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sexta-feira, 24 de outubro de 2014

A greve da USP e a luta contra a opressão às mulheres

Reproduzimos a fala de Odete, estudante da Letras-USP e militante do Pão e Rosas e da LER-QI, no debate "Desatai o Futuro: o que devemos aprender com a greve da USP?"



            É muito difícil conseguir sintetizar o que foram esses quatro meses de greve e a importância que eles tiveram pra nossa concepção de feminismo e emancipação das mulheres. Somos um grupo de mulheres classistas e revolucionárias e acreditamos que a emancipação das mulheres não vai ocorrer dentro desse sistema capitalista, que usa dessa opressão, para se consolidar enquanto sistema. Acreditamos que é necessário uma revolução proletária para acabarmos com a exploração de uma classe por outra e só assim conseguirmos acabar com a opressão de um gênero por outro.
Essa greve foi muito importante para entendermos como uma fração revolucionária deve atuar nos momentos agudos da luta de classes. Nesse sentido entender a opressão às mulheres e as dificuldades que ela causa para a organização das mulheres como parte dos problemas da organização da própria greve foi fundamental. As mulheres não constituem uma classe separada. Levantar a bandeira da emancipação das mulheres e de todos os setores oprimidos é fundamental para unidade de toda a classe operária.
Por esse motivo garantir o cantinho das crianças para que as mães e pais pudessem participar de todo o processo político da greve, realizar um debate sobre a questão negra, a questão palestina, sobre a homolesbotransfobia, ou como uma de nossas camaradas, estudante de educação física fez realizando um debate sobre saúde do trabalho, colocando o seu conhecimento a serviço dos trabalhadores... Tudo isso é necessário, não porque em si mesmas são ações que resolvem os problemas que a sociedade burguesa nos impõe, mas são pequenas experiências, ainda restritas à uma categoria, que mostra pra toda a classe os problemas concretos que ela vai ter que enfrentar pra conseguir organizar e unificar suas fileiras com a perspectiva de se fazer uma revolução.
Essa greve foi uma pequena “Escola de Guerra” sobre quais são os temas que a classe operária precisa tomar pra si para conseguir se organizar e superar a exploração a que está submetida. Seja organizando debates sobre as opressões, lutando para que as 970 mulheres que estão na fila do papa Nicolau possam realizar o exame ou fazendo um ato pela São Remo, defendendo a efetivação dos terceirizados, entendendo que os trabalhadores compõem uma única classe. Dessa forma, nós rompemos com a ideologia burguesa de separação e fragmentação da classe.
Defendemos a hegemonia operária não só por que a classe operaria é a única que pode levar até o final todas as demandas democráticas que o regime burguês não consegue garantir, mas porque ela necessita fazer isso. A classe operária precisa combater as opressões e a divisão imposta pela burguesia, entre homem e mulher, negros e brancos, heterossexuais e LGBTTs. Por que esse é o único meio de unificar suas fileiras e mostrar a sua força enquanto classe.
Não nos adaptamos como a esquerda em geral faz que é não ligar a luta contra as opressões à luta por salários e melhores condições de trabalho, por exemplo. Acreditamos que essas duas questões estão profundamente ligadas por dois motivos. O primeiro é que a classe operária precisa unificar suas fileiras para lutar pelas suas demandas e o segundo é que os trabalhadores são o sujeito revolucionário que podem modificar as bases materiais e dessa forma modificar os valores e a cultura da sociedade.
O capitalismo cria tendências que não pode levar até o final. Ao contrario da classe trabalhadora que não só pode, como precisa levá-las até o final para conseguir se emancipar.  Com o capitalismo surge o processo de feminização do trabalho, acentuado a partir da década de 70. Que é uma das grandes contradições desse sistema, pois, ao mesmo tempo que ele proporciona a mulher as condições e o direito de sair de casa e conquistar sua independência faz isso mantendo o trabalho doméstico como obrigação da mulher e submetendo-nas aos trabalhados mais precários e com salários menores.
O capitalismo cria a possibilidade de socialização do trabalho doméstico, com a possibilidade de criação de creches, restaurantes e lavanderias públicas. Mas ele mantém esse trabalho atrelado à mulher, porque o capitalismo visa o lucro e é muito mais vantajoso para a burguesia ter uma mulher que faça esses serviços sem receber nada. A dupla ou tripla jornada de trabalho da mulher é vantajosa pro capitalismo porque garante os lucros do capitalista, mas também porque impede que uma mulher possa se colocar como sujeito político na luta por seus direitos. Ou seja, impede que grande parte da classe operária se coloque contra a exploração a que estão submetidos.
A classe media é um setor que está em disputa pelo projeto de sociedade de duas grandes classes, a burguesia e o proletariado. Os trabalhadores precisam mostrar que são o sujeito revolucionário e que são o único setor que podem levar até o final as demandas democráticas que esse sistema não garante. Os trabalhadores têm necessariamente que acabar com o racismo, com a opressão de gênero, com a falta de liberdade sexual, com a xenofobia e com a divisão entre efetivos e terceirizados, porque eles precisam unificar as suas fileiras e disputar esses setores da classe média. Mostrar que só acabando com a divisão da sociedade em classes é que vamos avançar para acabar com todas as outras divisões impostas por essa sociedade.
A classe operária cumpre esse papel não só pela sua expressão numérica, os trabalhadores são a maioria nessa sociedade, mas também pelo papel que cumprem na produção. Os trabalhadores controlam a produção e como marxistas acreditamos que as relações de produção determinam as relações sociais. Por isso é preciso modificar a estrutura econômica pra modificar os valores e a cultura.
E para fechar gostaria de citar um trecho da Andrea D’Atri, uma das fundadoras do Pão e Rosas na Argentina e dirigente do PTS:

