« Pensavam que o assunto acabaria rapidamente. Certamente porque éramos mulheres, dispersas, não-organizadas. [...] Hoje, lutamos por nossa dignidade»
quarta-feira, 3 de abril de 2013
Trabalhadoras do Brasil e da França falam de gênero e luta de classes
« Pensavam que o assunto acabaria rapidamente. Certamente porque éramos mulheres, dispersas, não-organizadas. [...] Hoje, lutamos por nossa dignidade»
segunda-feira, 9 de maio de 2011
Louise Michel nas trincheiras da Comuna
Por Diana Assunção*
ruja como o oceano,
disposta a morrer,
a Comuna surgirá.”
Louise Michel, 1871
A 140 anos da Comuna de Paris, descrita por Leon Trotsky como “um relâmpago, o anúncio de uma revolução proletária mundial” [1], prestamos homenagem a este capítulo da história que ainda hoje nos traz valiosas lições. Aqui, particularmente, voltaremos o olhar para uma personagem incendiária da Comuna. É Louise Michel, a mulher das trincheiras, que viveu como um ardente soldado. O jornal oficial da Comuna de Paris se referia a ela com as seguintes palavras “Nas fileiras do batalhão 61, combatia uma mulher enérgica; matou vários gendarmes e guardiões da ordem” [2].
Antes disso, vale rememorar os principais fatos, e também as principais lições que marcaram a Comuna de Paris. Entre os meses de março a maio de 1871, os trabalhadores parisienses conquistaram um órgão de poder, que seria o primeiro da classe trabalhadora mundial em toda a história. Por ter sido a primeira vez em que a classe operária fazia “tremer” a burguesia, sua resposta organizada foi uma enorme repressão, que durou semanas, com o saldo de mais de dez mil mortos. Mas a repressão foi incapaz de matar ou liquidar o espírito da Comuna, que permanece vivo em suas lições. Mas seu surgimento, ao contrário do que foi, por exemplo, a Revolução Russa, se deu de forma espontânea, e não de forma consciente. Como explica Vladimir Ilich Lenin:
“A Comuna surgiu espontaneamente, ninguém a preparou de forma consciente e sistemática. A desgraçada guerra com a Alemanha, os sofrimentos da cidade sitiada, a greve operária e a decadência em ruínas da pequena burguesia; a indignação das massas contra as classes superiores e as autoridades que haviam demonstrado uma incapacidade absoluta, a surda efervescência no seio da classe operária, descontente com sua situação e ansiosa por um novo regime social; a composição reacionária da Assembléia Nacional, que trazia temor quanto ao destino da República, tudo isto e muitas outras coisas se uniram para impulsionar a população parisiense à revolução de 18 de março, que passou o poder, inesperadamente, das mãos da Guarda Nacional às da classe proletária e da pequena burguesia, que se havia unido a ela. Foi um acontecimento histórico sem precedentes” [3]
Conquistando o poder, o proletariado parisiense conseguiu suprimir a burocracia e estabelecer a eleição dos funcionários pelo povo. Ao exército regular contrapôs o povo armado, além de tomar uma série de medidas como perdão de dívidas de aluguéis atrasados, também estabeleceu que qualquer funcionário público recebesse o salário equivalente ao de um operário, eliminando assim os privilégios desta camada da sociedade. Decretaram a separação entre a Igreja e o Estado, declarando como propriedade nacional todos os bens da Igreja. E pela primeira vez na história, foi proclamada a igualdade de direitos para as mulheres. Era a classe trabalhadora demonstrando ser capaz de cumprir as tarefas democráticas que a burguesia somente pode proclamar, em palavras.
Das lições que se fica da Comuna, Lenin aponta duas essenciais, dizendo que o proletariado deteve-se na metade do caminho. Não expropriou os expropriadores, tendo sido tomados pelo sonho de idealização da justiça suprema sem a apropriação de instituições como, por exemplo, os bancos. Também, ao invés de exterminar seus inimigos, buscou agir moralmente sobre eles, deixando como secundárias as ações militares na guerra civil, e abrindo espaço para a contra-ofensiva do governo [4].
Em 1917, contudo, Lenin recuperava o que numa expressão era a ditadura do proletariado, que surgida da Comuna foi tomar vida na primeira revolução operária vitoriosa: “Eis o verdadeiro segredo: era ela, acima de tudo, um governo da classe operária; o resultado da luta entre a classe que produz e a classe que açambarca o produto desta; a forma política, enfim encontrada, sob a qual era possível realizar-se a emancipação do trabalho” [5].
