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segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Os encochadores e o machismo de cada dia

Por: Letícia Oliveira

Após horas e horas de expediente de trabalho, mulheres em todo o país são forçadas pela péssima qualidade do transporte público a pegar ônibus, trens e metros extremamente lotados. FOTO UOL.


Nos últimos dias recebemos a denúncia de que havia um grupo público do Facebook intitulado "Encochadores" divulgando matérias e histórias repugnantes de casos de assédio sexual nos transportes públicos. Tal grupo defende e propagandeia essa prática livremente pela web sem nenhum tipo de punição ou investigação.
Os encochadores e o machismo de cada dia
Após horas e horas de expediente de trabalho, mulheres em todo o país são forçadas pela péssima qualidade do transporte público a pegar ônibus, trens e metros extremamente lotados. A prática de assédio sexual, a qual faz referência esse grupo do Facebook, é um dos maiores medos de cada trabalhadora em nosso país. É certo dizer que quase toda mulher já passou por isso em uma ida ou volta ao trabalho, e que sentiu-se totalmente indefesa para evitar tal abuso. De fato, o que se pode fazer? Em um transporte tão lotado, não há muito para onde fugir, e por vezes diversas mulheres, como me foi testemunhado a partir das denúncias que abrimos no Facebook, desistem de fazer qualquer coisa e torcem para que o abuso da "encochada" acabe o mais rápido possível.
Os "encochadores" relatam livremente a sua repugnância: "meu junior durasso pra fora da cueca... só sei que na plataforma da estação anhangabaú eu já estava cutucando a polpa da bunda esquerda dela bem a vontade esfregando de leve... quando entramos lá dentro me posicionei e já mergulhei meu pau deitando no meio da bunda dela... a que sensação d bem estar maravilhoso... rs... dai eu deixei ele reto e entuxava no meio dela a calça entrou mais ainda... rs... ela quieta o tempo todo até a estação carrão na saida apertei a bunda dela... aaaahhhhhhh... fiquei com essa ecochada até agora no pensamento... rs".
Independentemente das denúncias realizadas por uma série de mulheres, o Facebook mantém a página ativa, alegando que "não fere os princípios de comunidade do Facebook".
Ao fazer uma alegação como essa o Facebook nos leva a compreender ainda melhor uma triste realidade: no machismo de cada dia, que perpassa todas as relações, principalmente as de trabalho, abusos como este estão muito longe de ser considerados por qualquer empresa ou grande coorporação como uma violência como de fato é.
O prazer que estes homens sentem não é nem de longe um desvio social. É apenas uma expressão mais aguda do que a sociedade nos educa todos os dias através das relações de trabalho e da ideologia dominante presente em cada filme, novela, propaganda ou jornais produzidos pelas grandes coorporações de imprensa. Aprendemos em todos esses espaços que a mulher vale muito pouco ou quase nada, recebendo em média 2/3 do salário de um homem, e se for negra, menos da metade do salário de um homem branco.
Reagir ou não reagir, eis a questão
As mulheres vivem todos os dias de sua vida com a ameaça constante de algum tipo de violência moral, sexual ou doméstica. O Brasil lidera os rankings de casos de violência, tendo totalizado no primeiro semestre do ano passado mais de 260 mil denúncias de violência doméstica. No ano passado, o IPEA revelou que a cada 90 minutos uma mulher é assassinada no Brasil vítima de violência doméstica. Em 2013, o Sistema Único de Saúde brasileiro recebeu cerca de 2 mulheres por hora com sinais de violência sexual, totalizando mais de 2300 casos, sem contar as mulheres atendidas no sistema privado e as multidões de mulheres que por vergonha deixam de procurar auxílio médico nesse tipo de situação.
Por essa realidade, não são poucas as mulheres que evitam andar sozinhas durante a noite, usar roupas curtas ou envolver-se com pessoas desconhecidas. Apesar de corretas em sua prevenção, essas medidas dão a entender que o problema da violência sexual é culpa da própria mulher. Que seus hábitos e vestuário são os grandes culpados por aquele trauma, quando na verdade o culpado por toda essa violência que sofremos é um sistema econômico que desenvolve uma ideologia machista totalmente favorável a sua dominação.
Ao convencer o conjunto dos trabalhadores de que as mulheres são inferiores, facilitam a super exploração de metade da humanidade e economizam com serviços que, se não cumpridos pelas mulheres, sairiam bastante caros para esses que precisam de tanto lucro, como são os serviços de lavanderia, cuidado de filhos e idosos, alimentação, etc.
Contra a sua própria responsabilização sobre cada um desses casos de violência, o Estado burguês nos culpabiliza ao passo que cria Globelezas e mulheres submissas em suas novelas e, se durante o dia rouba nosso dinheiro, à noite tenta nos fazer escandalizar nos jornais com os casos de estupro.
Nenhuma mulher deve se envergonhar ao ser assediada nos transportes ou em qualquer outro lugar. A vergonha deve ser carregada por esses homens e pela burguesia que lucra todos os dias com a nossa opressão, inclusive com os transportes cada vez mais lotados que pagam suas festinhas privadas e seus ganhos extras com corrupção.
É possível que o transporte seja um lugar agradável?
Sim! A vontade de todo trabalhador ao sair do trabalho é pegar um metro, um trem ou um ônibus sem estresse. A qualidade de vida de uma realidade dessa é impensável para nós hoje em dia. A única justificativa para que o transporte siga sendo assim é o fato de que é gerido e administrado pelos que não usam o transporte como meio de locomoção e que dele não extraem nada a não ser os lucros exorbitantes.
Durante as recentes jornadas do transporte e as que colocaram o Brasil no cenário da juventude internacional em junho de 2013 já defendíamos que a única saída para que o transporte fosse de fato público, de qualidade e atendesse às necessidades dos trabalhadores era a partir da estatização sob controle dos trabalhadores e usuários.
Nesse espaço, a partir da clareza de que a opressão à mulher não deve ser reproduzida pelos trabalhadores pois a nós de nada serve essa ideologia, é possível que as mulheres trabalhadoras e usuárias do transporte possam pensar medidas efetivas de combate ao assédio sexual nos trens, metros e ônibus. Não houve por parte das administradoras públicas e privadas nenhuma medida efetiva de combate a essa prática a não ser campanhas estéreis e esparsas que jamais passaram pela solidariedade entre as trabalhadoras e as usuárias ou em campanhas de vigilância dos próprios usuários para denunciar e repreender cada caso que presenciassem.
Os homens são parceiros na luta contra o assédio?
Neste tipo de discussão é comum que as mulheres passem a encarar todos os homens como seus inimigos na luta contra a opressão. A verdade é que os homens, apesar de parcialmente beneficiados pelo machismo dentro de suas casas e pelo direito que recebem de nos insultar na rua, tocar em nossos corpos ou nos violar, não são os que verdadeiramente ganham com o machismo. Apenas a burguesia - proprietária dos meios de reprodução da vida como as fábricas, os bancos e outros - ganha qualitativamente não apenas com a opressão às mulheres, mas também com o racismo, a homofobia, a transfobia, a xeonofobia e todas as possíveis formas de opressão. Esse é o melhor caminho que ela encontra para dividir e enfraquecer a classe trabalhadora e lucrar mais ao determinar postos de trabalho mais precários para aqueles que não obedecem o padrão "homem, branco, heterossexual".
Portanto, a melhor luta contra a opressão é aquela que se faz lado a lado, trabalhadores e oprimidos, numa luta unitária contra toda forma de opressão e exploração, negando a divisão das fileiras operárias e abraçando a causa de todos aqueles, trabalhadores ou não, que sofrem cotidianamente da opressão de gênero, raça, etnia ou nacionalidade.
Assim, é possível reconhecer que em cada vagão de metro, trem ou em cada ônibus em todo o mundo as mulheres encontrarão nos trabalhadores e nas outras mulheres solidariedade para interromper o assédio que estiverem sofrendo, e que a tarefa de cada uma dessas mulheres é lutar para que possa, junto aos seus irmãos de classe e oprimidos, determinar o que será feito de cada um desses vagões e ônibus através de um controle operário e popular dos transportes.
Registros de telas usados para a denúncia de conteúdo feita ao Facebook:




Texto original : Palavra Operaria
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quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Nota da agrupação Pão e Rosas sobre a Carta do EME da USP




Nós, do Grupo de Mulheres Pão e Rosas, soltamos essa nota para expressar nossa posição diante da Carta de Reivindicações redigida a partir do 2o Encontro de Mulheres Estudantes da USP. A carta será entregue à reitoria nesta quarta-feira (17), em um ato.
Assinamos criticamente a Carta, já que apresentamos alguns aportes e divergências em alguns pontos específicos. Reconhecemos a importância que teve o EME como um espaço de organização das mulheres na luta contra o machismo e a violência tão presentes na sociedade e que se reproduzem dentro da universidade. Temos acordo com vários pontos reivindicados pela carta, contudo temos algumas ressalvas.

Acreditamos que a USP têm se tornado um lugar onde a violência tem tido muito espaço. Tendo a noção que a universidade tem se mostrado, ao longo dos anos, cada vez mais fechada à população de fora (que é a população negra, pobre e trabalhadora que financia a universidade), defendemos uma abertura do campus que permita que todas e todos frequentem a USP e façam uso do seu espaço, tornando-o menos deserto, mais movimentado e, portanto, menos perigoso.

A questão do aumento da frota dos circulares, que aparece como uma reivindicação da Carta torna-se fundamental diante de um cenário onde esperar um ônibus sozinha, num ponto escuro, pode resultar num assalto, sequestro ou estupro. Porém, não podemos nos esquecer de que o busp atualmente só atende a uma parcela daquelas que frequentam a universidade: as estudantes, professoras e trabalhadoras efetivas, deixando de lado as trabalhadoras terceirizadas. Estas, que em sua maioria vivem na favela ao lado da USP, a São Remo, muitas vezes fazem o trajeto a pé até seus postos de trabalho no início da manhã, quando a USP se mostra desértica e, assim, bastante perigosa. Defendemos, portanto, que haja maior frota de circulares, mas que esses circulares atendam também às trabalhadoras terceirizadas. Pela efetivação de todas as terceirizadas sem necessidade de concurso público  Queremos de volta os circulares cinzas que não cobravam tarifa, sendo sua retirada um ataque a toda a população que não tem vinculo com a USP, mas que precisa andar pela universidade.
Vemos a importância da criação de um Centro de Referência, mas discordamos do caráter que o Encontro acabou por definir. Como escrito na Carta o Centro teria "envolvimento da comunidade universitária". Acreditamos que com essa formulação, a reivindicação deixa o centro nas mãos da reitoria, com as mulheres apenas como coadjuvantes de um processo no qual acreditamos que elas deviam ser linha de frente. As mulheres é quem deviam comandar esse Centro, que seria reconhecido pela Reitoria, e não o contrário. Isso porque deixar nas mãos da reitoria é iludir-se e pensar que ela levará até o final, de maneira consequente as nossas reivindicações, quando na verdade o que tem se provado é o contrário: Zago e os diretores em discussões sobre os recentes casos da medicina humilharam as mulheres que bravamente se colocaram, escancarado uma reitoria machista, que também é racista e homofóbica. Mesmo porque, vale lembrar que a SAS já possui um setor que seria responsável por ver casos de violência, mas desde 2009 só registrou dois casos no campus. Isso revela a falta de comprometimento da universidade com os casos de machismo que nos ocorrem cotidianamente.

