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domingo, 21 de julho de 2013

Papa e vaticano, tirem as mãos de nossos corpos!



          Por Livia Barbosa e Marie C.




No último dia 11 de julho, a classe operária protagonizou um importante dia nacional de atos e protestos, com cortes de ruas e paralisações. O dia nacional de lutas marcou sua entrada em cena, após um mês de intensas mobilizações de massas, que balançaram a estrutura do governo questionando a crescente precarização da saúde, da educação, do transporte e das condições de vida da população, além dos gastos exorbitantes do Estado para os mega eventos que o Brasil sediará. O governo do PT e a própria Dilma enfrentam as inúmeras reivindicações da população, em meio ao país que prometia ser a potência e oferecer a alternativa da crise que se abriu em 2008, já que continua com a taxa de desemprego em 5,8%. Não sabem como responder ao sentimento que os trabalhadores e o povo voltam a ter de que é preciso lutar e é possível vencer. Depois da tentativa clara de desvio das mobilizações com a proposta de um plebiscito nacional por uma reforma política, a presidente foi obrigada a se pronunciar, alegando que “ouve a voz das ruas” e que as manifestações são legítimas. Nada disso foi sem repressão.

É nesse cenário nacional que nos próximos dias Dilma receberá de braços abertos o Papa argentino Jorge Bergoglio, de “mãos dadas” com Cristina Kirchner e Sebastian Piñera (mestres em reprimir as recentes mobilizações na Argentina e Chile e que também seguem proibindo o aborto enquanto milhares de mulheres morrem diariamente). Este Papa tão bem recebido pelo governo brasileiro foi aliado da sanguinária ditadura argentina, inclusive entregando militantes de esquerda e membros da própria Igreja que se colocavam contra ao Estado, e hoje expressa o auge da hipocrisia e da contradição, ao dizer que apoia as manifestações da população, desde uma instituição que possui banco cuja fortuna é avaliada em 6 bi. Assim, espera-se milhares de jovens que chegam ao Rio de Janeiro para a Jornada Mundial da Juventude, evento organizado pela Igreja Católica e os governos federal e local.

Apesar da hipocrisia do Estado em se dizer laico, sabemos que a igreja é um dos pilares fundamentais que sustentam o sistema capitalista e prova disso é que os governos federal, estadual e municipal terão nada menos que R$ 118 milhões dos cofres públicos gastos com a visita papal, e segundo o próprio governo, a igreja deve arrecadar no mínimo cerca de R$140 milhões com as taxas de inscrições de “seus fiéis”! Uma das perguntas que temos que nos fazer é pra onde vai toda essa fortuna? Irão para os cofres da igreja católica e o modo de vida altamente suntuoso dos padres e bispos? Estes que hipocritamente discursam em nome da “justiça social” e contra a miséria e pobreza no mundo enquanto sequer trabalham, mantêm um grande contingente de padres pedófilos e vivem banhados em ouro!  

Tanto a FIFA, quanto o Vaticano, após a maior mobilização da juventude das últimas décadas, que denunciavam a precariedade dos serviços públicos e condições de vida, vem ao Brasil pra realizar mega eventos, bancados a milhões pelo Estado brasileiro, enquanto as condições de vida da população não se alteram. Não à toa, até mesmo o Papa tem que dizer que são “justas” as reivindicações do povo brasileiro, querendo inclusive se colocar como “parte” desta mobilização. Nada mais hipócrita.
Como não podia deixar de ser, Dilma, Cabral e Paes organizaram um absurdo efetivo policial destacado para manter a ordem burguesa e reprimir as manifestações que irão acontecer nos próximos dias no Rio de Janeiro. Oficialmente, o “trabalho” da polícia na repressão das mobilizações de julho já contabiliza 15 mortos, dos quais 13 foram assassinados no Complexo da Maré, no próprio Rio de Janeiro. A cidade que já antes se encontrava militarizada por conta dos grandes eventos que o Rio já começa a sediar, contará com mais de 14 mil policiais e militares, incluindo as Forças Armadas e soldados à paisana. Isso é expressão de como o Estado, o Vaticano, e as megaempresas contratadas para o evento se armam até os dentes para garantir seus lucros enquanto a população sequer tem acesso a condições básicas de vida.

O atrelamento do governo brasileiro à igreja católica não é de hoje. Em 2008 foi reafirmado o Acordo Brasil Vaticano, que concede à instituição a isenção fiscal e determina que todas as escolas públicas garantam ensino religioso como extra-classe, combatendo o caráter laico do estado e da educação. Além disso, a “Carta ao Povo de Deus”, dirigida à população evangélica antes de sua eleição, marca Dilma rifando os direitos das mulheres e dxs LGTTBIs em troca de bases aliadas e mais influência em áreas mais valiosas para seu partido.

No último período, Dilma chegou ao nível absurdo de ser conivente com a entrada na presidência da Comissão dos Direitos Humanos (CDH) de um dos mais asquerosos e reacionários representantes da bancada evangélica, o deputado federal e pastor Marco Feliciano (PSC-SP) que tem um vasto histórico de declarações homofóbicas e racistas e é um dos maiores entusiastas dos projetos de lei “Estatuto do Nascituro” e “Cura Gay”. Nesses últimos dias, mais um escandaloso ataque aos direitos das mulheres surgiu por parte da Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que exige que Dilma vete um projeto que regulamenta o atendimento emergencial às mulheres vítimas de violência sexual, impedindo assim que essas tenham acesso a profilaxia, ou seja, medicamentos contra doenças sexualmente transmissíveis, coquetéis anti-HIV, pílula do dia seguinte  e tratamento psicológico. Isso é um brutal ataque aos direitos humanos, e aos direitos das mulheres!

Essa é só mais uma prova de que para a igreja e esses setores ultra reacionários não importa que milhares de mulheres morram em decorrência de abortos clandestinos anualmente, que sejam violentadas e impedidas de terem cuidado médico ou obrigadas a carregarem em seus corpos um fruto de uma brutal violência como é o estupro! As mulheres seguem sem direitos para decidirem sobre seu próprio corpo! Seguem sendo condenadas a morte por um Estado que lhes tira o direito da autonomia de decisão e por uma Igreja que quer obrigar a tê-los mesmo fruto de uma violência!
Respeitamos as mulheres, os trabalhadores e a juventude em sua decisão religiosa mas denunciamos fortemente a igreja, o Papa e o Vaticano que vivem no luxo às custas da fé da população pobre e trabalhadora. Não devemos ter nenhuma confiança em um Estado que gasta milhões para a vinda de um representante de uma igreja manchada de sangue, que dirige diversos ataques à juventude, aos trabalhadores e condena as religiões africanas! Que excomunga uma família por terem lutado pelo direito ao aborto de uma criança de apenas 9 anos estuprada em Pernambuco como aconteceu em 2009! Um representante responsável por perseguições políticas e aliado da ditadura argentina, que se refere a relações homossexuais como "obras do demônio"! Não se pode confiar na instituição que condena milhares de mulheres à morte por abortos clandestinos! Não se pode confiar na instituição que condena ao suicídio milhares de LGTTBIs!