O que resumimos acima em alguns parágrafos foi um processo intenso sobre o qual se debruçaram centenas de historiadores, pesquisadores, mas principalmente revolucionários que a partir das lições da Comuna de Paris repensaram as formas de se enfrentar com a burguesia para evitar a enorme derrota que sofreram os combatentes da Comuna. Dentre estes, destaca-se Louise Michel, que foi levada a julgamento pelo papel que cumpriu como uma das mais enérgicas combatentes da Comuna. O destino de milhares de combatentes, assassinados pela contra-revolução, foi o mote central da defesa de Louise Michel, que pedia o mesmo destino de seus irmãos de classe: “já que todo coração que bate pela liberdade só tem direito a um pouco de chumbo, eu peço a minha parte!” [6].
Na Comuna, era uma ardente lutadora, que sempre estava na primeira fileira ou na retaguarda, para conter os que fugiam. Combatia sem parar, inclusive procurando outros batalhões quando o seu descansava. Foi a expressão máxima da participação das mulheres na Comuna, desde a luta para igualar os direitos entre homens e mulheres, até o combate nas trincheiras. Ela vestia uma farda da guarda nacional, o que era incomum na época, já que se tratava de um traje exclusivamente masculino. No seu julgamento, foi questionada sobre isso “Parece que você usava vários trajes na Comuna. Você usou trajes de homem na Comuna?”. Ela assistiu o fuzilamento de inúmeros amigos, incluindo seu companheiro Theóphile Ferré, a quem vai dedicar o poema “Os cravos rubros” onde diz “Digam que, pelo tempo que é rápido, tudo pertence ao que está por vir. Que o dominador vil e pálido, também pode morrer como o dominado”.
Neste mesmo momento, Vitor Hugo, um dos mais famosos escritores da época, passa a trocar correspondências com Louise, e neste momento lhe dedica o poema “Viro Major”, considerado uma afronta aos repressores da Comuna. Louise passa a reivindicar, diante do fuzilamento de seus amigos e de seu companheiro, o direito de assassinato do juiz que os condenou. Mas ela foi presa em dezembro de 1871, quando então a levaram a julgamento no VI Conselho de Guerra. O relatório de seu processo demonstra como Louise era ardente e incendiária. Diante do tribunal, seguiu dedicando sua vida, e sua morte à honra da Comuna. A audiência, que ocorreu em 16 de dezembro, começava com as acusações:
“O processo de Louise Michel. Relatório da Gazette des Tribunaux. Sexto Conselho de guerra (em Versalhes). Presidência do senhor DELAPORTE, coronel da décima segunda cavalaria. Audiência de 16 de dezembro de 1871. (...) Portanto, a nossa opinião é que há motivos para julgar Louise Michel por: 1) Atentado tendo como objetivo mudar o governo; 2) Atentado tendo por objetivo incitar a guerra civil levando cidadãos a se armarem uns contra os outros; 3) Por ter, num movimento insurrecional, usado um uniforme militar, carregado armas aparentes e fazer uso delas; 4) Falsificação de documento “privado” por usurpação de identidade; 5) Uso de documento falso; 6) Cumplicidade por provocação e organização de assassinato de pessoas detidas como sendo reféns pela comuna; 7) Cumplicidade de prisões ilegais, seguidas de torturas corporais e de mortes, ajudando os autores que as cometeram. Crimes previstos pelos artigos 87, 91, 150, 151, 159, 59, 60, 302, 341, 344 do código penal e 5 da lei de 24 de maio de 1834.”
Ao ser questionada sobre o que teria a declarar em sua defesa, Louise inicia uma das mais históricas defesas em um tribunal. Começa dizendo que não quer se defender e não quer ser defendida. Que pertence inteiramente à revolução e que declara aceitar a responsabilidade de seus atos. Louise reafirma seu compromisso com a Comuna e com aqueles que deram sua vida à Comuna. Como ela dizia em seu famoso poema, “Quando a multidão hoje muda, ruja como um oceano, disposta a morrer, a Comuna surgirá”, a Comuna surgiu, sob a vida de muitos combatentes, mas sob a vida destes combatentes ficaram as lições imortais desta Comuna. Louise desafia a justiça, e todos os juízes daquele tribunal a condená-la à morte: “Vocês dizem que eu sou cúmplice da Comuna. Claro que sim, pois a Comuna queria acima de tudo a Revolução Social, e a Revolução Social é o maior dos meus desejos. Me sinto honrada em ser uma das promotoras da Comuna. (...) Tomem a minha vida se quiserem”.
