos e desejo sexual. Enquanto aumenta a mercantilização da sexualidade, paradoxalmente, a impotência sexual tem se transformado em um dos motivos mais frequentes de consulta médica e psicanalítica6.
Sob os ritmos do trabalho flexibilizado e precário em que milhões de seres humanos foram mergulhados, toda a vida ficou submetida ao contrato temporário: a aceleração do ritmo dos processos econômicos acelerou também os ritmos da vida social. As técnicas de produção e os processos laborais se transformaram em voláteis, transitórios e acelerados; tudo é instantâneo e descartável: desde as mercadorias até os estilos de vida e as relações. Reproduzimos uma longa citação do sociólogo Zygmund Bauman que representa o que foi assinalado: “Na ausência de uma segurança a longo prazo, a ‘gratificação instantânea’ é uma estratégia razoavelmente aceitável. (...). A postergação da gratificação perdeu seu encanto. (...). As precárias condições sociais e econômicas formam homens e mulheres (ou os obrigam a aprender por mal) para perceber o mundo como um recipiente cheio de objetos descartáveis, objetos para usar e jogar; o mundo de conjunto, incluindo os seres humanos. (...). É assim que a política deliberada da ‘precarização’ levada adiante pelos operadores do mercado de trabalho se vê auxiliada e instigada (e em seus efeitos é reforçada) pelas políticas da vida, sejam estas adotadas deliberadamente ou na falta de outras opções. Ambas produzem o mesmo resultado: a decomposição e a restrição dos vínculos humanos, das comunidades e das relações”7.
Então, acabamos em uma armadilha: nesse fluxo incessante, onde a tecnologia possibilita uma hiperconexão global, que garante a comunicação sem obstáculo geográfico nem temporal, a solidão tem se tornado um dos “maus” da época. E o individualismo conduz a relações efêmeras, superficiais e utilitárias, porque justamente o que se busca no outro, não é o outro, mas alguém que remedeie o mal estar, o “vazio interior” que conduz os vertiginosos ritmos da vida contemporânea8. Daí que alguns especialistas falam da “sobrevalorização” (e poderíamos adicionar, idealização) que adquire, novamente, a vida de casal, como uma segurança utópica contra a solidão a que nos confina a agitação de uma vida precária e completamente flexibilizada.
A privatização dos serviços públicos e a “desprivatização” da vida íntima foram acompanhadas de uma política de ampliação da cidadania que conferiu maiores poderes ao Estado sobre nossos corpos, nossas relações sexo-afetivas e nossas práticas eróticas: a política de direitos, o mesmo movimento que inclui proporções mais amplas da população – aqui se tem outra discussão: a estimativa concreta do alcance desta amplitude -, as integra sob as normas que são pré condição necessária para a exclusão de novos setores. Por isso, a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo tem gerado um importante debate teórico-político, em que as críticas não somente provém dos grupos mais reacionários da sociedade, as igrejas e os partidos conservadores, mas também de setores da comunidade LGBT que questionam os valores de exclusividade, monogamia, estabilidade, convivência, etc. que regem o casamento.
É o paradoxo que atravessa todos os movimentos sociais logo após os anos 70: a inclusão de direitos democráticos elementares nos códigos de leis do Estado capitalista, que implica, como contrapartida, estabelecer a punição com que o Estado e suas instituições vão direcionar a quem desrespeite esse direito9. “Existe pouco investimento no que pode transformar a pobreza, a dependência e precariedade da vida das mulheres, mas existem numerosas leis penais para proteger as mulheres”, destaca Larrauri10.
As consequências da opressão e a existência de classes sociais não podem ser abolidas através da lei. Os novos membros que queiram se juntar ao clube não podem escapar do exame médico. Irão ingressar ao mundo de direitos, se ajustando as regras estabelecidas para seu exercício. A milhões de seres humanos, o novo cartão de cidadania apenas permite que se sintam membros do clube, ainda que continue sendo interditado o uso de suas instalações.


