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sexta-feira, 14 de novembro de 2014

“Temos um lema “mexeu com um, mexeu com todos”, e ela era nossa companheira”

À poucos dias da Marcha do Orgulho em Buenos Aires, o La Izquierda Diário conversou com Nando, trabalhador de MadyGraf (ex Donnelley), fábrica gráfica ocupada sob controle dos trabalhadores na Zona Norte de Buenos Aires, Argentina. Ele contou como defenderam uma companheira da fábrica, diante da patronal, quando ela decidiu assumir sua identidade de mulher trans que havia escondido para preservar seu emprego.

Publicado originalmente em: http://www.laizquierdadiario.com/Tenemos-el-lema-Si-tocan-a-uno-tocan-a-todos-y-ella-era-nuestra-companera  


Conte-nos como se deu a discussão com a companheira trans na fábrica


Começamos a discutir sobre a discriminação contra os setores gays, LGBT´S. Começamos a discutir que são companheiros e companheiras que podem decidir sobre sua identidade, e também fazer isso dentro da fábrica, dizendo que ninguém podia dizer nada. Assim fomos forjando a consciência dos companheiros para que nossa companheira trans pouco a pouco fosse assumindo sua identidade.

Ela começou a trabalhar com identidade masculina?

Sim, depois pouco a pouco foi se assumindo, viu que não ia ser discriminada, que a patronal não ia demití-la. Quando viu que a organização que havia dentro da fábrica defendia os direitos da comunidade LGBT e todos os que são discriminados por esta sociedade, e com a ajuda de um companheiro gay, ela foi se assumindo. As vezes perguntava se “se podia usar os seios”, e eu dizia a ela “você faz o que quiser, aqui ninguém vai te tocar, vamos manter seu posto de trabalho da forma que você quiser se manifestar”

Como os companheiros de trabalho encararam este processo de mudança?

O processo foi se dando, a princípio não entendiam muito, mas depois foi se naturalizando e se transformou na companheira, parte de todos.

E como atuou a patronal?

A empresa fez alguns comentários discriminatórios mas nunca se atreveram fazer nada com ela porque sabiam que se fizessem algo nós íamos defendê-la. Nós temos o lema “mexeu com um, mexeu com todos” e ela era nossa companheira. Nós, a partir da comissão interna, garantimos que a companheira tivesse seu espaço, seu banheiro e lugar aonde trocar-se. E a empresa teve que cumprir com isso para que ela pudesse estar cômoda.

Discutiu-se o matrimônio igualitário e a Lei de Identidade de Gênero na fábrica?

Sim, se discutiu, alguns estavam contra, outros à favor. O que mais se discutiu foi o tema da adoção, se uma travesti ou um casal de pessoas do mesmo sexo podiam adotar.
Os que estavam contra por preconceitos diziam: “O que vão dizer quando levarem as crianças à escola?”. “Quando vejam que pais são dois homens ou uma travesti?”. Nós lhes dizíamos que não tem nada a ver, que a educação passa mais por uma questão de respeito. Que o fato de que sejam filhos de casais com pessoas do mesmo sexo não significa que os vão maltratar ou algo assim. Que de fato, existem casais heterossexuais onde onde o homem bate na esposa, nos filhos, e por isso não tem nada a ver a identidade sexual com a educação e a crianção dos filhos.

Depois da aprovação de duas leis que mencionamos antes, existe um grande setor da comunidade LGBT que disse que vivemos em um país mais igualitário. Você que vem desta experiência dentro da fábrica, acredita que estas leis mudam profundamente as condições materiais deste setor?

Profundamente não, mas desde já é muito progressivo que existam estas leis. Mas o problema da discriminação, o problema social, é muito mais profundo.

Acredita que a luta da comunidade LGBT tem relação com a luta que vocês estão dando agora?