Fora Papa e Vaticano! Tirem as mãos de nossos corpos! Separação da Igreja do Estado! Fim do acordo Brasil-Vaticano!

Basta de mulheres mortas por aborto clandestino! Educação sexual em todos os níveis escolares, distribuição de métodos contraceptivos de qualidade pelo Estado e direito ao aborto legal, seguro e gratuito!

Fora Feliciano e toda a Comissão de Direitos Humanos da Câmara! Arquivamento do Estatuto do Nascituro (Bolsa-Estupro) e da “Cura-gay”!

Expropriação de toda a riqueza das Igrejas Evangélica e Católicas! Destinar este dinheiro e os R$ 188 milhões para educação, saúde e transporte gratuito e de qualidade! Basta de pri

vilégios aos padres, que comecem a trabalhar! Punição aos padres pedófilos!

Basta de assassinatos de homossexuais, travestis, transexuais! Pela livre determinação dos corpos e construção física livre de gênero!

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Apresentação do grupo de debate "Gênero e Marxismo"

Diana Assunção, dirigente da LER-QI e fundadora do grupo de mulheres Pão e Rosas, participa da apresentação do grupo de debate  "Gênero e Marxismo", em Barcelona, no Estado Espanhol, dia 04 de abril.


Estarão presentes: 
Diana Assunção, diretora do Sindicato dos Trabalhadores da Universidade de São Paulo (Sintusp) do Brasil e militante do grupo de mulheres Pão e Rosas; que organizou o livro, recentemente editado, “A pracarização tem rosto de mulher”, baseado na luta das trabalhadoras terceirizadas da limpeza na Universidade de São Paulo, do Brasil.
Maria Moreno, operária têxtil da “Terrassa vermelha” desde os anos setenta, que em 1996, junto aos trabalhadores ocuparam a fabrica quando o patrão quis fechá-la. 

Vejam abaixo a entrevista de Maria:


Vozes e relatos da luta das operárias nos anos 70’.Entrevista com Maria Moreno, operária textil de Terrassa



Queremos dedicar este 8 de março às mulheres trabalhadoras que durante as décadas de 60 e 70 no Estado Espanhol protagonizaram uma luta incessante contra a exploração do trabalho, quando ser mulher, operária, imigrante, significava lutar numa situação “diferenciada” dentro de um potente movimento operário em seu auge. Estas perigosas mulheres, enquanto lutavam contra a ditadura patronal, questionavam um Regime ditatorial em suas formas mais misóginas[1]. Porém, num contexto de transformações econômicas sob um processo de industrialização no qual o trabalho feminino estava se reconfigurando: entre 1950 e 1975, o número de mulheres assalariadas aumentava, ao mesmo tempo que outras eram obrigadas a abandonar o trabalho quando tinham filhos. É assim que os conflitos trabalhistas femininos se chocavam com todo um aparato legislativo, educativo e institucional, os quais, junto ao grande peso da igreja, impuseram uma ordem patriarcal que proporcionou às mulheres um destino absolutamente determinado pelo biológico, sob os valores “cristãos e espanhóis” cujo papel obrigatório era submeter-se à tutela dos homens junto à restauração da família como berço do Novo Estado franquista.

Estas perigosas trabalhadoras, neste caso as texteis, teceram os fios de uma potente história. Uma história de grande atualidade para este século submerso numa grande crise, de enorme retrocesso social e dos direitos da maioria das mulheres. E nele que não soa estranho lutar por “igual trabalho, igual salário”, contra a discriminação no trabalho, contra a dupla e, às vezes, tripla jornada de exploração e opressão, lutar contra isso é lutar contra esse sistema patriarcal tão íntimo amigo do sistema capitalista. Queremos expressar estas experiências através da história de Maria Moreno, que chegou a Terrassa (Catalunha) em 1967 com 17 anos vinda do sul da Espanha, de Córdoba, para trabalhar como operária textil. Trabalhou mais de 35 anos na fábrica Hilaturas Castell, lutando incansavelmente, se organizando com suas companheiras, e no ano de 1996 até ocuparam a fábrica para recuperar os postos de trabalho e colocaram-na a produzir sob controle das operárias.
***

Quando da casa para a fábrica as mulheres tornam-se perigosas

Maria era parte dassas milhares de mulheres que, como sua mãe, também operária têxtil, vinham dos povos do sul da Espanha: eram os tempos de grande afluencia de correntes migratórias das regiões mais agrárias para os centros industriais de Madri, Catalunha, País Basco e Astúrias. “Cheguei aqui e comecei a trabalhar no setor têxtil, na fábrica Hilaturas Castell, trabalhei 35-36 anos até que fecharam. Minha mãe trabalhava nesse setor também, na fábrica Torra de Neira. Mal cheguei e entrava às 4:20 da manhã para trabalhar todos os dias menos os domingos, era horroroso, eu vinha de um pequeno povoado, mudou minha vida totalmente. Eu me lembro que dentro da fábrica, com o ruído tão grande que havia, só pensava em cantar canções de meu povo para que não se esquecessem de mim, foi um choque muito forte. Nós imigrantes passavamos muito mal onde quer que fossemos...”

Logo Maria recuperará forças nos convulsivos anos da “Terrassa vermelha”, onde as fábricas têxteis eram muitas, num momento em que a incorporação da mulher ao trabalho assalariado significou uma mudança  de grande transcendência no papel social da mulher. Em Catalunha, a industria têxtil havia sido a mais avançada da economia. Esta se baseava na mão de obra feminina intensiva: em 1968, em todo o Estado as mulheres ocupavam 75% da mão de obra da indústria textil com um grande peso na Catalunha. Então, todas as mulheres de Terrassa em idade de trabalhar estavam metidas no setor têxtil. Havia fábricas muito grandes como Torra de Neira que era um monstro de fábrica, a Anônima, Castell... O setor têxtil teve uma luta histórica em Terrassa, sempre, porque havia muitos trabalhadores. Esta mão de obra feminina gerou uma grande confitividade feminina também. Na indústria têxtil de Maresme, Barcelonés ou Vallés Ocidental entre finais dos anos 50’ e 60’ surgiram conflitos nos quais se juntavam jovens trabalhadoras imigrantes com outras mais maduras, com experiência de trabalho industrial e, às vezes,  de conflitos de décadas anteriores.

Quando Maria chegou, logo seu sentimento de nostalgia é substituido pelo de rebeldia, quando conheceu as “folloneras”[2]“Na fábrica havia um grupo de jovens mais velhas do que eu e quando entrei me apresentaram outras companheiras como  “folloneras”, e disseram que não me juntasse à elas porque sempre causavam probemas e então eu disse: aí não me inclino. Depois fui me unindo às “folloneras” porque ainda que eu não tivesse noção de nada, eu as via mais companheiras. Porque se estávamos fazendo cones, e eu tinha que fazer 50 kg de fio e ao final do dia eu fazia 49kg, me tiravam dinheiro. As “malvadas”, as “folloneras”, quando se deram conta que eu não alcançava a meta e que podia reduzir meu salário, me ajudavam, jogavam cones que elas faziam na minha caixa. Aí comecei a ver que as más não eram tão más... e claro, começaram a lutar pela igualdade entre todas as trabalhadoras. Fui me dando conta de todas essas coisas e cada dia fui me unindo mais a elas...”