DAS FEMINIST SEX WAR À PORNOGRAFIA FEMINISTA

Nos anos 70, o nicho do mercado pornográfico explodiu no ceio da “revolução sexual”: expandiu-se os cinemas onde eram projetados somente filmes pornográficos, a pornografia foi legalizada em vários países, etc. Rapidamente, o desenvolvimento das filmadoras domésticas permitiu que a indústria tivesse um crescimento exponencial, não somente devido ao baixo custo de produção que a nova tecnologia possibilitou, mas também porque o consumo se deslocou das salas de cinema aos domicílios particulares, com todos os benefícios de opções que isso preparava. Isto gerou o que ficou conhecido como Feminist Sex War (Guerra dos sexos feminista), um intenso debate ocorrido, principalmente nos Estados Unidos sobre qual deveria ser a posição do feminismo em torno da pornografia, que dividiu o movimento entre quem lutava pela proibição e quem a defendia, argumentando com o direito à liberdade de expressão.

A experiência sexual entre uma pessoa e uma coisa

Assim define a pornografia, a jurista feminista norte-americana Catharine MacKinnon11. Junto com Andrea Dworkin, no debate dos anos 70, argumentaram que a pornografia é constituinte da subjetividade masculina: através dela, os homens aprendem a reproduzir a situação social de subordinação das mulheres. Questionaram, ainda, que nesses filmes, as mulheres foram estigmatizadas como objetos, ao mesmo tempo em que foram excluídas da produção e até de seu consumo.
“Na sociedade industrial contemporânea, a pornografia é uma indústria que produz em massa, por dinheiro, invasão, acesso, possessão e uso sexual por e para os homens (...). É um tráfico de mulheres sofisticado tecnologicamente (...). Nesta perspectiva, a pornografia, com a violação e a prostituição em que participa, institucionaliza a sexualidade da supremacia masculina, que funde a erotização do domínio e a submissão com a interpretação social do masculino e do feminino. O gênero é sexual. A pornografia constitui o significado dessa sexualidade. Os homens tratam as mulheres segundo o que veem que são as mulheres. A pornografia constitui quem são”, observa MacKinnon12. A pornografia teria um potencial constitutivo: não somente se trata da reprodução de imagens degradantes das mulheres, mas também da construção da mulher “como uma coisa a serviço sexual dos homens”13.
Mas assim como os filmes do “super-soldado” Rambo não são a causa do incremento do gasto militar no governo Reagan, mas sim, a forma de propaganda com que tenta legitimar essa política – isso era necessário também, para reparar o olhar das massas ao exército norte-americano derrotado no Vietnã -, os filmes pornográficos reproduzem – no âmbito exclusivo do sexo nas relações heterossexuais – a milenar subordinação social das mulheres que as democracias capitalistas não se mostraram capazes de eliminar desde a raiz.