Pedem novamente que fale algo em sua defesa, mas Louise mantém-se firme, e confirma todas as acusações, incluindo a de ter incendiado Paris, segundo ela para colocar uma barreira em chamas contra os invasores de Versailles. Insistem por uma defesa, e ela responde que se a deixarem viver, ela não irá parar de gritar vingança. O juiz responde “Eu não posso te dar a palavra se você continuar nesse tom!” ao que ela responde “Eu acabei! Se vocês não são covardes, me matem!”. Depois destas palavras, que causaram uma profunda emoção no auditório, o conselho se retirou para deliberar. Depois de alguns instantes, ele volta à sessão para o veredicto. Louise Michel é condenada por unanimidade a deportação para um forte. Levam a acusada e lhe dão o julgamento. Quando o escrivão diz que ela tem 24 horas para pedir uma revisão, ela grita “Não, não tem apelação! Mas eu preferia a morte”.
O emocionante julgamento de Louise Michel, uma das communards, levou-a a deportação por 20 meses. Lá, presa, recebe a visita de Paul Lafargue, também combatente. Na conversa, depois publicada por Lafargue, Louise declara:
“Não sinta pena de mim, estou mais livre do que muitos daqueles que andam ao céu aberto. Suas cabeças estão presas, estão acorrentadas por sua propriedade, por seus interesses econômicos (ou financeiros), as tristes necessidades de suas vidas. Estão absorvidos de tal maneira que não podem viver como os vivos, como seres. Da minha parte, vivo a vida do mundo. Eu sigo com entusiasmo os movimentos revolucionários da Rússia, Alemanha e França, todos os lugares. Sim, sou uma fanática, e como todos os mártires, o meu corpo não sente a dor quando os meus pensamentos me transportam para o mundo da revolução” [7]
Louise também organizou o Clube da Revolução, e lutou pela educação profissional e pela criação de orfanatos laicos, o que naquela época era uma inovação. Participou da I Internacional, onde fundou a União de Mulheres para a Defesa de Paris e a Ajuda aos Feridos. Certamente foi uma das personagens mais célebres da Comuna de Paris. Hoje, reivindicada por muitos anarquistas, a trajetória de Louise, com seus erros e acertos, deve nos levar a refletir sobre as conclusões mais profundas a que chegaram os revolucionários russos no início do século XX sobre a Comuna. Como demonstramos acima, sobre os erros cometidos que levaram a classe trabalhadora parisiense a “parar pela metade”, faltou-lhes também um partido revolucionário, que pudesse confluir com o melhor da vanguarda operária e das massas parisienses para levar a experiência da Comuna à vitória. Um erro que, talvez, fosse inevitável para a época da Comuna, quando o proletariado recém se formava como classe independente na sociedade moderna. Mas que hoje podem, com toda certeza, ser evitados, bastando para isso tirar as lições das batalhas de classe que se deram da Comuna até os nossos dias. Como na Revolução Espanhola, onde um batalhão internacional recebeu o nome de “Louise Michel” em sua homenagem, os 140 anos da Comuna devem nos fazer rememorar a experiência incendiária desta mulher e lutadora. Viva os 140 anos da Comuna de Paris.
* Diana Assunção é Diretora do Sindicato de Trabalhadores da Universidade de São Paulo (Sintusp) e dirigente da Liga Estratégia Revolucionária – Quarta Internacional (LER-QI). Fundadora do grupo de mulheres Pão e Rosas no Brasil, organizou os livros “Lutadoras – Histórias de mulheres que fizeram história” e “A precarização tem rosto de mulher”. Artigo publicado na Revista PUCVIVA da APROPUC [www.apropucsp.org.br].
[1] Leon Trotsky, Lições da Comuna.
[2] I. Boyer, Louise Michel. A Virgem Vermelha.
[3] V. I. Lenin, A Comuna de Paris.
[4] Leon Trotski, A Comuna de Paris, 2011, Edições ISKRA/Centelha Cultural, Brasília, DF
[5] “O estado e a revolução”, Vladmir I. Lenin.
[6] “O processo de Louise Michel”, do site http://enjolras.free.fr/. Tradução de Jair Urbano.
