Mostrando postagens com marcador Cultura. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Cultura. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Nota da agrupação Pão e Rosas sobre a Carta do EME da USP




Nós, do Grupo de Mulheres Pão e Rosas, soltamos essa nota para expressar nossa posição diante da Carta de Reivindicações redigida a partir do 2o Encontro de Mulheres Estudantes da USP. A carta será entregue à reitoria nesta quarta-feira (17), em um ato.
Assinamos criticamente a Carta, já que apresentamos alguns aportes e divergências em alguns pontos específicos. Reconhecemos a importância que teve o EME como um espaço de organização das mulheres na luta contra o machismo e a violência tão presentes na sociedade e que se reproduzem dentro da universidade. Temos acordo com vários pontos reivindicados pela carta, contudo temos algumas ressalvas.

Acreditamos que a USP têm se tornado um lugar onde a violência tem tido muito espaço. Tendo a noção que a universidade tem se mostrado, ao longo dos anos, cada vez mais fechada à população de fora (que é a população negra, pobre e trabalhadora que financia a universidade), defendemos uma abertura do campus que permita que todas e todos frequentem a USP e façam uso do seu espaço, tornando-o menos deserto, mais movimentado e, portanto, menos perigoso.

A questão do aumento da frota dos circulares, que aparece como uma reivindicação da Carta torna-se fundamental diante de um cenário onde esperar um ônibus sozinha, num ponto escuro, pode resultar num assalto, sequestro ou estupro. Porém, não podemos nos esquecer de que o busp atualmente só atende a uma parcela daquelas que frequentam a universidade: as estudantes, professoras e trabalhadoras efetivas, deixando de lado as trabalhadoras terceirizadas. Estas, que em sua maioria vivem na favela ao lado da USP, a São Remo, muitas vezes fazem o trajeto a pé até seus postos de trabalho no início da manhã, quando a USP se mostra desértica e, assim, bastante perigosa. Defendemos, portanto, que haja maior frota de circulares, mas que esses circulares atendam também às trabalhadoras terceirizadas. Pela efetivação de todas as terceirizadas sem necessidade de concurso público  Queremos de volta os circulares cinzas que não cobravam tarifa, sendo sua retirada um ataque a toda a população que não tem vinculo com a USP, mas que precisa andar pela universidade.
Vemos a importância da criação de um Centro de Referência, mas discordamos do caráter que o Encontro acabou por definir. Como escrito na Carta o Centro teria "envolvimento da comunidade universitária". Acreditamos que com essa formulação, a reivindicação deixa o centro nas mãos da reitoria, com as mulheres apenas como coadjuvantes de um processo no qual acreditamos que elas deviam ser linha de frente. As mulheres é quem deviam comandar esse Centro, que seria reconhecido pela Reitoria, e não o contrário. Isso porque deixar nas mãos da reitoria é iludir-se e pensar que ela levará até o final, de maneira consequente as nossas reivindicações, quando na verdade o que tem se provado é o contrário: Zago e os diretores em discussões sobre os recentes casos da medicina humilharam as mulheres que bravamente se colocaram, escancarado uma reitoria machista, que também é racista e homofóbica. Mesmo porque, vale lembrar que a SAS já possui um setor que seria responsável por ver casos de violência, mas desde 2009 só registrou dois casos no campus. Isso revela a falta de comprometimento da universidade com os casos de machismo que nos ocorrem cotidianamente.

O ponto que diz respeito a responsabilizar a reitoria por uma campanha contra a violência nos parece correto, porém é preciso fazer a ressalva do caráter dessa campanha. Acreditamos que, novamente, não devemos deixar nas mãos da reitoria decidir se e como será a campanha. Em última instância eles podem decidir coisas esdrúxulas, como veicular que "mulheres não devem andar sozinhas com mulheres" ou que "mulheres não devem usar roupas curtas", como já ocorreu em campanhas na UNESP. Por isso defendemos que todos os três setores que compõem a universidade, estudantes, funcionários e professores juntamente com os sindicatos, entidades estudantis e todo o movimento determinemos o conteúdo da campanha e que aí sim a reitoria se responsabilize em divulgar e nos fornecer a verba necessária. Que as mulheres sejam linha de frente numa campanha ampla contra a violência e que o movimento estudantil de conjunto tome como pauta as nossas reivindicações. É preciso ainda exigir que centros acadêmicos de nossos cursos criem uma secretaria de mulheres que, atrelados aos coletivos feministas de cada curso possam organizar-se e apurar casos de machismo não apenas em festas como também em aulas, assembleias e pelos corredores das faculdades.

Por fim, abordamos a questão da reivindicação da guarda feminina. Somos contra o aumento da frota feminina, pois acreditamos que isso cria apenas a ilusão de que com mulheres na segurança o problema da violência será sanado. Conhecemos o que a polícia brasileira faz nas favelas: muitas vezes temos policiais negros matando pobres e negros. Sabemos que a polícia é um aparato do Estado, que cumpre uma função e pouco importa se o policial será negro, mulher ou mesmo lgbt, enquanto estiver na estrutura policial irá cumprir as ordens do Estado. E nesse momento o papel que a guarda universitária vem cumprindo é semelhante ao da polícia, sendo responsável por vigiar quem faz parte do movimento e reprimindo diretamente as mobilizações. Foi a chefe de segurança Ana Lucia Pastori quem coordenou juntamente com a policia militar, a retirada dos piquetes e a repressão policial aos trabalhadores durante a greve. A guarda universitária atualmente está a serviço das ordens do reitor e não é colocando mulheres dentro desse aparato que conseguiremos sanar o problema da violência. Tampouco isolando a USP do resto da sociedade. É preciso abrir o campus, para que toda a população frequente a universidade!

Chamamos todos os estudantes, professores e funcionários juntamente com o apoio dos centros acadêmicos, DCE, SINTUSP e ADUSP a se mobilizarem numa grande campanha contra a violência dentro do campus. Tomando como exemplo os trabalhadores da USP, que se posicionaram contra os estupros ocorridos na Faculdade de Medicina. Somente a aliança entre os trabalhadores e estudantes é que pode dar uma resposta efetiva aos casos de violência dentro da universidade.


XXXXX

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Os concursos de beleza e os padrões de beleza que a sociedade capitalista impõe as mulheres

Por: Odete Cristina

Mulheres lindas, altas, com cabelos perfeitos, corpo esbelto e curvilíneo, rosto encantador, vestidas em longos vestidos de gala. O imaginário dos concursos de belezas está muito presente na vida das mulheres em nossa sociedade.