Maria era parte dessa nova geração de mulheres que, como um motor impossível de parar, enquanto se enfrentavam com a patronal por seus direitos trabalhistas, estavam se enfrentando sem saber com o modelo de mulher franquista que havia sido imposto durante mais de três décadas, a mulher submissa, decente, “anjo do lar”, e como ela mesma disse “católica, apostólica e romana”. “Claro, eu vinha de um povoado com uma vida tranquila e quando cheguei a Terrassa, meu pai me disse ‘Maria sozinha em Barcelona, mantenha um forte vínculo, hein?’ porque em Barcelona as coisas não eram tão tranquilas, meu pai me prendia tão forte que um pouco mais me asfixiaria! Dizia-me ‘você tem que trabalhar e manter a boca calada’. Mas eu fui desfazendo os vínculos... em frente da fabrica havia um convento. E o gerente da empresa cada dia ia a missa e depois entrava na fábrica e eu no início pensava que bom este senhor... Mas logo, pouco a pouco, fui me dando conta que não... Tínhamos umas máquinas com 300 pinos enormes, barulhentas. Então, na fábrica têxtil o gerente, o mordomo, o chefe de pessoal, por qualquer dinheiro nos vigiavam. E houve um momento que eu me apoiei por um segundo na parede porque sentia muita dor, porque estava menstruada, e nessa hora passou o senhor que ia todos os dias na missa. E veio o encarregado e me disse ‘Que está acontecendo Maria, está passando mal?’. E, claro, disse que não, também porque nesse momento era um tabu falar que estava menstruada. E o encarregado me contestou ‘Bom, só te digo uma coisa, se estiver passando mal, vá pra sua casa, porque seu descanso custa dinheiro ao dono’. Chorei duante três dias até que me senti aliviada. E assim fui tendo consciência, pouco a pouco, de que se um respiro custava dinheiro ao dono, eu queria seguir respirando, lhe custando ou não, queria seguir respirando com mais liberdade da que até agora tive. E comecei a lutas e me senti muito melhor. E, claro, deixei de ser católica, apostólica e romana.

Lembro-me quando veio uma monitora, se dirigia a mim porque eu já não era a menina de antes e estava com as folloneras, queria me fezer limpar seu espaço que era uma mesa com uma papelada. E eu lhe disse não, você vem limpar minha máquina? Então me sancionaram, três dias sem pagamento. Mas no segundo dia, minhas companheiras me meteram dentro da fábrica e eu me coloquei a trabalhar... Ao final do mês me faltavam três dias! Mas entre todas as companheiras cada uma deu um pouquinho e completou o que faltava. E a partir daí eu disse não sou mais tonta nem mais cristã...”

Homens, eram os encarregados, os pesadores e... os chefes de pessoal. Na máquina, eram todas mulheres...

Começava a nascer uma militância operária feminina vinculada diretamente às condições de trabalho. Conscientes ou não, da própria experiencia as levava a questionar os valores conservadores da instituição familiar e sua reprodução na vida pública e no trabalho. Chocavam contra um imaginário coletivo de crenças negativas – baseadas na diferença sexual de natureza universal e inevitável – sobre as mulheres que anulavam assim suas potencialidades para alcançar a igualdade. E desta maneira se justificava a grande discriminação no trabalho e no salário: em 1963, o salário/hora medio das mulheres na industria alcançava 80% dos salários masculinos, mas em 1971 havia piorado para 75%. A luta por “igual trabalho, igual salário” estava na ordem do dia. Maria, como muitas mulheres, começou a “descobrir” que a luta das mulheres operárias tinha suas próprias reivindicações. “Naquele tempo, sinceramente eu e as correntes feministas não percebíamos isso. Não, entre outras coisa, porque eramos todas mulheres e, naquele momento, não se tinha consciência da desigualdade da mulher. Mas sem saber, eu já era feminista, eu já estava trabalhando para as reivindicações das mulheres, não? Dei-me conta disso mais tarde quando vi que pagavam mais aos homens do que às mulheres, eles tinham mais tempo, eram vistos de outra maneira, ninguém os controlavam. E nós, as mulheres, sim! Se íamos ao banheiro e demorávamos já nos controlavam. Homens eram os encarregados, os pesadores e logo eram os chefes de pessoal. Na máquina, eramos todas mulheres... Uma vez nós montamos uma porque queriamos ser pesadoras, por que não podíamos? Se não tinha que carregar nada? Eram carros com rodas. Dizíamos: nós sabemos pesar, apontar o peso. Por que nos colocam em locais, segundo eles, mais inferiores? E logo você se dá conta que se não há quem faça os fios, não pode haver pesadores. Mas isso fomos descubrindo aos poucos e assim começamos a lutar por igualdade salarial, e prontamente começaram a nos atacar dizendo ‘estas mulheres sempre igual!’ Então você se dá conta de que falta algo quando quer reivindicar a igualdade nas condições de trabalho...”

Novas organizações operárias: as comissões de mulheres

As mulheres em luta se dotaram de organizações: as comissões operárias, habituais nas fábricas têxteis, formadas apenas por mulheres e por fora do sindicato vertical, que negociavam e lutavam com a patronal, as forças policiais e com funcionários da OSE. Estes foram os antecedentes do que logo serão as comissões operárias: “começamos a lutar por horas para comer, para trabalhar menos horas e conseguimos 8 horas e não trabalhar aos sábados. Para que houvesse vestiarios e pias em boas condições, não havia refeitório. Éramos 200 trabalhadoras, maioria mulheres e lutamos com muitas greves e paralizações. Tínhamos nossas assembleias e nossos próprios comitês, antes de se formar o sindicato de Comissões Operárias, o sindicato era vertical nesse momento, fazíamos as coisas por fora da fábrica, e nas assembleias decidíamos tudo o que teríamos que fazer dentro da fábrica. Realizávamos reuniões, mas não no sindicato, mas em um local que tínhamos em Terrassa. Nos reuníamos em grupos de trabalhadoras de diferentes fábricas, também vinham estudantes. Mas, claro, essas reuniões eram clandestinas. Eu me lembro a primeira vez que me chamaram... E um dia, e outro, e punições, claro! A que mais se atrevia era punida. Naquele tempo havia uma repressão muito grande. Mas tudo conseguimos com luta.”

