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segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Os encochadores e o machismo de cada dia

Por: Letícia Oliveira

Após horas e horas de expediente de trabalho, mulheres em todo o país são forçadas pela péssima qualidade do transporte público a pegar ônibus, trens e metros extremamente lotados. FOTO UOL.


Nos últimos dias recebemos a denúncia de que havia um grupo público do Facebook intitulado "Encochadores" divulgando matérias e histórias repugnantes de casos de assédio sexual nos transportes públicos. Tal grupo defende e propagandeia essa prática livremente pela web sem nenhum tipo de punição ou investigação.
Os encochadores e o machismo de cada dia
Após horas e horas de expediente de trabalho, mulheres em todo o país são forçadas pela péssima qualidade do transporte público a pegar ônibus, trens e metros extremamente lotados. A prática de assédio sexual, a qual faz referência esse grupo do Facebook, é um dos maiores medos de cada trabalhadora em nosso país. É certo dizer que quase toda mulher já passou por isso em uma ida ou volta ao trabalho, e que sentiu-se totalmente indefesa para evitar tal abuso. De fato, o que se pode fazer? Em um transporte tão lotado, não há muito para onde fugir, e por vezes diversas mulheres, como me foi testemunhado a partir das denúncias que abrimos no Facebook, desistem de fazer qualquer coisa e torcem para que o abuso da "encochada" acabe o mais rápido possível.
Os "encochadores" relatam livremente a sua repugnância: "meu junior durasso pra fora da cueca... só sei que na plataforma da estação anhangabaú eu já estava cutucando a polpa da bunda esquerda dela bem a vontade esfregando de leve... quando entramos lá dentro me posicionei e já mergulhei meu pau deitando no meio da bunda dela... a que sensação d bem estar maravilhoso... rs... dai eu deixei ele reto e entuxava no meio dela a calça entrou mais ainda... rs... ela quieta o tempo todo até a estação carrão na saida apertei a bunda dela... aaaahhhhhhh... fiquei com essa ecochada até agora no pensamento... rs".
Independentemente das denúncias realizadas por uma série de mulheres, o Facebook mantém a página ativa, alegando que "não fere os princípios de comunidade do Facebook".
Ao fazer uma alegação como essa o Facebook nos leva a compreender ainda melhor uma triste realidade: no machismo de cada dia, que perpassa todas as relações, principalmente as de trabalho, abusos como este estão muito longe de ser considerados por qualquer empresa ou grande coorporação como uma violência como de fato é.
O prazer que estes homens sentem não é nem de longe um desvio social. É apenas uma expressão mais aguda do que a sociedade nos educa todos os dias através das relações de trabalho e da ideologia dominante presente em cada filme, novela, propaganda ou jornais produzidos pelas grandes coorporações de imprensa. Aprendemos em todos esses espaços que a mulher vale muito pouco ou quase nada, recebendo em média 2/3 do salário de um homem, e se for negra, menos da metade do salário de um homem branco.
Reagir ou não reagir, eis a questão
As mulheres vivem todos os dias de sua vida com a ameaça constante de algum tipo de violência moral, sexual ou doméstica. O Brasil lidera os rankings de casos de violência, tendo totalizado no primeiro semestre do ano passado mais de 260 mil denúncias de violência doméstica. No ano passado, o IPEA revelou que a cada 90 minutos uma mulher é assassinada no Brasil vítima de violência doméstica. Em 2013, o Sistema Único de Saúde brasileiro recebeu cerca de 2 mulheres por hora com sinais de violência sexual, totalizando mais de 2300 casos, sem contar as mulheres atendidas no sistema privado e as multidões de mulheres que por vergonha deixam de procurar auxílio médico nesse tipo de situação.
Por essa realidade, não são poucas as mulheres que evitam andar sozinhas durante a noite, usar roupas curtas ou envolver-se com pessoas desconhecidas. Apesar de corretas em sua prevenção, essas medidas dão a entender que o problema da violência sexual é culpa da própria mulher. Que seus hábitos e vestuário são os grandes culpados por aquele trauma, quando na verdade o culpado por toda essa violência que sofremos é um sistema econômico que desenvolve uma ideologia machista totalmente favorável a sua dominação.