[7] “Uma visita a Louise Michel, por Paul Lafargue”, do site www.marxists.org. Tradução de Luis Siebel.
quarta-feira, 4 de maio de 2011
A participação das mulheres na Comuna de Paris
quinta-feira, 29 de julho de 2010
Mais creches, mais luta
Por No último mês, cerca de 20 pais (fura-greves) fizeram uma manifestação de repúdio durante um piquete na Creche Central da Universidade de São Paulo. Eles diziam querer proteger suas crianças e garantir o direito que elas têm à creche. Mas o que fazer com as milhares de crianças, filhas de funcionários, estudantes, professores e principalmente de trabalhadores terceirizados e informais da comunidade universitária que não têm acesso à creche por falta de vagas, espaço e quadro de funcionários? Estes pais, que ficaram apenas 3 dias sem creche por conta de um piquete que exigia o pagamento dos dias em greve (justamente para poder alimentar os filhos dos grevistas, que haviam ficado sem salário) fizeram uma verdadeira histeria nacional com o apoio da Veja, Istoé, Folha de São Paulo, Estadão, Band, Gilberto Dimenstein, Reitoria da USP, entre outros. Mas a pergunta continua: o que fazer com os que ficam 365 dias por ano sem creche?
Nesta greve duríssima, os trabalhadores da USP utilizaram diversos métodos combativos da classe trabalhadora para garantir o pagamento dos dias não trabalhados, e conseqüentemente o direito de greve que historicamente proporcionou diversos benefícios ao conjunto da categoria (e não somente aos que lutaram) como a própria creche que existe hoje na USP. Mas a luta que travamos há anos é de resistência a um projeto de privatização da universidade. Em contrapartida, apresentamos um projeto de universidade a serviços dos trabalhadores e da maioria da população, que inclui não somente abrir as portas da universidade derrubando o vestibular como também exigindo todos os direitos dos trabalhadores e trabalhadoras, entre eles o direito à creche 24 horas 100% garantido pelo Estado com vagas, educadores reconhecidos como professores (e não técnicos de apoio educativo) e espaço compatível com a demanda de crianças da comunidade universitária, para que nenhuma criança fique sem creche.
100 mil pessoas na Universidade, 563 vagas nas Creches
A Universidade de São Paulo é composta por diversos campi, na capital e no interior de São Paulo. Nem todos os campi possuem o serviço de creche, como por exemplo os campi de Pirassununga, Lorena e USP Leste. Nestes campi predomina o “auxílio-creche”, um benefício de R$ 422,22 [1] que segundo portaria do Ministério Público substitui o serviço de creche. A Reitoria divulga o dado em seu Anuário Estatístico de 2009 que o total de vagas nas creches é de 563 contra uma demanda de 402, o que significaria, portanto, que sobram 161 vagas. A dúvida então é: porque ainda muitas crianças da comunidade universitária ficam sem creche?
Em primeiro lugar, alguns pais e mães são obrigados a utilizar o auxílio-creche [2] como forma de complementação da renda, diante dos baixos salários dos funcionários básicos, por exemplo. E outros, porque os horários das creches não batem com seus horários de trabalho, e, portanto têm que recorrer a outras creches para colocar seus filhos. Mas num universo de 56.998 alunos de graduação e 25.591 alunos de pós-graduação, onde 46,81% são mulheres; 15,341 funcionários efetivos onde 49,34% são mulheres; 5,732 docentes onde 36,71% são mulheres; e ainda milhares de trabalhadores terceirizados e informais (limpeza, segurança, lanchonetes, xerox, entre outros) que obviamente não aparecem no Anuário Estatístico oficial da USP e justamente por isso sabemos que são em sua grande maioria mulheres e negros; num universo com mais de 100 mil pessoas, como podemos acreditar que a demanda por creches é de apenas 402 vagas? Para se ter uma idéia, em 1988, uma matéria do Jornal da ASUSP (Associação de Servidores da USP) dizia “A necessidade é imensa numa universidade com cerca de 11.000 funcionários, 16.000 professores e 30.000 estudantes. Mas a USP, através da COSEAS, oferece anualmente apenas 395 vagas” – ou seja, em 22 anos, quando o número de pessoas na comunidade universitária mais do que dobrou, o número de vagas na creche passou de 395 para apenas 563.