Nos anos 70, começava a crise do setor têxtil da lã, onde se deram a maioria dos conflitos e inumeráveis mobilizações e greves contra os fechamentos e demissões. É assim, em uma situação convulsiva e de questionamento do regime e em meio a uma mudança de geração com a incorporação de jovens trabalhadoras, que nascem as comissões operárias junto ao ativismo e à militância de esquerda: “quando as comissões já haviam sido legalizadas, os encarregados de quando eu entrei já haviam ido embora pois eram mais velhos. Foram entrando pessoas novas que se filiavam às comissões e eram de nosso grupo. Então a empresa mudou, tanto, tanto, que fazíamos greve por tudo. É que chegamos a 90% de filiação às comissões operárias... Em todo esse processo, as mulheres, ainda que poucas, começaram a ser delegadas dentro das comissões operárias.” Quando Maria foi delegada, de nove delegados, três eram mulheres: “e quando vieram as eleições sindicais em 77-78, me elegeram como delegada sindical. As coisas eram muito diferentes de agora nas comissões.  Quando se propunha algo na fábrica, era realizada votação, logo chamavam a assembleia geral de comissões e se fazia o que era decidido na base. Logo, rara era a semana que não havia um curso de formação sindical...” Maria lamenta, com dor e raiva, o que são os sindicatos agora das Comissões Operárias.... “então, claro, aquilo sim que era meu sindicato naquele tempo.”

Quando fazíamos greve, a fazíamos por todas as nossas reivindicações, mas também em solidariedade com todos os que lutavam...

María nos contava como se coordenavam e se solidarizavam com as demais fábricas: “Se, veja, se em Madrid, por que naquele momento eram os cinzentos, espancassem uma pessoa, nós parávamos. No País Basco teve uma greve muito grande, nós paramos um dia... Quando a Seat, a AEG, faziam greve, nós sempre fazíamos também. Quando nós fazíamos greve, a fazíamos por todas as nossas reivindicações, mas também em solidariedade com todos os que lutavam. E para não nos enfrentarmos com nossos próprios trabalhadores, para fazer os piquetes nós mudávamos de fábrica ou distribuíamos panfletos na hora da refeição. Também como se organizavam contra a repressão, como as mulheres sempre estavam dispostas a fazer o impossível para liberar todos os presos. Nas comissões de trabalhadoras, era normal perceber que as mulheres não sofreriam retaliação de forma tão imediata como os homens. Naquele tempo, havia muita repressão, apanhavam muitas pessoas, então nós mulheres fazíamos caixas de resistência quando havia companheiros presos, e os torturavam. Nas manifestações havia repressão também contra as mulheres, porém era mais contra os homens. Os cavalos nos tiravam. Lembro-me do toque de recolher em Terrasa...”

A ocupação de fábrica: “As máquinas agora são nossas... e vimos que se podiam manter os postos de trabalho...”

María nos conta seu último ano na fábrica, passados 35 anos, quando e por que decidiram ocupar a fábrica e colocá-la para produzir: “Havia rumores de que a fábrica estava em crise... Então pedimos que viessem os economistas das comissões, fizeram um estudo e viram que havia uma grande fraude. E começamos a denunciar a situação, até que quando voltamos de férias, em 12 de outubro, se fechou. Houve um domingo em que uma de nós viu como tiravam coisas de um caminhão. Na segunda, quando chegamos ao armazém e haviam tirado um carregamento, fomos até a direção, pedimos explicações e nos disseram que estavam fechando. Voltamos à fábrica, contamos às trabalhadoras, e logo se formou um protesto...! Vieram as comissões, fizemos assembleia e decidimos que, como havia muito trabalho, as máquinas estavam cheias de trabalho(!), dissemos então que iríamos seguir. Um dia, se apresentam para desalojar a fábrica, com a polícia e a juíza. Nós sabíamos, e estávamos todas as mulheres na porta e os homens atrás. E dissemos a eles: daqui não sairemos, se quiserem nos colocar para fora terão que fazer, mas à força e nos matando. Porque se não vamos poder dar de comer a nossos filhos, então nos mate, e já estão nos matando. E a juíza não colocou resistência nenhuma, nos olhou, olhou para a polícia, e se foram. Desde aquele dia dizíamos, depois de uma assembleia de todas as trabalhadoras e do comitê: aqui há trabalho e ficaremos trabalhando. Primeiro quisemos fazer uma cooperativa, mas não poderíamos, pois teríamos que pagar uma dívida que não era nossa; além do que não tínhamos dinheiro. Porque, claro, como o dono se declarou em crise nós não tivemos indenização depois de 35-40 anos de trabalho ali! Passamos todos ao fundo de garantia. Havia muitos produtos e os armazéns estavam cheios. Então dissemos: as máquinas agora são nossas, aqui ninguém vem leva-los. Então poderíamos vender os gêneros e vimos que se podia manter os postos de trabalho. Estivemos sete meses em ocupação, fizemos três turnos: Manhã, tarde e noite...”

E se hoje ocuparmos as fábricas que fecham?

María nos conta como foram esses meses: “a maioria éramos mulheres. Foi uma grande experiência, ainda que muito difícil. Cortaram a luz, o gás e os credores vinham e nos insultavam e nos cobravam as dívidas. E respondíamos, não, aqui os primeiros credores são os trabalhadores, nós não cobramos nada. Mesmo comtudo isso, ficamos sete meses com a fábrica ocupada. Conseguimos vender tudo e, ao menos, pagar todos os salários que os donos nos deviam e seguir trabalhando esses meses. Mas foi muito duro manter a ocupação. Mas creio que, no final, tudo o que fizemos foi pensando nos demais, mostrando que fazíamos por todos e não por nós mesmos. E as pessoas responderam muito bem, se solidarizaram conosco, faziam guarda, até celebramos um natal ali na fábrica com gente de todos os locais, tecíamos gorros e lenços para eles... Ainda que não alcançamos tudo que queríamos, foi muito bonito também. “

Maria já conhecia muito bem a experiência da fábrica de Zanon na Argentina, ocupada e posta a produzir sob controle dos trabalhadores. Há alguns anos, fomos com ela a uma fábrica que estava correndo risco de fechar, a DERBI, onde María contou sua experiência de ocupação como uma possibilidade real, enquanto explicávamos junto a dezenas de estudantes que haviam levado sua solidariedade aos operários, a grande experiência de Zanon. Refletimos com María, sobre se a ocupação de fábrica, posta sob controle dos trabalhadores, pode ser uma saída à crise, diante das centenas de empresas que fecham e milhares de demissões: “Sim, claro! Eu lhes digo que não resistam à primeira oportunidade de mudar as coisas quando lhes disserem ‘esta fábrica já está fechada’, não. É preciso lutar, é preciso resistir e fazer todo o humanamente possível para trabalhar e para que teu trabalho tenha um sentido, demonstrando que podemos trabalhar sem os empresários. Tudo o que temos feito e conseguido lutando não pode desaparecer porque um funcionário deseja. Não se render, lutar e lutar. Agora mesmo vamos, à nossa maneira, nos colocar contra os desalojamentos, temos que demonstrar sempre que ‘sim é possível’.  Porque tudo o que temos ganhado tem sido com a luta dos trabalhadores. Se ocuparmos as fábricas quando os empresários querem fechá-las, além de impressionante, os empresários se assustariam! Porque se eles perceberem que os trabalhadores podem tomar a fábrica, iriam pensar um pouquinho. Seria impressionante num momento em que estão fechando fábricas sistematicamente... ainda mais as empresas que têm benefícios! Como nos contavam no debate de ontem os trabalhadores da Seat. Ontem lutávamos com medo, mas contra a ditadura de Franco, hoje acredita-se na democracia, mas o que há é uma ditadura patronal...”