Cada vez que uma mulher é abusada, golpeada, humilhada, considerada um objeto, discriminada, submetida, a classe dominante se perpetua um pouco mais no poder. E a classe trabalhadora, por outro lado, se enfraquece. Porque essa mulher perderá a confiança em si mesma e em suas próprias forças. Atemorizada, passará a crer que a realidade não é passível de mudança e que é melhor submeter-se a opressão do que enfrentá-la e por sua vida em risco. A classe trabalhadora, por outro lado, se enfraquece, também, porque esse homem que golpeou sua companheira, que a humilhou, que a considerou sua propriedade, está mais distante que antes, de transformar-se num trabalhador consciente de suas algemas, está um pouco mais longe de reconhecer que, na luta para romper seus grilhões, deve propor libertar toda a humanidade de sua cadeia e contar com todos os oprimidos como seus aliados.
Por essa razão, o programa do trotskismo defende o oposto ao que sustentam os populistas: se a unidade dos trabalhadores é necessária, então é imperioso erradicar os prejuízos contra os imigrantes, as barreiras que se levantam entre efetivos e terceirizados, combater a ideologia que impõe a repressão do adulto sobre o jovem e, nesse sentido, lutar decididamente contra a opressão das mulheres. “



quarta-feira, 9 de julho de 2014

Histórica greve do Hospital Universitário da USP

Entrevista feita pelo Jornal Palavra Operária com Dinizete Xavier que foi trabalhadora do HU e atualmente é membro do comando de greve do Centro de Saúde Escola do Butantã e militante do Pão e Rosas.

Veja também em: http://www.ler-qi.org/Historica-greve-do-Hospital-Universitario-da-USP


 JPO: Há 19 anos o HU não entrava em greve, como está a mobilização entre os trabalhadores neste momento?
Aqui no HU a greve está sendo construída todos os dias, porque tem pessoas que nunca tiveram experiência de greve e os outros que já tiveram experiência estão há muito tempo sem fazer uma greve na saúde. Vários setores aderiram, porem tem alguns que precisam ser convencidos da necessidade dessa luta, mesmo assim as pessoas que saíram em greve estão dispostas também a lutar. O hospital vem há anos sendo sucateado, está superlotado, não tem contratação, renovação de contratação, reposição dos quadros necessários e o reitor ainda barrou as contratações. Tinham pelo menos 3 médicos que estavam prontos pra entrar e acabaram sendo barrados, mandados para casa por ordem do reitor. As pessoas estão sobrecarregadas, existem muitas pessoas com LER-DORT por trabalhar em excesso, uma das pautas de reivindicações é para que tenha a reposição de todos os quadros necessários. Também tem a questão da desvinculação do hospital, todos os anos os reitores vem colocando que o hospital tem que ser a parte da universidade, porque dizem que o hospital dá muito gasto e a universidade não é obrigada a bancar toda a extensão, quem tem que bancar é o SUS. A gente diverge porque a intensão dos reitores é mandar o HU, ou para o município ou pra secretaria estadual de saúde, porem sabemos que ao desvincular da universidade, o hospital vai ser entregue para uma Organização Social de Saúde (OSS), no caso daqui a Fundação Faculdade de Medicina (FFM) que está dentro do Projeto Zona Oeste de saúde e ensino da região. Esse ponto foi crucial para fazer com que os trabalhadores da saúde entrassem em greve foi a não desvinculação do HU da USP.