A ilusão liberal de liberdade

Quem defendeu a legalidade da pornografia, se baseou na Primeira Emenda da Constitucional dos Estados Unidos que se refere a liberdade de expressão. De acordo com a interpretação predominante, garantir a diversidade de expressão na democracia impediria a imposição de apenas algumas ideias, ou ideias apenas de determinado grupo social; assegurando a possibilidade de opiniões divergentes das ideias hegemônicas, seria possível aos cidadãos escolher e tomar decisões menos coagidas.
As respostas de MacKinnon atingiram dois aspectos cruciais e controversos. Por um lado, sustentando que a Primeira Emenda busca proteger as expressões heterodoxas ao discurso hegemônico, mas que a pornografia “é” o discurso dominante no que se refere às relações entre os gêneros, que a pornografia tem o poder de dizer as mulheres quem elas são e o poder de tratá-las de acordo com essa definição. Mas mais centralmente, afirma que a pornografia não é expressão, opinião ou discurso, mas sim, é nitidamente violência sexual contra as mulheres. Por isso, não cabe à Primeira Emenda, mas à XIV, que exige dos Estados a proteção igualitária de todas as pessoas perante a lei.
Recentemente, outra voz se levantou nesse debate. Dentro do ativismo queer, algumas mulheres que exercem ou exerceram a prostituição e a pornografia defenderam sua atividade como escolha, sustentando ainda que se trata de opções isentas de coerção: “corpo da mulher, direito da mulher”. No entanto, a posição das feministas autodenominadas “pró-sexo”, não se limita somente à defesa da liberdade individual, mas defende também os benefícios que a pornografia proporcionaria às mulheres, oferecendo uma vasta visão das possibilidades sexuais, lhes permitindo experimentar sexualmente sem os riscos “da rua”, etc.14. As pró-sexo deram origem ao que se conhece atualmente como o “pós-pornô”, onde a representação heteronormativa da sexualidade, hegemônica na indústria pornográfica, é criticada e combatida mediante a produção de outras representações heterodoxas das fantasias, dos corpos e das sexualidades. No entanto, a partir de um ângulo oposto ao de Catharine MacKinnon, o pós-pornô também parece atribuir à história das sexualidades, uma capacidade constituinte formidável.
Os estereótipos são sedimentos históricos de relações sociais estabelecidas com base na primária divisão sexual do trabalho, o surgimento da propriedade privada e a consequente necessidade de controlar a sexualidade das mulheres (quer dizer, assegurar para o proprietário a capacidade reprodutiva das mulheres que garantiria a sua linhagem). A ideia de que a fantasia sexual, o desejo, a identidade ou orientação sexual e a própria prática sexual, por si só tenham o poder de contestar a milenar relação sexual de opressão masculina heterossexista sobre as mulheres e pessoas não-heterossexuais, se mostra exageradamente pretensiosa. Valorizamos seu espírito inconformado contra tanto puritanismo imposto não só pela direita conservadora, mas também pela política dos direitos que reconhece, prega e exige um maior controle do Estado de classe e patriarcal sobre nossos corpos. Mas a humanidade que está sujeita a disciplina (também sexual) imposta pela exploração do trabalho e a família baseada no casal heterossexual monogâmico para garantir a reprodução da força de trabalho – justificadas e legitimadas pelos discursos religiosos reproduzidos nos meios de comunicação, etc. – não pode alcançar uma verdadeira libertação sexual através do exercício individual de performances sexuais diversas.
Como marxistas, hasteamos as bandeiras democráticas que nenhuma democracia do mundo pode içar até o topo do mastro: somos contrários a toda proibição, limitação ou interferência do Estado e outras instituições contra a pornografia.
Mas não somos espectadores neutros na batalha cultural que se trava não apenas na indústria pornográfica, mas também nos meios de comunicação, acerca das representações das mulheres, da relação entre os gêneros, da sexualidade, etc. Enfrentamos o machismo e o heterossexismo, revelamos sua origem no fundamento da sociedade de classes, denunciamos a apropriação que o capitalismo contemporâneo tem feito dessas velhas relações de subordinação e opressão para fortalecer seu poder na exploração de milhões de seres humanos. Estamos abertamente na luta de classes contra as redes de tráfico e todas as formas de violência contra as mulheres. E, acima de tudo, lutamos por uma sociedade de produtores livres, onde a sexualidade humana se expanda em suas infinitas possibilidades, não só em vínculos sexo-afetivos, mas também nas mais diversas formas de relacionamento entre as pessoas, a arte e a cultura de massas – incluindo a pornografia -, liberada das coações físicas, econômicas, sociais e culturais que hoje a restringem.

