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sexta-feira, 24 de outubro de 2014

A greve da USP e a luta contra a opressão às mulheres

Reproduzimos a fala de Odete, estudante da Letras-USP e militante do Pão e Rosas e da LER-QI, no debate "Desatai o Futuro: o que devemos aprender com a greve da USP?"



            É muito difícil conseguir sintetizar o que foram esses quatro meses de greve e a importância que eles tiveram pra nossa concepção de feminismo e emancipação das mulheres. Somos um grupo de mulheres classistas e revolucionárias e acreditamos que a emancipação das mulheres não vai ocorrer dentro desse sistema capitalista, que usa dessa opressão, para se consolidar enquanto sistema. Acreditamos que é necessário uma revolução proletária para acabarmos com a exploração de uma classe por outra e só assim conseguirmos acabar com a opressão de um gênero por outro.
Essa greve foi muito importante para entendermos como uma fração revolucionária deve atuar nos momentos agudos da luta de classes. Nesse sentido entender a opressão às mulheres e as dificuldades que ela causa para a organização das mulheres como parte dos problemas da organização da própria greve foi fundamental. As mulheres não constituem uma classe separada. Levantar a bandeira da emancipação das mulheres e de todos os setores oprimidos é fundamental para unidade de toda a classe operária.
Por esse motivo garantir o cantinho das crianças para que as mães e pais pudessem participar de todo o processo político da greve, realizar um debate sobre a questão negra, a questão palestina, sobre a homolesbotransfobia, ou como uma de nossas camaradas, estudante de educação física fez realizando um debate sobre saúde do trabalho, colocando o seu conhecimento a serviço dos trabalhadores... Tudo isso é necessário, não porque em si mesmas são ações que resolvem os problemas que a sociedade burguesa nos impõe, mas são pequenas experiências, ainda restritas à uma categoria, que mostra pra toda a classe os problemas concretos que ela vai ter que enfrentar pra conseguir organizar e unificar suas fileiras com a perspectiva de se fazer uma revolução.
Essa greve foi uma pequena “Escola de Guerra” sobre quais são os temas que a classe operária precisa tomar pra si para conseguir se organizar e superar a exploração a que está submetida. Seja organizando debates sobre as opressões, lutando para que as 970 mulheres que estão na fila do papa Nicolau possam realizar o exame ou fazendo um ato pela São Remo, defendendo a efetivação dos terceirizados, entendendo que os trabalhadores compõem uma única classe. Dessa forma, nós rompemos com a ideologia burguesa de separação e fragmentação da classe.
Defendemos a hegemonia operária não só por que a classe operaria é a única que pode levar até o final todas as demandas democráticas que o regime burguês não consegue garantir, mas porque ela necessita fazer isso. A classe operária precisa combater as opressões e a divisão imposta pela burguesia, entre homem e mulher, negros e brancos, heterossexuais e LGBTTs. Por que esse é o único meio de unificar suas fileiras e mostrar a sua força enquanto classe.
Não nos adaptamos como a esquerda em geral faz que é não ligar a luta contra as opressões à luta por salários e melhores condições de trabalho, por exemplo. Acreditamos que essas duas questões estão profundamente ligadas por dois motivos. O primeiro é que a classe operária precisa unificar suas fileiras para lutar pelas suas demandas e o segundo é que os trabalhadores são o sujeito revolucionário que podem modificar as bases materiais e dessa forma modificar os valores e a cultura da sociedade.
O capitalismo cria tendências que não pode levar até o final. Ao contrario da classe trabalhadora que não só pode, como precisa levá-las até o final para conseguir se emancipar.  Com o capitalismo surge o processo de feminização do trabalho, acentuado a partir da década de 70. Que é uma das grandes contradições desse sistema, pois, ao mesmo tempo que ele proporciona a mulher as condições e o direito de sair de casa e conquistar sua independência faz isso mantendo o trabalho doméstico como obrigação da mulher e submetendo-nas aos trabalhados mais precários e com salários menores.
O capitalismo cria a possibilidade de socialização do trabalho doméstico, com a possibilidade de criação de creches, restaurantes e lavanderias públicas. Mas ele mantém esse trabalho atrelado à mulher, porque o capitalismo visa o lucro e é muito mais vantajoso para a burguesia ter uma mulher que faça esses serviços sem receber nada. A dupla ou tripla jornada de trabalho da mulher é vantajosa pro capitalismo porque garante os lucros do capitalista, mas também porque impede que uma mulher possa se colocar como sujeito político na luta por seus direitos. Ou seja, impede que grande parte da classe operária se coloque contra a exploração a que estão submetidos.
A classe media é um setor que está em disputa pelo projeto de sociedade de duas grandes classes, a burguesia e o proletariado. Os trabalhadores precisam mostrar que são o sujeito revolucionário e que são o único setor que podem levar até o final as demandas democráticas que esse sistema não garante. Os trabalhadores têm necessariamente que acabar com o racismo, com a opressão de gênero, com a falta de liberdade sexual, com a xenofobia e com a divisão entre efetivos e terceirizados, porque eles precisam unificar as suas fileiras e disputar esses setores da classe média. Mostrar que só acabando com a divisão da sociedade em classes é que vamos avançar para acabar com todas as outras divisões impostas por essa sociedade.
A classe operária cumpre esse papel não só pela sua expressão numérica, os trabalhadores são a maioria nessa sociedade, mas também pelo papel que cumprem na produção. Os trabalhadores controlam a produção e como marxistas acreditamos que as relações de produção determinam as relações sociais. Por isso é preciso modificar a estrutura econômica pra modificar os valores e a cultura.
E para fechar gostaria de citar um trecho da Andrea D’Atri, uma das fundadoras do Pão e Rosas na Argentina e dirigente do PTS:

Cada vez que uma mulher é abusada, golpeada, humilhada, considerada um objeto, discriminada, submetida, a classe dominante se perpetua um pouco mais no poder. E a classe trabalhadora, por outro lado, se enfraquece. Porque essa mulher perderá a confiança em si mesma e em suas próprias forças. Atemorizada, passará a crer que a realidade não é passível de mudança e que é melhor submeter-se a opressão do que enfrentá-la e por sua vida em risco. A classe trabalhadora, por outro lado, se enfraquece, também, porque esse homem que golpeou sua companheira, que a humilhou, que a considerou sua propriedade, está mais distante que antes, de transformar-se num trabalhador consciente de suas algemas, está um pouco mais longe de reconhecer que, na luta para romper seus grilhões, deve propor libertar toda a humanidade de sua cadeia e contar com todos os oprimidos como seus aliados.
Por essa razão, o programa do trotskismo defende o oposto ao que sustentam os populistas: se a unidade dos trabalhadores é necessária, então é imperioso erradicar os prejuízos contra os imigrantes, as barreiras que se levantam entre efetivos e terceirizados, combater a ideologia que impõe a repressão do adulto sobre o jovem e, nesse sentido, lutar decididamente contra a opressão das mulheres. “



segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Um novo feminismo operário?

por Andrea D'Atri
(traduzido de http://www.pyr.org.ar/Un-nuevo-feminismo-obrero)

A greve de fome da lendária Domitila Barrios, na Bolívia, junto aos mineiros e ao Comitê de Donas de Casa, é um dos exemplos mais conhecidos. Também existe uma forte tradição de comitês de apoio de mulheres nos Estados Unidos, desde a mítica greve do Pan y Rosas de 1912, aonde se organizaram reuniões de crianças dentro do sindicato, para lhes explicar por que suas mães e seus pais estavam lutando, combatendo assim a propaganda anti operária feita nas escolas e na imprensa. Nesta luta também se destacou uma grande organização de família solidárias, o que permitiu que enviassem as crianças para distintas cidades, enquanto se desenvolvia o conflito, para que fossem cuidadas por outras pessoas, e para que os grevistas tivessem a tranquilidade necessária para prosseguirem em sua luta.