Ao convencer o conjunto dos trabalhadores de que as mulheres são inferiores, facilitam a super exploração de metade da humanidade e economizam com serviços que, se não cumpridos pelas mulheres, sairiam bastante caros para esses que precisam de tanto lucro, como são os serviços de lavanderia, cuidado de filhos e idosos, alimentação, etc.
Contra a sua própria responsabilização sobre cada um desses casos de violência, o Estado burguês nos culpabiliza ao passo que cria Globelezas e mulheres submissas em suas novelas e, se durante o dia rouba nosso dinheiro, à noite tenta nos fazer escandalizar nos jornais com os casos de estupro.
Nenhuma mulher deve se envergonhar ao ser assediada nos transportes ou em qualquer outro lugar. A vergonha deve ser carregada por esses homens e pela burguesia que lucra todos os dias com a nossa opressão, inclusive com os transportes cada vez mais lotados que pagam suas festinhas privadas e seus ganhos extras com corrupção.
É possível que o transporte seja um lugar agradável?
Sim! A vontade de todo trabalhador ao sair do trabalho é pegar um metro, um trem ou um ônibus sem estresse. A qualidade de vida de uma realidade dessa é impensável para nós hoje em dia. A única justificativa para que o transporte siga sendo assim é o fato de que é gerido e administrado pelos que não usam o transporte como meio de locomoção e que dele não extraem nada a não ser os lucros exorbitantes.
Durante as recentes jornadas do transporte e as que colocaram o Brasil no cenário da juventude internacional em junho de 2013 já defendíamos que a única saída para que o transporte fosse de fato público, de qualidade e atendesse às necessidades dos trabalhadores era a partir da estatização sob controle dos trabalhadores e usuários.
Nesse espaço, a partir da clareza de que a opressão à mulher não deve ser reproduzida pelos trabalhadores pois a nós de nada serve essa ideologia, é possível que as mulheres trabalhadoras e usuárias do transporte possam pensar medidas efetivas de combate ao assédio sexual nos trens, metros e ônibus. Não houve por parte das administradoras públicas e privadas nenhuma medida efetiva de combate a essa prática a não ser campanhas estéreis e esparsas que jamais passaram pela solidariedade entre as trabalhadoras e as usuárias ou em campanhas de vigilância dos próprios usuários para denunciar e repreender cada caso que presenciassem.
Os homens são parceiros na luta contra o assédio?
Neste tipo de discussão é comum que as mulheres passem a encarar todos os homens como seus inimigos na luta contra a opressão. A verdade é que os homens, apesar de parcialmente beneficiados pelo machismo dentro de suas casas e pelo direito que recebem de nos insultar na rua, tocar em nossos corpos ou nos violar, não são os que verdadeiramente ganham com o machismo. Apenas a burguesia - proprietária dos meios de reprodução da vida como as fábricas, os bancos e outros - ganha qualitativamente não apenas com a opressão às mulheres, mas também com o racismo, a homofobia, a transfobia, a xeonofobia e todas as possíveis formas de opressão. Esse é o melhor caminho que ela encontra para dividir e enfraquecer a classe trabalhadora e lucrar mais ao determinar postos de trabalho mais precários para aqueles que não obedecem o padrão "homem, branco, heterossexual".
Portanto, a melhor luta contra a opressão é aquela que se faz lado a lado, trabalhadores e oprimidos, numa luta unitária contra toda forma de opressão e exploração, negando a divisão das fileiras operárias e abraçando a causa de todos aqueles, trabalhadores ou não, que sofrem cotidianamente da opressão de gênero, raça, etnia ou nacionalidade.
Assim, é possível reconhecer que em cada vagão de metro, trem ou em cada ônibus em todo o mundo as mulheres encontrarão nos trabalhadores e nas outras mulheres solidariedade para interromper o assédio que estiverem sofrendo, e que a tarefa de cada uma dessas mulheres é lutar para que possa, junto aos seus irmãos de classe e oprimidos, determinar o que será feito de cada um desses vagões e ônibus através de um controle operário e popular dos transportes.
Registros de telas usados para a denúncia de conteúdo feita ao Facebook:




Texto original : Palavra Operaria
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quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Bolsonaro deveria esta preso por incitar a violência contra as mulheres

Por: Odete Cristina


Bolsonaro já deveria estar preso por ser defensor dos crimes da ditadura, inclusive crimes que usavam o estupro como métodos de tortura.


Bolsonaro já deveria estar preso por ser defensor dos crimes da ditadura, inclusive crimes que usavam o estupro como métodos de tortura. Assim como os torturadores e cúmplices da ditadura militar, que o deputado tanto reivindica em seus discursos com a certeza de que não haverá punição, agora Bolsonaro fez o absurdo de afirmou que não estupraria a deputada Maria do Rosário por que ela "não merecia".
O estupro é uma das mais perversas formas de violência às mulheres que se perpetua dentro dessa sociedade. A visão predominante que enxerga a mulher como uma propriedade do homem e o machismo aliado à exploração capitalista só são reforçados por discursos como esse, incitando a prática de estupros, porque possuem a certeza da impunidade.
Bolsonaro é parte dos que apoiam a violência das mulheres também quando apoia leis como o Estatuto do Nascituro, que "obriga" as mulheres que foram estupradas a levarem adiante uma gravidez que foi fruto de uma violência; e faz o Estado financiar uma "bolsa estupro" caso o genitor não se responsabilizar pelo filho. Isso é mais uma demonstração de seu reacionarismo e violência contra as mulheres.
Incitar a violência é crime, e Bolsonaro já deveria ter sido preso pelas inúmeras declarações racistas, homofóbicas e de incitação da violência que já cometeu. Se isso ainda não ocorreu, é porque ele é protegido por ser do PP, um partido da base aliada do governo, e porque o PT quer preservar o pacto de impunidade que impede que seja feita justiça contra os torturadores e assassinos da ditadura. Nada será feito no sentido de efetivamente combater esses discursos e os milhares de casos de estupros que acontecem em nosso país, alentados pelo mesmo. É necessária uma punição efetiva a todos aqueles que incitam a violência contra as mulheres e defendem os crimes da ditadura militar, como o deputado Jair Bolsonaro.
Seguindo o exemplo dos trabalhadores da USP, com campanhas contra os casos de estupro da Faculdade de Medicina e dos metroviários que se posicionaram contra a agressão a um casal homossexual dentro do metrô, precisamos levantar uma forte campanha pela punição efetiva de todos os crimes da ditadura militar e contra todos os discursos de ódio levantados por esses setores reacionários.
A aliança entre a classe operária e todos os setores oprimidos e explorados por esse sistema capitalista é a única que pode dar uma solução efetiva para essa berrante realidade do sistema capitalista.
Original: Palavra Operaria
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terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Mulheres deveriam receber mais do que os homens, segundo a OIT

Por: Flávia Ferreira


As mulheres, deveriam ganhar mais do que os homens, pois, mesmo com maiores níveis de escolaridade e produtividade do trabalho, recebem menos em relação aos homens.

Nesta última semana, foi divulgado recente estudo da OIT (Organização Internacional do Trabalho) sobre a situação global dos salários, que confirma em números, como o machismo se reflete na desigualdade de remuneração entre mulheres e homens, seja em países ricos ou pobres. Segundo o estudo, as mulheres, deveriam ganhar mais do que os homens, pois, mesmo com maiores níveis de escolaridade e produtividade do trabalho, recebem menos em relação aos homens. É mais um estudo de um órgão imperialista vinculado a ONU, que evidencia que o capitalismo não pode garantir nem ao menos o direito democrático de salário igual para trabalho igual.
Pelo estudo, as mulheres deveriam receber, no Brasil, um salário 11% superior ao dos homens. Mas, no país, as mulheres ainda ganham, cerca de 24% a menos que os homens para o mesmo trabalho. O levantamento aponta que as mulheres apresentam o trabalho mais rentável, mais produtivo para os capitalistas, mas recebem menos. Para a OIT, este é um problema global, até mesmo em países ricos e imperialistas como a Suécia e EUA. Neste último, a diferença de remuneração entre mulheres e homens é gritante, para cada 100 dólares recebidos pelos homens, as mulheres ganham apenas 64 dólares.
Na China, a remuneração das mulheres e dos homens deveria ser praticamente a mesma com um prêmio de “produtividade” de 0,2 por cento para as mulheres, ou seja, a produtividade das mulheres e dos homens no país asiático é quase a mesma. Mas as chinesas estão efetivamente recebendo 22,9 por cento menos do que os homens.
A Rússia, é o país que lidera o ranking do estudo da OIT com uma diferença salarial de 32,8% a menos de salário das mulheres em relação ao dos homens, se fossem receber pelo que produzem e por sua qualificação, receberiam um salário 11,1% superior ao dos homens.
É fundamental, que diante dessa realidade, a luta pela igualdade salarial entre mulheres e homens seja um combate efetivo e diário em todos os sindicatos, e não apenas mais uma campanha isolada do 8 de março, como faz a burocracia sindical. Deve ser parte da luta para que as mulheres estejam na linha de frente das batalhas de classe no movimento de trabalhadores.
Original: Palavra Operaria
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quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Diana Assunção: “Na Faculdade de Medicina da USP há métodos profissionalizados de estupro”