Mulheres lindas, altas, com cabelos perfeitos, corpo esbelto e curvilíneo, rosto encantador, vestidas em longos vestidos de gala. O imaginário dos concursos de beleza está muito presente na vida das mulheres em nossa sociedade.
Mas essa é uma realidade distante da grande maioria das mulheres, que apenas acompanham esses concursos pela televisão ou pela internet. Pois, suas vidas são quase sempre tomadas pela jornada extenuante de trabalho, pelo cuidado com a casa, com os filhos e com os maridos ou, quando jovens, pelos estudos e a vida de “adolescente comum”. Todo o glamour e elegância dos concursos de beleza passam muito longe da realidade cotidiana da maioria das mulheres dentro desse sistema capitalista.
Recentemente uma sul-africana, Rolene Strauss, foi eleita Miss Mundo. Rolene é alta, magra, com longos cabelos lisos e olhos verdes, dona de um perfil físico muito diferente de suas conterrâneas, em sua grande maioria negras, com cabelos crespos e olhos escuros, exploradas e oprimidas por anos de segregação racial e pelo racismo ainda muito forte na África do Sul. O tipo físico da Miss Mundo 2014 está muito mais próximo de todas as suas adversárias do concurso, mesmo sendo mulheres de vários lugares do mundo, do que da maioria das mulheres sul africanas.
Isso se dá porque esses concursos de beleza não representam as mulheres de todos os países do mundo, mas sim, todas aquelas que reproduzem o tipo físico ideal imposto pela sociedade. Todas as integrantes desses concursos, apesar dos diferentes países, seguem o mesmo padrão: são altas, magras, corpo perfeito, sempre lindas e elegantes. Esses concursos elegem aquela que atende o padrão de beleza mais adequado dentro dos padrões impostos por uma sociedade machista, que enxerga a mulher como um produto.
Além propagandearem a mulher mais bela de todas, reafirmando dessa forma a lógica de competição entre as mulheres, esses concursos servem com artifícios para que a poderosa indústria da beleza venda seus produtos. Ao estabelecerem um padrão de beleza, tão diverso da realidade da maioria das mulheres, eles abrem caminho para que esse padrão seja almejado e para isso oferecem o seu produto como meio de alcançar essa beleza.
Tudo isso faz com que todos os anos milhares de mulheres sofram com transtornos alimentares e psicológicos, derivados da preocupação com o peso ideal, alimenta a indústria das cirurgias plásticas e a venda de produtos de beleza, que supostamente são a solução dos problemas das mulheres. Esses concursos afetam a subjetividade das mulheres de uma forma tão intensa e sutil que muitas vezes não nos damos conta. Mas estamos sempre querendo chegar ao peso ideal, insatisfeita com nossos corpos, com nosso cabelo, tudo porque não estamos dentro dos padrões estabelecidos pela sociedade.
Milhares de mulheres entram em depressão ou desenvolvem outras doenças porque não correspondem ao perfil de mulher bonita que o capitalismo impõem. Para além disso, milhares de mulheres sofrem com a inferiorização da sociedade e delas próprias diante de sua aparência física, isso atrapalha não só subjetivamente, mas também nas relações pessoais, sendo muitas vezes um empecilho para que elas se relacionem com outras pessoas.
Os concursos de beleza são um meio de perpetuar um padrão de beleza universal da mulher. O capitalismo impõem um tipo ideal de beleza afetando, dessa forma, a subjetivamente da maioria das mulheres que claramente não fazem parte desse padrão e vendendo assim os seus produtos. Mas faz isso de forma sutil e com tantos requintes de elegância e glamour que na maioria das vezes essas mesmas mulheres são o público que assiste fervorosamente esses concursos, na esperança de que um dia possam chegar a esse padrão de beleza ideal.
Original: Palavra Operaria
XXXXX

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

O debate entre Anitta e Pitty e a liberdade sexual das mulheres no capitalismo.

Por: Odete Cristina




Sábado passado foi ao ar um debate entre as cantoras Anitta e Pitty sobre a liberdade sexual das mulheres, antes mesmo do programa ir ao ar já havia gerado polêmica. O debate se iniciou pelo fato de que ambas discordaram sobre o avanço nos direitos conquistados pelas mulheres. Anitta afirmou que as mulheres estão quase iguais aos homens nesse quesito, o que Pitty discordou, pois para ela ainda precisamos conquistar muitas coisas. Depois avançou para um debate sobre o comportamento das mulheres.
Em primeiro lugar é preciso refletir sobre o que são esses direitos que Anitta aponta que a mulheres conquistaram no marco da sociedade em que vivemos. Vivemos em uma sociedade capitalista que usa da opressão de gênero e sexual para explorar ainda mais. Com o ascenso do neoliberalismo houve um processo maior de feminização do trabalho e também uma maior concessão nos direitos democráticos, como por exemplo o direito ao voto.
As mulheres burguesas conquistaram o direito de trabalhar, mas as mulheres pobres historicamente sempre trabalham. Não existe uma equiparidade salarial entre homens e mulheres dentro da nossa sociedade, sendo que as mulheres ganham até 30% menos que os homens, e quando são negras esse percentual se reduz pra quase 50%. Essa famosa conquista do direito ao trabalho é na verdade uma necessidade imposta pelo sistema capitalista que precisava aumentar seu exército de mão de obra. Além disso, os baixos salários pagos as mulheres servem como justificativa para rebaixar o salário de toda a classe trabalhadora.
Também é preciso refletir o que significa o direito ao voto no marco da democracia burguesa que vivemos hoje. Onde partidos pequenos e que representam os trabalhadores não podem ter candidaturas, nem sequer se legalizar e o cenário político é dominado pelos grandes partidos que servem aos interesses da burguesia. Nem mesmo uma mulher no poder pode garantir que as demandas das mulheres sejam atendidas. Para garantir sua governabilidade Dilma faz acordos com as bancadas religiosas e reacionárias do congresso e se cala sobre o direito ao aborto, deixando que milhares de mulheres morram todos os anos. Durante o seu governo houve um aumento na terceirização do trabalho, que em sua maioria são mulheres que precisam enfrentar uma dupla ou até tripla jornada de trabalho, pois o trabalho doméstico ainda recai sobre os ombros das mulheres. Os números de feminicídios e a violência contra a mulher ainda são chocantes.
Ao contrário do que diz Anitta estamos longe de alcançar os mesmos direitos que os homens. E apesar de Pitty pontuar isso, ela não faz um questionamento mais profundo sobre quem é o verdadeiro responsável pela repressão sexual feminina, se limitando a dizer que os homens não devem opinar sobre o que as mulheres fazem ou como se vestem. Contudo, dentro de uma sociedade divida em classes sociais como a nossa é muito difícil que todas as mulheres tenham os mesmos direitos. Pois o capitalismo usa da opressão histórica das mulheres, aliada a exploração e repressão dos nossos corpos para manter sua dominação. Para manter a dominação de uma classe sobre a outra.
Outro ponto polêmico foi quando Anitta afirmou que mulheres precisam “se dar ao respeito”, o que Pitty logo se posicionou contrária. Antes de cair em um debate moralista, o que pareceu para mim a polêmica entre as duas, gostaria de debater sobre como a repressão sexual, não só das mulheres mas de todas as pessoas, está profundamente relacionada com a sociedade em que vivemos e a dominação capitalista.
Para que o capitalismo triunfe é necessário que as pessoas trabalhem oito, dez horas por dias em um ritmo alienante e que não tenham o direito de exercer livremente sua sexualidade ou desenvolver qualquer outra potencialidade. O capitalismo se utiliza da repressão dos nossos desejos e do controle dos nossos corpos para garantir sua dominação.
O machismo ainda está muito presente na sociedade e isso parte da visão que vê a mulher como uma propriedade, inicialmente do pai, depois do namorado ou marido. Uma mulher que exerce plenamente sua sexualidade ou que veste-se como quer, vai contra a noção de que a mulher é mais uma propriedade do homem e contra o controle que o sistema possui dos nossos corpos. Como afirmava Marx as ideias dominantes de uma época são sempre as ideias dominantes da classe dominante dessa época. Enxergar a mulher como uma propriedade e reprimir nosso direito a plena liberdade sexual faz parte das ideias dominantes da burguesia para garantir a sua dominação e exploração sobre a maioria da população.
Por isso nossa luta pela liberdade sexual e combate ao machismo deve ser entendida como uma luta maior contra todo esse sistema de exploração e opressão que perpetua a repressão aos nossos corpos e da nossa sexualidade. A nossa luta deve ser parte de um novo projeto que revolucione não só os meios materiais, mas também os meios culturais. Uma sociedade onde todos possam exercer livremente sua sexualidade, livres de toda opressão e exploração.
Original: Palavra Operaria
XXXXX