É evidente que esta demanda atual não condiz com a realidade, o que coloca em questionamento também as Assistentes Sociais ligadas à Reitoria que são responsáveis pela seleção de crianças para as vagas – há vários pais e mães que procuram as creches e permanecem sem vagas, além de que os critérios de escolha se mantêm obscuros. Neste caso é necessário desde já que exista uma comissão independente, conformada por trabalhadores, professores, pais e mães para averiguar a seleção de vagas. Também é preciso ressaltar que estamos numa universidade que ignora os trabalhadores e trabalhadoras terceirizadas, que não fazem parte nem das estatísticas. Ao contrário dos pais que lutavam por 1, 2 ou 3 dias de creche para poderem furar a greve tranquilamente, sem ter que cuidar de seus filhos, a nossa luta deve ser pra exigir que todas as crianças da comunidade universitária sejam atendidas nas creches, em primeiro lugar a dos trabalhadores com os salários mais baixos.
A histórica luta por creches
“Em 1984, aqui na USP, um movimento de pais e mães trabalhadoras lutava pela ampliação da creche. (...) Essa luta conquistou o aumento do número de vagas de 70 para 250 crianças. Porém, esse foi apenas um capítulo da história. Há 30 anos, iniciava-se a luta por creches na USP”. Este relato aparece em um dos jornais da ASUSP de 1988, expressando que a luta por creches é uma antiga luta dos trabalhadores e trabalhadoras junto ao Sindicato (antiga ASUSP). No Brasil, desde a década de 1960, mas principalmente a partir da década de 1970, as mulheres trabalhadoras, nos sindicatos, em seus encontros e congressos vêm exigindo com muita força a implementação de creches nos locais de trabalho. Esta é uma consigna histórica das mulheres trabalhadoras, pois, como demonstraremos a seguir, questiona um dos fundamentos básicos da opressão como pilar de sustentação do capitalismo: a dupla jornada de trabalho. Nas universidades estaduais paulistas, não foi diferente, e em especial a década de 1980 foi de intensa luta de pais e mães trabalhadoras que exigiam a construção de creches por cada unidade da universidade. Os jornais do SINTUSP, desde a década de 1980 expressavam esta intensa luta por creches. Em 23 de outubro de 1990 publica-se matéria que diz “Que precisamos ter um local decente pra deixar nossos filhos enquanto trabalhamos, todos nós sabemos. Que a USP não garante nossos direitos, também sabemos. O que ainda não conseguimos entender é que para garantir nossos direitos é preciso lutar e pra lutar precisamos nos organizar”. Além da demanda por creches, uma das reivindicações dos trabalhadores era da ampliação da Escola de Aplicação e garantia de vagas para todos.
A Creche Oeste da USP, por exemplo, foi fruto de muita luta das trabalhadoras, tendo sua origem se tornado muito conhecida pelas passeatas de mães trabalhadoras com seus bebês no colo. Conforme estudo sobre o tema “(...) as creches implantadas nas universidades públicas paulistas têm em comum o fato de se originarem a partir de uma mesma motivação - a movimentação dos funcionários em prol de atendimento para seus filhos durante sua jornada de trabalho na universidade, pautando o atendimento na figura da mulher que trabalha fora de casa, especificamente, da servidora pública” [3]. Não podemos esquecer também a discussão colocada por muitas das educadoras e educadores das creches da USP, que ressaltam a necessidade de discutir o direito à creche não somente do ponto de vista do direito do trabalhador, mas também do direito da criança e todas as implicações que isto tem.
Essa luta histórica das mulheres trabalhadoras diz respeito a exigência de implementação do artigo 389 presente na CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) que diz “§ 1º - Os estabelecimentos em que trabalharem pelo menos 30 (trinta) mulheres com mais de 16 (dezesseis) anos de idade terão local apropriado onde seja permitido às empregadas guardar sob vigilância e assistência os seus filhos no período da amamentação”. A Portaria 3.296/1986, do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), diz que a empresa poderá, em substituição à exigência contida na CLT, adotar o sistema de auxílio-creche.
Esta legislação, obviamente, não dá conta da necessidade das mulheres trabalhadoras. Em primeiro lugar porque não é implementada em todas as empresas ou serviços públicos – sem falar das empresas terceirizadas, que passam longe deste tipo de direito. Mas também, o período da amamentação para a CLT é considerado de 6 meses, e é justamente durante este período que a própria CLT obriga as empresas a fornecerem creche. Mas se a licença-maternidade já é de 6 meses, porque as trabalhadoras necessitariam de creches justamente nesses primeiros 6 meses da criança, quando já estariam com elas? As trabalhadoras não necessitam de creches somente neste período da amamentação, mas principalmente dessa idade até a entrada da criança na pré-escola, ou seja, até os 6 anos.