JPO: Como a luta em defesa da saúde, dialoga com as necessidades da população?
O problema da saúde está muito grave no Brasil e a população sofre muito com isso. Por isso a gente está conversando bastante com a população, os trabalhadores do hospital foram várias vezes à São Remo desde o inicio da greve, distribuindo materiais no metro Butantã como a carta aberta que diz à população o motivo da nossa greve e chamando a população a apoiar. Há 30 anos que na região só tem o HU e a população vem crescendo sem que nenhum governo, nem estadual, nem municipal construa mais hospitais na região principalmente que atenda as urgências, cirurgias de urgência e emergência. Essa região fechou hospitais porque não tinham funcionários suficientes e a população ficou lá sem atendimento. No Centro de Saúde Escola Butantã (CSEB) estamos com um problema pois há uma proposta da municipalização, ou seja, separar o CSEB da universidade e entregar ao município para depois entregar para OSS. Para lutarmos juntos contra tudo isso estamos defendendo a proposta de convocar a população para fazer um grande Fórum Popular para discutir a saúde aqui na região oeste.

JPO: Como foi a história de luta dos trabalhadores e trabalhadoras no HU?
O HU foi o protagonista de uma greve depois de uma ditadura, ainda não tinham promulgado a constituição, mas teve uma ampla greve em 1988 por reivindicações também específicas. Já naquele momento a maioria que estava mais mobilizada eram as trabalhadoras mulheres e a nossa reivindicação era que tivesse redução de jornada de 40 para 36hs, creche no local de trabalho, que as mulheres tivessem o direito de amamentar seus filhos no horário de trabalho, correção dos salários, porque estavam defasados. Lutávamos também para saber o que estava acontecendo com a verba do SUS que devia ter que ser repassada para o equipamento, o hospital, para os próprios trabalhadores na forma de uma cesta básica que ajudasse os trabalhadores e com essa pauta na mesa o HU foi o primeiro a sair em greve. Nessa época descemos até a Prefeitura do Campus, onde naquele momento os companheiros estavam acomodados nos seus setores, trabalhando como se nada tivesse acontecendo. Fizemos um arrastão dentro da prefeitura e tiramos os trabalhadores, em sua maioria homens, para fora e aí a greve foi crescendo, foi vitoriosa, tivemos mais de 80% de reajuste e conquistamos a creche no local de trabalho, a redução da jornada para 36hs e ainda expulsamos o superintendente.
De lá para cá, talvez por conta de muitas conquistas o HU não se organizou mais para as greves e chegou a ter uma organização em 1994, porem acabou não saindo em greve. Já em 1995 o HU entrou em greve junto com outros setores, mas a greve não cresceu, minguou e acabou sendo derrotada e isso provocou muitas represálias, mais de 200 trabalhadores foram demitidos e depois as pessoas ficaram anos a fio submetidos e sem conseguir se organizar. Eu mesma também fui punida pela greve, eu era do plantão noturno e tivemos companheiros que tiveram 8,10 dias descontados e eu mesma tive 20 dias de desconto, recebi advertência e fui processada. Depois de 95 continuamos lutando contra o diretor do HU, o fascista Tolosa.

JPO: Como você vê a situação de trabalho das mulheres na área da saúde? 
As mulheres que trabalham na área da saúde são sobrecarregadas por ter que trabalhar em excesso, com a superlotação do hospital que leva a que elas adoeçam a ponto de muitas ficarem com problemas de saúde mental, se afastarem do trabalho por causa das lesões por esforços repetitivos e mesmo assim não deixam os pacientes abandonados. Tem a questão da pressão de que pelo fato de ser mulher, as chefias acham que você aguenta mais e temos que suportar o peso do hospital superlotado para um número ínfimo de trabalhadores que tem que dar conta de toda a necessidade do quadro de paciente. Por isso, a jornada não está mais a contento, 36h já não é mais uma jornada viável para as trabalhadoras da saúde e além disso carregamos a dupla jornada, ou seja, ainda temos que fazer os trabalhos domésticos como lavar, passar, criar os filhos etc., por isso, lutamos pela redução da jornada para 30 horas semanais inclusive para atender melhor os pacientes.