O ponto que diz respeito a responsabilizar a reitoria por uma campanha contra a violência nos parece correto, porém é preciso fazer a ressalva do caráter dessa campanha. Acreditamos que, novamente, não devemos deixar nas mãos da reitoria decidir se e como será a campanha. Em última instância eles podem decidir coisas esdrúxulas, como veicular que "mulheres não devem andar sozinhas com mulheres" ou que "mulheres não devem usar roupas curtas", como já ocorreu em campanhas na UNESP. Por isso defendemos que todos os três setores que compõem a universidade, estudantes, funcionários e professores juntamente com os sindicatos, entidades estudantis e todo o movimento determinemos o conteúdo da campanha e que aí sim a reitoria se responsabilize em divulgar e nos fornecer a verba necessária. Que as mulheres sejam linha de frente numa campanha ampla contra a violência e que o movimento estudantil de conjunto tome como pauta as nossas reivindicações. É preciso ainda exigir que centros acadêmicos de nossos cursos criem uma secretaria de mulheres que, atrelados aos coletivos feministas de cada curso possam organizar-se e apurar casos de machismo não apenas em festas como também em aulas, assembleias e pelos corredores das faculdades.

Por fim, abordamos a questão da reivindicação da guarda feminina. Somos contra o aumento da frota feminina, pois acreditamos que isso cria apenas a ilusão de que com mulheres na segurança o problema da violência será sanado. Conhecemos o que a polícia brasileira faz nas favelas: muitas vezes temos policiais negros matando pobres e negros. Sabemos que a polícia é um aparato do Estado, que cumpre uma função e pouco importa se o policial será negro, mulher ou mesmo lgbt, enquanto estiver na estrutura policial irá cumprir as ordens do Estado. E nesse momento o papel que a guarda universitária vem cumprindo é semelhante ao da polícia, sendo responsável por vigiar quem faz parte do movimento e reprimindo diretamente as mobilizações. Foi a chefe de segurança Ana Lucia Pastori quem coordenou juntamente com a policia militar, a retirada dos piquetes e a repressão policial aos trabalhadores durante a greve. A guarda universitária atualmente está a serviço das ordens do reitor e não é colocando mulheres dentro desse aparato que conseguiremos sanar o problema da violência. Tampouco isolando a USP do resto da sociedade. É preciso abrir o campus, para que toda a população frequente a universidade!

Chamamos todos os estudantes, professores e funcionários juntamente com o apoio dos centros acadêmicos, DCE, SINTUSP e ADUSP a se mobilizarem numa grande campanha contra a violência dentro do campus. Tomando como exemplo os trabalhadores da USP, que se posicionaram contra os estupros ocorridos na Faculdade de Medicina. Somente a aliança entre os trabalhadores e estudantes é que pode dar uma resposta efetiva aos casos de violência dentro da universidade.


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Diana Assunção: “Avança a organização das mulheres trabalhadoras da USP”



Nesta semana se realizou o V Encontro das Mulheres Trabalhadoras da USP, que reuniu muitas das trabalhadoras que foram linha de frente da vitoriosa greve de 118 dias. Na mesa estiveram Maíra Rodrigues, da APEOESP Santo André e Silvia Ferraro, do Movimento Mulheres em Luta. Sobre o Encontro, Diana Assunção, diretora do Sintusp e responsável pela Secretaria de Mulheres declarou que “O Encontro foi um forte avanço da organização das mulheres trabalhadoras da USP. Depois de uma greve de 118 dias foi muito mais claro para o conjunto das trabalhadoras presentes que a luta contra a opressão as mulheres não está descolada da luta contra a exploração capitalista, pelo contrário, opressão e exploração se combinam para favorecer os capitalistas.”




Tratando de temas muito sentidos pelas mulheres, o Encontro votou uma série de resoluções, dos quais Diana ressalta que “Votamos uma pauta de reivindicações das mulheres trabalhadoras da USP onde exigimos que nenhuma mulher seja morta por aborto clandestino, como foi o caso de Jandira e Elisangela, e também repudiamos a morte de Cláudia, vítima da mais brutal violência policial. Para além das questões mais gerais, colocamos como centro a luta contra a desvinculação dos Hospitais Universitários e do Centro de Saúde, bem como queremos continuar com força na campanha pela contratação de enfermeiras para atender as mais de 1000 mulheres na fila do papanicolau”. Ainda sobre a pauta de reivindicações, Diana agregou que “Temas como mais creches, licença maternidade, contratação imediata de funcionários e vários outros foram tratados no Encontro, fortalecendo a luta das trabalhadoras. Também definimos que no próximo ano deveremos organizar um Seminário de Formação Política para o conjunto da categoria avançando também junto com todos os trabalhadores”.












Sobre os escândalos na Faculdade de Medicina, Diana declarou que “O Encontro também foi espaço de debate sobre esses casos, reafirmando repúdio à Faculdade de Medicina que junto com o Reitor Zago continuam acobertando os estupros. Queremos a punição de todos os culpados e fim imediato dos estupros dentro da USP. Também estamos exigindo que a Reitoria e todos os órgãos cabíveis divulguem o número de denúncias de estupros dentro da USP, pois não divulgar estes números é parte do acobertamento dos casos, não querem mostrar a verdade. Nós consideramos que os trabalhadores tiveram uma ação exemplar com as fotos de apoio às vítimas e que devemos aprofundar a nossa auto-organização para poder avançar na luta contra a violência às mulheres”.









Diana também colocou que votou-se moção de apoio à luta das trabalhadoras e trabalhadores da empresa terceirizada Construir, na Universidade Estadual do Rio de Janeiro, e que ao final do Encontro as trabalhadoras tiraram fotos de apoio ao levante negro nos Estados Unidos, com a frase “Eu não consigo respirar”, além de uma homenagem aos 43 estudantes mexicanos. “Acredito que demos passos importantes na organização das mulheres trabalhadoras, fruto do impulso de nossa greve, o que somente contribui pra avançar a luta do conjunto dos trabalhadores. Um Sindicato combativo e classista deve levar adiante com toda a força a luta dos setores oprimidos, levantando-se como verdadeiros tribunos do povo contra toda forma de violência e horror que vivemos nesta sociedade capitalista”.












