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terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Mulheres deveriam receber mais do que os homens, segundo a OIT

Por: Flávia Ferreira


As mulheres, deveriam ganhar mais do que os homens, pois, mesmo com maiores níveis de escolaridade e produtividade do trabalho, recebem menos em relação aos homens.

Nesta última semana, foi divulgado recente estudo da OIT (Organização Internacional do Trabalho) sobre a situação global dos salários, que confirma em números, como o machismo se reflete na desigualdade de remuneração entre mulheres e homens, seja em países ricos ou pobres. Segundo o estudo, as mulheres, deveriam ganhar mais do que os homens, pois, mesmo com maiores níveis de escolaridade e produtividade do trabalho, recebem menos em relação aos homens. É mais um estudo de um órgão imperialista vinculado a ONU, que evidencia que o capitalismo não pode garantir nem ao menos o direito democrático de salário igual para trabalho igual.
Pelo estudo, as mulheres deveriam receber, no Brasil, um salário 11% superior ao dos homens. Mas, no país, as mulheres ainda ganham, cerca de 24% a menos que os homens para o mesmo trabalho. O levantamento aponta que as mulheres apresentam o trabalho mais rentável, mais produtivo para os capitalistas, mas recebem menos. Para a OIT, este é um problema global, até mesmo em países ricos e imperialistas como a Suécia e EUA. Neste último, a diferença de remuneração entre mulheres e homens é gritante, para cada 100 dólares recebidos pelos homens, as mulheres ganham apenas 64 dólares.
Na China, a remuneração das mulheres e dos homens deveria ser praticamente a mesma com um prêmio de “produtividade” de 0,2 por cento para as mulheres, ou seja, a produtividade das mulheres e dos homens no país asiático é quase a mesma. Mas as chinesas estão efetivamente recebendo 22,9 por cento menos do que os homens.
A Rússia, é o país que lidera o ranking do estudo da OIT com uma diferença salarial de 32,8% a menos de salário das mulheres em relação ao dos homens, se fossem receber pelo que produzem e por sua qualificação, receberiam um salário 11,1% superior ao dos homens.
É fundamental, que diante dessa realidade, a luta pela igualdade salarial entre mulheres e homens seja um combate efetivo e diário em todos os sindicatos, e não apenas mais uma campanha isolada do 8 de março, como faz a burocracia sindical. Deve ser parte da luta para que as mulheres estejam na linha de frente das batalhas de classe no movimento de trabalhadores.
Original: Palavra Operaria
XXXXX

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Para Além do 0%: As Condições de Trabalho e a Saúde do Trabalhador

por Marcela Johnson, estudante de Educação de Física da USP

      Nesses últimos dias fui convidada para participar de uma mesa, junto ao companheiro Pablito do SINTUSP e os companheiros do SESMT. Como estudante de Educação Física tive a oportunidade de socializar os meus conhecimentos com trabalhadores em greve da USP discutindo sobre saúde do trabalhador, foi uma grande experiência, pela primeira vez pude ver um pequeno germe de como poderia ser uma universidade que colocasse seu conhecimento a serviço da classe trabalhadora.
       Ouvimos vários casos de trabalhadores que perderam sua juventude e sua saúde na Universidade, companheiros que chegaram ao limite de tentar tirar suas próprias vidas pois não viam nada mais forte que o assédio moral das chefias.
         Acidentes de trabalho, restrições médicas e assédio moral fazem parte do cotidiano dos trabalhadores de uma das “melhores universidades da América Latina”, mas não só deles como de todos os trabalhadores de nosso país.
        Vivemos números de guerra, por ano são  2.503 mortes por acidentes de trabalho, ocupamos o quarto lugar no mundo nesse ranking, sem contar milhares de trabalhadores inválidos e até mesmo afastados por problemas mentais.
         Parto de uma concepção onde a Saúde não se refere só ao bom funcionamento do nosso corpo físico, mas também o psicológico e social. Vejo na verdade que devemos olhar para a saúde como um processo de saúde/doença onde existem vários fatores que vão determinar a sua situação, como moradia, alimentação, o trabalho, as relações sociais, a classe social, e etc.
      Sendo assim, é impossível fazer uma analise consequente sobre saúde do trabalhador por fora de colocá-la dentro da divisão social do trabalho de nossa sociedade, pois esse é o plano de fundo que determina muitos dos fatores que contribuem para essa relação Saúde/Doença.
        Nós fazemos parte de uma parcela da sociedade que só tem sua força de trabalho para sobreviver. Existe outra parte, os patrões e grandes empresários que se organizam para sugar a nossa força física no momento da vida onde temos melhor condição de produzir.
        Dentro dessa lógica todo o desenvolvimento tecnológico e de produção, ao contrário de estar a serviço do bem comum tem servido ao lucro. As máquinas não estão a serviço de auxiliar os trabalhadores para preservar sua força de trabalho, mas para conseguir retirar o máximo possível dela, aumentando a produção e o lucro.
        São os trabalhadores que pagam com sua saúde e sua vida pela ganancia dos patrões e quando entramos em uma crise, assim como a que a reitoria diz existir, pagamos dobrado para manter essas margens de lucro e de produção.
          Mesmo os trabalhadores da USP não estão fora dessa lógica, pois apesar de não existir a mesma lógica de LUCRO dos patões, reproduz a lógica de PRODUÇÃO em que todos os trabalhadores são mergulhados. Todas as medidas aprovadas pelo governo como o repasse de verba para educação, saúde, transporte e etc. Refletem no nosso cotidiano.
            Então para manter o funcionamento da universidade as reitorias jogam nas costas dos trabalhadores os prejuízos. E quando vemos um pequeno corte de orçamento, ou o congelamento de verbas para a educação, isso reflete não nas grandes pesquisas, financiadas por Fundações Privadas e grandes empresas, mas no cotidiano dos trabalhadores e no corte de serviços para a comunidade .
            Todas as medidas refletem no aumento da exploração real no nosso cotidiano, mais assédio moral para que trabalhemos ainda mais em situação cada vez mais precária, mais trabalho, menos contratações, mais terceirização e como consequência um grande prejuízo para a nossa saúde.            Para garantir resultados de produção nos rankings internacionais formamos dentro de nossa universidade um exercito de trabalhadores doentes.
            É preciso ficar bem claro que nenhum trabalhador é responsável pelos acidentes de trabalho nem pelas doenças adquiridas, tudo isso é culpa de uma divisão do trabalho desumana que pensa apenas na produção e não nas vidas que são responsáveis por produzir.
            Se a nossa força de trabalho é a única forma de garantir nosso sustento, é preciso levar uma forte luta por melhores condições de trabalho. Ou garantimos isso ou estaremos junto com milhares de trabalhadores que por perder sua condição física, não conseguem se quer vender a sua força de trabalho devido as suas restrições.

Terceirização

            Como observamos em todas as unidades as condições de trabalho são muito ruins para os efetivos, para os terceirizados a situação é muito pior. Com menos direitos, menores salários suas condições de vida são muito piores e pela sua vulnerabilidade são os primeiros a serem atacados com demissões e etc.
          Um exemplo disso é o José Ferreira, jovem negro, trabalhador terceirizado da Faculdade de Medicina morreu em acidente de trabalho.
            Silvana, trabalhadora terceirizada que dirigiu a primeira greve de terceirizadas dessa Universidade, depois de passar anos deixando toda a sua saúde para limpar os prédios, hoje não consegue arrumar emprego devido ao número de restrições que essa companheira adquiriu nesses anos de trabalho. Agora nem mesmo sua força de trabalho pode oferecer.
           Esses são pequenos exemplos do que sofrem esses companheiros e com a demissão de terceirizados em todas as unidades essa situação tende a piorar. Por isso também é nosso dever defender os postos de trabalho desses companheiros e avançar na luta para Efetivação de todos os terceirizados sem necessidade de concurso público.