sábado, 11 de dezembro de 2010

Mais de 1000 pessoas participam do I Festival Interunesp Contra as Opressões numa grande resposta ao “rodeio das gordas” e à política repressiva da reitoria

por DCE Unesp-Fatec

A construção do festival foi marcada por uma ampla campanha, que envolveu o apoio de diversos setores (veja no BLOG DO DCE), além de várias manifestações políticas e culturais.

Mesmo com o esforço da reitoria da UNESP para impedir que acontecesse, realizou-se com grande êxito nos dias 03 e 04 de dezembro no campus da UNESP de Marília o “I Festival Inter UNESP Contra as Opressões”. Até mesmo a grande imprensa noticiou a truculência da reitoria, como a Folha de São Paulo e o Portal IG. Nem a proibição e a ameaça de punição por parte da reitoria, nem a falta de recursos, nem a pressão do final do semestre para “deixar para o ano que vem”, nem a chiadeira dos setores mais conservadores da universidade foram capazes de barrar a indignação e o espírito combativo dos estudantes da UNESP frente ao repulsivo “rodeio das gordas” e a escalada dos casos de homofobia e racismo dentro e fora das universidades. Não nos conformamos com a universidade opressora, preconceituosa e elitista que temos hoje. Ao senhor Herman, reitor da Unesp, dizemos: o “I Festival InterUnesp Contra as Opressões” é expressão da primeira batalha do movimento estudantil combativo da Unesp, na guerra contra as opressões. Batalharemos para que seja o primeiro de muitos. Somos por uma universidade acessível a toda população e que coloque seu conhecimento a serviço do fim das opressões e explorações, inclusive em sua estrutura e ambiente.

Além dos estudantes do próprio campus de Marília, participaram outros dos campus de Rio Preto, Araraquara, Ourinhos, Botucatu, Franca, Assis, Rio Claro, além de estudantes da USP, com uma destacada delegação de estudantes do CRUSP que estão por moradia, contra a expulsão dos estudantes que Rodas está ameaçando e denunciando a omissão de socorro da reitoria ao estudante Samuel de Souza que morreu na universidade. Também vieram estudantes da UNICAMP e da Fundação Sto André, onde o Diretório Acadêmico (DAFafil) e alguns estudantes estão sendo punidos por lutarem pela redução das enormes mensalidades e em defesa dos que não possuem condições de pagá-las. Estiveram presentes também uma delegação da Chapa 1 do Sintusp, que venceu as eleições desse combativo e aliado Sindicato com 76% dos votos. Como a direção da faculdade não liberou o espaço das salas de aula para as pessoas se alojarem, barracas foram montadas nos gramados. Estudantes e jovens da cidade de Marília, que em sua imensa maioria são impossibilitados de estudarem na UNESP como reflexo do elitismo do vestibular, e também não frequentam os espaços da universidade pública, que cada vez mais se fecha para a comunidade, também compareceram em número significativo. Nos dois dias de festival, circularam mais de 1000 pessoas nas atividades, o que mostra a profundidade da indignação das pessoas e o profundo êxito da atividade político-cultural impulsionada pelo DCE.

À reitoria e aos demais setores que conservam a opressão na universidade e na sociedade em geral deixamos bem claro que não nos calaremos diante de suas ameaças. Esse festival, que foi organizado em pouco mais de duas semanas de forma independente pelos estudantes e que acabou sem qualquer incidente ou depredação da faculdade rebatendo as críticas preconceituosas neste sentido, mostra que estamos dispostos a ir até o final para que casos como o do “rodeio das gordas” não aconteçam de novo e para que as dezenas de agressores sejam punidos. Nesse sentido, rechaçamos o conteúdo discriminatório do jornal Correio Mariliense que no domingo, 05 de dezembro, publicou matéria com o título “UNESP de Marília vira ‘terra de ninguém’ em festival proibido” e com conteúdo que prepara a opinião pública e praticamente convoca a direção do campus para punir os estudantes responsáveis.

A abertura do Festival aconteceu no fim da tarde de sexta-feira com a apresentação, pela companhia Mobiles de teatro, da peça Brutas Flores no saguão do prédio de aulas, relatando a opressão cotidiana que sofrem as mulheres.


Em seguida, a relação da arte com a política, e o papel que o artista pode cumprir, tanto na sociedade em geral, como no movimento estudantil, foram tratados em debate organizado no Diretório Acadêmico.

Durante toda à noite de sexta-feira, já circularam mais de 500 pessoas, e tocaram várias bandas com distintos estilos musicais se apresentaram até de manhã no palco principal montado na quadra da faculdade.








No sábado, as atividades foram retomadas às 15h com o debate “Machismo, Homofobia e Racismo na Universidade” do qual participaram Thiago Sabatine, da Associação de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Travestis e Transexuais de Marília (ALGBTT), Milton Barbosa, do Movimento Negro Unificado (MNU), Babi, estudante da Unesp de Rio Claro e do Grupo de Mulheres Pão e Rosas, Marília, estudante da Unesp de Rio Preto e membro do DCE e Carlos Latuff, cartunista conhecido mundialmente por colocar suas obras a serviço da luta dos setores oprimidos e explorados. Como forma de expressar os setores que lutam, a mesa foi em homenagem ao estudante de filosofia, morador do CRUSP, Samuel Souza, de 41 anos, que morreu na última quinta-feira (02/12) dentro do campus da Universidade de São Paulo (USP), por omissão de socorro da reitoria, do resgate, da guarda e do hospital universitário que, mesmo chamados, não apareceram para garantir a vida do estudante, que teve seu corpo estirado, dentro da USP por 6 horas.