Original: Palavra Operaria
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terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Os concursos de beleza e os padrões de beleza que a sociedade capitalista impõe as mulheres

Por: Odete Cristina

Mulheres lindas, altas, com cabelos perfeitos, corpo esbelto e curvilíneo, rosto encantador, vestidas em longos vestidos de gala. O imaginário dos concursos de belezas está muito presente na vida das mulheres em nossa sociedade.

Mulheres lindas, altas, com cabelos perfeitos, corpo esbelto e curvilíneo, rosto encantador, vestidas em longos vestidos de gala. O imaginário dos concursos de beleza está muito presente na vida das mulheres em nossa sociedade.
Mas essa é uma realidade distante da grande maioria das mulheres, que apenas acompanham esses concursos pela televisão ou pela internet. Pois, suas vidas são quase sempre tomadas pela jornada extenuante de trabalho, pelo cuidado com a casa, com os filhos e com os maridos ou, quando jovens, pelos estudos e a vida de “adolescente comum”. Todo o glamour e elegância dos concursos de beleza passam muito longe da realidade cotidiana da maioria das mulheres dentro desse sistema capitalista.
Recentemente uma sul-africana, Rolene Strauss, foi eleita Miss Mundo. Rolene é alta, magra, com longos cabelos lisos e olhos verdes, dona de um perfil físico muito diferente de suas conterrâneas, em sua grande maioria negras, com cabelos crespos e olhos escuros, exploradas e oprimidas por anos de segregação racial e pelo racismo ainda muito forte na África do Sul. O tipo físico da Miss Mundo 2014 está muito mais próximo de todas as suas adversárias do concurso, mesmo sendo mulheres de vários lugares do mundo, do que da maioria das mulheres sul africanas.
Isso se dá porque esses concursos de beleza não representam as mulheres de todos os países do mundo, mas sim, todas aquelas que reproduzem o tipo físico ideal imposto pela sociedade. Todas as integrantes desses concursos, apesar dos diferentes países, seguem o mesmo padrão: são altas, magras, corpo perfeito, sempre lindas e elegantes. Esses concursos elegem aquela que atende o padrão de beleza mais adequado dentro dos padrões impostos por uma sociedade machista, que enxerga a mulher como um produto.
Além propagandearem a mulher mais bela de todas, reafirmando dessa forma a lógica de competição entre as mulheres, esses concursos servem com artifícios para que a poderosa indústria da beleza venda seus produtos. Ao estabelecerem um padrão de beleza, tão diverso da realidade da maioria das mulheres, eles abrem caminho para que esse padrão seja almejado e para isso oferecem o seu produto como meio de alcançar essa beleza.
Tudo isso faz com que todos os anos milhares de mulheres sofram com transtornos alimentares e psicológicos, derivados da preocupação com o peso ideal, alimenta a indústria das cirurgias plásticas e a venda de produtos de beleza, que supostamente são a solução dos problemas das mulheres. Esses concursos afetam a subjetividade das mulheres de uma forma tão intensa e sutil que muitas vezes não nos damos conta. Mas estamos sempre querendo chegar ao peso ideal, insatisfeita com nossos corpos, com nosso cabelo, tudo porque não estamos dentro dos padrões estabelecidos pela sociedade.
Milhares de mulheres entram em depressão ou desenvolvem outras doenças porque não correspondem ao perfil de mulher bonita que o capitalismo impõem. Para além disso, milhares de mulheres sofrem com a inferiorização da sociedade e delas próprias diante de sua aparência física, isso atrapalha não só subjetivamente, mas também nas relações pessoais, sendo muitas vezes um empecilho para que elas se relacionem com outras pessoas.
Os concursos de beleza são um meio de perpetuar um padrão de beleza universal da mulher. O capitalismo impõem um tipo ideal de beleza afetando, dessa forma, a subjetivamente da maioria das mulheres que claramente não fazem parte desse padrão e vendendo assim os seus produtos. Mas faz isso de forma sutil e com tantos requintes de elegância e glamour que na maioria das vezes essas mesmas mulheres são o público que assiste fervorosamente esses concursos, na esperança de que um dia possam chegar a esse padrão de beleza ideal.
Original: Palavra Operaria
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quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

O debate entre Anitta e Pitty e a liberdade sexual das mulheres no capitalismo.