As Mulheres Trabalhadoras

            Para as mulheres trabalhadoras, como se não bastassem as condições precárias no trabalho, ainda tem que aquentar a dupla jornada de trabalho. Chegam em casa, cuidam dos filhos, cozinham e lavam roupa, um segundo trabalho não remunerado que também gasta sua energia e sua força de trabalho.
            Esse trabalho essencial para garantir que os trabalhadores consigam estar todo os dias em seus postos de trabalho, por conta do machismo é feito quase que exclusivamente pelas mulheres. Isso significa que além do desgaste físico e psicológico no seu local de trabalho, as mulheres ao chegarem em casa ainda tem mais uma segunda jornada de trabalho que também interfere em sua saúde.
            É preciso lutar para que o Estado se responsabilize por esses trabalhos, que existam creches para que as mães possam deixar seus filhos para trabalhar, restaurantes e lavanderias públicos e isso só pode ser feito a partir da luta dos trabalhadores.
            Na USP temos vários exemplos de como a luta dos trabalhadores e trabalhadoras ajudaram a avançar também na luta pelo direito das mulheres. As creches na USP foram conquistadas pelos trabalhadores, nas greves do HU por muitas vezes direito elementares das mulheres foram conquistados e nessa greve não tem sido diferente, as companheiras do Centro Saúde Escola tem como uma de suas reivindicações nessa greve mais contratações de enfermeiras para conseguir dar conta das 800 mulheres que hoje estão na fila do papanicolau.

O Conhecimento

        Não podemos permitir que em uma universidade tão importante quanto a nossa o conhecimento continue servido para as grandes empresas, para pensar tratamento para os grandes craques do futebol enquanto centenas de trabalhadores apodrecem em suas máquinas de moer gente. É preciso uma universidade à serviço dos trabalhares, gerenciado não pelos burocratas donos das empresas terceirizadas, mas pelos que trabalham e estudam.
            Parte da luta acabar com as doenças criadas nos locais de trabalho da universidade é nos apropriar de todo o conhecimento produzido nas salas de aula e laboratórios dessa universidade para melhorar as condições de vida de cada trabalhador.
            Hoje o conhecimento da universidade está a serviço de acabar com a saúde de nossa classe, de nos explorar o máximo possível, de fazer mais lucro para as grandes empresas. Para nós esse tipo de conhecimento de nada serve, por isso a luta pela saúde dos trabalhadores deve abarcar também a luta por uma educação a serviço dos trabalhadores e do povo pobre, para que possamos formar pessoas capazes de responder ao nosso problemas.

Como Avançar Nessa Luta, o Exemplo de Zanon

            A experiência dos trabalhadores nos mostram que é possível se organizar e dar um fim às maquinas de moer gente, mas que para isso não existe cooperação com a classe que quer nos tirar a saúde, nem mesmo com os seus representantes.
          Na Argentina, os trabalhadores de Zanon ocuparam a fábrica ceramista e a colocaram para funcionar sobre controle operário e sem patrões conseguiram a partir da auto-organização produzir. Lá praticamente inexistem acidentes de trabalho e doenças ocupacionais.
            Nessa experiência estudantes se juntaram aos trabalhadores para junto pensarem quais as melhores formas de produzir sem serem guiados pelo lucro, mas pelas melhores condições de vida para cada um dos que trabalhavam ali. Contrataram mais trabalhadores e partir da sua experiência e do conhecimento dos estudantes construiu-se ali um grande exemplo para todos os trabalhadores.

Quem está afim de por o seu futuro na reta para tudo isso mudar?

          Por fim em meio ao debate uma trabalhadora abriu uma reflexão: “Quem está afim de por o seu futuro na reta para isso tudo mudar?”
        Fazemos parte de uma classe poderosa, que já derrubou patrões, governos e até mesmo os poderosos de países inteiros. Pode ter certeza que esses trabalhadores não fizeram isso sem medo, se por um lado entrar na luta pode significar sofrer derrotas, por outro, não lutar significa aceitar adoecer nos nosso locais de trabalho, aceitar que uma pequena camada de privilegiados é mais forte do que as massas que são oprimidas cotidianamente.
         A história nos mostra que só podemos confiar nas nossas próprias forças, que se existe uma classe capaz de mudar as rumos da história, de construir uma sociedade que não se balize na exploração, mas na socialização de toda a riqueza produzida, essa é a classe trabalhadora.
         Há pouco tempo atrás tivemos o grande exemplo dos Garis do Rio de Janeiro, que mesmo com a mídia, o governo contra eles não retrocederam, tentaram intimidar esses companheiro com a policia e a resposta que essa categoria deu a todos os que tentavam os atacas é que Não Tem Arrego! Esses trabalhadores acreditaram na força de sua classe e conseguiram apoio de várias categorias no mundo inteiro, quando seu ato passava pelas ruas do RJ viam papeis de apoio colado nas janelas, aplausos e até chuva de papel.
        Nesses anos de USP conheci grandes guerreiros, que não hesitaram em se organizar contra os ataques da reitoria e só governo, que já se enfrentaram com os chefes, com os diretores, com a reitoria e até mesmo com a policia. Estamos a mais de 40 dias em greve e não vão nos cansar, porque em nossa greve ainda ecoa o grito dos nossos companheiro de classe, os garis do RJ e para todos os que tentarem nos atacar responderemos: NÃO TEM ARREGO.
         Nossa luta é por melhores condições de trabalho e salário, mas também é a luta por uma universidade a serviço dos trabalhadores. Nossa vitória não é só da categoria, mas de toda a classe trabalhadora que poderá se fortalecer para novas lutas e é com muita garra e determinação que devemos avançar para que essa greve seja vitoriosa, mas também para que a luta pela vida dos trabalhadores avance a passos largos por todo o mundo!



domingo, 22 de junho de 2014

As outras mulheres do Mundial

Por Verónica Zaldívar, do Pan y Rosas da Argentina

Tradução de Odete Cristina, estudante de Letras e militante do Pão e Rosas USP


Era uma vez no Paquistão

“Brazuca” se chama a bola oficial do mundial; contudo as mãos que a fabricaram estão muito longe do país que faz honra ao nome. Em Sialkot, próximo da fronteira do Paquistão com a Índia, uma fabrica com 1400 trabalhadores elabora este componente vital da parafernália mundialista. Ali, mulheres cobertas dos pés a cabeça com seu vestuário tradicional, com o véu cobrindo suas cabeças, encarregam-se manualmente de alguns dos passos finais da fabricação dessa bola. Em Sialkot, como no Brasil ou Argentina, a precarização tem rosto de mulher. Uma trabalhadora de uma das muitas fábricas de elementos esportivos características desta cidade trabalha em media 10 horas por dia, por um salário muito menor que seus parceiros masculinos. 90% das trabalhadoras no Paquistão não tem nenhum tipo de contrato formal nem previdência social, e não é permitido que elas se filiem aos sindicatos. Neste país onde 25% da população vive abaixo da linha da pobreza, cada ano centenas de mulheres são assassinadas nos chamados “crimes de honra”, para salvar o “bom nome” da família por uma falta que haja cometido qualquer um dos membros, se condena à morte ou violação múltipla a uma das mulheres que a integram.

Enquanto isso, no país do Carnaval...

A 14.000 km do Paquistão, no Brasil, a propagandeada criação de postos de trabalho durante os governos do PT se baseou na precarização do trabalho e na terceirização, como na Argentina. A maioria dos postos precários foram ocupados por mulheres e jovens. No Brasil governado por Dilma Rousseff, uma mulher é assassinada a cada duas horas, e as violações são dezenas de milhares a cada ano. Com o Mundial se potencializa um dos aspectos mais sórdidos da violência contra as mulheres: a exploração sexual. Os meios de comunicação argentinos vem divulgando notas com tom “pitoresco” acerca de como “se preparam as prostitutas” para o Mundial, o qual além de chocante, acaba sendo aberrante quando se trata de um destino privilegiado do chamado “turismo sexual”. Calcula-se que umas 40 milhões de pessoas são prostituídas em todo o mundo, enquanto 2,5 milhões são vitimas do tráfico. Os analistas assinalam que o que torna mais vulneráveis as vitimas de tráfico e exploração sexual no Brasil, além da pobreza e das péssimas condições de vida de milhões, é a baixa pena para os exploradores. Existem redes mafiosas cuidadosamente armadas com participação de funcionários e forças repressivas, onde as pessoas são levadas através de certos pontos fronteiriços já conhecidos para estes fins, isso se não as explora no dentro do mesmo país. Para parte da imprensa tudo isso parece não ter a menor gravidade; “La Nación” publicou essa semana, por exemplo, que “ninguém está mais disposto a pôr toda a carne na churrasqueira que as prostitutas da Vila Mimosa, a 'zona vermelha' do Rio de Janeiro”1, voltando à sutil metáfora das mulheres como pedaços de carne em outros parágrafos. É de supor que assim se vêem também as mais de 250.000 meninas prostituídas no Brasil, cujo número aumenta a cada dia ao calor da chegada dos visitantes extrangeiros. 8 milhões de reais é o que investe o governo em programas para frear a prostituição infantil, uma cifra ridícula frente aos 1 bilhão e 800 milhões que foram gastos para os operativos de segurança para o Mundial.