Sob o governo Lula, pouco se avançou nos direitos das mulheres trabalhadoras. Nem falar na situação das creches em São Paulo, com inúmeras denúncias de falta de merendas, colchões e outros, sob a direção de Gilberto Kassab, do DEM com o aval de José Serra, do PSDB. Agora, com Dilma Roussef como presidenciável, o PT quer fazer uma campanha “feminista” e já promete a construção de mais 6 mil creches no país. Isso parece “conversa pra boi dormir”, quando as estatísticas do próprio governo dizem que 84,5% das crianças brasileiras estão fora das creches – o que demonstra que a situação na USP é apenas um pequeno retrato da situação brasileira.
Neoliberalismo, privatização e os direitos das mulheres trabalhadoras
Numa sociedade onde a força de trabalho feminina é tida como forma de aumentar os lucros dos capitalistas, concedendo salários menores às mulheres, qualquer forma de privatização dos serviços públicos necessariamente terá conseqüências maiores para as mulheres trabalhadoras. A dupla jornada de trabalho se configura pelo trabalho não pago exercido pelas mulheres em suas casas após o trabalho na fábrica, empresa, universidade, etc, que são essencialmente o cuidado com os filhos (além de idosos e doentes), a comida, a limpeza da casa, a lavagem da roupa, entre outros. Todo esse trabalho não pago é socialmente necessário para que os trabalhadores, e a própria trabalhadora, possam seguir trabalhando no dia seguinte. Neste sentido, é de interesse dos capitalistas não fornecer estes serviços gratuitamente através de creches, lavanderias ou restaurantes que possam livrar as mulheres desta segunda jornada em suas casas, pois reduziria seus lucros.
Historicamente, como colocamos acima, as mulheres lutaram por estes direitos, mas o ataque neoliberal desde a década de 1990 atingiu profundamente a classe trabalhadora, dividindo-a entre efetivos, terceirizados, temporários e informais, esfacelando muitos dos direitos conquistados. Este período foi assistido por toda a classe trabalhadora sem nenhuma forte resistência, situação imposta principalmente pelas burocracias sindicais, que contribuíram neste momento para avançar numa verdadeira “derrota moral” da classe operária, que pesou duplamente sobre as costas do proletariado feminino. Se do ponto de vista objetivo, dividiu-se a classe operária em diversas “subclasses”, utilizando-se sempre da opressão às mulheres (e também aos negros e homossexuais) para dividi-la ainda mais, do ponto de vista subjetivo conseguiu fazer os trabalhadores deixarem de acreditar em suas próprias forças. Os projetos de privatização caminham também neste sentido.
É importante ressaltar que, no que diz respeito aos direitos das mulheres, todo o contingente feminino que compõe o setor mais explorado e precarizado não têm direito à creche e outros direitos elementares, como a própria licença-maternidade que acaba de ser aprovada obrigatoriamente por 6 meses pra todas as empresas. Mas as terceirizadas são demitidas quando ficam grávidas, então não têm esse direito. Neste sentido, os projetos de privatização da USP apresentados pelo governo Serra através de seu interventor Rodas, nosso Reitor, fazem parte desta ofensiva que busca retirar direitos, flexibilizar os contratos de trabalho e impedir que um setor importante de trabalhadores se organize politicamente. Não à toa esta ofensiva contra o direito de greve, uma forma efetiva de desmantelar a classe trabalhadora para poder privatizar e terceirizar os serviços públicos, aumentando diferenças salariais entre homens e mulheres e retirando os direitos das mulheres trabalhadoras, como as creches. Portanto uma das bandeiras fundamentais que devemos levantar é a exigência de efetivação imediata de todos os trabalhadores e trabalhadoras terceirizadas sem a necessidade de concurso público, já que a maior comprovação de que estão aptos a fazer o trabalho é o fato de já estarem trabalhando.
Retomar a luta pelas creches e ir por mais!
Hoje, portanto, a luta em defesa do direito de greve e contra a perseguição dos lutadores e lutadoras é fundamental para resistir a este projeto de privatização da universidade. Ao mesmo tempo, é necessário avançar na luta pela universidade a serviço dos trabalhadores e do povo pobre, impondo uma série de direitos, entre eles o direito à creche. É fundamental exigir que existam creches 24 horas em todas as unidades, para atender às diferentes jornadas de trabalho, que sejam 100% garantidas pela Reitoria. Essas creches devem englobar desde o berçário até o maternal, ou seja, até 6 anos de idade. Para isso, é necessária a construção de novas creches em todas as unidades e nas unidades que ainda não têm como Pirassununga, Lorena e USP Leste, e quando necessário a ampliação das creches já existentes.