Por: Odete Cristina




Sábado passado foi ao ar um debate entre as cantoras Anitta e Pitty sobre a liberdade sexual das mulheres, antes mesmo do programa ir ao ar já havia gerado polêmica. O debate se iniciou pelo fato de que ambas discordaram sobre o avanço nos direitos conquistados pelas mulheres. Anitta afirmou que as mulheres estão quase iguais aos homens nesse quesito, o que Pitty discordou, pois para ela ainda precisamos conquistar muitas coisas. Depois avançou para um debate sobre o comportamento das mulheres.
Em primeiro lugar é preciso refletir sobre o que são esses direitos que Anitta aponta que a mulheres conquistaram no marco da sociedade em que vivemos. Vivemos em uma sociedade capitalista que usa da opressão de gênero e sexual para explorar ainda mais. Com o ascenso do neoliberalismo houve um processo maior de feminização do trabalho e também uma maior concessão nos direitos democráticos, como por exemplo o direito ao voto.
As mulheres burguesas conquistaram o direito de trabalhar, mas as mulheres pobres historicamente sempre trabalham. Não existe uma equiparidade salarial entre homens e mulheres dentro da nossa sociedade, sendo que as mulheres ganham até 30% menos que os homens, e quando são negras esse percentual se reduz pra quase 50%. Essa famosa conquista do direito ao trabalho é na verdade uma necessidade imposta pelo sistema capitalista que precisava aumentar seu exército de mão de obra. Além disso, os baixos salários pagos as mulheres servem como justificativa para rebaixar o salário de toda a classe trabalhadora.
Também é preciso refletir o que significa o direito ao voto no marco da democracia burguesa que vivemos hoje. Onde partidos pequenos e que representam os trabalhadores não podem ter candidaturas, nem sequer se legalizar e o cenário político é dominado pelos grandes partidos que servem aos interesses da burguesia. Nem mesmo uma mulher no poder pode garantir que as demandas das mulheres sejam atendidas. Para garantir sua governabilidade Dilma faz acordos com as bancadas religiosas e reacionárias do congresso e se cala sobre o direito ao aborto, deixando que milhares de mulheres morram todos os anos. Durante o seu governo houve um aumento na terceirização do trabalho, que em sua maioria são mulheres que precisam enfrentar uma dupla ou até tripla jornada de trabalho, pois o trabalho doméstico ainda recai sobre os ombros das mulheres. Os números de feminicídios e a violência contra a mulher ainda são chocantes.
Ao contrário do que diz Anitta estamos longe de alcançar os mesmos direitos que os homens. E apesar de Pitty pontuar isso, ela não faz um questionamento mais profundo sobre quem é o verdadeiro responsável pela repressão sexual feminina, se limitando a dizer que os homens não devem opinar sobre o que as mulheres fazem ou como se vestem. Contudo, dentro de uma sociedade divida em classes sociais como a nossa é muito difícil que todas as mulheres tenham os mesmos direitos. Pois o capitalismo usa da opressão histórica das mulheres, aliada a exploração e repressão dos nossos corpos para manter sua dominação. Para manter a dominação de uma classe sobre a outra.
Outro ponto polêmico foi quando Anitta afirmou que mulheres precisam “se dar ao respeito”, o que Pitty logo se posicionou contrária. Antes de cair em um debate moralista, o que pareceu para mim a polêmica entre as duas, gostaria de debater sobre como a repressão sexual, não só das mulheres mas de todas as pessoas, está profundamente relacionada com a sociedade em que vivemos e a dominação capitalista.
Para que o capitalismo triunfe é necessário que as pessoas trabalhem oito, dez horas por dias em um ritmo alienante e que não tenham o direito de exercer livremente sua sexualidade ou desenvolver qualquer outra potencialidade. O capitalismo se utiliza da repressão dos nossos desejos e do controle dos nossos corpos para garantir sua dominação.
O machismo ainda está muito presente na sociedade e isso parte da visão que vê a mulher como uma propriedade, inicialmente do pai, depois do namorado ou marido. Uma mulher que exerce plenamente sua sexualidade ou que veste-se como quer, vai contra a noção de que a mulher é mais uma propriedade do homem e contra o controle que o sistema possui dos nossos corpos. Como afirmava Marx as ideias dominantes de uma época são sempre as ideias dominantes da classe dominante dessa época. Enxergar a mulher como uma propriedade e reprimir nosso direito a plena liberdade sexual faz parte das ideias dominantes da burguesia para garantir a sua dominação e exploração sobre a maioria da população.
Por isso nossa luta pela liberdade sexual e combate ao machismo deve ser entendida como uma luta maior contra todo esse sistema de exploração e opressão que perpetua a repressão aos nossos corpos e da nossa sexualidade. A nossa luta deve ser parte de um novo projeto que revolucione não só os meios materiais, mas também os meios culturais. Uma sociedade onde todos possam exercer livremente sua sexualidade, livres de toda opressão e exploração.
Original: Palavra Operaria
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quarta-feira, 3 de abril de 2013

Pão e Rosas - Campinas chama à conhecer!

"Gênero, sexualidade e a precarização do trabalho"

Reunião na Unicamp - IFCH - Sala IH-08
04/04 - às 17h30



Apresentação do grupo de debate "Gênero e Marxismo"

Diana Assunção, dirigente da LER-QI e fundadora do grupo de mulheres Pão e Rosas, participa da apresentação do grupo de debate  "Gênero e Marxismo", em Barcelona, no Estado Espanhol, dia 04 de abril.


Estarão presentes: 
Diana Assunção, diretora do Sindicato dos Trabalhadores da Universidade de São Paulo (Sintusp) do Brasil e militante do grupo de mulheres Pão e Rosas; que organizou o livro, recentemente editado, “A pracarização tem rosto de mulher”, baseado na luta das trabalhadoras terceirizadas da limpeza na Universidade de São Paulo, do Brasil.
Maria Moreno, operária têxtil da “Terrassa vermelha” desde os anos setenta, que em 1996, junto aos trabalhadores ocuparam a fabrica quando o patrão quis fechá-la. 

Vejam abaixo a entrevista de Maria:


Vozes e relatos da luta das operárias nos anos 70’.Entrevista com Maria Moreno, operária textil de Terrassa



Queremos dedicar este 8 de março às mulheres trabalhadoras que durante as décadas de 60 e 70 no Estado Espanhol protagonizaram uma luta incessante contra a exploração do trabalho, quando ser mulher, operária, imigrante, significava lutar numa situação “diferenciada” dentro de um potente movimento operário em seu auge. Estas perigosas mulheres, enquanto lutavam contra a ditadura patronal, questionavam um Regime ditatorial em suas formas mais misóginas[1]. Porém, num contexto de transformações econômicas sob um processo de industrialização no qual o trabalho feminino estava se reconfigurando: entre 1950 e 1975, o número de mulheres assalariadas aumentava, ao mesmo tempo que outras eram obrigadas a abandonar o trabalho quando tinham filhos. É assim que os conflitos trabalhistas femininos se chocavam com todo um aparato legislativo, educativo e institucional, os quais, junto ao grande peso da igreja, impuseram uma ordem patriarcal que proporcionou às mulheres um destino absolutamente determinado pelo biológico, sob os valores “cristãos e espanhóis” cujo papel obrigatório era submeter-se à tutela dos homens junto à restauração da família como berço do Novo Estado franquista.