Nenhum 'jogo bonito'

A realização do Mundial não fez senão piorar a situação de grandes setores da população do país, além de provocar a indignação pelo esbanjamento e as negociatas em torno do evento. Enquanto o governo gastou 15 bilhões de dólares no Mundial, uma em cada quatro pessoas sobrevive com um salário-mínimo de US$310, quatro vezes menos do que custam algumas entradas para o evento. Os preparativos já vêm de muito tempo e incluíram a militarização das cidades onde haverá jogos, o despejo violento de mais de 150.000 habitantes dos bairros mais pobres e a morte de operários da construção pelo aceleramento das obras, a pedido da FIFA. Enquanto a Adidas fabrica bolas no Paquistão aproveitando a mão de obra barata, é uma das multinacionais que se beneficia com os US$ 680 milhões em isenções de impostos no Brasil. Mas o governo do PT não está saindo por cima: “o povo 'alegre e passivo' brasileiro foi substituído por um povo lutador, um povo de reivindicações e sonhos que nem sempre cabem no futebol e nas telenovelas”2. Rodoviários, garis, petroleiros, bancários, aeroviários, a comunidade da USP e os metroviários de SP estão entre os setores que vêm entrando em lutas duras por suas reivindicações, demonstrando que junto aos milhares de manifestantes nas ruas, não vão se deixar ofuscar as vistas pelos fogos de artifício de nenhum espetáculo.

1 “Como las selecciones, las prostitutas de Río ya tienen todo listo para jugar su propio Mundial”, La Nación, 10/06/14.

2Iuri Tonelo, “Brasil: el gigante entra a la cancha”, Ideas de Izquierda 10, junio 2014.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Boletim Pão e Rosas - Especial Metroviárias



Não podemos aceitar operar um trem e trabalhar nas estações com mulheres sendo assediadas!

          A realidade da violência contra a mulher e estupros no nosso país é gritante. São mais de 50 mil mulheres estupradas por ano e uma média de 5 mil mulheres mortas. Contando com as que não denunciam por medo, vergonha ou por desacreditar da polícia, que na maioria dos casos comprem um papel de humilhá-la ainda mais (até mesmo nas Delegacias da Mulher), os números são ainda piores. Essa discussão ficou evidente pela pesquisa publicada pelo IPEA, que divulgou um dado de que 65% dos entrevistados concordavam com a frase “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”. Posteriormente, assumiram o erro e divulgaram o dado correto de 26%, que não deixa de ser um número alto. Também ganhou destaque o assédio nos transportes depois da propaganda do Metrô e do governo do estado de SP que dizia que “o trem cheio é bom porque dá pra xavecar a mulherada”. O que eles querem é justificar os assédios, justificar o machismo e tirar o foco da responsabilidade que têm por conta da superlotação.
            O Metrô de São Paulo está no olho do furacão. Somente este ano já foram registrados cerca de 20 casos. Nós, trabalhadoras e trabalhadores do Metrô, não podemos aceitar trabalhar em estações ou operar trens normalmente, enquanto tem mulheres sendo assediadas ou violentadas! Por isso nós do Pão e Rosas interviemos no Seminário da Campanha Salarial do Metrô propondo uma verdadeira campanha contra o assédio sexual. Achamos que trabalhadores e trabalhadoras do Metrô podem, junto com a população usuária, fazer efetivamente diferença para dar um basta nessa situação!
            Lutamos para que a Secretaria de Mulheres do Sindicato dos Metroviários elabore, junto às metroviárias e usuárias, uma ampla campanha com fotos, cartazes, vídeos e painéis, além de um anúncio sonoro nos vagões contra o assédio. Que o Metrô disponibilize espaço na TV do trem e nos painéis publicitários para esta campanha. E nós, operadores e operadoras de trem e funcionários das estações, devemos emitir esse anúncio, deixando claro que os metroviários estão do lado das mulheres no combate à violência, chamando a que as mulheres denunciem os casos para a secretaria de mulheres do sindicato e denunciando a responsabilidade do governo e da empresa. Devemos lutar por comissões de metroviárias e usuárias a partir da Secretaria de Mulheres do Sindicato dos Metroviários para apurar os casos de assédio e exigir punição dos agressores. As mulheres violentadas ou assediadas devem ter direito a licenças remuneradas no trabalho e assistência financeira garantida pelo Metrô, com tratamento físico e psicológico!
                 Acreditamos que essa é a forma de colocar as metroviárias e metroviários em ação, buscando fazer a diferença na luta contra o assédio e se aliar a população usuária, em especial às mulheres. Nada a ver com a política do PSTU (em nome do Movimento Mulheres em Luta) de distribuição de alfinetes, que não à toa perdeu a votação no Seminário da Campanha Salarial do Metrô, já que os trabalhadores não consideram que se trata de uma campanha efetiva ou a política também defendida pelo PSTU da implantação dos vagões exclusivos para mulheres nos horários de pico, uma medida que segrega a mulher, naturalizando a situação de assédio.
                 Chamamos todos que tem acordo com a perspectiva que apresentamos aqui a se somar na luta cotidiana contra a opressão às mulheres!


 Lutar pelas demandas das trabalhadoras terceirizadas nessa campanha salarial!

Recentemente, as trabalhadoras da Higilimp (limpeza da L1 Azul) se organizaram e fizeram uma grande campanha nas eleições da CIPA, com apoio dos Metroviários pela Base e do Pão e Rosas. Conseguiram eleger uma bancada da CIPA que pela primeira vez não tem nenhuma representante direto da empresa, o que representa um novo passo no sentido da luta contra as condições de trabalho semi-escravas que essas trabalhadoras estão submetidas! Nós do Pão e Rosas defendemos que, além de nossas demandas e das demandas dos usuários, devemos defender também as demandas das trabalhadoras terceirizadas (maioria mulheres) nessa campanha salarial para fortalecer ainda mais essa luta!
- bilhete de serviço para todos os terceirizados do Metrô!
- Pagamento do VA para as trabalhadoras da Higilimp!
- Plano de saúde para os terceirizados! Que qualquer atestado seja aceito pelas empresas e que não tenha nenhum desconto por falta justificada!
- Licença maternidade de 6 meses para as terceirizadas!


É só uma piada?!
 
            Por meio de declarações feitas por pessoas que participaram de treinamentos oferecidos pelo metrô, sabemos que há instrutores fazendo colocações machistas, racistas e homofóbicas. Israel Cravo, instrutor do treinamento de bilheteria, é um deles e, não à toa, foi e é alvo de muitas reclamações vindas de pessoas que se sentem ofendidas e desrespeitadas por seus comentários. Quando questionado sobre o caráter preconceituoso do que diz, este instrutor afirma que está apenas fazendo brincadeiras e piadas “inofensivas”.
             Há muito tempo ocorrem casos de abuso sexual no metrô de São Paulo e percebemos que ao invés de promoverem discussões críticas sobre o assunto, contribuindo para que haja a compreensão de como essa situação é humilhante e agressiva às vítimas, alguns instrutores reforçam e perpetuam preconceitos através de suas observações e “piadas”.
          No Brasil, 15 mulheres são mortas por dia, uma a cada uma hora e meia. Negros são assassinados três vezes mais do que brancos e um homossexual é morto a cada 28 horas no país, sendo que 44% de todos os casos letais de homofobia do planeta ocorreram aqui.
            Não deve haver nenhum espaço para comentários e piadas preconceituosas no treinamento do metrô de São Paulo. Este comportamento deve ser completamente repudiado e combatido, pois reproduz e perpetua graves preconceitos e, sendo assim, contribui para que pessoas continuem sendo desrespeitadas, excluídas, agredidas e assassinadas.
         Por tudo que foi colocado, exigimos a retirada do instrutor Israel Cravo do treinamento de bilheteria! Já houve inúmeras reclamações sobre a postura preconceituosa deste instrutor e não existe justificativa para que ele continue dando o treinamento. É urgente que uma pessoa que respeite as diversidades humanas assuma este treinamento! Estaremos atentas a qualquer comportamento e colocação preconceituosa.
            Há, além disso, o anúncio de que o metrô conta com mil agentes de segurança treinados para receberem as vítimas de assédio sexual. No entanto, sabemos que esta é uma propaganda enganosa! O metrô não oferece treinamento para que os funcionários saibam lidar de maneira adequada com essa situação e assim, além de fazer com que a vítima não tenha o acolhimento necessário, a empresa coloca os funcionários em uma posição delicada ao terem que enfrentar uma realidade para a qual não foram preparados.
          É imprescindível que o metrô forneça um treinamento voltado para o atendimento às vítimas de opressão, com participação das secretarias de mulheres e de negros do sindicato.
Todxs merecem dignidade e respeito!

