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domingo, 22 de junho de 2014

As outras mulheres do Mundial

Por Verónica Zaldívar, do Pan y Rosas da Argentina

Tradução de Odete Cristina, estudante de Letras e militante do Pão e Rosas USP


Era uma vez no Paquistão

“Brazuca” se chama a bola oficial do mundial; contudo as mãos que a fabricaram estão muito longe do país que faz honra ao nome. Em Sialkot, próximo da fronteira do Paquistão com a Índia, uma fabrica com 1400 trabalhadores elabora este componente vital da parafernália mundialista. Ali, mulheres cobertas dos pés a cabeça com seu vestuário tradicional, com o véu cobrindo suas cabeças, encarregam-se manualmente de alguns dos passos finais da fabricação dessa bola. Em Sialkot, como no Brasil ou Argentina, a precarização tem rosto de mulher. Uma trabalhadora de uma das muitas fábricas de elementos esportivos características desta cidade trabalha em media 10 horas por dia, por um salário muito menor que seus parceiros masculinos. 90% das trabalhadoras no Paquistão não tem nenhum tipo de contrato formal nem previdência social, e não é permitido que elas se filiem aos sindicatos. Neste país onde 25% da população vive abaixo da linha da pobreza, cada ano centenas de mulheres são assassinadas nos chamados “crimes de honra”, para salvar o “bom nome” da família por uma falta que haja cometido qualquer um dos membros, se condena à morte ou violação múltipla a uma das mulheres que a integram.

Enquanto isso, no país do Carnaval...

A 14.000 km do Paquistão, no Brasil, a propagandeada criação de postos de trabalho durante os governos do PT se baseou na precarização do trabalho e na terceirização, como na Argentina. A maioria dos postos precários foram ocupados por mulheres e jovens. No Brasil governado por Dilma Rousseff, uma mulher é assassinada a cada duas horas, e as violações são dezenas de milhares a cada ano. Com o Mundial se potencializa um dos aspectos mais sórdidos da violência contra as mulheres: a exploração sexual. Os meios de comunicação argentinos vem divulgando notas com tom “pitoresco” acerca de como “se preparam as prostitutas” para o Mundial, o qual além de chocante, acaba sendo aberrante quando se trata de um destino privilegiado do chamado “turismo sexual”. Calcula-se que umas 40 milhões de pessoas são prostituídas em todo o mundo, enquanto 2,5 milhões são vitimas do tráfico. Os analistas assinalam que o que torna mais vulneráveis as vitimas de tráfico e exploração sexual no Brasil, além da pobreza e das péssimas condições de vida de milhões, é a baixa pena para os exploradores. Existem redes mafiosas cuidadosamente armadas com participação de funcionários e forças repressivas, onde as pessoas são levadas através de certos pontos fronteiriços já conhecidos para estes fins, isso se não as explora no dentro do mesmo país. Para parte da imprensa tudo isso parece não ter a menor gravidade; “La Nación” publicou essa semana, por exemplo, que “ninguém está mais disposto a pôr toda a carne na churrasqueira que as prostitutas da Vila Mimosa, a 'zona vermelha' do Rio de Janeiro”1, voltando à sutil metáfora das mulheres como pedaços de carne em outros parágrafos. É de supor que assim se vêem também as mais de 250.000 meninas prostituídas no Brasil, cujo número aumenta a cada dia ao calor da chegada dos visitantes extrangeiros. 8 milhões de reais é o que investe o governo em programas para frear a prostituição infantil, uma cifra ridícula frente aos 1 bilhão e 800 milhões que foram gastos para os operativos de segurança para o Mundial.

Nenhum 'jogo bonito'

A realização do Mundial não fez senão piorar a situação de grandes setores da população do país, além de provocar a indignação pelo esbanjamento e as negociatas em torno do evento. Enquanto o governo gastou 15 bilhões de dólares no Mundial, uma em cada quatro pessoas sobrevive com um salário-mínimo de US$310, quatro vezes menos do que custam algumas entradas para o evento. Os preparativos já vêm de muito tempo e incluíram a militarização das cidades onde haverá jogos, o despejo violento de mais de 150.000 habitantes dos bairros mais pobres e a morte de operários da construção pelo aceleramento das obras, a pedido da FIFA. Enquanto a Adidas fabrica bolas no Paquistão aproveitando a mão de obra barata, é uma das multinacionais que se beneficia com os US$ 680 milhões em isenções de impostos no Brasil. Mas o governo do PT não está saindo por cima: “o povo 'alegre e passivo' brasileiro foi substituído por um povo lutador, um povo de reivindicações e sonhos que nem sempre cabem no futebol e nas telenovelas”2. Rodoviários, garis, petroleiros, bancários, aeroviários, a comunidade da USP e os metroviários de SP estão entre os setores que vêm entrando em lutas duras por suas reivindicações, demonstrando que junto aos milhares de manifestantes nas ruas, não vão se deixar ofuscar as vistas pelos fogos de artifício de nenhum espetáculo.