O debate, além de aprofundar a análise sobre as distintas formas em que se reproduzem as opressões, contextualizou o tema frente a conjuntura nacional na qual percebemos o ressurgir dos setores mais conservadores e preconceituosos da sociedade estimulados pelo papel reacionário de Dilma e Serra que durante as eleições disputaram quem atacaria mais os direitos democráticos das mulheres e dos homossexuais, avançando no atrelamento do Estado com a Igreja, na criminalização do aborto e no combate ao casamento igualitário. Latuff, morador e ativista do Rio de Janeiro, trouxe para o debate o relato sobre a ocupação policial e militar nos morros e favelas cariocas, denunciando a violência com que a população vem sendo tratada, a relação umbilical do Estado e da Policia com o tráfico de drogas e armas e o papel criminoso que cumpre a grande mídia em legitimar a ação assassina das forças de repressão. Saímos do debate com a importante tarefa de reforçar a luta pela ampliação dos diretos democráticos dos oprimidos e o embate decisivo com os setores conservadores que começam a se organizar.

Depois disso, as bandas voltaram a se apresentar no palco enquanto eram realizadas oficinas e Latuff e outros artistas deixavam suas marcas de protesto em algumas das paredes da faculdade.

Sobre o festival, Latuff declarou, entre outras coisas, que: “Como erva daninha brotando nas calçadas, ressurge a violência reacionária, contra seguimentos da sociedade e do movimento social. A mídia presta valioso serviço ao Estado, glorificando a repressão, seja através do cinema ou de programas sensacionalistas na TV. Nestes tempos de retrocesso, de situações que pensávamos já superadas, é preciso uma resposta firme e organizada, como esta promovida pelos estudantes da UNESP de Marília, uma resposta militante não só ao infame "Rodeio das Gordas" como também ao autoritarismo daquela reitoria.”

Ao todo, tocaram cerca de 20 grupos, que foram acompanhados por atividades circenses, apresentações de dança, grafitte, com novamente mais de 500 pessoas circulando durante toda a noite.

Apesar dos limites impostos pela falta de tempo e pela postura proibitiva da direção da universidade, o festival conseguiu atingir seu objetivo. Que era, primeiro, o de repudiar o “rodeio das gordas” e o projeto de universidade que cria as condições para que casos de agressão como esses aconteçam cotidianamente. Segundo, o de permitir que o que ocorreu não seja esquecido, dando continuidade à campanha contra o machismo, a homofobia, o racismo e todas as formas de opressão. E também mostrar que o movimento estudantil pode construir ambientes de sociabilidade e de confraternização que procuram ser livre de preconceitos, diferente do que são as festas universitárias em geral. Além do mais, possibilitar à população e à comunidade acadêmica a liberdade de utilização dos espaços públicos da universidade. Este festival foi também um grande grito contra todas as formas de opressão que vem se expressando pelo país com uma onda de ataques homofóbicos, racistas e machistas.

Sabemos que na luta contra a opressão teremos que nos enfrentar com os setores mais conservadores da sociedade que legitimam relações sociais que queremos desconstruir. E, infelizmente, cada vez temos mais clareza de que a reitoria da Unesp, apesar de tentar dizer o contrário, se encontra nesse campo adversário. Primeiro foi a tentativa de intimidar a atual gestão do DCE com uma notificação em que ameaçava “punir nos termos da lei” alguns membros porque denunciávamos na declaração do DCE em repúdio ao “rodeio das gordas” a conivência das direções e reitorias da UNESP pelos vários casos de opressão que, voltamos a repetir, fazem parte do cotidiano de nossas universidades. O descaso e o boicote em relação à organização do Festival também evidenciam isso. Diversas vezes procuramos as diretorias de cada campus e a reitoria para pedirmos que no mínimo nos auxiliassem no transporte das centenas de estudantes que se interessaram em ir para o festival. Além de não liberarem nenhuma ajuda neste sentido, nos responderam com ameaças constantes de punição caso levássemos a organização do evento até o fim (leia nota do DCE no blog). A Reitoria chegou ao absurdo de mentir para a imprensa dizendo no sábado pela manhã que o festival não tinha acontecido e que as portas do campus de Marília estariam fechadas (http://www1.folha.uol.com.br/saber/840804-acesso-ao-campus-de-marilia-da-unesp-estara-fechado-neste-fim-de-semana-diz-reitoria.shtml), quando na verdade só na sexta-feira mais de 500 pessoas participaram do festival. Enquanto isso, o reitor Herman e seus assessores se negam a averiguar até o final as agressões e a punir os mais de 50 agressores do INTERUNESP. Apenas um processo administrativo foi aberto apenas no campus de Assis contra dois agressores e as informações sobre o andamento do processo - cujos depoimentos sequer são divulgados - é de que ele terá fim no dia 27 de dezembro, momento propício para que tudo acabe em pizza.

Sabemos que, por outro lado, não faltam medidas punitivas e repressivas a todos aqueles que se colocam contra esse projeto opressor elitista de universidade, como os 20 processos de expulsão à estudantes da USP, 16 contra os estudantes da moradia retomada e 4 contra estudantes que participaram das lutas contra os decretos de José Serra em 2007. Da mesma forma se deram recentemente sindicâncias a estudantes da Unesp de Bauru e da UNICAMP, além de demissões de funcionários e sindicalistas, como do Fred em Franca e do Brandão do Sintusp. Ou seja, trata-se de uma política repressiva das reitorias das três universidades estaduais paulistas, sob jugo e acordo do mesmo governo estadual e do mesmo projeto de educação, fator comprovado quando analisamos a seqüência com a qual os ataques à educação pública acontecem nas 3 estaduais. Portanto, se de um lado o que vemos é conivência das reitorias a agressores do “rodeio das gordas”, aos homofóbicos e aos machistas, do outro é repressão imediata aos que lutam por uma universidade aberta ao conjunto da população, de qualidade e realmente democrática.

Vemos como tarefa fundamental para o movimento estudantil da UNESP, em especial do próprio DCE (Diretório Central dos Estudantes) - que a partir do festival dá passos importantes em demonstrar sua capacidade política real e de mobilização - organizar uma ampla e combativa Calourada Unificada, como maneira de seguirmos nossa luta pela transformação real da universidade e contra qualquer manifestação de opressão dentro ou fora das universidades - como os novos casos de agressão a homossexuais na Avenida Paulista que ocorreram no domingo à noite e aos quais manifestamos nosso completo repúdio.