Notas
[1] Que tem aversão às mulheres.
[2] “folloneras” era a forma pejorativa como chamavam as mulheres que se colocavam em luta, “rebeldes descontroladas”. Depois elas se apropriam deste termo de forma não pejorativa.





Trabalhadoras do Brasil e da França falam de gênero e luta de classes


Por Diana Assunção


Na última terça-feira, dia 26 de março, os Coletivos Feministas Garçes e ROSA, junto ao Coletivo de Estudantes Solidários aos Trabalhadores em Luta, organizaram na Escola de Ciência Política de Paris, França, um importante debate com o tema « Mulher e Trabalho: a luta segue! ».

Na mesa estavam Severine, trabalhadora demitida do grupo 3 Suisses e militante do Coletivo Licenci’elles, Diana Assunção, diretora do Sindicato dos Trabalhadores da Universidade de São Paulo (Sintusp) do Brasil e militante do grupo de mulheres Pão e Rosas ademais de Sarah do Coletivo de Estudantes Solidários aos Trabalhadores em Luta e do grupo feminista francês ROSA.

As intervenções de Severine e Diana colocaram experiências concretas de luta das trabalhadoras para pensar o tema de gênero na luta de classes. Severine relatou todo o processo de organização das mulheres do grupo 3 Suisses e a necessidade que encontraram de unir-se a outros trabalhadores em luta, como os operários da Goodyear e da PSA Aulnay.

Diana, a partir da experiência das trabalhadoras precárias no Brasil, que está retratado em seu livro « A Precarização tem rosto de mulher », defendeu uma visão marxista revolucionária sobre o tema da opressão e a necessidade de lutar de forma combinada contra a exploração capitalista. Com mais de 70 pessoas passando pelo debate, fez-se uma importante discussão que expressa os principais debates do fmeinismo francês: há uma classe burguesa e uma operária, ou há uma classe de mluheres e uma classe de homens? Severine, a partir de sua luta, demonstrou como a unidade concreta entre mulheres e homens trabalhadores, lutando contra todos os preconceitos na própria classe operária, é o caminho para levar as lutas até a vitória.

Diana colocou categoricamente que o que define uma classe é sua localização na produção, e que portanto há uma classe que é dona dos meios de produção, e que essa classe não é formada somente por homens. As feministas burguesas que defendem a unidade d einteresses entre todas as mulheres teriam que explicar como, por exemplo Hillary Clinton poderia fazer uma aliança com as mulheres do Oriente Médio que vivem sob a intervenção imperialista de seu país. Diana terminou dizendo que era utopia pensar na emancipação das mulheres enquanto se mantinha uma sociedade baseada na exploração, e que na França as mulheres tinham as melhores tradições para resgatar hoje, como das combatentes da Comuna de Paris, que além de lutar por seus direitos como mulheres, foram parte da luta por impor a primeira experiência de poder da classe operária da história.

A estudante Sarah interveio chamando todos os estudantes a aliar-se à classe operária, apoiando suas lutas, e lutando junto às mulheres trabalhadoras para conquistar todos os nossos direitos.

Entrevista com Séverine, ex-trabalhadora de 3 Suisses e membro das Licenci'elles

« Pensavam que o assunto acabaria rapidamente. Certamente porque éramos mulheres, dispersas, não-organizadas. [...] Hoje, lutamos por nossa dignidade»

No fim de janeiro de 2012, o grupo 3 Suisses decide fechar as 35 lojas distribuídas por toda a França para se concentrar nas vendas pela internet e por correspondência. Nessa marcha, são 149 trabalhadorxs que deverão ser demitidxs, a despeito dos lucros colossais registrados pelo grupo Otto. 68 trabalhadorxs se opuseram a essas demissões e decidiram lançar um combate diante do tribunal do trabalho. Ao mesmo tempo, fundam a associação Licenci’elles para sustentar sua luta e propor a outras mulheres assalariadas que encontram as mesmas dificuldades de isolamento e precariedade, um quadro de organização e de apoio. Hoje, perto de uma centena, as Licenci'elles fazem barulho na mídia e se unem às lutas atuais como a dos trabalhadores da Goodyear. Séverine de Licenci'elles, ex-trabalhadora de 3 Suisses, nos conta o percurso dos combatentes.

Révolution Permanente: Em quais condições ficou você sabendo do projeto de fechamento das lojas 3Suisses e de tua demissão?

À época, eu era responsável pela loja em Saint-Etienne. Havia então 35 pontos de venda e 152 empregados envolvidos (147 mulheres e 2 homens). Já em 2009, tinham-se tornado 850 pessoas e somente 36 foram atacadas. Éramos os próximos na lista. E ela não parava de se estender com o anúncio de uma nova deslocalização daquilo que resta dos centros de chamada.

Sobre o que nos diz respeito, foi em fevereiro de 2011 que ficamos sabendo da notícia... por uma conferência telefônica! Foi assim! Os distintos chefes responsáveis pela loja lá foram convocados. Em seguida, ficou a nosso encargo, sozinhos, de anunciar isto a nossas equipes. Não houve qualquer acompanhamento, não se tinha nenhuma informação sobre as datas exatas, nenhuma resposta a nossas questões. A direção mentiu para nós igualmente sobre a possibilidade de uma recontratação potencial. Claro, essa possibilidade nunca apareceu. No espaço de um ano, houve uma só e única vista do setor de RH. Não fizeram nenhuma proposta de remanejamento, e sim propostas falsas. Eu, por exemplo, se me propunha tornar responsavel de logística. Mas isso não tinha nada a ver, eu trabalho na  venda de roupa. Em verdade, eles não nos tomaram a sério. Pensavam que não tínhamos a capacidade para responder essa falcatrua. Se quisessem fazer as coisas corretamente, nos fariam propostas de remanejamento que fossem sérias. Verdadeiramente, não há nenhum respeito. Nos enganaram por muito tempo. Atacaram-nos pessoalmente em nossa dignidade, nos tratando como merda. Foi isso, creio, que nos prontificou a reagir...