Estas perigosas trabalhadoras, neste caso as texteis, teceram os fios de uma potente história. Uma história de grande atualidade para este século submerso numa grande crise, de enorme retrocesso social e dos direitos da maioria das mulheres. E nele que não soa estranho lutar por “igual trabalho, igual salário”, contra a discriminação no trabalho, contra a dupla e, às vezes, tripla jornada de exploração e opressão, lutar contra isso é lutar contra esse sistema patriarcal tão íntimo amigo do sistema capitalista. Queremos expressar estas experiências através da história de Maria Moreno, que chegou a Terrassa (Catalunha) em 1967 com 17 anos vinda do sul da Espanha, de Córdoba, para trabalhar como operária textil. Trabalhou mais de 35 anos na fábrica Hilaturas Castell, lutando incansavelmente, se organizando com suas companheiras, e no ano de 1996 até ocuparam a fábrica para recuperar os postos de trabalho e colocaram-na a produzir sob controle das operárias.
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Quando da casa para a fábrica as mulheres tornam-se perigosas

Maria era parte dassas milhares de mulheres que, como sua mãe, também operária têxtil, vinham dos povos do sul da Espanha: eram os tempos de grande afluencia de correntes migratórias das regiões mais agrárias para os centros industriais de Madri, Catalunha, País Basco e Astúrias. “Cheguei aqui e comecei a trabalhar no setor têxtil, na fábrica Hilaturas Castell, trabalhei 35-36 anos até que fecharam. Minha mãe trabalhava nesse setor também, na fábrica Torra de Neira. Mal cheguei e entrava às 4:20 da manhã para trabalhar todos os dias menos os domingos, era horroroso, eu vinha de um pequeno povoado, mudou minha vida totalmente. Eu me lembro que dentro da fábrica, com o ruído tão grande que havia, só pensava em cantar canções de meu povo para que não se esquecessem de mim, foi um choque muito forte. Nós imigrantes passavamos muito mal onde quer que fossemos...”

Logo Maria recuperará forças nos convulsivos anos da “Terrassa vermelha”, onde as fábricas têxteis eram muitas, num momento em que a incorporação da mulher ao trabalho assalariado significou uma mudança  de grande transcendência no papel social da mulher. Em Catalunha, a industria têxtil havia sido a mais avançada da economia. Esta se baseava na mão de obra feminina intensiva: em 1968, em todo o Estado as mulheres ocupavam 75% da mão de obra da indústria textil com um grande peso na Catalunha. Então, todas as mulheres de Terrassa em idade de trabalhar estavam metidas no setor têxtil. Havia fábricas muito grandes como Torra de Neira que era um monstro de fábrica, a Anônima, Castell... O setor têxtil teve uma luta histórica em Terrassa, sempre, porque havia muitos trabalhadores. Esta mão de obra feminina gerou uma grande confitividade feminina também. Na indústria têxtil de Maresme, Barcelonés ou Vallés Ocidental entre finais dos anos 50’ e 60’ surgiram conflitos nos quais se juntavam jovens trabalhadoras imigrantes com outras mais maduras, com experiência de trabalho industrial e, às vezes,  de conflitos de décadas anteriores.

Quando Maria chegou, logo seu sentimento de nostalgia é substituido pelo de rebeldia, quando conheceu as “folloneras”[2]“Na fábrica havia um grupo de jovens mais velhas do que eu e quando entrei me apresentaram outras companheiras como  “folloneras”, e disseram que não me juntasse à elas porque sempre causavam probemas e então eu disse: aí não me inclino. Depois fui me unindo às “folloneras” porque ainda que eu não tivesse noção de nada, eu as via mais companheiras. Porque se estávamos fazendo cones, e eu tinha que fazer 50 kg de fio e ao final do dia eu fazia 49kg, me tiravam dinheiro. As “malvadas”, as “folloneras”, quando se deram conta que eu não alcançava a meta e que podia reduzir meu salário, me ajudavam, jogavam cones que elas faziam na minha caixa. Aí comecei a ver que as más não eram tão más... e claro, começaram a lutar pela igualdade entre todas as trabalhadoras. Fui me dando conta de todas essas coisas e cada dia fui me unindo mais a elas...”

Maria era parte dessa nova geração de mulheres que, como um motor impossível de parar, enquanto se enfrentavam com a patronal por seus direitos trabalhistas, estavam se enfrentando sem saber com o modelo de mulher franquista que havia sido imposto durante mais de três décadas, a mulher submissa, decente, “anjo do lar”, e como ela mesma disse “católica, apostólica e romana”. “Claro, eu vinha de um povoado com uma vida tranquila e quando cheguei a Terrassa, meu pai me disse ‘Maria sozinha em Barcelona, mantenha um forte vínculo, hein?’ porque em Barcelona as coisas não eram tão tranquilas, meu pai me prendia tão forte que um pouco mais me asfixiaria! Dizia-me ‘você tem que trabalhar e manter a boca calada’. Mas eu fui desfazendo os vínculos... em frente da fabrica havia um convento. E o gerente da empresa cada dia ia a missa e depois entrava na fábrica e eu no início pensava que bom este senhor... Mas logo, pouco a pouco, fui me dando conta que não... Tínhamos umas máquinas com 300 pinos enormes, barulhentas. Então, na fábrica têxtil o gerente, o mordomo, o chefe de pessoal, por qualquer dinheiro nos vigiavam. E houve um momento que eu me apoiei por um segundo na parede porque sentia muita dor, porque estava menstruada, e nessa hora passou o senhor que ia todos os dias na missa. E veio o encarregado e me disse ‘Que está acontecendo Maria, está passando mal?’. E, claro, disse que não, também porque nesse momento era um tabu falar que estava menstruada. E o encarregado me contestou ‘Bom, só te digo uma coisa, se estiver passando mal, vá pra sua casa, porque seu descanso custa dinheiro ao dono’. Chorei duante três dias até que me senti aliviada. E assim fui tendo consciência, pouco a pouco, de que se um respiro custava dinheiro ao dono, eu queria seguir respirando, lhe custando ou não, queria seguir respirando com mais liberdade da que até agora tive. E comecei a lutas e me senti muito melhor. E, claro, deixei de ser católica, apostólica e romana.