Chamamos todas as entidades do movimento estudantil combativo, em primeiro lugar a ANEL da qual fazemos parte, a impulsionar calouradas com este conteúdo questionador dos trotes e do vestibular, fortalecendo a luta contra a opressão a partir do movimento estudantil, que foi a tarefa que nos demos com essa campanha contra o “rodeio das gordas” e com o festival. Para o movimento estudantil da Unesp, acreditamos que foi mais um importante passo no sentido de forjar uma nova tradição no movimento estudantil, que seja não somente combativo, pró-operário e anti-burocrático, mas também contra a opressão dentro e fora da universidade.

E é dentro dessa perspectiva que reivindicamos o apoio de diversos sindicatos, organizações e entidades estudantis à realização desse Festival, como foi o caso da ADUNESP Central, ADUNESP de Marília, LER-QI, APROPUC, DA da Fafil FSA, SINTUSP, Sindicato dos Metroviários, Sindicato dos Químicos de Marília, CEUPES, Apeoesp de Marília, entre outros, assim como o apoio financeiro de dezenas de professores de Rio Preto, Rio Claro e Franca por meio de doações. Esse festival só foi possível devido a união do movimento estudantil, destas organizações e de todos os setores que divulgaram e apoiaram por meio de moções e ações a sua realização. O seu sucesso é a demonstração de como podemos combater os projetos privatistas, elitistas, repressivos e opressores das reitorias e do governo do Estado com a construção de um novo movimento estudantil que, junto dos trabalhadores, professores e intelectuais, impulsione uma ampla campanha democrática por um novo projeto de universidade, não elitista, não racista, realmente democrático e aberto a toda a população.

Por fim, queremos dar uma saudação especial a todos os estudantes que estiveram presentes, e todos aqueles que apoiaram nossa iniciativa mas não puderam estar presentes, a junto conosco construir um festival maior e mais forte para o próximo ano, juntos na luta para fortalecer um amplo movimento democrático contra a opressão dentro e fora da universidade, uma luta ligada ao questionamento do projeto de universidade que vem sendo implementado e contra a repressão aos que lutam.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A respeito do InterUnesp, da homofobia na USP e do racismo contra os nordestinos. Espectros do capitalismo em decadência: respondamos à altura!

Por Simone Ishibashi, diretora da revista Estratégia
Internacional Brasil e dirigente da LER-QI
"Até agora, os homens formaram sempre idéias falsas sobre si mesmos, sobre aquilo que são ou deveriam ser. Organizaram as suas relações mútuas em função das representações de Deus, do homem normal, etc., que aceitavam. Estes produtos do seu cérebro acabaram por os dominar; apesar de criadores, inclinaram-se perante as suas próprias criações. Libertemo-los, portanto, das quimeras, das idéias, dos dogmas, dos seres imaginários cujo jugo os faz degenerar."
Marx, A ideologia alemã

Nas últimas semanas as páginas dos jornais foram inundadas com notícias que chocaram amplamente a opinião pública, ou pelo menos um setor desta que conserva o mínimo de razão e humanidade. Primeiro, a contaminação total e completa do debate eleitoral com temas como a religião, transformando discussões que deveriam ser políticas e em torno de direitos democráticos elementares, como o direito ao aborto, em um referendo sobre a religiosidade, que mais bem lembrava a Idade Média. Serra, cujo partido já encampa a “campanha pela vida”, que ao lado da Igreja se lança raivosamente contra o direito ao aborto, aproveitou para bradar em alto e bom som suas reacionárias opiniões sobre o tema. Dilma, para constrangimento de todas as mulheres do país, mergulhou com tudo na onda do obscurantismo e publicou uma vergonhosa carta se comprometendo a “não tomar nenhuma ação que fira a família brasileira”, entre outras declarações do estilo. Algum dos candidatos da burguesia se declarou, aproveitando a presença do “Santíssimo papa” em terras brasileiras em meio ao processo eleitoral, para condenar os escândalos de pedofilia – prática que data dos tempos imemoriais – da Igreja? Para questionar a atuação do papa, que todos sabem ter encoberto com um véu tecido com a mais asquerosa impunidade os padres que por décadas abusaram sexualmente de crianças em países como a Irlanda? Evidentemente, não. Ao contrário, todos rifaram o seu “espírito republicano” em troca do apoio da “imaculada” Igreja.

É com este pano de fundo que em um intervalo curtíssimo de tempo aconteceram o caso de agressão por homofobia a estudantes homossexuais da USP, o infame (para colocar um adjetivo publicável, pois o episódio merece outros impublicáveis para descrevê-lo à altura dos fatos) “rodeio das gordas” no InterUnesp, e após as eleições vieram à tona as declarações de uma estudante de Direito incitando a que se “afogasse” um nordestino e várias outras do mesmo teor. Em um intervalo de alguns dias tivemos diante de nossos olhos o inaceitável e repugnante show de horror condensado do reacionarismo capitalista em doses cavalares: homofobia, machismo e racismo expressados de maneira tal que realmente nos obriga a refletir mais pausadamente sobre o seu conteúdo mais profundo. Enquanto o Tea Party se alça à política norte-americana, com quatro senadores e dezenas de parlamentares, sob o lema “patriotas norte-americanos para retomar o que é nosso,” em nosso país os ventos regressivos sopram nos episódios acima citados. Enquanto nos EUA os direitistas mascaram que os arranha-céus e todas as riquezas norte-americanas emergiram sobre o sangue e o suor dos imigrantes, aqui em São Paulo, cuja construção teria sido impossível não fossem as mãos e a inteligência dos trabalhadores nordestinos, há poeiras de humanidade que clamam pelo seu afogamento! A quê isso corresponde?

Num nível mais imediato vemos que todos os três episódios recentemente ocorridos aqui foram executados por jovens, estudantes universitários (dois deles oriundos das principais universidades do país, a USP e a UNESP), provenientes da classe média. Isso questiona noções fartamente aceitas pelo senso comum segundo o qual estes seriam os setores ilustrados da sociedade e, portanto, os portadores de uma visão mais avançada. Não é de todo chocante que isso ocorra ai, pois de espaços de questionamento à ordem instituída, cada vez mais os planos dos governos para as universidades é transformá-las em centros de formação e reprodução da ordem capitalista. Isso inclui ideologia, valores e comportamentos. Em regra geral, não há, por exemplo, disciplinas que se dediquem a estudar a luta das mulheres ao longo da história. Poucas são dedicadas à trajetória das mobilizações dos negros. Porém, são iniciativas isoladas que obrigam a que se pense mais profundamente a serviço de quê e de quem está a universidade. A transformação desta realidade, a partir do combate pela real democratização da universidade, colocando-a a serviço dos interesses dos trabalhadores, é uma necessidade imperiosa.