Esta matéria contribui muito para quebrar o silêncio de anos nesta instituição. Os casos relatados são revoltantes. Estamos falando de pessoas que estão se formando como médicos e utilizam entorpecentes e inclusive outros produtos para facilitar um abuso sexual. Os relatos mostram que já há um método profissionalizado de estupro.

Esta semana o site ponte.org publicou uma completa e detalhada matéria com o título“Violência sexual, castigos físicos e preconceito na Faculdade de Medicina”(http://ponte.org/violencia-sexual-castigos-fisicos-e-preconceito-na-faculdade-de-medicina-da-usp/) que escancara os atos aberrantes de violência que permeiam esta renomada Faculdade. Sobre esta matéria e suas denúncias, Diana Assunção, diretora do Sindicato dos Trabalhadores da USP e responsável pela Secretaria de Mulheres do Sintusp declarou que “Esta matéria contribui muito para quebrar o silêncio de anos nesta instituição. Os casos relatados são revoltantes. Estamos falando de pessoas que estão se formando como médicos e utilizam entorpecentes e inclusive outros produtos para facilitar um abuso sexual. Os relatos mostram que já há um método profissionalizado de estupro. Que médicos estão se formando? E quando se escancara esta situação a preocupação de muitos é com a imagem da Faculdade de Medicina. Alguém está preocupado com a vida de talvez centenas de jovens que vão viver com o trauma de um estupro e um abuso? Ou que simplesmente tem que aguentar uma humilhação pelo simples fato de ser mulher?”
Diana Assunção também responsabiliza a Universidade de São Paulo pela situação “A Faculdade de Medicina simplesmente não toma nenhuma atitude em relação a situação, portanto encoberta esses casos. Inclusive o deputado Adriano Diogo (PT) que preside a Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa declarou que foi pressionado pelo próprio diretor da Faculdade, o professor José Otávio Costa Auler Junior, para não realizar a Audiência ocorrida no último dia 11. O Reitor Zago, também médico formado pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, simplesmente não se pronuncia sobre esta situação. Além disso, é um fato que o campus da USP hoje é palco para um número de estupros que desconhecemos a quantidade porque a Reitoria não divulga os números”.
Frente a esta situação e à proximidade do dia 25 de novembro, dia internacional contra a violência às mulheres, Diana considera necessária uma grande campanha e medidas de frente-única que reúnam sindicatos, movimentos feministas, de direitos humanos. “É fundamental neste momento a mais ampla unidade pra enfrentar este pacto do silêncio na Faculdade de Medicina, pois irá mexer com a burocracia universitária que fica calada pra não manchar a considerada melhor Faculdade de Medicina do país. Devemos fazer atos, manifestações, videos, cartazes, tudo o que for necessário para enfrentar estes burocratas e também os futuros médicos que praticam o estupro nesta Faculdade. Se trata de uma luta necessária que pode se tornar um exemplo no combate ao assédio sexual e aos estupros. Exigimos que a Reitoria da USP se posicione sobre este caso, bem como sobre o caso de machismo e racismo na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto e divulgue de uma vez por todas os números de denúncias de estupro dentro da USP”. Para finalizar, Diana completou dizendo que “Em nossa greve buscamos colocar com força a luta das mulheres e contra o machismo, a homofobia, a transfobia. No próximo mês teremos o V Encontro das Mulheres Trabalhadoras da USP que queremos que ajude na organização das mulheres trabalhadoras e que também possamos levantar com força a luta contra todas as formas de violência às mulheres”.


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quarta-feira, 24 de setembro de 2014

"Os números do horror"

Assim se referem a respeito das dramáticas estatísticas sobre femicídios as professoras e os professores de Melina na carta aberta publicada em La Izquierda Diario dias depois de seu desaparecimento. Nas últimas horas, com a confirmação de que o corpo encontrado sem vida numa galeria de esgoto era de Paola Acosta, e outro encontrado num córrego seria de Melina Romero, os números do horror se avolumam. E também crescem a dor e a indignação. Em Córdoba milhares de pessoas se mobilizaram por justiça para Paola.