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Venha junto com o Pão e Rosas ao Lançamento da Cartilha sobre Violência contra a Mulher do Movimento Mulheres em Luta!
Dia 10/05, a partir das 14h, no sindicato dos Metroviários!

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GRANDE LANÇAMENTO do livro A MULHER, O ESTADO E A REVOLUÇÃO!
Inédito em português!
Com a presença da autora, a historiadora norte-americana Wendy Goldman e também Andrea D’Atri (autora do prefácio da edição Argentina e dirigente do Pan y Rosas Argentina), além de Diana Assunção (autora do prólogo à edição brasileira e dirigente do Pão e Rosas Brasil)
Dia 20 de Maio em São Paulo!


domingo, 26 de maio de 2013

Pelo pleno direito à liberdade de nossos corpos e vidas!

Panfleto escrito pelo grupo de mulheres Pão e Rosas junto à independentes, para a Marcha das Vadias de Belo Horizonte.

Pelo pleno direito à liberdade de nossos corpos e vidas!
“A igualdade perante a lei não é ainda a igualdade perante a vida.” [Lenin]

Ainda que hoje vivamos em um momento histórico onde existe igualdade jurídica entre homens e mulheres, essa igualdade não garante às mulheres os mesmos direitos. O direito de decidir pelo próprio corpo lhe é negado, assim como sua autonomia. O direito de escolher como se vestir, como, com quem e quantas pessoas se relacionar, o direito de decidir como, quando e se quer ser mãe, são liberdades castradas das mulheres, que sofrem com assédio sexual, estupros, além da ilegalidade do aborto, que clandestino mata milhares de mulheres anualmente. Nesse sentido, a Marcha das Vadias traz essa discussão, colocando na pauta a importância do combate contra o machismo, a opressão às mulheres, e o direito ao corpo e de exercer livremente a sexualidade.
                Nós, do grupo de Mulheres Pão e Rosas e estudantes independentes, acreditamos, porém, que o preconceito e a opressão não são ideias abstratas que pairam no ar, mas possuem raízes concretas na construção da sociedade tal como é hoje, por dentro do atual sistema em que vivemos.
                Hoje, as mulheres ocupam mais postos de trabalho, porém são os postos mais precários, como os terceirizados, ligados à limpeza e alimentação, sem direitos e garantias. Ainda que todas as mulheres sofram opressão, existe uma significativa diferença entre a patroa e a empregada: a exploração e a opressão são, antes de mais nada, de uma classe sobre a outra. Por isso, a mulher trabalhadora, em sua maioria negra, além de pertencer à classe mais oprimida é duplamente explorada, pois é responsável também por todo serviço doméstico, criação dos filhos, além de trabalhar precariamente por salários de miséria, o que gera a dupla jornada de trabalho, que nada mais é do que iniciar um novo dia de serviço após o serviço feito fora de casa. Além de serem as que possuem menos condições de decidirem sobre a maternidade, não podendo realizar um caríssimo e ilegal aborto seguro, nem tendo acompanhamento médico pré-natal necessário.
                As tarefas domésticas realizadas pelas mulheres são necessárias à manutenção da vida e de todos trabalhadores e, portanto, necessárias ao patrão que precisa de seu funcionário alimentado e com a roupa limpa. Tais tarefas são realizadas gratuitamente pelas mulheres que, com o trabalho dentro e fora de casa, chegam a realizar jornadas de 80h/semanais de trabalho. Isso coloca a mulher na situação de não ser apenas a mão-de-obra necessária à produção e lucro capitalistas enquanto trabalhadora, mas também a agente da manutenção dessa mão-de-obra, sendo a dona de casa que sustenta as condições de vida dos trabalhadores.
                A luta contra a opressão deve vir combinada da luta contra a exploração, pois o corpo da mulher somente será livre quando estiver livre também dos tanques, fogões e patrões. Por isso, esse trabalho necessário à manutenção do Estado deve ser garantido pelo Estado, com lavanderias, restaurantes e creches públicas. Além disso, mais do que lutar pelo direito ao aborto, devemos nos colocar pelos direito ao aborto livre, seguro e gratuito, garantido pelo Estado, além de educação sexual de qualidade e não heteronormativa nas escolas, e contraceptivos gratuitos e de qualidade em todos os postos de saúde. Para a mulher que decida ser mãe, a garantia de sua maternidade, com acompanhamento pré-natal e parto seguros e gratuitos, além de creches públicas em período integral.
                Hoje, estamos no terceiro ano da presidência de uma mulher, o que em nada significou avanços e conquistas para as mulheres, senão ataques às mesmas e a todo conjunto dos trabalhadores. Para se eleger, Dilma trocou o direito ao aborto, direito democrático das mulheres, por votos dos setores evangélicos, com sua Carta ao Povo de Deus. Lula, ao fim de sua presidência, assinou o Acordo Brasil-Vaticano, que dá privilégios à Igreja Católica, o que significa mais legitimidade para mais ataques às mulheres e LGBTTIs. E é esse governo petista de Lula-Dilma que garante e legitima que um racista e homofóbico como Marco Feliciano assuma a presidência justamente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias.
                Chamamos todas as mulheres – e homens – a se levantaram no combate cotidiano às opressões, pois não basta buscar conscientização e convencimento apenas. É necessário se organizar e se aliar à classe trabalhadora, único sujeito capaz de travar a luta concreta contra a exploração e opressão, pois apenas lutando contra a dupla jornada, a precarização do trabalho, os salários inferiores e todas as condições das quais emanam a ideologia opressora de que as mulheres possuem menos direitos, podemos ter direito a nossos corpos e vidas.

“O proletariado não alcançará a emancipação completa se não for conquistada primeiro a completa emancipação das mulheres.” [Lenin]

- EDUCAÇÃO SEXUAL PARA NÃO ENGRAVIDAR. CONTRACEPTIVOS GRATUITOS E DE QUALIDADE PARA NÃO ABORTAR. ABORTO LEGAL, LIVRE, SEGURO E GRATUITO PARA NÃO MORRER!
- POR RESTAURANTES, LAVANDERIAS E CRECHES PÚBLICAS E GARANTIDAS PELO ESTADO!
- PELA ALIANÇA ENTRE ESTUDANTES E TRABALHADORES, NO COMBATE À OPRESSÃO, EXPLORAÇÃO, E A MISÉRIA DA VIDA!

Pão e Rosas e Independentes

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Pão e Rosas - Campinas chama à conhecer!

"Gênero, sexualidade e a precarização do trabalho"

Reunião na Unicamp - IFCH - Sala IH-08
04/04 - às 17h30



Apresentação do grupo de debate "Gênero e Marxismo"

Diana Assunção, dirigente da LER-QI e fundadora do grupo de mulheres Pão e Rosas, participa da apresentação do grupo de debate  "Gênero e Marxismo", em Barcelona, no Estado Espanhol, dia 04 de abril.


Estarão presentes: 
Diana Assunção, diretora do Sindicato dos Trabalhadores da Universidade de São Paulo (Sintusp) do Brasil e militante do grupo de mulheres Pão e Rosas; que organizou o livro, recentemente editado, “A pracarização tem rosto de mulher”, baseado na luta das trabalhadoras terceirizadas da limpeza na Universidade de São Paulo, do Brasil.
Maria Moreno, operária têxtil da “Terrassa vermelha” desde os anos setenta, que em 1996, junto aos trabalhadores ocuparam a fabrica quando o patrão quis fechá-la. 