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DO ANTIGO LENOCÍNIO15 À ORGANIZAÇÃO SINDICAL CONTEMPORÂNEA

Apesar de ser considerado o “ofício mais antigo do mundo”, as características atuais da prostituição diferem enormemente do lenocínio religioso exercido na civilização Suméria ou o que praticava as hetairas gregas16. Contra toda a mistificação social da prostituição, Engels já a denunciava como uma instituição social que “mantém a antiga liberdade sexual... em proveito dos homens”. Em seguida, acrescenta que ainda que a prostituição seja reprovada socialmente, a reprovação “nunca se dirige aos homens que a praticam, mas somente às mulheres; que são desprezadas e rechaçadas, o que afirma mais uma vez como lei fundamental da sociedade, a supremacia absoluta do homem sobre o sexo feminino”17. Para Engels, a prostituição surge em contrapartida à aparição da família baseada no matrimônio monogâmico. “Tudo o que a civilização produz é também duplo, ambíguo, equívoco, contraditório; por um lado, a monogamia, e por outro, o heterismo18, incluindo a sua forma extrema, a prostituição”19.
Essas mesmas características se mantém por de milhares de anos. Contudo, considerar a prostituição como uma instituição igual a si mesma, nas distintas sociedades, impede que vejamos quais são os vínculos imbricados que mantidos com o capitalismo – modo de produção que alterou drasticamente as relações sexo afetivas, o matrimônio, a família, etc. – e que lhe confere novas configurações, além de abrir novas questões e debates teóricos e políticos.

Revolução industrial e moral vitoriana

Foi somente no início do capitalismo e, mais precisamente, no período de máximo desenvolvimento da “revolução industrial”, que a prostituição adquiriu as características modernas. Em meados do século XIX na Grã Bretanha, pela primeira vez na história a população urbana era maior que a rural. A superpopulação de pobres em Londres dava lugar a novos fenômenos e formas de vida: enquanto a rainha Vitória ordenava alargar as toalhas para que os pés das mesas não fizessem os homens lembrarem das pernas femininas, nos bairros do Leste os bordéis se multiplicavam e as mulheres eram prostituídas nas ruas da próspera metrópole20.
Analistas de diferentes ideologias concordam que, durante essa época, a pobreza é uma das causas mais importantes que empurram as mulheres para a prostituição. Mas, como esclarece Bebel, “alguns dos que se ocupam dessa questão começam a perceber que a triste situação social sob a qual sofrem várias mulheres poderia ser a principal causa de tantas delas venderem seus corpos; mas este pensamento não avança até a conclusão de que, portanto, é necessário criar outras condições sociais”21.

Neoliberalismo e indústria do sexo

As mais recentes décadas de restauração capitalista deram uma dimensão incomum à prostituição. Para Sheila Jeffreys, a convergência da tolerância da “liberdade sexual” e a ideologia do livre mercado, fizeram a prostituição ser reconstruída “como ‘trabalho’ legítimo que funciona como base da indústria do sexo, tanto a nível nacional quanto internacional”22. O objetivo de sua investigação – com dados e denúncias de distintos lugares do mundo – é demonstrar que a prática da prostituição se transformou em um dos negócios – legal e ilegal – mais rentáveis no mundo. Além disso, tenta argumentar que a prostituição forçada de mulheres e meninas sequestradas por redes de tráfico é a base de uma indústria mais ampla que abarca desde os clubes de strip-tease, o turismo sexual, a pornografia, até o “fornecimento” de mulheres para as bases militares ou “matrimônios” combinados mediante contratos de compra e venda.
Além de suas próprias avaliações a respeito, são muitos os estudos que sustentam suas conclusões sobre o aumento sem precedentes do “negócio capitalista” que se tornou a prostituição e a ligação com as redes de tráfico de pessoas junto a indústria pornográfica, o turismo sexual, etc. Vejamos alguns dados significativos: segundo Fondation Scelles, mais de 40 milhões de pessoas são prostituídas no mundo inteiro; a ONU estima que o número de vítimas de tráfico, a nível mundial, é de 2 milhões e meio de pessoas, dos quais 85% são destinados à exploração sexual.
Os destinos turísticos da prostituição – que foram promovidos nos anos 80 e 90 – foram, em princípio, aqueles países vizinhos aos conflitos bélicos aonde descansavam as tropas norte-americanas durante as guerras da Coréia e Vietnã (como Filipinas e Tailândia). A retirada das tropas deixou uma “capacidade ociosa” em termos de indústria do sexo: milhares de mulheres que serviram sexualmente aos soldados estrangeiros, bordéis, bares de strip-tease e outros negócios que precisavam de novos clientes. O turismo sexual ocupou o lugar dos fuzileiros navais norte-americanos. Os cafetões do sudeste asiático encontraram a possibilidade não somente de comercializar as mulheres, mas também de vender o estereótipo da fêmea submissa. Jeffreys atribui ao fato de que “permite aos homens de países em que as mulheres estão avançando até a igualdade (...) comprar a subordinação da mulher de outros países, graças ao seu maior poder aquisitivo”23.