JPO: Como você vê a situação das mulheres que são usuárias do sistema de saúde?

No CSEB, onde trabalho atualmente, antes mesmo de iniciar a greve, a gente já estava com 500 mulheres aguardando o exame de Papa Nicolau que não podiam ser atendidas, pois os reitores não vem contratando o quadro necessário de enfermeiras. Quando iniciamos a greve já eram mais de 800 mulheres e a fila continua crescendo. Antigamente as técnicas podiam colher esse exame e a peãozada que não tinha ensino superior ralava duro, mas teve uma lei que dizia que apenas as enfermeiras poderiam colher o papa Nicolau, mas hoje no CSEB temos apenas 4 enfermeiras que precisam fazer vigilância epidemiológica, saúde da família e outros atendimentos e não vão conseguir colher o exame de 500 ou 800 mulheres. Por isso, estamos nessa luta para que o reitor contrate emergencialmente mais enfermeiras, pois senão vão inviabilizar várias outras atividades. Também tem a questão da farmácia que, pela legislação só permitem que sejam atendidos medicamentos de controle especial, que seria o atendimento de saúde mental, com a presença do farmacêutico, e por isso, estamos há anos reivindicando que seja contratado um novo farmacêutico e não estão contratando, porque o reitor barrou essas contratações.

Cada mulher a mais na luta fortalece a greve das trabalhadoras e trabalhadores da USP


 



No dia 07/07, durante a assembleia dos trabalhadores da USP aconteceu a atividade CRIANÇA NA GREVE. Essa atividade foi impulsionada pela comissão de Cultura dos trabalhadores da USP em greve, pelo grupo de mulheres Pão e Rosas, pelo coletivo Juventude às Ruas e por estudantes independentes da Faculdade de Pedagogia. A greve dos trabalhadores da USP segue forte mesmo em meio às férias  e atividades criativas como esta fortalecem ainda mais a luta. Um pequeno exemplo disto foi uma trabalhadora que desde o início da greve não participou das atividades, mas esteve presente nesta última assembleia com seus dois filhos. Cada mulher a mais na luta fortalece a greve das trabalhadoras e trabalhadores USP e sabemos que as mulheres têm mais dificuldade de participar dos espaços políticos de construção da greve e de se organizar por causa das tarefas de casa e do cuidado com os filhos.

Brincando com espadas de espuma, as crianças lutavam contra o 0%. No final da atividade mães, pais e crianças fizeram uma grande roda cantando pela abertura das negociações, contra o arrocho salarial e a precarização da educação entre poemas e repentes. Para nós, do Pão e Rosas e da Juventude às Ruas, que estamos lado a lado as trabalhadoras e trabalhadores da USP em cada piquete e em cada ato nesses 40 dias de greve, foi uma grande alegria ajudar nesta atividade que garantiu que mais mulheres mães se colocassem como sujeito político ativo na assembleia. Aprendemos muito com esta greve que é levada a frente com os métodos de luta da classe trabalhadora e com democracia operária, através de um comando de greve que possibilita que a greve seja dirigida pela base dos trabalhadores em cada unidade. Lutamos pra acabar com o vestibular para que os filhos dos trabalhadores possam estudar e achamos que isso só será possível atraves da luta dos próprios trabalhadores da educação garantindo uma universidade realmente pública, gratuita e de qualidade organizada pelos e para os trabalhadores. Por isso nos colocamos lado a lado dos trabalhadores da usp nessa greve. 