De uma perspectiva mais profunda, porém, estas ações correspondem em primeiro lugar à própria decadência da dominação burguesa e do capitalismo, que se faz sentir de maneira cada vez mais aberta no nosso presente imediato. Lênin, em sua famosa obra, O Imperialismo, tratou de demonstrar como a fusão do capital bancário com o capital industrial, transformando-se em capital financeiro, levaria à uma crescente tendência à criação de monopólios. Estes, por sua vez, tornariam as disputas por mercados mais acirradas e violentas. Daí a caracterização famosa de que vivemos em uma época de crises, guerras e revoluções. Só a classe trabalhadora e sua revolução poderiam dar uma saída progressista a esta situação. Porém, a revolução mundial teve sua dinâmica congelada, por uma série de fatores objetivos e subjetivos, o que culminou na restauração burguesa após a ofensiva neoliberal, e varreu, momentaneamente, o horizonte da revolução do imaginário da classe trabalhadora. A isso correspondeu a instauração de uma ideologia baseada no ultra-individualismo e consumismo exacerbado. Portanto, há a adoção de uma ideologia padronizada de comportamento, objetivo e estético, em que a humanidade se realizaria plenamente apenas na sua relação de consumo com as mercadorias. É o fetichismo das mercadorias elevada à sua máxima potência. Entretanto, hoje, a grande questão que se abre é que a crise capitalista mundial, a despeito dos ventos de crescimento econômico (até quando?) do Brasil, demonstra a validade da caracterização de nossa época feita por Lênin. Não é possível mais sustentar a realização humana nas mercadorias adquiridas a crédito. O sistema está se decompondo. E os setores mais reacionários da sociedade já começam a colocar em marcha sua reação ideológica, em doses ainda muito pequenas se comparadas aos anos 30 do século passado, já que a classe trabalhadora ainda não expressou sua força. Vemos isso no Tea Party. Com outras características, vemos isso de maneira menos diretamente política nos episódios de homofobia, racismo e machismo ocorridos nas últimas semanas.

Em segundo lugar há que se partir de que sem o preconceito, a homofobia, o machismo e o racismo, o capitalismo não se sustenta. O motivo é bastante concreto. Tem suas origens na própria acumulação de mais-valia, elemento básico e essencial do funcionamento da lei do valor que rege o capitalismo. A burguesia, para poder ampliar seus lucros, distingue os seres humanos entre várias categorias, alguns valem mais no mercado de trabalho, outros menos. Assim, características físicas, de gênero, de origem nacional e social regulam o valor da mão-de-obra. Se você é mulher, receberá menos pelo mesmo trabalho realizado por um homem. Se for mulher e negra, menos ainda. Se for mulher, negra e nordestina, é provável que o que receberá mal possa ser chamado de salário. E, por qual motivo, se muitas vezes faz o mesmo trabalho que outros que recebem muito mais? É aí que entra a importância dos preconceitos disseminados pela burguesia para sustentar o capitalismo. Por exemplo, a segregação racial nos Estados Unidos só foi abolida em 1964, justamente no momento em que o país abre as portas para a entrada massiva de mão-de-obra estrangeira, sobretudo mexicana. Ainda que o preconceito contra os negros persista, e nunca acabará enquanto houver capitalismo, houve um pacto através das “ações afirmativas”, que só pôde ocorrer por que a burguesia imperialista passou a extrair lucros da mão-de-obra proveniente dos imigrantes latino-americanos e hispânicos. O grande trunfo da burguesia imperialista norte-americana foi assim separar os trabalhadores hispânicos dos trabalhadores negros, impedindo que unissem seu combate ao preconceito em um combate contra a exploração.

De outro prisma, podemos dizer que da mesma maneira que a burguesia não pode explicar sua permanência como classe dominante, num sentido materialista-histórico profundo, pois se isso fosse feito se chegaria à conclusão que seu jugo atual é regressivo e provedor das misérias econômicas, morais e intelectuais que afligem a humanidade, tampouco os preconceitos disseminados pelo capitalismo podem ser apreendidos de acordo com um sentido minimamente coerente. Existem como afirmações apriorísticas, construídas historicamente, para garantir a extração de lucro e atender aos interesses das burguesias na exploração de suas próprias classes trabalhadoras, e no caso das burguesias imperialistas, para justificar o massacre e o espólio sobre os demais povos do mundo. Foi assim com a perseguição do nazismo aos judeus. É assim na perseguição de palestinos pelos israelenses hoje. Os preconceitos legitimam a idéia de que os dominadores são mais humanos que os dominados. De que a dominação não se dá por conta de interesses de uma classe, mas tem origens “naturais”.

Os preconceitos e a opressão acabam tomando vida própria, rompendo as amarras da dominação econômica direta. Não se sabe se os três grupos de indivíduos do caso de homofobia da USP, do “rodeio das gordas” do InterUnesp, e a figura que clama pela morte dos nordestinos são parte da patronal diretamente. Mas o que eles manifestaram não era mera “alienação” juvenil, como muitos poderiam acreditar, mas uma posição inconsciente de classe, que antecipa uma ideologia perigosamente já experimentada na história. Digamos inconsciente porque nenhum deles se declarou abertamente membro de uma organização ultra-direitista. Porém, longe está de ser uma manifestação, condenável decerto, mas que não é para nada inocente.

Os nazistas, não nos esqueçamos, davam aulas em suas universidades sobre como as características físicas dos judeus demonstravam que seriam inferiores e que, portanto, seu extermínio era não só legítimo, mas necessário para que a humanidade se desenvolvesse em base a seus “melhores genes”. Menghele, o odioso médico que chefiou o campo de Aushwitz, realizou milhares de experimentos para alterar as características físicas dos detentos, como por exemplo, injetar tinta azul nos olhos das vítimas, numa tentativa de “arianizar” os que ali estavam. Mas estas lições de bestialidade que só as mais execráveis poeiras de humanidade poderiam executar foram antecedidas por uma preparação ideológica e material de anos a fio. Paralelo ao apoio nas classes médias arruinadas da Alemanha contra as organizações do movimento operário, os nazistas edificaram a ideologia segundo a qual as diferenças não poderiam existir. De que tudo que não seguisse os conceitos determinados pela “beleza e pureza” arianas deveria perecer. De que a superioridade de uns sobre os outros seria natural… Isso justificaria o comportamento de humilhação e opressão em proporções bárbaras de uns sobre outros? Em escala bastante menor, é certo, mas não estaríamos diante da emergência do embrião de uma ideologia similar, adequada às condições históricas atuais?

Trotsky, o grande revolucionário russo, analisando a situação francesa dos anos 30 da década passada, quando o país atravessava uma grave crise econômica, política e social, estando sob a dominação de um governo bonapartista de inspirações fascistas, questionará contundentemente a noção de que as classes médias são por definição os setores moderados e democráticos da sociedade capitalista. “Quando a classe média perde as esperanças é facilmente atacada pela raiva e se dispõe a abandonar-se a medidas das mais extremas. (…) O fascismo unifica e dá armas às massas dispersas; de uma ‘poeira’ de humanidade – segundo nossa expressão – faz destacamentos de combate. Assim dá à pequena-burguesia a ilusão de ser uma força independente. Ela começa a imaginar que, realmente, comandará o Estado. Não há nada de surpreendente em que estas ilusões e esperanças lhe subam à cabeça!”.