Tráfico de mulheres e trabalho sexual: abolição ou regulamentação?

De acordo com um relatório de 2006 do Escritório das Nações Unidas contra a Droga e o Delito, 87% das vítimas de tráfico foram destinadas a exploração sexual. Algumas feministas denunciam que o tráfico está se tornando o principal modo de abastecimento para a indústria mundial do sexo, fornecendo mulheres forçadas a “trabalhar por dívidas” na prostituição de rua ou em prostíbulos, em clubes de strippers, na pornografia, etc.
Mas enquanto isso acontece – transformando o grupo de mulheres que se prostituem sem ser exploradas por um cafetão, em algo cada vez mais minoritário -, a Organização Internacional do Trabalho, grandes organizações internacionais pelos direitos civis e distintos Estados, impulsionam a sindicalização das mulheres em situação de prostituição. No feminismo, a brutal contradição entre a proliferação das redes de tráfico, o crescente número de mulheres desaparecidas e/ou sequestradas e, por outro lado, a forte pressão internacional pela legalização da prostituição, acendeu novamente o silenciado debate entre abolicionistas e regulacionistas do século XIX.
Um extenso debate – impossível de abordar neste espaço -, em que o regulacionismo propõe que o Estado legalize a prostituição e, portanto, que se regulamente a instalação de prostíbulos, as formas de exploração das mulheres, os controles sanitários e, por outro lado, o abolicionismo, que considera a prostituição como uma forma de violência contra as mulheres, combate o proxenetismo e luta por bani-lo. Este debate, atualmente, se expressa como uma tendência que defende a prostituição como trabalho e, portanto, seu enquadramento como qualquer outro ofício, com direito a sindicalização e, por outro lado, uma corrente que considera possível que a sociedade descarte o consumo da prostituição – o que conduziria a sua desaparição -, mediante o fortalecimento do poder punitivo do Estado voltado contra o cliente24.
As regulacionistas defendem que os danos que ocasiona a estigmatização social da prostituição é mais daninho que o que as abolicionistas veem como as pesadas consequências psicológicas de seu exercício. As abolicionistas questionam as regulacionistas sobre a estreita linha que separa o sindicato como uma organização para proteger os direitos das mulheres de uma nova organização proxeneta. Contudo, tanto umas quanto outras colocam no mesmo Estado capitalista que legitima e reproduz a milenar opressão às mulheres, a responsabilidade de regular a vida das prostitutas ou a responsabilidade de castigar os consumidores.
Longe do moralismo, o marxismo reconhece que a prostituição é inseparável da sociedade de classes e, desse modo, é inseparável do capitalismo. Mas reconhecer que somente acabando com todas as formas de exploração e opressão, poderemos acabar com a prostituição, não é razão para não defender os direitos das pessoas que estão nessa situação – dentre as quais, as mulheres são maioria absoluta -, a sua auto-organização, livre da interferência de proxenetas (sejam cafetões ou empresários) e do Estado (seja regulacionista ou punitivo). Combatemos a estigmatização, a perseguição e marginalização social, ao mesmo tempo, em que denunciamos e enfrentamos a repressão policial à prostituição. Denunciamos a cumplicidade das forças repressivas do Estado, seus funcionários políticos, a justiça e empresários poderosos no funcionamento e na impunidade com que operam nas redes de tráfico. Contra a utopia abolicionista, acompanhamos e promovemos a luta de exigir do Estado capitalista e de seus governos a garantia de um trabalho digno, acesso a saúde, a educação, moradia e um salário que atenda às necessidades básicas das pessoas. Mas fazemos isso, tendo em no horizonte, uma sociedade cujas horas para o ócio sejam abundantes e as insatisfações com as necessidades mais básicas sejam uma vaga lembrança da pré-história humana.