Andrea D’Atri

O índice de femicídios na Argentina é altíssimo. Segundo a Casa del Encuentro, em 2013 houve 295, isto é, um a cada trinta horas, que deixaram 405 meninas e meninos órfãos. Melina e Paola, dolorosamente, engrossam as estatísticas de 2014. Em todos esses assassinatos um elemento se repete: as mulheres vítimas são um objeto de maltrato, prescindível, descartável, e o móvel é o ódio misógino.
A sociedade se escandaliza quando estes crimes veem à luz. E é fácil que os meios de comunicação os contabilize à monstruosidade do assassino: centenas de punhaladas, esquartejamentos, filhas e filhos como prostrados espectadores, corpos jogados em lixeiras, córregos, esgotos. Entretanto, um monstro é uma “produção contra a ordem normal da natureza”, isto é, algo insólito, estranho, uma raridade que abala a norma e o esperável, o cotidiano, o conhecido. Porém, lamentavelmente, a estatística de um femicídio a cada trinta horas na Argentina demonstra que não se trata de algo insólito nem estranho. Os femicídios não são uma excepcionalidade, mas – como dizem as professoras e os professores de Melina – quase uma regra,  algo “normal”. Uma regularidade abominável nos faz lembrar que uma de nós será assassinada a cada dia.
Em algumas ocasiões, os autores justificam sua ação como se fosse uma repentina perda de autocontrole ou do controle da situação. No entanto, a violência contra as mulheres mostra, ao contrário, o mais alto grau de controle que alguém possa exercer sobre alguém. Se a violência femicida, na maioria dos casos, pode ser prevista é justamente porque é o resultado de uma escalada de assédio, violência verbal, psicológica, econômica, física que expressam a naturalização do controle e do domínio dos homens sobre as mulheres.
E a finalidade desta violência não é apenas a morte das vítimas, mas o disciplinamento do corpo, do desejo, do comportamento, da vida das mulheres sobreviventes. Porque, diferente de outros casos de violência intersubjetiva, a que se exerce contra as mulheres parte das normas socioculturais que estabelecem como elas deveriam ser e como deveriam se comportar, o que se espera delas. Enquanto outras formas de violência atuam desestabilizando e atacando a ordem social estabelecida, a violência estrutural contra as mulheres atua, ao contrário, como um elemento que contribui para manter uma determinada ordem na qual as mulheres permanecem subordinadas. A violência contra as mulheres atua como um mecanismo coercitivo que, junto com outros mecanismos de consenso, naturaliza a norma social, tornando invisível o caráter histórico da atribuição de funções próprias e imanentes dos gêneros, dos papéis que são efeito desta naturalização da opressão e, ao mesmo tempo, um dispositivo para sua perpetuação.
“O direito a uma vida livre de violência” é uma das consignas mais repetidas pelos movimentos de mulheres. Sabemos que as experiências de violência contra as mulheres não constituem casos isolados, mas, longe de serem naturais, as situações de opressão, discriminação, degradação e subordinação vividas pelas mulheres têm origem histórica, o que permite visualizar, então, a possibilidade de que também desapareçam. Isso requer uma luta muito mais radical para eliminar pela raiz um regime social assentado na violência da exploração e da opressão. É o único caminho realista para gozar da plenitude da vida, do pão e também das rosas. E para que se faça verdadeira justiça a todas as Paolas e Melinas deste mundo.

domingo, 13 de abril de 2014

Nota de repúdio ao ataque racista e machista ocorrido na UNESP de Presidente Prudente!


O Grupo Pão e Rosas, vem através desta nota repudiar o ocorrido com a militante Thaís Telles, na UNESP – Universidade Estadual Paulista – campus de Presidente Prudente, como também manifestar nossa solidariedade à companheira.



Nas paredes do banheiro feminino de alunas da Geografia havia escrito: THAIS TELLES, PRETA, MACACA, SAFADA”. Estes escritos racistas e elitistas tem como objetivo amedrontar e calar dois setores historicamente oprimidos: as mulheres; e o povo negro! Além disso, o conteúdo possui um viés extremamente machista, que se faz necessário para manter as bases de toda opressão. Quando nos deparamos com frases como essas – ainda mais no interior de uma das faculdades mais elitistas do país – é notório a reprodução de toda uma ideologia dominante, assim como também legitima o projeto de universidade em vigor, que se mostra excludente desde sua entrada, que através do filtro social do vestibular seleciona quem adentrará à universidade, colocando a classe trabalhadora, majoritariamente negra, as margens desse projeto de educação. Ainda sim, quando conseguem adentrar às Universidades, não estão isentos de praticas machistas, racistas e também homofóbicas, não sendo raro caso de agressões como esta.