Vejam abaixo a entrevista de Maria:


Vozes e relatos da luta das operárias nos anos 70’.Entrevista com Maria Moreno, operária textil de Terrassa



Queremos dedicar este 8 de março às mulheres trabalhadoras que durante as décadas de 60 e 70 no Estado Espanhol protagonizaram uma luta incessante contra a exploração do trabalho, quando ser mulher, operária, imigrante, significava lutar numa situação “diferenciada” dentro de um potente movimento operário em seu auge. Estas perigosas mulheres, enquanto lutavam contra a ditadura patronal, questionavam um Regime ditatorial em suas formas mais misóginas[1]. Porém, num contexto de transformações econômicas sob um processo de industrialização no qual o trabalho feminino estava se reconfigurando: entre 1950 e 1975, o número de mulheres assalariadas aumentava, ao mesmo tempo que outras eram obrigadas a abandonar o trabalho quando tinham filhos. É assim que os conflitos trabalhistas femininos se chocavam com todo um aparato legislativo, educativo e institucional, os quais, junto ao grande peso da igreja, impuseram uma ordem patriarcal que proporcionou às mulheres um destino absolutamente determinado pelo biológico, sob os valores “cristãos e espanhóis” cujo papel obrigatório era submeter-se à tutela dos homens junto à restauração da família como berço do Novo Estado franquista.

Estas perigosas trabalhadoras, neste caso as texteis, teceram os fios de uma potente história. Uma história de grande atualidade para este século submerso numa grande crise, de enorme retrocesso social e dos direitos da maioria das mulheres. E nele que não soa estranho lutar por “igual trabalho, igual salário”, contra a discriminação no trabalho, contra a dupla e, às vezes, tripla jornada de exploração e opressão, lutar contra isso é lutar contra esse sistema patriarcal tão íntimo amigo do sistema capitalista. Queremos expressar estas experiências através da história de Maria Moreno, que chegou a Terrassa (Catalunha) em 1967 com 17 anos vinda do sul da Espanha, de Córdoba, para trabalhar como operária textil. Trabalhou mais de 35 anos na fábrica Hilaturas Castell, lutando incansavelmente, se organizando com suas companheiras, e no ano de 1996 até ocuparam a fábrica para recuperar os postos de trabalho e colocaram-na a produzir sob controle das operárias.
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Quando da casa para a fábrica as mulheres tornam-se perigosas

Maria era parte dassas milhares de mulheres que, como sua mãe, também operária têxtil, vinham dos povos do sul da Espanha: eram os tempos de grande afluencia de correntes migratórias das regiões mais agrárias para os centros industriais de Madri, Catalunha, País Basco e Astúrias. “Cheguei aqui e comecei a trabalhar no setor têxtil, na fábrica Hilaturas Castell, trabalhei 35-36 anos até que fecharam. Minha mãe trabalhava nesse setor também, na fábrica Torra de Neira. Mal cheguei e entrava às 4:20 da manhã para trabalhar todos os dias menos os domingos, era horroroso, eu vinha de um pequeno povoado, mudou minha vida totalmente. Eu me lembro que dentro da fábrica, com o ruído tão grande que havia, só pensava em cantar canções de meu povo para que não se esquecessem de mim, foi um choque muito forte. Nós imigrantes passavamos muito mal onde quer que fossemos...”

Logo Maria recuperará forças nos convulsivos anos da “Terrassa vermelha”, onde as fábricas têxteis eram muitas, num momento em que a incorporação da mulher ao trabalho assalariado significou uma mudança  de grande transcendência no papel social da mulher. Em Catalunha, a industria têxtil havia sido a mais avançada da economia. Esta se baseava na mão de obra feminina intensiva: em 1968, em todo o Estado as mulheres ocupavam 75% da mão de obra da indústria textil com um grande peso na Catalunha. Então, todas as mulheres de Terrassa em idade de trabalhar estavam metidas no setor têxtil. Havia fábricas muito grandes como Torra de Neira que era um monstro de fábrica, a Anônima, Castell... O setor têxtil teve uma luta histórica em Terrassa, sempre, porque havia muitos trabalhadores. Esta mão de obra feminina gerou uma grande confitividade feminina também. Na indústria têxtil de Maresme, Barcelonés ou Vallés Ocidental entre finais dos anos 50’ e 60’ surgiram conflitos nos quais se juntavam jovens trabalhadoras imigrantes com outras mais maduras, com experiência de trabalho industrial e, às vezes,  de conflitos de décadas anteriores.

Quando Maria chegou, logo seu sentimento de nostalgia é substituido pelo de rebeldia, quando conheceu as “folloneras”[2]“Na fábrica havia um grupo de jovens mais velhas do que eu e quando entrei me apresentaram outras companheiras como  “folloneras”, e disseram que não me juntasse à elas porque sempre causavam probemas e então eu disse: aí não me inclino. Depois fui me unindo às “folloneras” porque ainda que eu não tivesse noção de nada, eu as via mais companheiras. Porque se estávamos fazendo cones, e eu tinha que fazer 50 kg de fio e ao final do dia eu fazia 49kg, me tiravam dinheiro. As “malvadas”, as “folloneras”, quando se deram conta que eu não alcançava a meta e que podia reduzir meu salário, me ajudavam, jogavam cones que elas faziam na minha caixa. Aí comecei a ver que as más não eram tão más... e claro, começaram a lutar pela igualdade entre todas as trabalhadoras. Fui me dando conta de todas essas coisas e cada dia fui me unindo mais a elas...”

Maria era parte dessa nova geração de mulheres que, como um motor impossível de parar, enquanto se enfrentavam com a patronal por seus direitos trabalhistas, estavam se enfrentando sem saber com o modelo de mulher franquista que havia sido imposto durante mais de três décadas, a mulher submissa, decente, “anjo do lar”, e como ela mesma disse “católica, apostólica e romana”. “Claro, eu vinha de um povoado com uma vida tranquila e quando cheguei a Terrassa, meu pai me disse ‘Maria sozinha em Barcelona, mantenha um forte vínculo, hein?’ porque em Barcelona as coisas não eram tão tranquilas, meu pai me prendia tão forte que um pouco mais me asfixiaria! Dizia-me ‘você tem que trabalhar e manter a boca calada’. Mas eu fui desfazendo os vínculos... em frente da fabrica havia um convento. E o gerente da empresa cada dia ia a missa e depois entrava na fábrica e eu no início pensava que bom este senhor... Mas logo, pouco a pouco, fui me dando conta que não... Tínhamos umas máquinas com 300 pinos enormes, barulhentas. Então, na fábrica têxtil o gerente, o mordomo, o chefe de pessoal, por qualquer dinheiro nos vigiavam. E houve um momento que eu me apoiei por um segundo na parede porque sentia muita dor, porque estava menstruada, e nessa hora passou o senhor que ia todos os dias na missa. E veio o encarregado e me disse ‘Que está acontecendo Maria, está passando mal?’. E, claro, disse que não, também porque nesse momento era um tabu falar que estava menstruada. E o encarregado me contestou ‘Bom, só te digo uma coisa, se estiver passando mal, vá pra sua casa, porque seu descanso custa dinheiro ao dono’. Chorei duante três dias até que me senti aliviada. E assim fui tendo consciência, pouco a pouco, de que se um respiro custava dinheiro ao dono, eu queria seguir respirando, lhe custando ou não, queria seguir respirando com mais liberdade da que até agora tive. E comecei a lutas e me senti muito melhor. E, claro, deixei de ser católica, apostólica e romana.

Lembro-me quando veio uma monitora, se dirigia a mim porque eu já não era a menina de antes e estava com as folloneras, queria me fezer limpar seu espaço que era uma mesa com uma papelada. E eu lhe disse não, você vem limpar minha máquina? Então me sancionaram, três dias sem pagamento. Mas no segundo dia, minhas companheiras me meteram dentro da fábrica e eu me coloquei a trabalhar... Ao final do mês me faltavam três dias! Mas entre todas as companheiras cada uma deu um pouquinho e completou o que faltava. E a partir daí eu disse não sou mais tonta nem mais cristã...”