Sim, caminham juntas, porque acredito que a luta que estamos dando serve como uma experiência para uma nova sociedade. Nós acreditamos que se existe uma nova sociedade, aonde os meios de produção estejam à serviço de toda a população, onde não exista discriminação, a comunidade LGBT vai ter acesso ao trabalho como qualquer um tem. Muitas travestis se prostituem porque não têm trabalho. Por isso, neste sentido, caminham juntas para uma sociedade melhor, porque a luta dos trabalhadores é a luta da comunidade LGBT e vice-versa, a luta dos estudantes é nossa luta, a das mulheres também. Não vejo uma separação, porque para mim somos uma mesma classe que tem que brigar por todas nossas reivindicações, os estudantes, os aposentados, os professores, é uma batalha de todos juntos para construir uma nova sociedade para que todas as pessoas vivam melhor.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Carolina em Donnelley

Por Celeste Murillo
[traduzido do blog http://teseguilospasos.blogspot.com.ar/2014/09/carolina-en-donnelley.html?m=1]


Em 1887, registrou-se a primeira operária gráfica da Argentina. Dois anos depois, nasce Carolina Muzzilli. Aos vinte anos, Carolina já era militante socialista e colaborava com a organização das operárias gráficas de Buenos Aires. Nesse momento, as mulheres tinham os piores postos de trabalho, trabalhavam por serviço feito e à “toque de caixa”, as demitiam quando engravidavam ou quando faltavam quando seus filhos adoeciam. As jornadas eram extensas. Os direitos, pisoteados.

Em 1906 houve uma greve muito importante e as mulheres participaram ativamente. Ganharam: conseguiram o primeiro convênio coletivo. Em 1907, nasceu a Federação Gráfica Bonaerense. Carolina organizou atividades sindicais com as operárias gráficas, montaram uma biblioteca, fizeram reuniões de mulheres. Não se contentaram com o que conseguiam, queriam mais. À partir da Federação ajudaram as lavadeiras a se organizarem e as assessoraram na sede da Federação com a ajuda de Julieta Lanteri (a primeira mulher que votou na América Latina, e que terá sua própria história) e as mulheres socialistas. Nesta sede, as operárias lavadeiras do estabelecimento “La Higiénica” (“A Higiênica”) organizaram a greve de 1912.

Carolina acreditava que as mulheres deveriam lutar pelos seus direitos, mas junto com os companheiros de classe, nos sindicatos. Então propôs uma luta dupla: entre as mulheres lutava para aliá-las aos trabalhadores, e entre os trabalhadores para que abraçassem as causas “femininas”.

Hoje continua ocorrendo coisas parecidas. Muitas mulheres vão trabalhar quando seus filhos e filhas adoecem. Muitas estão precarizadas. As jornadas de trabalho seguem sendo extensas, as vezes se estendem para o final de semana. Muitos direitos seguem pisoteados. Hoje ainda existe a Federação Gráfica Bonaerense. E, isso é o mais importante, têm mulheres e homens que tomaram para si a luta de Carolina. Não se contentam com suas primeiras vitórias, querem mais. Organizaram-se, mas não pararam por aí, seguiram. Ganharam a comissão interna, seguiram. Melhoraram as condições de trabalho, seguiram. Somaram-se às suas companheiras, seguiram. Fizeram uma comissão de mulheres, mas não se contentaram com o que alcançaram, seguiram. A patronal quis deixar-los todos na rua.

Hoje tomaram a fábrica, e produzem sob gestão dos trabalhadores. As mulheres estão junto, não se contentam com o que conquistaram, seguem. E Carolina está em cada uma das mulheres da Comissão de Mulheres, e em seus companheiros de Donnelley.


segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Um novo feminismo operário?

por Andrea D'Atri
(traduzido de http://www.pyr.org.ar/Un-nuevo-feminismo-obrero)

A greve de fome da lendária Domitila Barrios, na Bolívia, junto aos mineiros e ao Comitê de Donas de Casa, é um dos exemplos mais conhecidos. Também existe uma forte tradição de comitês de apoio de mulheres nos Estados Unidos, desde a mítica greve do Pan y Rosas de 1912, aonde se organizaram reuniões de crianças dentro do sindicato, para lhes explicar por que suas mães e seus pais estavam lutando, combatendo assim a propaganda anti operária feita nas escolas e na imprensa. Nesta luta também se destacou uma grande organização de família solidárias, o que permitiu que enviassem as crianças para distintas cidades, enquanto se desenvolvia o conflito, para que fossem cuidadas por outras pessoas, e para que os grevistas tivessem a tranquilidade necessária para prosseguirem em sua luta.