Continuaremos construindo estes espaços em todas as assembleias e atividades da greve e chamamos os demais estudantes da USP, coletivos de mulheres e agrupações (principalmente aqueles dirigidos pelo PSOL e PSTU, que compõem a atual gestão do diretório central dos estudantes da USP), para se somarem nessa iniciativa ao lado dos trabalhadores. É um pequeno exemplo de como os estudantes podem colocar na prática a aliança operário estudantil!Descrição: https://blogger.googleusercontent.com/img/proxy/AVvXsEgXF18eA86nTr5LV5M6dP-XIGfahckRutHPb42GUNt0IGbiEPIsRlLb5o9rRA7beTzp02p2c1rjFStQEjhs4iyCMU5Pp5EfdFR-sFd3Ww0oc0YWljUESM6AHidQPNIsUhQy_46ayMvycIVobjV0Duy32liQmB6PUEB8enLj=s0-d-e1-ft

TRABALHADORES
PODEM LUTAR
QUE A JUVENTUDE TÁ AQUI PRA TE APOIAR!

ABERTURA DAS NEGOCIAÇÕES!
QUE TODAS AS REIVINDICAÇÕES SEJAM ATENDIDAS!
LIBERDADE IMEDIATA À FABIO HIDEKI!





quinta-feira, 6 de março de 2014

Silvana Araujo, faxineira e militante do grupo de mulheres Pão E Rosas Brasil, em apoio a greve dos garis no RJ

"Trabalho há anos como faxineira, de contrato a contrato precário, e sei muito bem o que é ser tratada como escrava. Por isso neste momento, em pleno Carnaval, só posso estar vibrando com a heróica greve dos garis e das garis do Rio de Janeiro que as companheiras do Pão e Rosas que moram aí estão apoiando e me contando com muito entusiasmo! Que emoção ver vocês com seus uniformes, tomando as ruas e gritando contra a escravidão! 

Aqui de São Paulo eu também grito, basta de escravidão, basta de trabalho precário! E mais uma vez vemos que é preciso que a cidade “maravilhosa” fique todinha suja pra pararem de nos ignorar. Aqui em São Paulo também é assim, na USP, a conhecida “universidade de excelência” também foi preciso devolver todo nosso trabalho, e deixar o lixo escancarado pra tirar de debaixo do tapete o trabalho semi-escravo ao qual somos submetidos. Lutavamos por igualdade de salários e direitos, e também pela efetivação de todas nós como trabalhadoras efetivas da USP. Tudo isso é uma batalha que segue firme, e cada luta que levamos adiante vamos registrando seja em vídeos, fotos e até livros, como é o caso de um que foi feito pelo grupo de mulheres Pão e Rosas chamado “A precarização tem rosto de mulher”. Quero que esse livro também chegue até vocês porque foi organizado pra ser um livro de combate, pros setores mais explorados da classe operária, como as mulheres e os negros, mas também aqueles trabalhadores que estão nos postos de trabalho mais sofridos como são os garis. 

A greve de vocês já é um exemplo porque em meio a todas aquelas fantasias de carnaval, surge uma força viva, que é a força da classe operária unida e organizada, com estudantes apoiando, e que se necessário vai passar por cima dos seus sindicatos oficiais – aqui foi assim! com assembleias e comissões de base! – e por isso eu falo sempre, não abaixemos a cabeça, e vamo pra cima! Viva a luta dos garis do Rio de Janeiro! Toda solidariedade até a vitória! Silvana Ramos, linha de frente da luta das trabalhadoras terceirizadas da USP e militante do Pão e Rosas"

domingo, 2 de março de 2014

Relato da Greve e Piquetes dos Garis no Rio de Janeiro

VIVA A GREVE DA COMLURB!


Começou no Rio, em plena sexta feira de carnaval, a greve dos trabalhadores da COMLURB. Na terça feira, já tinha acontecido um grande do ato na Av. Presidente Vargas no qual os trabalhadores já exigiam a atuação do sindicato, já que nesse mês se inicia o dissídio da categoria. E na cidade maravilhosa onde não faltam recursos para Fifa e empresários, os garis sofrem de sol a sol com míseros R$ 850 de salário. Os garis já anunciavam que fariam greve durante o Carnaval para garantir um acordo coletivo e um aumento salarial justos. Quando foi noticiado em todos os jornais, na sexta-feira de manhã que o sindicato já havia assinado o acordo coletivo, que garantia apenas horas extras de 50% nos feriados, auxilio funeral e mísero aumento no ticket de alimentação e sequer tocava no aumento do salário base, aparecendo em letras garrafais que os garis não fariam greve e que o acordo estava selado, centenas de trabalhadores saíram furiosos para porta do sindicato exigir o apoio do mesmo para que houvesse greve.