1 “Como las selecciones, las prostitutas de Río ya tienen todo listo para jugar su propio Mundial”, La Nación, 10/06/14.

2Iuri Tonelo, “Brasil: el gigante entra a la cancha”, Ideas de Izquierda 10, junio 2014.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Brasil na Copa: campeão da exploração sexual

Rita Frau, membro da Executiva Nacional do MML e da Coordenação Nacional do Pão e Rosas


Em menos de um mês para iniciar a Copa do Mundo no Brasil, reabre o tema da exploração e turismo sexual. No início do ano, uma das patrocinadoras oficiais da Copa, a Adidas, lançou nos EUA camisetas que relacionavam diretamente o mundial no Brasil com o turismo sexual através do corpo de mulheres negras. Recentemente, o famoso empresário da prostituição, proprietário da boate Bahamas, Oscar Maroni, que já foi preso acusado por “favorecer a prostituição” e logo em seguida absolvido, lançou um outdoor da boate com sua cara estampada, e uma imagem de uma mulher como se estivesse fazendo sexo oral em um homem. O Ministério do Turismo se pronunciou dizendo que esta propaganda "vai em sentido oposto ao da política de promoção nacional do país realizada pelo governo".

No Brasil a prostituição e o tráfico de mulheres para a exploração sexual no exterior fazem parte de redes capitalistas envolvendo políticos, empresários, redes hoteleiras e a polícia, fazendo dos corpos das mulheres, mercadorias para gerarem lucros. O governo Dilma tem se pronunciado contra e mais recentemente lançou uma campanha chamada “Proteja Brasil – Faça Bonito”, contra a exploração sexual de crianças e adolescentes, tendo Xuxa como porta voz, e disse através da ministra Eleonora Minecucci que “o governo como um todo é tolerância zero com o turismo sexual”. Ao mesmo tempo que faz todo esse falso discurso, gasta 30 bilhões para realizar a Copa que está sendo preparada às custas do suor de operários nas obras dos estádios por todo o país, da remoção de centenas de famílias das favelas do entorno dos estádios, da repressão aos que lutam por saúde, educação, transporte e moradia de qualidade. Além disso, é o governo de uma mulher que mantém as tropas brasileiras no Haiti acusadas de estupros de mulheres e que através de alianças com a igreja católica, os evangélicos e setores reacionários se nega a garantir a legalização do aborto.

Ao lado de homens como Maroni, se enquadram projetos de lei como o do deputado federal Jean Wyllis, do PSOL, que através da Lei Gabriela Leite defende a regulamentação da cafetinagem e institui que só é reconhecido como exploração sexual a “apropriação total ou maior de 50% do rendimento de prestação de serviço sexual por terceiro”; e que seria uma forma de “liberdade sexual”, na prática legalizando por via do Estado a exploração sexual das mulheres, favorecendo os lucros dos envolvidos na cafetinagem. Projetos de lei como este falam a mesma língua de Maroni, que ao se pronunciar sobre a reprovação do outdoor disse que “falar de turismo sexual é moralista e vai contra a sexualidade", mostrando que tratam a vida e o corpo das mulheres como mais uma mercadoria.

A experiência de quase 10 anos da lei Maria da Penha mostra que na democracia dos ricos ela segue sendo uma formalidade, e a cada ano o governo Dilma diminui o investimento de verba direcionado à aplicação desta lei. Isso demonstra que mesmo que haja leis formais no capitalismo não são capazes de colocar abaixo este elemento estruturante da sociedade capitalista, demonstrando que a luta contra a opressão e violência às mulheres só pode ser efetiva se for em aliança com o conjunto da classe trabalhadora. Por isso, uma política revolucionária não deve ser através da estratégia de exigência somente por mais investimentos para campanhas do governo ou então campanhas simbólicas como foi a “dos alfinetes” levada adiante pelo PSTU.
A luta contra a violência às mulheres e o turismo sexual deve ser parte do atual momento de ondas de greves e mobilizações onde a classe trabalhadora se coloca como sujeito, fazendo com que sindicatos e entidades estudantis tomem para si este combate e defendam um programa que atinja de fato o turismo sexual e a violência contra as mulheres, o que só pode ser feito combatendo os lucros gerados pela exploração sexual das mulheres, sustentada pelo Estado capitalista.

Basta de turismo sexual e tráfico de mulheres! Não à repressão às mulheres em situação de prostituição! Pela descriminalização da prostituição (fim da perseguição policial, social e penal)!

Prisão a todos os envolvidos nas redes de cafetinagem, tráfico de mulheres e turismo sexual!

Confisco dos bens e lucros de todos os empresários, políticos, policiais e cafetões envolvidos na exploração sexual de mulheres e jovens e responsáveis por propagandas que incentivam a exploração e turismo sexual!

Emprego digno e salário mínimo do DIEESE (R$ 3.019,07) para todas as mulheres!

Assistência psicológica e social garantidas por profissionais do Estado e casas abrigos sob controle das vítimas da exploração sexual, associações e organizações de mulheres! 

Não a regulamentação da cafetinagem! Contra o controle do Estado sobre nossos corpos!