Nos anos 30, o Comitê Auxilar das esposas dos caminhoneiros norte americanos teve uma importância muito relevante: não somente organizou o plantão de telefones na sede do sindicato, um refeitório para centenas de gevistas e um hospital hospital de campanha para os feridos pela repressão, como também foi crucial para que fossem conhecidas as manobras que preparavam os patrões e os políticos contra os trabalhadores, através de uma rede de secretárias que colaboravam anonimamente com a causa operária.

Nos mesmos anos, a Briga Auxiliar de Mulheres – constituída pelas famílias dos operários das automotoras – conseguiu torcer o braço de que ninguém menos que a General Motors.

Os exemplos são muitos. E se prolongam até nossos dias. Estamos vendo nos últimos meses, na Panamericana, as mulheres trabalhadores e as esposas dos operários despedidos da Lear enfrentando a repressão comandada por Sergio Berni. Vemos estas operárias confraternizando com as mulheres de Kraft-Mondelez, com trabalhadores telefônicas e servidoras estatais, com as professores de suas filhas e filhos que também se solidarizam com a tenda montada em frente a multinacional de auto peças.

E agora os meios de comunicação descobrem a existência da Comissão de Mulheres de Donnelley, uma fábrica aonde quase não trabalham mulheres! Mas aonde as companheiras, irmãs e familiares dos operários gráficos, com o apoio da comissão interna da fábrica, se organizam desde muito tempo.

O novo sindicalismo combativo e classista que enfrenta as direções tradicionais burocratizadas do movimento operário, também se distingue destas velhas direções pela importância transcendental que dá à organização das mulheres.

A Comissão de Mulheres de Donnelley se distingue de outras porque, ainda que hoje se unam para conquistar a estatização da fábrica que já funciona sob controle operário, não se organizaram por este motivo. Sua unidade é o resultado de um longo caminho de confraternização entre as família operárias construído em churrascos, jogos de futebol, brincadeiras e campeonatos, festivais para o Dia da Infância e aniversários. E as mesmas celebrações compartilhadas se convertem em cadeias operárias de solidariedade toda vez que alguma família necessita, enfrentando juntas inundações, incêndios, acidentes, problemas de saúde e outras dificuldades da vida operária.

Além de tudo, o que anuncia a chegada e algo novo é que esta Comissão de Mulheres também debate e se organiza para denunciar as redes de tráfico de mulheres, exige a legalização do aborto, que impediria a morte de centenas de jovens mulheres, e enfrenta a violência machista.

O que fizeram em agosto de 2012 é um exemplo entre tantos. Quando os meios de comunicação anunciaram um triplo feminicídio ocorrido em Benavídez, os operários de Donnelley logo advertiram que o criminoso teria sido, tempos atrás, empregado da fábrica. Então a Comissão de Mulheres conjuntamente à Comissão Interna aproveitaram o clime gerado pela notícia e publicaram uma declaração contra a violência machista. Esse panfleto, distribuído em toda fábrica pelos delegados, dizia: “queremos aportar à organização das mulheres, de nossas esposas, das trabalhadoras gráficas e de toda a classe trabalhadora, para lutarmos juntos contra a violência machista”.

Hoje estas mulheres se dirigem a outras empresas gráficas, buscando a solidariedade das trabalhadoras e trabalhadores do grêmio gráfico. Impulsionam um fundo de luta para que suas famílias possam sobreviver à quebra fraudulenta declarada por Donnelley. Mas também se organizam para comparecer em conferências feministas e nos Encontros Nacionais de Mulheres.

Depois de longas décadas de individualismo e “tolerância” liberal que deixaram aos movimentos sociais alguns  poucos direitos costurados e muita fragmentação, despolitização e assimilação, transformando o feminismo em um objeto de consumo cultural para algumas poucas, será a Comissão de Mulheres de Donnelley o gérmen de um novo feminismo operário que ainda está por vir á luz?