Nos anos 30, o Comitê Auxilar das esposas dos caminhoneiros norte americanos teve uma importância muito relevante: não somente organizou o plantão de telefones na sede do sindicato, um refeitório para centenas de gevistas e um hospital hospital de campanha para os feridos pela repressão, como também foi crucial para que fossem conhecidas as manobras que preparavam os patrões e os políticos contra os trabalhadores, através de uma rede de secretárias que colaboravam anonimamente com a causa operária.

Nos mesmos anos, a Briga Auxiliar de Mulheres – constituída pelas famílias dos operários das automotoras – conseguiu torcer o braço de que ninguém menos que a General Motors.

Os exemplos são muitos. E se prolongam até nossos dias. Estamos vendo nos últimos meses, na Panamericana, as mulheres trabalhadores e as esposas dos operários despedidos da Lear enfrentando a repressão comandada por Sergio Berni. Vemos estas operárias confraternizando com as mulheres de Kraft-Mondelez, com trabalhadores telefônicas e servidoras estatais, com as professores de suas filhas e filhos que também se solidarizam com a tenda montada em frente a multinacional de auto peças.

E agora os meios de comunicação descobrem a existência da Comissão de Mulheres de Donnelley, uma fábrica aonde quase não trabalham mulheres! Mas aonde as companheiras, irmãs e familiares dos operários gráficos, com o apoio da comissão interna da fábrica, se organizam desde muito tempo.

O novo sindicalismo combativo e classista que enfrenta as direções tradicionais burocratizadas do movimento operário, também se distingue destas velhas direções pela importância transcendental que dá à organização das mulheres.

A Comissão de Mulheres de Donnelley se distingue de outras porque, ainda que hoje se unam para conquistar a estatização da fábrica que já funciona sob controle operário, não se organizaram por este motivo. Sua unidade é o resultado de um longo caminho de confraternização entre as família operárias construído em churrascos, jogos de futebol, brincadeiras e campeonatos, festivais para o Dia da Infância e aniversários. E as mesmas celebrações compartilhadas se convertem em cadeias operárias de solidariedade toda vez que alguma família necessita, enfrentando juntas inundações, incêndios, acidentes, problemas de saúde e outras dificuldades da vida operária.

Além de tudo, o que anuncia a chegada e algo novo é que esta Comissão de Mulheres também debate e se organiza para denunciar as redes de tráfico de mulheres, exige a legalização do aborto, que impediria a morte de centenas de jovens mulheres, e enfrenta a violência machista.

O que fizeram em agosto de 2012 é um exemplo entre tantos. Quando os meios de comunicação anunciaram um triplo feminicídio ocorrido em Benavídez, os operários de Donnelley logo advertiram que o criminoso teria sido, tempos atrás, empregado da fábrica. Então a Comissão de Mulheres conjuntamente à Comissão Interna aproveitaram o clime gerado pela notícia e publicaram uma declaração contra a violência machista. Esse panfleto, distribuído em toda fábrica pelos delegados, dizia: “queremos aportar à organização das mulheres, de nossas esposas, das trabalhadoras gráficas e de toda a classe trabalhadora, para lutarmos juntos contra a violência machista”.

Hoje estas mulheres se dirigem a outras empresas gráficas, buscando a solidariedade das trabalhadoras e trabalhadores do grêmio gráfico. Impulsionam um fundo de luta para que suas famílias possam sobreviver à quebra fraudulenta declarada por Donnelley. Mas também se organizam para comparecer em conferências feministas e nos Encontros Nacionais de Mulheres.

Depois de longas décadas de individualismo e “tolerância” liberal que deixaram aos movimentos sociais alguns  poucos direitos costurados e muita fragmentação, despolitização e assimilação, transformando o feminismo em um objeto de consumo cultural para algumas poucas, será a Comissão de Mulheres de Donnelley o gérmen de um novo feminismo operário que ainda está por vir á luz?