Grosso modo, pensavam que o assunto rapidamente seria ultrapassado. Certamente porque éramos majoritariamente mulheres, dispersas pelos quatro cantos da França. Porque, é verdade, a maioria das companheiras não eram sindicalizadas, não se tinha qualquer cultura de luta. Eu, por exemplo, era a primeira vez que fazia uma greve. A primeira ação foi de nos agruparmos na Croix, à sede, para contestar as demissões, depois de uma reunião organizada pelos responsáveis sindicais, no estacionamento. Desde então, começaram as medidas de intimidação da parte da direção. Discurso de culpabilização, chamado à “razão”, propuseram além do mais aos assalariados assinar um acordo individual, no qual acordavam um cheque de 6 a 9 meses de salário contra a promessa de não criar problemas se presentando no Tribunal do Trabalho.

Foi totalmente ilegal, pois nossas demissões não tinham sido ainda notificadas. Alguns cederam a esta chantagem, sob os golpes da pressão, das obrigações financeiras e familiares. Foi verdadeiramente muito duro.

Os fechamentos aconteceram em janeiro de 2012. Para 68 dentre nós, decidimos denunciar a situação no Tribunal do Trabalho. O processo está em curso, posto que hoje contestamos sua “justificativa econômica”.

RP: Em que momento apareceu a ideia de fundar o coletivo Licenci’elles?

Na primavera de 2012, começamos a tomar contato com os assalariados envolvidos pelas mesmas medidas que nós no setor têxtil. Com os “Paru-Vendu”, nos manifestamos diante da Assembléia Nacional em abril de 2012. Ademais, quando se é mulher, se é frequentemente mais precária. Nos persuadimos de que era preciso nos associar com as companheiras que vivem a mesma situação que nós. Por conseguinte, reencontramos os ex-trabalhadores de Lejaby, de Samsonite, via nosso advogado, Fiodor Rilov, que os defendeu. Entramos também em contato com uma trabalhadora nos caixas do supermercado ED, que conhecimos depois de uma reunião das mulheres em luta organizada pelo Front de Gauche. É o mesmo procedimento que se aplica muito entre eles, e que cria o isolamento e o fatalismo. A ideia apareceu de criar uma associação para contribuir com um apoio àqueles que se encontram nas mesmas dificuldades, em um setor muito feminizado, que raramente é sindicalizado, portanto débeis frente aos ataques ao emprego. Mas também para lutar contra as demissões nos grupos e empresas que têm lucro.

De golpe, montamos essa associação com as 68 companheiras que foram à justiça contra a 3 Suisses. No começo, tratava-se de criar uma ajuda específica, jurídica, mas também de transmitir uma experiência num setor que não tem uma cultura de luta. Esses diferentes encontros nos inspiraram muito, notadamente aqueles com os Lejaby. Nós, ao início, não éramos cobertos pela mídia. Depois começamos a interpelar a mídia, a fazer barulho ao nosso redor. Fizemos barulho pela via das redes sociais. É verdadeiramente a partir de abril que começamos a nos fazer conhecidas, notadamente conduzindo ações ao lado de outros trabalhadores em luta.

RP: Efetivamente, hoje, nos vemos vocês ao lado dos trabalhadores da Goodyear, que não são portanto do mesmo setor que vocês, nem de um setor muito feminino. Como você explica essa evolução?

Encontramos os trabalhadores da Goodyear em um piquete de greve em fevereiro de 2012. Eles nos lançaram: “Onde estão os pneus?” Marie, uma Licenci'elles, lhe respondeu: “Estaremos no Tribunal do Trabalho no dia 22 de março. Venham com os pneus.” Eles responderam ao chamado e vieram nos apoiar no tribunal depois de nossa primeira conciliação. O acolhimento foi maravilhoso, verdadeiramente dava prazer. Com efeito, nos encontramos na mesma perspectiva. Nós lutamos pelos empregos, e não pelos cheques. Sabemos que as indenizações vão depois de alguns anos à Pôle Emploi (agência oficial de procura de emprego), sem recuperar o trabalho, nas regiões onde o desemprego se tornará massivo, como em Amiens na Goodyear. E depois, no momento em que constituímos o coletivo, nos demos conta que não éramos as únicas envolvidas, que a coisa ia muito além do setor da venda de roupa. As demissões massivas, com a PSA, Sanofi, Virgin, Goodyear, Candia, e os outros, tocam todos os setores e todo o mundo está envolvido. E para fazer as coisas mudarem, é preciso que combatamos todos juntos. É preciso sair de nosso próprio caso pessoal, de isolamento, no qual acreditamos estar quando somos deixados à porta da rua. Certamente, há diferenças, mas a causa é a mesma. São os trabalhadores que sofrem, esperam, as empresas não se importam. Eles pensam que com um cheque vão calar a nossa boca.

De golpe, decidimos empreender um projeto de lei contra as demissões nas empresas que têm lucro com os representantes de 30 fábricas diferentes (Faurecia, Candia, Sanofi, Goodyear, Bigard...). Colocamos uma proposta de lei ao Ministério do Trabalho a 12 de fevereiro, então que diante de suas janelas, estávamos reunidos com os trabalhadores de Candia, de Sanofi, de Goodyear. Uniram-se também a nós uma delegação da PSA Aulnay. Que as fábricas demitam enquanto têm lucros acumulados, com dividendos aos acionários, é inaceitável. Não podemos os trabalhadores pagarmos por isso. É absolutamente necessário evitar os fechamentos de fábrica. É preciso também desconfiar dos números que nos são mostrados: são manipulados para nos fazer engolir qualquer coisa. Por exemplo, o grupo 3 Suisses atacou as ajudas públicas da região, mas disso ninguém fala. É um escândalo! E é por isso que é necessário lutar.

RP: Que repercussão você tem sobre teu engajamento enquanto mulher que luta pelo seu emprego?

Integrar-me em uma associação de mulheres, é isso que me deu forças. Pois é preciso poder resistir a tudo. Como fazer para te construir, retomar confiança em si mesma, manter uma vida social, quando se chega a ser demitida aos 35 anos, e se está sem emprego?

Para mim, o fato de me mobilizar me transformou. Se você me tivesse dito, há três anos, que eu entraria em greve contra o meu patrão, eu teria rido. Para mim, tudo isso era desconhecido. Minha demissão, eu a vivi muito mal. Me coloquei muitas vezes em questão. Mas, havia duas opções: assino e me deprimo, ou levanto a cabeça. Eu, prefiro ser capaz de me olhar no espelho pela manhã. É uma questão de dignidade.

Eu estou orgulhosa porque não me deixei comprar. A luta me permitiu encontrar pessoas excepcionais, descobrir uma nova faceta de mim mesma que não conhecia antes. Eu me abro mais, tomei confiança. Mesmo se é difícil – há a excitação na mobilização, depois quando volta para casa, é o down, a depressão – há muitas gratificações. Eu conhecí Marie das Licenci'elles e outras pessoas excepcionais. E depois você colhe sementes na luta, aprende com a experiência dos outros. No contato com os trabalhadores da Goodyear, melhoramos muito  a comunicação com a imprensa. Do fato de nossas irrupções frequentes na mídia, aprendemos a transmitir nossas convicções, nossas ideias, a torná-las mais fortes. E é por isso que cumpre conduzir conjuntamente o combate!