Assim, Trotsky dizia que uma parcela da pequena-burguesia se alia ao proletariado, enquanto outra se lança aos braços da burguesia. Evidentemente não estamos em uma situação em que isso ocorra da maneira como Trotsky aqui descreve. A polarização social está ainda longe de atingir um grau que abra este tipo de situação, sobretudo pela ausência de protagonismo da classe trabalhadora. Porém, a crise capitalista internacional segue vigente, e anuncia que estes momentos virão. Sua resolução muito dependerá da capacidade da esquerda de nos momentos preparatórios como o que vivemos, responder aos ensaios reacionários da classe antagônica de maneira contundente. É preciso, portanto, que a esquerda de conjunto se levante contra os episódios ocorridos, de maneira veemente, rompendo os limites da superficialidade, com que a mídia (e no caso da Unesp a própria reitoria) busca retratar tais casos, apesar de ter que condenar tais ações. O que está em jogo é a seriedade com a qual serão encarados os embates do futuro. Lênin, outro gigante da revolução, nunca esqueceu de chamar a atenção da juventude e das massas trabalhadoras para o fato de que a consciência da classe operária – certamente a classe mais prejudicada com o avanço de tais manifestações apodrecidas de vida, como a homofobia, o racismo e o machismo – não pode ser uma consciência política verdadeira, se os operários não estiverem habituados a reagir contra todo abuso, toda manifestação de arbitrariedade, de opressão e de violência, onde quer que se produza, quaisquer que sejam as classes atingidas; e a reagir justamente do ponto de vista revolucionário, e não sob qualquer ponto de vista. Nesse sentido, fazemos coro à pronta nota de repúdio solta pelo Sindicato dos Trabalhadores da USP (SINTUSP) acerca do caso InterUnesp.

A esquerda, a classe trabalhadora, os movimentos de mulheres e de direitos humanos, bem como a juventude, sobretudo das universidades em questão, tem de responder à altura, não apenas punindo os culpados, mas criando um ambiente de completa e resoluta intolerância contra este tipo de manifestação. Colocamos nossos corpos, vozes, força e vontade na mais decidida defesa contra todas as opressões e discriminações!

quarta-feira, 7 de abril de 2010

A todas as mulheres do grupo "Pão e Rosas"... ESTRANHO ENIGMA

Publicamos abaixo um poema que recebemos de um professor de São Paulo. O Pão e Rosas tem um espaço que é seu! Abrimos as páginas do nosso jornal e de nosso blog para as mulheres trabalhadoras em luta, para aquelas que sofrem assédio moral em seus locais de trabalho, para as estudantes, para as mulheres desempregadas e donas de casa... para todas que são oprimidas e exploradas e querem fazer escutar as suas vozes na luta contra esse sistema capitalista! Mande seu depoimento, texto, comentário, denúncia, relato, entrevista, poema para o email paoerosasbr@gmail.com.

A todas as mulheres do grupo "Pão e Rosas"...

ESTRANHO ENIGMA

Esse enigma entorpecente que é a vida
Esse mistério silencioso que é o homem
Esse amor rancoroso que todos temos dentro do peito
Esse egoísmo mascarado por gentilezas
Esse aparato moral que odiamos mas preservamos
Essa covardia que temos diante dos problemas do mundo
Essa diplomacia suja e sutil para se chegar ao poder
Essa miséria milenar que nunca combatemos
Esse cotidiano mesquinho que valorizamos
Essa pseudo-democracia que esquarteja a plenitude humana
Essa guerra pelo poder de oprimir
Essa civilização sem norte
Essa superfície bela que esconde o núcleo horrendo
Esse sorriso podre que me oferecem
Essas verdades prontas que me apresentam
Essas máscaras que ocultam a verdade
Nosso lirismo a séculos aniquilado por mesquinharias?
Até quando? Como assim?
É hora de dizer:
BASTA!!!


Olávo de Adelaide
23/03/2010

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Amanhã apresentação da peça teatral "E Agora, Nora?" seguida do debate "Movimentos políticos e sociais e as mulheres hoje"

A companhia Temporária de Investigação Cênica apresenta seu novo espetáculo, E Agora, Nora?!, na Casa Livre. A peça é formada por quatro blocos em que se é discutido o papel da mulher na sociedade e as transformações femininas ao longo do tempo, seus clichês e manias.

A montagem parte da cena final de Casa de Bonecas, de Henrik Ibsen, em que a personagem principal decide romper com seus "papéis de mulher" - mãe, esposa e filha - para buscar sua individualidade. O avanço do feminismo na sociedade, a importância da mídia e de suas revistas voltadas para esse público e as experiências das próprias atrizes permeiam a ação. (Fonte: Guia da Semana São Paulo).

Ficha Técnica
Dramaturgia: Cia. Temporária de Investigação Cênica
Concepção e Direção: Joana Dória de Almeida
Elenco: Joana Dória de Almeida, Júlia Novaes e Sofia Boito
Assistente de Direção: Diogo Spinelli
Intervenções Poéticas: Roberta Estrela D´Alva
Orientação: Cibele Forjaz
Desenho de Som: Pedro Semeghini
Desenho de Luz: Sofia Boito
Cenário e Figurinos: Cia. Temporária de Investigação Cênica
Vídeos: Carolina Mendonça e Fernanda Gomes

Após a apresentação da peça, o Pão e Rosas - Letras USP participará do debate "Movimentos sociais e políticos e as mulheres hoje". Dia 02/12 às 20h na Sala Experimental Plínio Marcos do TUSP (Teatro USP) na Rua Maria Antônia, 294 - Consolação.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Ciclo Ken Loach no MIS - Campinas neste 14/11: exibição do filme "Pão e Rosas" seguido de debate com a presença de Cristiane Toledo


Dia 14/11 às 19h30
Exibição do filme "Pão e Rosas" seguido de debate com a presença de Cristiane Toledo Maria, pesquisadora da obra de Ken Loach no Brasil e integrante do grupo de mulheres Pão e Rosas.

Esta atividade é parte do Ciclo de filmes do diretor inglês Ken Loach, promovido pelo Pão e Rosas e Movimento a Plenos Pulmões de Campinas.

As próximas exibições serão nos dias 18/11 e 03/12.
Para maiores informações: paoerosas.campinas@gmail.com
Local: MIS-Museu da Imagem e do Som de Campinas
Palácio dos Azulejos - R. Regente Feijó nº 859 Centro - Campinas

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Pão e Rosas na Casa Socialista do ABC














Exposição Pão e Rosas pelo direito ao aborto

No último sábado, 24/10, o Pão e Rosas esteve presente na festa da Casa Socialista do ABC, organizada conjuntamente com o Movimento Unidade Operária em Santo André.