1
Já analisamos em números anteriores, quais foram as condições sociais, econômicas e políticas sob as quais ocorreram essas transformações em relação aos movimentos sociais de igualdade de gênero e liberdade sexual. Observamos como, simultaneamente, os movimentos emancipatórios – que se mobilizavam contra o Estado, para denunciá-lo ou exigir dele, e vinculavam sua demanda com uma crítica social e política ao capitalismo – se transformaram em associações civis para lobby, o monitoramento das políticas públicas e a implementação de microprojetos assistencialistas. Ver “A emancipação das mulheres em tempo de crise mundial” de A. D’Atri.
http://nucleopaoerosas.blogspot.com.br/2013/08/a-emancipacao-das-mulheres-em-tempos-de.html


2
As origens do tráfico de mulheres para exploração sexual se remete à Antiguidade, quando em suas expedições de conquista, os exércitos vencedores não somente submetiam os povos vencidos a escravidão, como também “selecionavam” as mulheres mais belas entre as escravizadas para servir como cortesãs aos homens do poder político. Porém, a dimensão global que alcançam as redes de tráfico na atualidade, não tem precedentes. Este fenômeno deu lugar a novos debates entre abolicionistas e regulacionistas da prostituição, incluindo uma nova posição, a “decisionista”. VerDo antigo lenocínio à organização sindical contemporânea”.


3
Segundo dados da Forrester Research. Para a revista Forbes, os investimentos da pornografia em 2001 se estimavam entre 500 e 1800 milhões de dólares em vídeos, milhões por internet e outro tanto por revistas, além de 30 milhões por telefonia, etc.


4
Nos anos 70 se desenvolveu um grande debate no feminismo sobre a posição em relação à pornografia. Atualmente, esse debate tem sido reavivado com o surgimento das correntes pós feministas autodenominadas “pró-sexo”, que se referenciam a teoria queer. Ver “Das feminists sex war à pornografia feminista”.


5
Artigos da seção “Pareja y sexo” do site www.entremujeres.clarin.com.


6
Embora também tenha surgido a reivindicação por contemplar a assexualidade como uma nova orientação sexual, diferenciada da abstinência ou o celibatário.


7
Zygmund Bauman, Modernidad Líquida, México DF, Fondo de Cultura Económica, 2009.


8
De fato, na psicanálise já se fala da passagem da predominância da neurose a extensão das patologias do caráter, especialmente das personalidades narcisistas, caracterizadas pela intolerância extrema ao fracasso ou a crítica.


9
Nos debates jurídicos, se coloca a tendencia, dos anos 80 em diante , em considerar a gravidade social de um problema em função de sua criminalização. Com o desmantelamento do Estado de bem-estar social, os problemas sociais se chocam com o sistema penal.


10
E. Larrauri, “La intervensión penal para resolver un problema social”, em Semiario de Teoria Constitucional y Filosofia Política, mimeo, 2011.


11
C. MacKinnon é uma das juristas mais reconhecidas no âmbito do direito das mulheres. Representou legalmente as mulheres bósnias sobreviventes aos ataques sexuais do exército sérvio durante a guerra dos Balcãs, onde conceituou estupro como genocídio e conseguiu uma decisão histórica que obrigou a indenização das vítimas.