É importante ressaltar que o Sindicato dos Trabalhadores do Asseio e Conservação do Rio de Janeiro dá exemplos de como a burocracia pode chegar em seu nível extremo. O sindicato que compõe a UGT, não realizou sequer um assembleia para assinar o acordo com a patronal. Indignados com toda a situação e a histórica colaboração com as empresas e governos deste sindicato o trabalhadores expressavam em suas falas a necessidade da democracia operária. Diziam nenhuma reunião fechada, que tudo se resolva na rua na frente de todos. E sendo tratados com tamanho desprezo viram que a única alternativa era pressionar o sindicato a assinar um documento de apoio a greve. Centenas dele gritavam GREVE! e nenhum deles titubeava sobre o que fazer, muitos diziam "É tudo ou nada!". Gritavam também "ooo o gari acordou!!" como uma incrível ressonância da energia de junho que ainda reverbera na classe trabalhadora.

Depois de muitas tentativas de manobra, o sindicato finalmente assina o apoio a greve. Fazendo com que todos ali retornassem as suas gerências para garantir os piquetes e os informes. Eles saíram sozinhos, sem nenhum orientação, sem nenhuma faixa do sindicato apoiando a greve. Mas três horas depois o sindicato faz a sua manobra maior, emitindo um documento onde diz que a greve é ilegal, usando o argumento que não foi avisado ao empregador 72 horas antes. Nessas horas fica claro o quanto a legalidade burguesa serve apenas aos patrões uma vez que não é julgado criminoso um sindicato passar por cima dos interesses da categoria.
De posse de mais este documento do sindicato encarregados que são ligados a direção do sindicato, gerentes, pressionaram os trabalhadores a trabalhar. Apesar disso a greve segue em muitos bairros da cidade. Com piquetes impedindo a saída dos caminhões, com pelegos amedrontados sem conseguir trabalhar, deixando a cidade caótica e mostrando a importância dessa categoria tantas vezes invisibilizada pela precarização. Em unidades mais organizadas os trabalhadores formaram equipes para correr outras e avisar da greve em piquetes ambulantes parando toda a região e todos já se dirigindo para o sindicato para impor sua vontade. Utilizando de muita articulação e coação, a patronal nas gerências das regiões turísticas do Carnaval pressionam os trabalhadores. Presenciamos muitos trabalhadores saindo obrigados a trabalhar com esperança de que a luta continue e se fortaleça. Ainda não tiveram força de derrotar nestas unidades a pressão da patronal e do sindicato, mas muito "esqueciam" suas vassouras, e mesmo com contradições estão dando passos em sua organização e consciência. A manobra do sindicato inclui uma reunião hoje às 12 horas com a direção da empresa. Já há um forte movimento para que todos estejam novamente na porta do sindicato.

Seguimos acompanhando e vivendo de perto a luta dessa categoria. Esperamos contribuir para que sejam vitoriosos. No entanto já é possível perceber que está greve nos serve de escola e podemos a partir delas tirar várias lições. A primeira é da importância da militância revolucionária estar diretamente ligada ao dinamismo da luta de classe. Era impensado que houvesse uma luta tão intensa no período em que todos se anestesiam e  há grande refluxo, por esse tipo de giro deve se tornar constante em nossa política. Além disso, fica claro que mesmo com todo o ativismo, ódio de classe e clareza do papel que cumprem na sociedade, a falta de organização da categoria e até mesmo um comando alternativo ao sindicato para que orientasse alguma direção debilita muita a força do movimento. É necessário um programa classista e revolucionário que seja uma alternativa à burocracia sindical e um ponto de apoio para construir a organização. Até agora, esse evento inesperado na luta de classes, mostra também a tamanha debilidade da esquerda que figura raramente com pouquíssimos militantes de algumas correntes ou nenhum. Pulam tranquilamente seu Carnaval enquanto deixam passar a luta concreta e a aliança com a classe trabalhadores. Por último, a principal lição que temos aqui é a de que Junho não acabou, a classe trabalhadora pode nos surpreender com a força que está acumulada subjetivamente em cada um de nós. É nosso papel estar ombro a ombro nessa luta!

TODO APOIO A LUTA DOS GARIS!
VIVA A GREVE DOS TRABALHADORES DA COMLURB!