Homens, eram os encarregados, os pesadores e... os chefes de pessoal. Na máquina, eram todas mulheres...

Começava a nascer uma militância operária feminina vinculada diretamente às condições de trabalho. Conscientes ou não, da própria experiencia as levava a questionar os valores conservadores da instituição familiar e sua reprodução na vida pública e no trabalho. Chocavam contra um imaginário coletivo de crenças negativas – baseadas na diferença sexual de natureza universal e inevitável – sobre as mulheres que anulavam assim suas potencialidades para alcançar a igualdade. E desta maneira se justificava a grande discriminação no trabalho e no salário: em 1963, o salário/hora medio das mulheres na industria alcançava 80% dos salários masculinos, mas em 1971 havia piorado para 75%. A luta por “igual trabalho, igual salário” estava na ordem do dia. Maria, como muitas mulheres, começou a “descobrir” que a luta das mulheres operárias tinha suas próprias reivindicações. “Naquele tempo, sinceramente eu e as correntes feministas não percebíamos isso. Não, entre outras coisa, porque eramos todas mulheres e, naquele momento, não se tinha consciência da desigualdade da mulher. Mas sem saber, eu já era feminista, eu já estava trabalhando para as reivindicações das mulheres, não? Dei-me conta disso mais tarde quando vi que pagavam mais aos homens do que às mulheres, eles tinham mais tempo, eram vistos de outra maneira, ninguém os controlavam. E nós, as mulheres, sim! Se íamos ao banheiro e demorávamos já nos controlavam. Homens eram os encarregados, os pesadores e logo eram os chefes de pessoal. Na máquina, eramos todas mulheres... Uma vez nós montamos uma porque queriamos ser pesadoras, por que não podíamos? Se não tinha que carregar nada? Eram carros com rodas. Dizíamos: nós sabemos pesar, apontar o peso. Por que nos colocam em locais, segundo eles, mais inferiores? E logo você se dá conta que se não há quem faça os fios, não pode haver pesadores. Mas isso fomos descubrindo aos poucos e assim começamos a lutar por igualdade salarial, e prontamente começaram a nos atacar dizendo ‘estas mulheres sempre igual!’ Então você se dá conta de que falta algo quando quer reivindicar a igualdade nas condições de trabalho...”

Novas organizações operárias: as comissões de mulheres

As mulheres em luta se dotaram de organizações: as comissões operárias, habituais nas fábricas têxteis, formadas apenas por mulheres e por fora do sindicato vertical, que negociavam e lutavam com a patronal, as forças policiais e com funcionários da OSE. Estes foram os antecedentes do que logo serão as comissões operárias: “começamos a lutar por horas para comer, para trabalhar menos horas e conseguimos 8 horas e não trabalhar aos sábados. Para que houvesse vestiarios e pias em boas condições, não havia refeitório. Éramos 200 trabalhadoras, maioria mulheres e lutamos com muitas greves e paralizações. Tínhamos nossas assembleias e nossos próprios comitês, antes de se formar o sindicato de Comissões Operárias, o sindicato era vertical nesse momento, fazíamos as coisas por fora da fábrica, e nas assembleias decidíamos tudo o que teríamos que fazer dentro da fábrica. Realizávamos reuniões, mas não no sindicato, mas em um local que tínhamos em Terrassa. Nos reuníamos em grupos de trabalhadoras de diferentes fábricas, também vinham estudantes. Mas, claro, essas reuniões eram clandestinas. Eu me lembro a primeira vez que me chamaram... E um dia, e outro, e punições, claro! A que mais se atrevia era punida. Naquele tempo havia uma repressão muito grande. Mas tudo conseguimos com luta.”

Nos anos 70, começava a crise do setor têxtil da lã, onde se deram a maioria dos conflitos e inumeráveis mobilizações e greves contra os fechamentos e demissões. É assim, em uma situação convulsiva e de questionamento do regime e em meio a uma mudança de geração com a incorporação de jovens trabalhadoras, que nascem as comissões operárias junto ao ativismo e à militância de esquerda: “quando as comissões já haviam sido legalizadas, os encarregados de quando eu entrei já haviam ido embora pois eram mais velhos. Foram entrando pessoas novas que se filiavam às comissões e eram de nosso grupo. Então a empresa mudou, tanto, tanto, que fazíamos greve por tudo. É que chegamos a 90% de filiação às comissões operárias... Em todo esse processo, as mulheres, ainda que poucas, começaram a ser delegadas dentro das comissões operárias.” Quando Maria foi delegada, de nove delegados, três eram mulheres: “e quando vieram as eleições sindicais em 77-78, me elegeram como delegada sindical. As coisas eram muito diferentes de agora nas comissões.  Quando se propunha algo na fábrica, era realizada votação, logo chamavam a assembleia geral de comissões e se fazia o que era decidido na base. Logo, rara era a semana que não havia um curso de formação sindical...” Maria lamenta, com dor e raiva, o que são os sindicatos agora das Comissões Operárias.... “então, claro, aquilo sim que era meu sindicato naquele tempo.”

Quando fazíamos greve, a fazíamos por todas as nossas reivindicações, mas também em solidariedade com todos os que lutavam...

María nos contava como se coordenavam e se solidarizavam com as demais fábricas: “Se, veja, se em Madrid, por que naquele momento eram os cinzentos, espancassem uma pessoa, nós parávamos. No País Basco teve uma greve muito grande, nós paramos um dia... Quando a Seat, a AEG, faziam greve, nós sempre fazíamos também. Quando nós fazíamos greve, a fazíamos por todas as nossas reivindicações, mas também em solidariedade com todos os que lutavam. E para não nos enfrentarmos com nossos próprios trabalhadores, para fazer os piquetes nós mudávamos de fábrica ou distribuíamos panfletos na hora da refeição. Também como se organizavam contra a repressão, como as mulheres sempre estavam dispostas a fazer o impossível para liberar todos os presos. Nas comissões de trabalhadoras, era normal perceber que as mulheres não sofreriam retaliação de forma tão imediata como os homens. Naquele tempo, havia muita repressão, apanhavam muitas pessoas, então nós mulheres fazíamos caixas de resistência quando havia companheiros presos, e os torturavam. Nas manifestações havia repressão também contra as mulheres, porém era mais contra os homens. Os cavalos nos tiravam. Lembro-me do toque de recolher em Terrasa...”

A ocupação de fábrica: “As máquinas agora são nossas... e vimos que se podiam manter os postos de trabalho...”

María nos conta seu último ano na fábrica, passados 35 anos, quando e por que decidiram ocupar a fábrica e colocá-la para produzir: “Havia rumores de que a fábrica estava em crise... Então pedimos que viessem os economistas das comissões, fizeram um estudo e viram que havia uma grande fraude. E começamos a denunciar a situação, até que quando voltamos de férias, em 12 de outubro, se fechou. Houve um domingo em que uma de nós viu como tiravam coisas de um caminhão. Na segunda, quando chegamos ao armazém e haviam tirado um carregamento, fomos até a direção, pedimos explicações e nos disseram que estavam fechando. Voltamos à fábrica, contamos às trabalhadoras, e logo se formou um protesto...! Vieram as comissões, fizemos assembleia e decidimos que, como havia muito trabalho, as máquinas estavam cheias de trabalho(!), dissemos então que iríamos seguir. Um dia, se apresentam para desalojar a fábrica, com a polícia e a juíza. Nós sabíamos, e estávamos todas as mulheres na porta e os homens atrás. E dissemos a eles: daqui não sairemos, se quiserem nos colocar para fora terão que fazer, mas à força e nos matando. Porque se não vamos poder dar de comer a nossos filhos, então nos mate, e já estão nos matando. E a juíza não colocou resistência nenhuma, nos olhou, olhou para a polícia, e se foram. Desde aquele dia dizíamos, depois de uma assembleia de todas as trabalhadoras e do comitê: aqui há trabalho e ficaremos trabalhando. Primeiro quisemos fazer uma cooperativa, mas não poderíamos, pois teríamos que pagar uma dívida que não era nossa; além do que não tínhamos dinheiro. Porque, claro, como o dono se declarou em crise nós não tivemos indenização depois de 35-40 anos de trabalho ali! Passamos todos ao fundo de garantia. Havia muitos produtos e os armazéns estavam cheios. Então dissemos: as máquinas agora são nossas, aqui ninguém vem leva-los. Então poderíamos vender os gêneros e vimos que se podia manter os postos de trabalho. Estivemos sete meses em ocupação, fizemos três turnos: Manhã, tarde e noite...”