Combinado a isso, precisamos exigir a contratação de funcionários efetivos (não terceirizados e nem precários) para atender a demanda real de crianças, sem que para isso seja necessário sobrecarregar com horas-extras os trabalhadores que já estão alocados nas Creches. Quanto a isso, devemos repudiar os 3 meses “de experiência” que na verdade são 3 meses “para o chefe decidir se vai com a sua cara” expondo os trabalhadores a todos os tipos de humilhação para “provar” que é um bom funcionário abrindo margem para discriminação às mulheres, negros e homossexuais.
Ainda que a Reitoria queira escondê-los não os publicando no Anuário Estatístico, os trabalhadores terceirizados existem, e são milhares, na sua maioria mulheres. Ao mesmo tempo em que exigimos a efetivação dos mesmos, exigimos a extensão imediata do direito à creche para todos os terceirizados, temporários, estagiários e informais da universidade. O acordo do final da greve de 2009 deve ser atendido imediatamente alterando a nomenclatura dos Técnicos de Apoio Educativos reconhecendo-os como professores e professoras de Educação Infantil.
Pelo piso salarial do DIEESE no valor de R$ 2.157,88 (tabela maio/2010) para que nenhum trabalhador tenha que ser obrigado a usar o auxílio-creche em detrimento do serviço da creche para complementação de renda. Repudiamos qualquer forma de assédio moral e perseguição política às trabalhadoras e trabalhadores das Creches que participam de greves. E chamamos a compor uma verdadeira organização de pais e mães das Creches, livres da tutela do Sr. Acauã (diretor da Associação de Pais e Funcionários das Creches) que consiga organizar de forma conseqüente toda esta luta, junto aos trabalhadores, estudantes e professores combativos.
Dentro e fora da universidade, a luta pelos direitos das mulheres trabalhadoras é fundamental. Na USP, acreditamos que conseguimos dar um exemplo de luta e combatividade impondo o pagamento dos dias em greve, num momento em que nacionalmente muitas categorias tiveram seus dias cortados. Mas esta foi apenas uma batalha, pois além da necessidade de barrar o projeto de universidade do governo tucano, há uma série de reivindicações que queremos arrancar com a força de nosso movimento. O direito a creche é um deles, pois diz respeito não somente a um direito elementar das mulheres, mas uma forma de livrá-las da opressão cotidiana em suas casas. É preciso retomar a luta pelas creches, diante da insuficiência escandalosa das apenas 563 vagas na USP, mas com a consciência de que temos que lutar por mais, exigindo lavanderias e restaurantes que de fato atendam à demanda da universidade, livrando as mulheres deste trabalho não remunerado que se configura na dupla jornada de trabalho, permitindo que as mulheres tenham tempo livre para cultura, diversão, arte, mas também para a luta, o sindicato e a militância.
[1] R$ 422,22 por dependente, para funcionários celetistas em jornada de 36, 40 ou 12x36 horas semanais, funcionários autárquicos em jornada Completa e para docentes em RDIDP; R$ 211,11 por dependente, para funcionários celetistas em jornada de 20 ou 30 horas semanais, funcionários autárquicos em jornada Parcial ou Comum e, a partir de 01/03/2010, para os docentes em RDP e RTC. Quem tem direito: Servidores técnico-administrativos e docentes, ativos ou afastados por motivo de saúde, com filhos ou crianças tuteladas ou legalmente adotadas, até 6 anos de idade, e que não estejam matriculados em Creche, Núcleo de Recreação Infantil ou Escola de Aplicação mantidos pela Universidade. O Auxílio-creche está relacionado ao dependente. Quando os seus pais - ou representantes legais - forem ambos servidores da Universidade, somente a um deles será cadastrada a relação de dependência. Da mesma forma, servidor com acumulação de cargo/função dentro da Universidade, terá direito a uma única cota por dependente. Informações retiradas do site www.usp.br/drh
[2] Um benefício que é fruto da luta de trabalhadores e trabalhadoras, pais e mães, o auxílio-creche vem sendo utilizado pela Reitoria como uma forma de substituir o direito à creche, já que o valor despendido com o auxílio-creche é inferior ao custo por criança na creche. Dessa forma, a Reitoria, para diminuir gastos, consegue transformar uma conquista em retirada de direitos, já que não se pode comparar a existência de creches com condições pra atender às crianças e um auxílio-creche que muitas vezes é utilizado como complementação de renda para os trabalhadores com salários mais baixos.