Lembro-me quando veio uma monitora, se dirigia a mim porque eu já não era a menina de antes e estava com as folloneras, queria me fezer limpar seu espaço que era uma mesa com uma papelada. E eu lhe disse não, você vem limpar minha máquina? Então me sancionaram, três dias sem pagamento. Mas no segundo dia, minhas companheiras me meteram dentro da fábrica e eu me coloquei a trabalhar... Ao final do mês me faltavam três dias! Mas entre todas as companheiras cada uma deu um pouquinho e completou o que faltava. E a partir daí eu disse não sou mais tonta nem mais cristã...”

Homens, eram os encarregados, os pesadores e... os chefes de pessoal. Na máquina, eram todas mulheres...

Começava a nascer uma militância operária feminina vinculada diretamente às condições de trabalho. Conscientes ou não, da própria experiencia as levava a questionar os valores conservadores da instituição familiar e sua reprodução na vida pública e no trabalho. Chocavam contra um imaginário coletivo de crenças negativas – baseadas na diferença sexual de natureza universal e inevitável – sobre as mulheres que anulavam assim suas potencialidades para alcançar a igualdade. E desta maneira se justificava a grande discriminação no trabalho e no salário: em 1963, o salário/hora medio das mulheres na industria alcançava 80% dos salários masculinos, mas em 1971 havia piorado para 75%. A luta por “igual trabalho, igual salário” estava na ordem do dia. Maria, como muitas mulheres, começou a “descobrir” que a luta das mulheres operárias tinha suas próprias reivindicações. “Naquele tempo, sinceramente eu e as correntes feministas não percebíamos isso. Não, entre outras coisa, porque eramos todas mulheres e, naquele momento, não se tinha consciência da desigualdade da mulher. Mas sem saber, eu já era feminista, eu já estava trabalhando para as reivindicações das mulheres, não? Dei-me conta disso mais tarde quando vi que pagavam mais aos homens do que às mulheres, eles tinham mais tempo, eram vistos de outra maneira, ninguém os controlavam. E nós, as mulheres, sim! Se íamos ao banheiro e demorávamos já nos controlavam. Homens eram os encarregados, os pesadores e logo eram os chefes de pessoal. Na máquina, eramos todas mulheres... Uma vez nós montamos uma porque queriamos ser pesadoras, por que não podíamos? Se não tinha que carregar nada? Eram carros com rodas. Dizíamos: nós sabemos pesar, apontar o peso. Por que nos colocam em locais, segundo eles, mais inferiores? E logo você se dá conta que se não há quem faça os fios, não pode haver pesadores. Mas isso fomos descubrindo aos poucos e assim começamos a lutar por igualdade salarial, e prontamente começaram a nos atacar dizendo ‘estas mulheres sempre igual!’ Então você se dá conta de que falta algo quando quer reivindicar a igualdade nas condições de trabalho...”

Novas organizações operárias: as comissões de mulheres

As mulheres em luta se dotaram de organizações: as comissões operárias, habituais nas fábricas têxteis, formadas apenas por mulheres e por fora do sindicato vertical, que negociavam e lutavam com a patronal, as forças policiais e com funcionários da OSE. Estes foram os antecedentes do que logo serão as comissões operárias: “começamos a lutar por horas para comer, para trabalhar menos horas e conseguimos 8 horas e não trabalhar aos sábados. Para que houvesse vestiarios e pias em boas condições, não havia refeitório. Éramos 200 trabalhadoras, maioria mulheres e lutamos com muitas greves e paralizações. Tínhamos nossas assembleias e nossos próprios comitês, antes de se formar o sindicato de Comissões Operárias, o sindicato era vertical nesse momento, fazíamos as coisas por fora da fábrica, e nas assembleias decidíamos tudo o que teríamos que fazer dentro da fábrica. Realizávamos reuniões, mas não no sindicato, mas em um local que tínhamos em Terrassa. Nos reuníamos em grupos de trabalhadoras de diferentes fábricas, também vinham estudantes. Mas, claro, essas reuniões eram clandestinas. Eu me lembro a primeira vez que me chamaram... E um dia, e outro, e punições, claro! A que mais se atrevia era punida. Naquele tempo havia uma repressão muito grande. Mas tudo conseguimos com luta.”

Nos anos 70, começava a crise do setor têxtil da lã, onde se deram a maioria dos conflitos e inumeráveis mobilizações e greves contra os fechamentos e demissões. É assim, em uma situação convulsiva e de questionamento do regime e em meio a uma mudança de geração com a incorporação de jovens trabalhadoras, que nascem as comissões operárias junto ao ativismo e à militância de esquerda: “quando as comissões já haviam sido legalizadas, os encarregados de quando eu entrei já haviam ido embora pois eram mais velhos. Foram entrando pessoas novas que se filiavam às comissões e eram de nosso grupo. Então a empresa mudou, tanto, tanto, que fazíamos greve por tudo. É que chegamos a 90% de filiação às comissões operárias... Em todo esse processo, as mulheres, ainda que poucas, começaram a ser delegadas dentro das comissões operárias.” Quando Maria foi delegada, de nove delegados, três eram mulheres: “e quando vieram as eleições sindicais em 77-78, me elegeram como delegada sindical. As coisas eram muito diferentes de agora nas comissões.  Quando se propunha algo na fábrica, era realizada votação, logo chamavam a assembleia geral de comissões e se fazia o que era decidido na base. Logo, rara era a semana que não havia um curso de formação sindical...” Maria lamenta, com dor e raiva, o que são os sindicatos agora das Comissões Operárias.... “então, claro, aquilo sim que era meu sindicato naquele tempo.”