Frente a casos como estes, se faz necessário travarmos discussões políticas com toda a comunidade acadêmica, sobretudo discussões que abarquem o conteúdo histórico dos setores tidos como oprimidos socialmente, como é o caso das inúmeras práticas machistas, racistas e homofóbicas no interior das universidades, que muitas vezes são silenciadas ou tratadas como atos banais, naturalizando assim essas questões.



Em nota, a companheira Thaís coloca a questão e nos mostra sua garra e coragem, saindo do silênciamento muitas vezes imposto à nós mulheres, tornando público o ataque dirigido à ela, dizendo às pessoas que ousam romper com o silêncio diante de uma sociedade assassina e cruel, que não tenham medo, que sigam em frente!



Esse ser anônimo, covarde, RACISTA e asqueroso expôs aquilo que é o sentimento de muitos dentro desta universidade. Essa é apenas uma amostra grátis do que é sociedade brasileira, RACISTA.
Proferiu meu nome, com o intuito de me abalar, humilhar e subjugar a minha ancestralidade NEGRA.
Proferiu os dizeres “PRETAS”, querendo endossar a sua ofensa inescrupulosa.
Continuou com “MACACA” , é assim que meus irmãos de cor são chamados desde de que estes foram colocados na condição de ESCRAVOS em favorecimento de uma lógica perversa que persiste até os dias de hoje; nos Ônibus, mercados, hospitais, campo de futebol , áreas dos Shopping center e nas Universidade Brasileiras.
Sim, são nesses espaços e em muitos outros que cotidianamente somos ofendidos e humilhados. Não quero que você leitor sinta pena, NÃO muito obrigada, não preciso dela.
Eu e todas essas pessoas que são VITIMAS DE RACISMO DIARIAMENTE, precisamos que você entenda essa luta como sua também, e que de uma vez por todas, encarre o fato de que o RACISMO EXISTE NO BRASIL SIM, lembre-se que aceitar é o primeiro passo para exigir a transformação
Ainda os insultos não pararam por ai... me chamou de “SAFADA”. Tenho certeza que este veio do seu mais intimo e repugnante machismos.
Enquanto as pessoas olharem nós mulheres que se colocam como dona de seus corpos, dos seus desejos e autônoma de todo e qualquer mando e desmando de uma lógica que padroniza e coisifica as mulheres; essas serão comumente chamadas de SAFADAS, isso é mais uma prova da necessidade que esses vermes tem de nós subjugar...
Infelizmente acho que o racismo no Brasil se manifesta da pior maneira possível: sempre atrás de alguma coisa; das portas de banheiros, nas carteiras de sala de aula, nas piadas do cotidiano. Afetando constantemente aqueles que ainda não conseguiram se colocar diante deste desafio que é encarar o “racismo á brasileira” de fato.

Pois sim senhor (a) RACISTA.

Eu vos encaro; e sei que te incomodo, mas foi justamente para isso que eu vim . Para tirar todos nós PRETOS e PRETAS da INVISIBILIDADE da INSEGURANÇA e do Medo de se assumirem enquanto PRETOS E PRETAS e ainda lutar para que nossos irmãos não se deparem com essa ‘ TRADIÇÃO’ NOJENTA que nosso país ainda carrega e que o Estado brasileiro legitima.”


Nós do Grupo Pão e Rosas Marília, queremos manifestar toda solidariedade à camarada e dizer que nos colocamos abertas ao debate para pensar ações conjuntas de como elaborar práticas que dialoguem com esses ataques que sofremos diariamente, seja fruto de racismo, machismo ou homofobia. Assim como lutaremos pelo fim desse projeto de universidade elitista, que não se mostra à serviço de todxs, que exclui e que também mantém seu caráter racista.



POR UMA SOCIEDADE LIVRE DE RACISMO PRECONCEITO E DISCRIMINAÇÃO! FORA MACHISMO, RACISMO E HOMOFOBIA DAS UNIVERSIDADES E SOCIEDADE!