E se hoje ocuparmos as fábricas que fecham?

María nos conta como foram esses meses: “a maioria éramos mulheres. Foi uma grande experiência, ainda que muito difícil. Cortaram a luz, o gás e os credores vinham e nos insultavam e nos cobravam as dívidas. E respondíamos, não, aqui os primeiros credores são os trabalhadores, nós não cobramos nada. Mesmo comtudo isso, ficamos sete meses com a fábrica ocupada. Conseguimos vender tudo e, ao menos, pagar todos os salários que os donos nos deviam e seguir trabalhando esses meses. Mas foi muito duro manter a ocupação. Mas creio que, no final, tudo o que fizemos foi pensando nos demais, mostrando que fazíamos por todos e não por nós mesmos. E as pessoas responderam muito bem, se solidarizaram conosco, faziam guarda, até celebramos um natal ali na fábrica com gente de todos os locais, tecíamos gorros e lenços para eles... Ainda que não alcançamos tudo que queríamos, foi muito bonito também. “

Maria já conhecia muito bem a experiência da fábrica de Zanon na Argentina, ocupada e posta a produzir sob controle dos trabalhadores. Há alguns anos, fomos com ela a uma fábrica que estava correndo risco de fechar, a DERBI, onde María contou sua experiência de ocupação como uma possibilidade real, enquanto explicávamos junto a dezenas de estudantes que haviam levado sua solidariedade aos operários, a grande experiência de Zanon. Refletimos com María, sobre se a ocupação de fábrica, posta sob controle dos trabalhadores, pode ser uma saída à crise, diante das centenas de empresas que fecham e milhares de demissões: “Sim, claro! Eu lhes digo que não resistam à primeira oportunidade de mudar as coisas quando lhes disserem ‘esta fábrica já está fechada’, não. É preciso lutar, é preciso resistir e fazer todo o humanamente possível para trabalhar e para que teu trabalho tenha um sentido, demonstrando que podemos trabalhar sem os empresários. Tudo o que temos feito e conseguido lutando não pode desaparecer porque um funcionário deseja. Não se render, lutar e lutar. Agora mesmo vamos, à nossa maneira, nos colocar contra os desalojamentos, temos que demonstrar sempre que ‘sim é possível’.  Porque tudo o que temos ganhado tem sido com a luta dos trabalhadores. Se ocuparmos as fábricas quando os empresários querem fechá-las, além de impressionante, os empresários se assustariam! Porque se eles perceberem que os trabalhadores podem tomar a fábrica, iriam pensar um pouquinho. Seria impressionante num momento em que estão fechando fábricas sistematicamente... ainda mais as empresas que têm benefícios! Como nos contavam no debate de ontem os trabalhadores da Seat. Ontem lutávamos com medo, mas contra a ditadura de Franco, hoje acredita-se na democracia, mas o que há é uma ditadura patronal...”

Notas
[1] Que tem aversão às mulheres.
[2] “folloneras” era a forma pejorativa como chamavam as mulheres que se colocavam em luta, “rebeldes descontroladas”. Depois elas se apropriam deste termo de forma não pejorativa.





Trabalhadoras do Brasil e da França falam de gênero e luta de classes


Por Diana Assunção


Na última terça-feira, dia 26 de março, os Coletivos Feministas Garçes e ROSA, junto ao Coletivo de Estudantes Solidários aos Trabalhadores em Luta, organizaram na Escola de Ciência Política de Paris, França, um importante debate com o tema « Mulher e Trabalho: a luta segue! ».

Na mesa estavam Severine, trabalhadora demitida do grupo 3 Suisses e militante do Coletivo Licenci’elles, Diana Assunção, diretora do Sindicato dos Trabalhadores da Universidade de São Paulo (Sintusp) do Brasil e militante do grupo de mulheres Pão e Rosas ademais de Sarah do Coletivo de Estudantes Solidários aos Trabalhadores em Luta e do grupo feminista francês ROSA.

As intervenções de Severine e Diana colocaram experiências concretas de luta das trabalhadoras para pensar o tema de gênero na luta de classes. Severine relatou todo o processo de organização das mulheres do grupo 3 Suisses e a necessidade que encontraram de unir-se a outros trabalhadores em luta, como os operários da Goodyear e da PSA Aulnay.

Diana, a partir da experiência das trabalhadoras precárias no Brasil, que está retratado em seu livro « A Precarização tem rosto de mulher », defendeu uma visão marxista revolucionária sobre o tema da opressão e a necessidade de lutar de forma combinada contra a exploração capitalista. Com mais de 70 pessoas passando pelo debate, fez-se uma importante discussão que expressa os principais debates do fmeinismo francês: há uma classe burguesa e uma operária, ou há uma classe de mluheres e uma classe de homens? Severine, a partir de sua luta, demonstrou como a unidade concreta entre mulheres e homens trabalhadores, lutando contra todos os preconceitos na própria classe operária, é o caminho para levar as lutas até a vitória.

Diana colocou categoricamente que o que define uma classe é sua localização na produção, e que portanto há uma classe que é dona dos meios de produção, e que essa classe não é formada somente por homens. As feministas burguesas que defendem a unidade d einteresses entre todas as mulheres teriam que explicar como, por exemplo Hillary Clinton poderia fazer uma aliança com as mulheres do Oriente Médio que vivem sob a intervenção imperialista de seu país. Diana terminou dizendo que era utopia pensar na emancipação das mulheres enquanto se mantinha uma sociedade baseada na exploração, e que na França as mulheres tinham as melhores tradições para resgatar hoje, como das combatentes da Comuna de Paris, que além de lutar por seus direitos como mulheres, foram parte da luta por impor a primeira experiência de poder da classe operária da história.

A estudante Sarah interveio chamando todos os estudantes a aliar-se à classe operária, apoiando suas lutas, e lutando junto às mulheres trabalhadoras para conquistar todos os nossos direitos.

Entrevista com Séverine, ex-trabalhadora de 3 Suisses e membro das Licenci'elles

« Pensavam que o assunto acabaria rapidamente. Certamente porque éramos mulheres, dispersas, não-organizadas. [...] Hoje, lutamos por nossa dignidade»

No fim de janeiro de 2012, o grupo 3 Suisses decide fechar as 35 lojas distribuídas por toda a França para se concentrar nas vendas pela internet e por correspondência. Nessa marcha, são 149 trabalhadorxs que deverão ser demitidxs, a despeito dos lucros colossais registrados pelo grupo Otto. 68 trabalhadorxs se opuseram a essas demissões e decidiram lançar um combate diante do tribunal do trabalho. Ao mesmo tempo, fundam a associação Licenci’elles para sustentar sua luta e propor a outras mulheres assalariadas que encontram as mesmas dificuldades de isolamento e precariedade, um quadro de organização e de apoio. Hoje, perto de uma centena, as Licenci'elles fazem barulho na mídia e se unem às lutas atuais como a dos trabalhadores da Goodyear. Séverine de Licenci'elles, ex-trabalhadora de 3 Suisses, nos conta o percurso dos combatentes.

Révolution Permanente: Em quais condições ficou você sabendo do projeto de fechamento das lojas 3Suisses e de tua demissão?

À época, eu era responsável pela loja em Saint-Etienne. Havia então 35 pontos de venda e 152 empregados envolvidos (147 mulheres e 2 homens). Já em 2009, tinham-se tornado 850 pessoas e somente 36 foram atacadas. Éramos os próximos na lista. E ela não parava de se estender com o anúncio de uma nova deslocalização daquilo que resta dos centros de chamada.