Solidariedade de classe na PSA Aulnay - França

Saudação Internacionalista na França



Em um momento no qual o problema do desemprego é uma das principais preocupações dos trabalhadores e jovens da França, o caso mais emblemático é o da fábrica do grupo Peugeot-Citroën (PSA) em Aulnay, que, junto a outras fábricas como da Goodyear e ArcellorMittal, está
ameaçada de fechamento (o grupo que já prevê suprimir mais de 11.000 postos de trabalho em todo o país). A fábrica está paralisada há meses contra as demissões, e a patronal já efetua provocações, como tentar retirar da fábrica os estoques produzidos para preparar seu fechamento, tratando de impor golpes e desmoralizar essa exemplar luta operária, de mais de dois meses em greve, no coração da crise econômica mundial.

Seguindo a visita feita à fábrica de Aulnay
pelos estudantes do coletivo interfaculdades que impulsionamos desde os militantes da CCR na França, com objetivos organizar a solidariedade do movimento estudantil aos trabalhadores que hoje lutam contra das demissões e os fechamentos de fábricas, Diana Assunção, diretora do Sintusp e dirigente do grupo de mulheres Pão e Rosas e da LER-QI, também prestou solidariedade à luta dos operários da PSA, visitando a planta ao lado de diversos companheiros. Em uma saudação calorosa na assembleia de greve (realizada em função do combate ao início do processo de demissões), parabenizou a luta exemplar desses companheiros que resistem contra a arrogância da patronal, e lembrou a importância da luta internacional dos trabalhadores.

Viva a aliança internacional da classe operária!

Os trabalhadores não temos fronteiras, nossa luta é uma só!

Que os capitalistas paguem pela crise!


quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Pão e Rosas Brasil no Encontro Nacional de mulheres: pela construção de um forte movimento de mulheres classista, combativo e revolucionário


Junto às trabalhadoras metalúrgicas, gráficas, ceramistas, têxteis, da alimentação, do funcionalismo, dos engenhos de açúcar... junto às imigrantes, às donas de casa e empregadas domésticas...junto às secundaristas e universitárias!


por Pão e Rosas Brasil

Na Argentina, como no Brasil, as mulheres, sob o governo de uma mulher, Cristina Kirchner e Dilma Roussef, seguem sofrendo com as mortes por abortos clandestinos, com as redes de tráfico de mulheres, com a violência e com a precarização do trabalho. O Encontro demonstrou que existem milhares de mulheres dispostas a se mobilizar para mudar essa situação, apesar das intervenções e dos boicotes truculentos de setores organizados e reacionários da igreja e setores ligados ao governo. Infelizmente, a Comissão Organizadora do Encontro, nas mãos do PCR (Partido Comunista Revolucionário), não organizou o Encontro de forma a expressar essas mulheres lutadoras, deixando caminho aberto à participação dos setores mais reacionários e contra os direitos básicos das mulheres. Além de manter o caráter de consenso do Encontro que não tem votações nos grupos de discussões e plenária final para que se vote planos de luta pelos direitos das mulheres.

Foi com muito orgulho que o Pão e Rosas Brasil, através das companheiras Marília Rocha (metroviária de SP) e Rita Frau (professora da rede estadual em Campinas), fez parte da delegação do Pan y Rosas da Argentina, junto a outras centenas de trabalhadoras e jovens, que travaram uma grande luta política para que o Encontro servisse de fato para organizar as mulheres para lutar por seus direitos e para que o Encontro votasse um Plano de Luta efetivo pelo direito ao aborto e pelos direitos das mulheres trabalhadoras e da juventude. Participamos junto às centenas de mulheres da delegação do Pan y Rosas de toda a Argentina, mulheres estudantes universitárias e secundaristas, mulheres trabalhadoras das fábricas de alimentação e metalúrgicas da Zona Norte de Buenos Aires, trabalhadoras de Zanon, professoras, trabalhadoras da Saúde, donas de casa, empregadas domésticas, aeronáuticas, trabalhadoras gráficas, trabalhadoras estatais, trabalhadoras imigrantes das indústrias têxteis e trabalhadoras dos engenhos de açúcar.


As companheiras travaram uma luta exemplar contra os setores que queriam apoiar a greve dos policiais que ocorria na Argentina, colocando que policiais não são trabalhadores e sim cães de guarda da burguesia e seu Estado, que reprimem a classe trabalhadora, assim como foram os mesmos na Argentina que criaram o Projeto X, onde espionavam  dirigentes operários. Discutiram contra os setores que queriam fazer parte de um ato contra o governo kirchnerista, convocado pela CTA, mas junto com setores da patronal agrária como a oposição “sojeira”, que explora os trabalhadores rurais, defendendo a independência de classe frente ao governo e também à oposição burguesa e lutando pela mobilização dos trabalhadores por suas próprias reivindicações. Elas elegeram a consigna “Nem com Cristina, nem com a Rural...trabalhadoras do campo e da cidade!” para expressar a luta por uma política independente do governo e da oposição patronal. Foram as mesmas mulheres que mostraram seu compromisso com a luta pela justiça  contra os assassinos de Mariano Ferreira discutindo a necessidade que Encontro se somasse a marcha do dia 20 de outubro, aniversário de luto do assassinato deste jovem trotskista do Partido Obrero que foi morto pela burocracia sindical pois defendia a luta dos trabalhadores terceirizados da ferrovia de Buenos Aires. À Mariano Ferreira elas cantavam: “À Mariano Ferreira nós vamos vingar, à Mariano Ferreira nós vamos vingar, com a luta, luta operária e popular”.

Nos emocionamos junto à essas companheiras ao fazer um grande escracho na igreja central da cidade, denunciando a conivência dessa instituição com a ditadura militar e com as milhares de mulheres mortas por abortos clandestinos. Nos emocionamos mais uma vez na plenária do Pan y Rosas de encerramento do Encontro, ao escutar as trabalhadoras mais precárias das fábricas, as imigrantes e as trabalhadoras dos engenhos contar sua experiência, se sentindo totalmente acolhidas e parte desse movimento, dizendo que a luta pelos direitos das mulheres é também da classe trabalhadora, e que esta luta é sem fronteiras pois a classe trabalhadora é uma só! Neste momento todo o plenário cantava “Nativa ou estrangeira, a mesma classe operária!” e em seguida as jovens estudantes puxaram “Trabalhadora escuta, sua luta é nossa luta!”.

As jovens e trabalhadoras do Pan y Rosas mostraram que é possível colocar de pé um grande movimento pelos direitos das mulheres trabalhadoras e da juventude, lutando contra o governo, contra os patrões, contra a polícia e contra a igreja. Queremos fazer dessa experiência internacionalista um exemplo para as mulheres trabalhadoras e jovens no Brasil, para colocar de pé, também aqui, um movimento de mulheres classista, combativo e revolucionário que lute contra a precarização do trabalho, contra toda forma de violência, e por um plano de luta pelo direito ao aborto legal, seguro e gratuito para sairmos às ruas e arrancarmos este direito elementar que assim como na Argentina, no Brasil milhares de mulheres seguem morrendo por abortos clandestinos. Estamos orgulhosas de ser parte desse grande movimento! A luta das mulheres trabalhadoras é uma só, e não tem fronteiras!