Assim como na inauguração da casa, no mês passado, Jenifer Felix, integrante do Pão e Rosas, falou às pessoas presentes sobre a importância de um espaço no ABC paulista que abre as suas portas para que as mulheres se reúnam e se organizem por suas demandas.
Jenifer Felix chama as mulheres a conhecerem o Pão e Rosas

Maíra, da LER-QI, chamou todos os presentes a fazer um minuto de silêncio em repúdio à morte de Silvanio Pereira, operário da Mercedes de São Bernardo que faleceu na última quinta-feira num acidente de trabalho, numa demonstração de como a superexploração capitalista pode matar os trabalhadores. Relembrou que essa Casa está a serviço das lutas da juventude e da classe trabalhadora, como dos operários da Kraft-Terrabusi, dos eletricistas do México e de todo o povo hondurenho que resiste ao golpe militar

Para deixar uma vez mais nossa presença marcada na Casa Socialista do ABC, renovamos o painel permanente do Pão e Rosas na Casa, trazendo agora a exposição pelo direito ao aborto.

Em breve, mais atividades na Casa Socialista do ABC. Aguardem!













Exposição de quadros da Escola Livre de Cultura E Ciência














Exposição da Casa Socialista contra o golpe em Honduras

sábado, 10 de outubro de 2009

Artistas contra o golpe em Honduras! Zinho Trindade, Coletivo Sonoro Radiola, Bá Kimbuta, QI Alforria, Gabriel Nascimento e Mara Onijá

No último sábado, 03/10, a Casa Socialista Karl Marx (SP) recebeu vários artistas numa jornada cultural contra o golpe em Honduras. O Pão e Rosas gritou uma vez mais abaixo o golpe em Honduras!











Zinho Trindade

Organizada pelo Pão e Rosas, juntamente com o Movimento A Plenos Pulmões e a LER-QI, a jornada cultural Artistas Contra o Golpe em Honduras, contou com a presença de artistas como Zinho Trindade, Gabriel Nascimento, Mara Onijá, Bá Kimbuta, Pedro QI Alforria e Coletivo Radiola, além de exposições e roda de poesias.














Coletivo Sonoro Radiola












Bá Kimbuta











Pedro - QI Alforria












Gabriel Nascimento

Mara Onijá começou sua apresentação saudando as mulheres hondurenhas que resistem bravamente ao golpe que traz ao povo hondurenho uma dura repressão com prisões, torturas, estupros e assassinatos.

Que o sangue derramado não seja negociado! Esta foi a principal afirmação lembrada na apresentação de vários artistas que se colocam contra o golpe em Honduras. Nós do Pão e Rosas, chamamos a redobrar as ações de solidariedade ativa por todo país. Abaixo o golpe em Honduras! Nenhuma negociação sobre o sangue derramado!

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Entrevista com Diana Assunção, trabalhadora da USP, sobre precarização do trabalho e homenagem a Mercedes Sosa hoje, às 19h30 na Rádio MUDA

O programa Pão e Rosas dessa semana traz uma entrevista com Diana Assunção, trabalhadora da USP e integrante do Pão e Rosas sobre terceirização e precarização do trabalho. Saiba como a flexibilização trabalhista que vem ocorrendo nos últimos anos afeta a classe trabalhadora e, principalmente, entenda porque a mulheres são as principais vítimas desse processo. Acompanhe o movimento no Giro Pão e Rosas e fique por dentro da nossa atuação em diversos lugares. Ouça ainda uma homenagem a cantora argentina Mercedes Sosa, falecida no último dia 04. O programa Pão e Rosas vai ao ar toda quinta às 19h30. Ao vivo em Barão Geraldo na rádio Muda, 105,7MHz FM ou pela internet no site http://muda.radiolivre.org/ . Não perca!

sábado, 23 de maio de 2009

Centro Ángel Rama organiza debate sobre o filme "Pão e Rosas"

No dia 21 de maio, o grupo de mulheres Pão e Rosas participou de uma atividade convocada pelo Centro Ángel Rama, na qual compareceram 40 pessoas, entre estudantes e funcionários da universidade. Ocorreu a exibição do filme de mesmo nome “Pão e Rosas”, do diretor Ken Loach, seguido de um debate, no qual a mesa foi composta por Diana Assunção, trabalhadora da USP e fundadora do grupo de mulheres Pão e Rosas no Brasil, e Cristiane Toledo, mestranda da USP.

Cristiane, que estuda a estética de Ken Loach, abriu o debate, comentando que o diretor se utiliza da arte cinematográfica – em boa parte de sua obra – para expressar a luta dos trabalhadores contra a sua exploração e opressão. Disse que ele se baseou numa luta dos trabalhadores da limpeza precarizados nos Estados Unidos, que aconteceu em 1990, na qual reivindicavam o direito de se sindicalizarem e por melhores condições de trabalho e salário. Colocou que a escolha do elenco refletia a necessidade do autor em expressar a realidade; parte dele foi composto não por atores, mas sim por trabalhadores que tinham tido uma experiência de vida parecida com a que seria mostrada no filme, e por outros atores profissionais, porém não famosos, para alcançar o mesmo objetivo. Comentou também que a linguagem utilizada também é expressão dos fatos, com a presença do espanhol e do inglês, por conta dos trabalhadores, aos quais se refere, serem imigrantes latinos.

Diana colocou que a precarização foi bem representada no filme, expressando o nível de exploração e sujeição a que os trabalhadores são submetidos. Deu o exemplo real dos terceirizados da PUC-SP, que escreveram uma carta denunciando suas condições de trabalho, que têm que comer pão mofado, entre baratas. Ou então dos próprios terceirizados da USP que têm que comer no banheiro, recebem menos que um salário mínimo para sustentar sua família, e que fizeram uma manifestação em 2006 contra isso. E que hoje os trabalhadores da USP em greve incorporaram em sua pauta de reivindicações a luta contra a terceirização na universidade, e pela incorporação de todos os terceirizados ao quadro de funcionários sem concurso e com igual salário. Apontou inclusive, que um dos motivos que culminou na demissão de Claudionor Brandão, diretor do Sintusp, foi a defesa incodicional dos trabalhadores terceirizados da Faculdade de Educação da USP, que estavam comendo suas refeições no banheiro, sendo ainda mais necessária a luta por sua reincorporação. Disse que o Pão e Rosas está fazendo uma campanha contra a terceirização justamente porque na sua maioria são mulheres que ocupam esses cargos, e que sofrem com o assédio moral e sexual de seus chefes.

Luciana, estudante da USP e militante do Pão e Rosas, convocou todos os estudantes que lá estavam a se somarem à luta dos trabalhadores dessa universidade, para barrarem o processo de precarização do trabalho e do ensino que, a algum tempo, a reitoria vem impondo, e pela liberdade de organização sindical que essa mesma reitoria quer cercear. Depois leu o poema “Pão e Rosas”, de Mara Onijá. Várias pessoas expressaram a sua indignação com a realidade expressa no filme. Ao final, Diana chamou todos a conhecerem o grupo Pão e Rosas e sua política contra a opressão às mulheres e pela sua necessidade de organização, e a se incorporarem nessa luta.