[3] “A implementação de creches nas universidades estaduais paulistas” Sueli Helena de Camargo Palmen.
sexta-feira, 18 de junho de 2010
O socialismo e a questão homossexual
Quando o escritor Oscar Wilde foi condenado a dois anos de trabalhos forçados, acusado de indecência por sua homossexualidade, as vozes dos socialistas se levantaram em defesa do poeta.
Em um artigo publicado em 1895, na revista Die Neue Zeit do Partido Social-democrata Alemão, Eduardo Bernstein – um de seus principais dirigentes – escreveu em defesa de Wilde que não podia perseguir a homossexualidade como algo anti-natural já que não há quase nada na atividade dos seres humanos que seja natural. “Toda nossa existência cultural, nosso modo de vida da manha à noite, é um constante atentado contra a natureza, contra as pré-condições naturais de nossa existência. Se se tratasse somente do que é natural, os piores excessos sexuais seriam tão censuráveis como, por exemplo, escrever uma carta – já que a forma de estabelecer a integração humana por meio da palavra escrita é tão alheia da natureza como qualquer das formas conhecidas de satisfazer as necessidades sexuais nunca poderia ser”. E, além disso, destacava que as opiniões sobre o que é natural ou anti-natural para os seres humanos são históricas, isto é, refletem o nível de desenvolvimento da sociedade. Também denunciou que considerar a homossexualidade como uma doença era outra forma de moralismo.
Dois anos mais tarde, em Berlim, o médico Magnus Hirschfeld funda o Comitê Científico Humanitário, cujo objetivo era a abolição da lei anti-homossexual alemã. Foram os deputados social-democratas os mais fervorosos inimigos dessa lei reacionária. Foi August Bebel – destacado dirigente do Partido Social-democrata Alemão – quem propôs revogá-la. Em 1919, Magnus Hirschfeld funda o Instituto de Sexologia, em Berlim, e em 1921 – quatro anos depois da Revolução Russa – organiza o primeiro congresso científico sobre sexualidade da história. Neste Encontro Internacional para a Reforma Sexual que reuniu cientistas de distintos países, as leis sobre homossexualidade da Rússia soviética, se colocaram como exemplo para todo o mundo. Contra a ordem estabelecida, o Partido Comunista Alemão defendia a igualdade para gays e lésbicas, enquanto os homossexuais eram perseguidos e discriminados. O próprio Hirschfeld, em várias ocasiões, foi agredido, sofreu uma fratura craniana e levou um tiro durante uma conferência.
A Revolução Russa eliminou todas as leis czaristas que reprimiam a homossexualidade e que eram “contraditórias com a consciência e a legalidade revolucionária”. Em 1923, um renomado médico de Moscou aprovava um novo código legal dizendo: “A legislação soviética se baseia no seguinte principio: declara uma total ausência de interferência do estado e da sociedade nos assuntos sexuais, sempre e quando não sejam afetados os interesses de nenhuma outra pessoa”.
quinta-feira, 13 de maio de 2010
Ciclo de estudos "As mulheres e o Socialismo" no ABC paulista. Participe!
29/05, sábado, das 10h às 17h Casa Socialista do ABC
Organização: Pão e Rosas
Apoio: Edições Iskra
Informações, bibliografia e inscrições, escreva para paoerosasbr@gmail.com
quarta-feira, 17 de março de 2010
Ibiúna, 1968: "Com muito orgulho e emoção revi minhas companheiras de luta! Muitas já se foram mas muitas continuam aguerridas na batalha..."
Um grande beijo da Bia.
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Apresentação do livro "Lutadoras. Histórias de mulheres que fizeram história" na Semana de Educação da Faculdade de Educação da USP
Para maiores informações envie um email paoerosasbr@gmail.comsegunda-feira, 26 de outubro de 2009
I Ciclo de estudos LUTADORAS na Casa Socialista do ABC: atuação e legado das lutadoras Flora Tristan e Louise Michel
Essa foi uma iniciativa que nos despertou muito mais interesse pela história dessas mulheres e que nos deixa com mais profundidade o legado de cada uma delas. A partir dessa atividade pudemos conhecer e nos apropriar dessas histórias e tomá-las como exemplo de luta de vida e de superação. No próximo período daremos continuidade ao ciclo.