Sobre o que nos diz respeito, foi em fevereiro de 2011 que ficamos sabendo da notícia... por uma conferência telefônica! Foi assim! Os distintos chefes responsáveis pela loja lá foram convocados. Em seguida, ficou a nosso encargo, sozinhos, de anunciar isto a nossas equipes. Não houve qualquer acompanhamento, não se tinha nenhuma informação sobre as datas exatas, nenhuma resposta a nossas questões. A direção mentiu para nós igualmente sobre a possibilidade de uma recontratação potencial. Claro, essa possibilidade nunca apareceu. No espaço de um ano, houve uma só e única vista do setor de RH. Não fizeram nenhuma proposta de remanejamento, e sim propostas falsas. Eu, por exemplo, se me propunha tornar responsavel de logística. Mas isso não tinha nada a ver, eu trabalho na  venda de roupa. Em verdade, eles não nos tomaram a sério. Pensavam que não tínhamos a capacidade para responder essa falcatrua. Se quisessem fazer as coisas corretamente, nos fariam propostas de remanejamento que fossem sérias. Verdadeiramente, não há nenhum respeito. Nos enganaram por muito tempo. Atacaram-nos pessoalmente em nossa dignidade, nos tratando como merda. Foi isso, creio, que nos prontificou a reagir...

Grosso modo, pensavam que o assunto rapidamente seria ultrapassado. Certamente porque éramos majoritariamente mulheres, dispersas pelos quatro cantos da França. Porque, é verdade, a maioria das companheiras não eram sindicalizadas, não se tinha qualquer cultura de luta. Eu, por exemplo, era a primeira vez que fazia uma greve. A primeira ação foi de nos agruparmos na Croix, à sede, para contestar as demissões, depois de uma reunião organizada pelos responsáveis sindicais, no estacionamento. Desde então, começaram as medidas de intimidação da parte da direção. Discurso de culpabilização, chamado à “razão”, propuseram além do mais aos assalariados assinar um acordo individual, no qual acordavam um cheque de 6 a 9 meses de salário contra a promessa de não criar problemas se presentando no Tribunal do Trabalho.

Foi totalmente ilegal, pois nossas demissões não tinham sido ainda notificadas. Alguns cederam a esta chantagem, sob os golpes da pressão, das obrigações financeiras e familiares. Foi verdadeiramente muito duro.

Os fechamentos aconteceram em janeiro de 2012. Para 68 dentre nós, decidimos denunciar a situação no Tribunal do Trabalho. O processo está em curso, posto que hoje contestamos sua “justificativa econômica”.

RP: Em que momento apareceu a ideia de fundar o coletivo Licenci’elles?

Na primavera de 2012, começamos a tomar contato com os assalariados envolvidos pelas mesmas medidas que nós no setor têxtil. Com os “Paru-Vendu”, nos manifestamos diante da Assembléia Nacional em abril de 2012. Ademais, quando se é mulher, se é frequentemente mais precária. Nos persuadimos de que era preciso nos associar com as companheiras que vivem a mesma situação que nós. Por conseguinte, reencontramos os ex-trabalhadores de Lejaby, de Samsonite, via nosso advogado, Fiodor Rilov, que os defendeu. Entramos também em contato com uma trabalhadora nos caixas do supermercado ED, que conhecimos depois de uma reunião das mulheres em luta organizada pelo Front de Gauche. É o mesmo procedimento que se aplica muito entre eles, e que cria o isolamento e o fatalismo. A ideia apareceu de criar uma associação para contribuir com um apoio àqueles que se encontram nas mesmas dificuldades, em um setor muito feminizado, que raramente é sindicalizado, portanto débeis frente aos ataques ao emprego. Mas também para lutar contra as demissões nos grupos e empresas que têm lucro.

De golpe, montamos essa associação com as 68 companheiras que foram à justiça contra a 3 Suisses. No começo, tratava-se de criar uma ajuda específica, jurídica, mas também de transmitir uma experiência num setor que não tem uma cultura de luta. Esses diferentes encontros nos inspiraram muito, notadamente aqueles com os Lejaby. Nós, ao início, não éramos cobertos pela mídia. Depois começamos a interpelar a mídia, a fazer barulho ao nosso redor. Fizemos barulho pela via das redes sociais. É verdadeiramente a partir de abril que começamos a nos fazer conhecidas, notadamente conduzindo ações ao lado de outros trabalhadores em luta.

RP: Efetivamente, hoje, nos vemos vocês ao lado dos trabalhadores da Goodyear, que não são portanto do mesmo setor que vocês, nem de um setor muito feminino. Como você explica essa evolução?

Encontramos os trabalhadores da Goodyear em um piquete de greve em fevereiro de 2012. Eles nos lançaram: “Onde estão os pneus?” Marie, uma Licenci'elles, lhe respondeu: “Estaremos no Tribunal do Trabalho no dia 22 de março. Venham com os pneus.” Eles responderam ao chamado e vieram nos apoiar no tribunal depois de nossa primeira conciliação. O acolhimento foi maravilhoso, verdadeiramente dava prazer. Com efeito, nos encontramos na mesma perspectiva. Nós lutamos pelos empregos, e não pelos cheques. Sabemos que as indenizações vão depois de alguns anos à Pôle Emploi (agência oficial de procura de emprego), sem recuperar o trabalho, nas regiões onde o desemprego se tornará massivo, como em Amiens na Goodyear. E depois, no momento em que constituímos o coletivo, nos demos conta que não éramos as únicas envolvidas, que a coisa ia muito além do setor da venda de roupa. As demissões massivas, com a PSA, Sanofi, Virgin, Goodyear, Candia, e os outros, tocam todos os setores e todo o mundo está envolvido. E para fazer as coisas mudarem, é preciso que combatamos todos juntos. É preciso sair de nosso próprio caso pessoal, de isolamento, no qual acreditamos estar quando somos deixados à porta da rua. Certamente, há diferenças, mas a causa é a mesma. São os trabalhadores que sofrem, esperam, as empresas não se importam. Eles pensam que com um cheque vão calar a nossa boca.

De golpe, decidimos empreender um projeto de lei contra as demissões nas empresas que têm lucro com os representantes de 30 fábricas diferentes (Faurecia, Candia, Sanofi, Goodyear, Bigard...). Colocamos uma proposta de lei ao Ministério do Trabalho a 12 de fevereiro, então que diante de suas janelas, estávamos reunidos com os trabalhadores de Candia, de Sanofi, de Goodyear. Uniram-se também a nós uma delegação da PSA Aulnay. Que as fábricas demitam enquanto têm lucros acumulados, com dividendos aos acionários, é inaceitável. Não podemos os trabalhadores pagarmos por isso. É absolutamente necessário evitar os fechamentos de fábrica. É preciso também desconfiar dos números que nos são mostrados: são manipulados para nos fazer engolir qualquer coisa. Por exemplo, o grupo 3 Suisses atacou as ajudas públicas da região, mas disso ninguém fala. É um escândalo! E é por isso que é necessário lutar.

RP: Que repercussão você tem sobre teu engajamento enquanto mulher que luta pelo seu emprego?

Integrar-me em uma associação de mulheres, é isso que me deu forças. Pois é preciso poder resistir a tudo. Como fazer para te construir, retomar confiança em si mesma, manter uma vida social, quando se chega a ser demitida aos 35 anos, e se está sem emprego?

Para mim, o fato de me mobilizar me transformou. Se você me tivesse dito, há três anos, que eu entraria em greve contra o meu patrão, eu teria rido. Para mim, tudo isso era desconhecido. Minha demissão, eu a vivi muito mal. Me coloquei muitas vezes em questão. Mas, havia duas opções: assino e me deprimo, ou levanto a cabeça. Eu, prefiro ser capaz de me olhar no espelho pela manhã. É uma questão de dignidade.

Eu estou orgulhosa porque não me deixei comprar. A luta me permitiu encontrar pessoas excepcionais, descobrir uma nova faceta de mim mesma que não conhecia antes. Eu me abro mais, tomei confiança. Mesmo se é difícil – há a excitação na mobilização, depois quando volta para casa, é o down, a depressão – há muitas gratificações. Eu conhecí Marie das Licenci'elles e outras pessoas excepcionais. E depois você colhe sementes na luta, aprende com a experiência dos outros. No contato com os trabalhadores da Goodyear, melhoramos muito  a comunicação com a imprensa. Do fato de nossas irrupções frequentes na mídia, aprendemos a transmitir nossas convicções, nossas ideias, a torná-las mais fortes. E é por isso que cumpre conduzir conjuntamente o combate!