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Agora mais que nunca... Pelos direitos da mulher trabalhadora e da juventude!


por Andrea D’Atri

Sob um sol escaldante, ao longo do Paraná, aconteceu o XXVII Encontro Nacional de Mulheres. Como tem ocorrido ultimamente, não alcançou a massividade que já teve noutros anos, mas sentiu o impacto da situação política nacional, que cruzou os debates em todas as oficinas. O descontentamento com a Igreja, com o governo e com as condições de uma vidas submetidas a precarização do trabalho, à necessidade de terra e moradia, os assassinatos de jovens pelas mãos da polícia, às mortes por abortos clandestinos, ao perigo das redes de tráfico, à violência em todas as suas formas, abriu novos caminhos, mesmo com a regulamentação e o rotineirismo imposto pela comissão organizadora encabeçada pelo PCR.
Tudo isso mostra que sobram motivos para que os Encontros se transformem num pontapé inicial para que milhares de mulheres encabecem um grande movimento de luta por seus direitos, que por sua vez se dirija a milhões de mulheres que suportam as mesmas injustiças, que aspiram também à uma vida liberada de toda a violência e opressão. As ações cada vez mais burocráticas de uma minoria e pouco representativa Comissão Organizadora vai na contramão das milhares de mulheres que sustentamos, com nossa participação, os Encontros. É evidente que se não fosse por este controle que exerce a Comissão Organizadora, poderiam se transformar num canal de expressão, organização e luta para milhares de mulheres. Infelizmente outras organizações de esquerda também participam rotineiramente e com pequenas delegações que não mostram vontade de organizar um grande movimento de mulheres na luta por nossos direitos.
Os debates políticos atravessaram todo o Encontro
Com a presença de uma maioria de mulheres organizadas em partidos de esquerda, agrupações estudantis ou sindicais, diversos grupos políticos de todas as tendências, grêmios, ONG’s e coletivos feministas, foi inevitável que nas oficinas os temas previstos se mesclassem com os debates políticos nacionais do momento. Todas opinaram sobre o motim de policiais e prefeitos, sobre que atitude adotar frente a paralização e o ato convocado pela CTA opositora com a Federação Agrária, sobre a proposta de participar na marcha a dois anos do assassinato de Mariano Ferreyra, o 20 de outubro.
As companheiras do Pan y Rosas e o PTS apresentamos claramente nossas ideias: não apoiamos aos repressores que o governo encorajou e fortaleceu, que reprimiu os povos que se levantaram contra a grande mineração, que são os criadores do Projeto X com o qual se vigia os dirigentes sindicais operários de Kraft, os que reprimem as lutas da classe trabalhadora. E consideramos que apesar de no dia 10 outubro sobrarem motivos para paralisar contra a política do governo kirchnerista, não vamos ao ato convocado pela CTA com os setores das patronais agrárias (Sociedade Rural). “Nem com Cristina, nem com a Rural... trabalhadoras do campo e da cidade!” foi a consigna eleita para apresentar que é necessário luta por uma política independente tanto do governo como da oposição patronal. E uma vez mais reafirmamos nosso compromisso com a luta por justiça para Mariano Ferreyra, convidando a somarem na marcha convocada no aniversário de luto por seu assassinato.

Paradoxalmente, este ano, quando mais claramente se expressou em muitas oficinas o descontentamento com o governo, apareceu pela primeira vez um grupo não muito numeroso de diversas agrupações K que, com certa prepotência, pretendia frear o questionamento ao governo que impede a legalização do aborto na Argentina. Por isso não pode surpreender que tanto esta delegação K como a Comissão Organizadora tenham se negado a passar pela catedral de Posadas e pela Casa do Governo, durante a marcha de encerramento do Encontro. As militantes K e as dirigente do PCR, que regulamentaram os Encontros Nacionais de Mulheres, terminaram alinhadas, de fato, com os setores “anti-direitos”, ao mesmo tempo em que Macri vetava o projeto de aborto não punível, em Buenos Aires.
Contudo, mais uma vez, a raiva que geram as mortes de mulheres jovens e pobres em consequência do aborto clandestino se expressou majoritariamente, especialmente quando a maioria das manifestantes decidiu ir à catedral e na Casa do Governo. A Igreja quis evitar o confronto e foi um grupo de fundamentalistas católicas que vieram de outras províncias os que cumpriram o reacionário papel de guardas clericais. “Igreja, lixo, você é a ditadura!” foi a clássica consigna que centenas de mulheres cantaram frente a “torcida organizada” que rezava o rosário em voz alta, enquanto nos insultava por baixo.
Pan y Rosas, do Norte açucareiro à Patagônia ceramista
Na marcha, fomos ainda muito mais, porque dezenas de mulheres que conheceram nas oficinas decidiram se mobilizar com o Pan y Rosas. Também nos acompanharam as operárias ceramistas de Zanon. Com os braços entrelaçados, encabeçaram nossa numerosa e combativa coluna, junto as delegadas e trabalhadoras de Kraft, de Pepsico, as mulheres do noroeste do país, as imigrantes... Não faltaram as trabalhadoras de Felfort, de Soriano, as trabalhadoras gráficas, a comissão de mulheres de Donnelley, as trabalhadoras aeronáuticas, da telefonia, estatais, docentes. Um verdadeiro orgulho para centenas de estudantes secundaristas e universitárias que as encorajavam ao grito “trabalhadora, escuta, sua luta é nossa luta!” Todas concordamos que, no marco da crise política que sacode o governo, a classe trabalhadora tem que intervir com suas reivindicações de forma independente dos diferentes setores patronais.
Neste marco, é muito mais urgente para as mulheres, as mais exploradas da classe trabalhadora, as que sofrem as consequências da precarização do trabalho, os abortos clandestinos, a violência machista e o trafico de pessoas, colocar de pé um amplo movimento de luta por nossas demandas. Por isso levamos estas bandeiras ao Encontro. Sobram motivos e entusiasmo para lutar por nossos direitos. O que falta é a vontade política de quem impede que os Encontros Nacionais de Mulheres se transformem numa força esmagadora de lutadoras por todo o país. É possível construir um canal onde se expresse o descontentamento de milhares de mulheres prejudicadas pelas patronais exploradoras, por um governo que carrega sobre seus ombros a responsabilidade de centenas de mulheres mortas por abortos clandestinos, por uma oposição direitista que se alinha atrás da reacionária Igreja que nos oprime e das patronais que nos humilham.
A mulheres do Pan y Rosas voltamos do XXVII Encontro Nacional de Mulheres dispostas a que estas ideias comecem a se tornar realidade, colocando em  pé um grande movimento de milhares de mulheres em luta por nossos direitos. Mãos à obra!