12
C. MacKinnon, Hacia una teoria feminista del Estado, Madrid, Ediciones Cátedra, 1989.


13
Nancy Prada Prada, “¿Qué décimos las feministas sobre la pornografía? Los orígenes de un debate” revista La Manzana de la Discordia Vol 5, Bogotá, 2010.


14
As feministas pró-sexo tem suscitado debates mais agudos, colocando que a pornografia permitiria às mulheres desfrutar daquilo que, na vida, é repudiado, como o estupro. “Porque uma mulher saudável fantasia ser estuprada? (...) Talvez porque seja agradável imaginar um homem particular que está tão incomodado por ela, que deve tomá-la” (...). É melhor para as mulheres se reprimirem?”, se pergunta Wendy McElroy em “A Feminist Defense of Pornography”, Free Inquiry Magazine 4, Vol 17, 2006.


15 Lenocínio é uma prática criminosa que consiste em explorar o comércio carnal alheio, sob qualquer forma ou aspecto, havendo ou não mediação direta ou intuito de lucro (cafetinagem). No Brasil é crime segundo os Artigos 227 a 230 do Código Penal e não se confunde com prostituição. Entende-se por lenocínio um conceito amplo, do qual seriam espécies o crime de favorecimento à prostituição ou à libidinagem. Compõe-se de atividades que entram no conceito clássico de lenocínio, que, compreende toda ação que visa a facilitar ou promover a prostituição de outras pessoas, ou dela tirar proveito..  Proxenetismo (ou “cafetinagem”) é o ato que consiste em obter benefícios econômicos da prostituição de outra pessoa. (Nota da tradução- sugestão)
16
Embora não deixe de ser sugestivo que ainda hoje nos deparemos com mulheres que são sequestradas e exploradas sexualmente, como acontecia com as escravas nos antigos impérios – que eram raptadas e arrancadas de suas terras nativas para ser oferecida ao serviço sexual dos dignitários vencedores.


17
F. Engels. El origen de la familia, la propiedad privada y el Estado, Buenos Aires, Claridad, 1941. 3.


18 O heterismo (antigo sistema de prostituição da Grécia Antiga, espécie de “amor livre” apenas para os homens) é uma instituição social como outra qualquer, e mantém a antiga liberdade sexual... em proveito dos homens. Embora seja, de fato, não apenas tolerado, mas praticado livremente sobretudo pelas classes dominantes, ele é condenado em palavras. E essa reprovação, na realidade, nunca se dirige contra os homens que o praticam e sim, somente, contra as mulheres, que são desprezadas e repudiadas, para que se proclame uma vez mais, como lei fundamental da sociedade, a supremacia absoluta do homem sobre o sexo feminino. Fonte: http://www.ufrgs.br/e-psico/subjetivacao/familia/familia-texto.html Nota da tradução.
19
Idem.


20
Uma pesquisa da época mostra que mais de 90% das mulheres detidas pelo exercício da prostituição na prisão de Millbank eram filhas de operários, enquanto as mães de mais da metade delas, haviam sido domésticas, vendedoras ambulantes ou lavadeiras. Outros estudos mostram de que maneira aumentou o número de mulheres dedicadas a prostituição, ao passo que aumenta a incorporação de mulheres como operárias em distintos ramos industriais e no comércio. Citado por J. Walkowitz em Prostitution and Victorian Society, Cambridge, Cambridge University Press, 1980.


21
A. Bebel, La mujer y el socialismo. La Habana, Editorial de las Ciencias Sociales, 1979.


22
Sheila Jeffreys. La industria de la vagina. La economía política de la comercialización global del sexo. Barcelona, Paidós, 2011.


23
Idem.



24
Uma das campanhas mundiais de mais destaque é a que tem como slogan “Sem clientes não há tráfico”.