Quando fazíamos greve, a fazíamos por todas as nossas reivindicações, mas também em solidariedade com todos os que lutavam...

María nos contava como se coordenavam e se solidarizavam com as demais fábricas: “Se, veja, se em Madrid, por que naquele momento eram os cinzentos, espancassem uma pessoa, nós parávamos. No País Basco teve uma greve muito grande, nós paramos um dia... Quando a Seat, a AEG, faziam greve, nós sempre fazíamos também. Quando nós fazíamos greve, a fazíamos por todas as nossas reivindicações, mas também em solidariedade com todos os que lutavam. E para não nos enfrentarmos com nossos próprios trabalhadores, para fazer os piquetes nós mudávamos de fábrica ou distribuíamos panfletos na hora da refeição. Também como se organizavam contra a repressão, como as mulheres sempre estavam dispostas a fazer o impossível para liberar todos os presos. Nas comissões de trabalhadoras, era normal perceber que as mulheres não sofreriam retaliação de forma tão imediata como os homens. Naquele tempo, havia muita repressão, apanhavam muitas pessoas, então nós mulheres fazíamos caixas de resistência quando havia companheiros presos, e os torturavam. Nas manifestações havia repressão também contra as mulheres, porém era mais contra os homens. Os cavalos nos tiravam. Lembro-me do toque de recolher em Terrasa...”

A ocupação de fábrica: “As máquinas agora são nossas... e vimos que se podiam manter os postos de trabalho...”

María nos conta seu último ano na fábrica, passados 35 anos, quando e por que decidiram ocupar a fábrica e colocá-la para produzir: “Havia rumores de que a fábrica estava em crise... Então pedimos que viessem os economistas das comissões, fizeram um estudo e viram que havia uma grande fraude. E começamos a denunciar a situação, até que quando voltamos de férias, em 12 de outubro, se fechou. Houve um domingo em que uma de nós viu como tiravam coisas de um caminhão. Na segunda, quando chegamos ao armazém e haviam tirado um carregamento, fomos até a direção, pedimos explicações e nos disseram que estavam fechando. Voltamos à fábrica, contamos às trabalhadoras, e logo se formou um protesto...! Vieram as comissões, fizemos assembleia e decidimos que, como havia muito trabalho, as máquinas estavam cheias de trabalho(!), dissemos então que iríamos seguir. Um dia, se apresentam para desalojar a fábrica, com a polícia e a juíza. Nós sabíamos, e estávamos todas as mulheres na porta e os homens atrás. E dissemos a eles: daqui não sairemos, se quiserem nos colocar para fora terão que fazer, mas à força e nos matando. Porque se não vamos poder dar de comer a nossos filhos, então nos mate, e já estão nos matando. E a juíza não colocou resistência nenhuma, nos olhou, olhou para a polícia, e se foram. Desde aquele dia dizíamos, depois de uma assembleia de todas as trabalhadoras e do comitê: aqui há trabalho e ficaremos trabalhando. Primeiro quisemos fazer uma cooperativa, mas não poderíamos, pois teríamos que pagar uma dívida que não era nossa; além do que não tínhamos dinheiro. Porque, claro, como o dono se declarou em crise nós não tivemos indenização depois de 35-40 anos de trabalho ali! Passamos todos ao fundo de garantia. Havia muitos produtos e os armazéns estavam cheios. Então dissemos: as máquinas agora são nossas, aqui ninguém vem leva-los. Então poderíamos vender os gêneros e vimos que se podia manter os postos de trabalho. Estivemos sete meses em ocupação, fizemos três turnos: Manhã, tarde e noite...”

E se hoje ocuparmos as fábricas que fecham?

María nos conta como foram esses meses: “a maioria éramos mulheres. Foi uma grande experiência, ainda que muito difícil. Cortaram a luz, o gás e os credores vinham e nos insultavam e nos cobravam as dívidas. E respondíamos, não, aqui os primeiros credores são os trabalhadores, nós não cobramos nada. Mesmo comtudo isso, ficamos sete meses com a fábrica ocupada. Conseguimos vender tudo e, ao menos, pagar todos os salários que os donos nos deviam e seguir trabalhando esses meses. Mas foi muito duro manter a ocupação. Mas creio que, no final, tudo o que fizemos foi pensando nos demais, mostrando que fazíamos por todos e não por nós mesmos. E as pessoas responderam muito bem, se solidarizaram conosco, faziam guarda, até celebramos um natal ali na fábrica com gente de todos os locais, tecíamos gorros e lenços para eles... Ainda que não alcançamos tudo que queríamos, foi muito bonito também. “

Maria já conhecia muito bem a experiência da fábrica de Zanon na Argentina, ocupada e posta a produzir sob controle dos trabalhadores. Há alguns anos, fomos com ela a uma fábrica que estava correndo risco de fechar, a DERBI, onde María contou sua experiência de ocupação como uma possibilidade real, enquanto explicávamos junto a dezenas de estudantes que haviam levado sua solidariedade aos operários, a grande experiência de Zanon. Refletimos com María, sobre se a ocupação de fábrica, posta sob controle dos trabalhadores, pode ser uma saída à crise, diante das centenas de empresas que fecham e milhares de demissões: “Sim, claro! Eu lhes digo que não resistam à primeira oportunidade de mudar as coisas quando lhes disserem ‘esta fábrica já está fechada’, não. É preciso lutar, é preciso resistir e fazer todo o humanamente possível para trabalhar e para que teu trabalho tenha um sentido, demonstrando que podemos trabalhar sem os empresários. Tudo o que temos feito e conseguido lutando não pode desaparecer porque um funcionário deseja. Não se render, lutar e lutar. Agora mesmo vamos, à nossa maneira, nos colocar contra os desalojamentos, temos que demonstrar sempre que ‘sim é possível’.  Porque tudo o que temos ganhado tem sido com a luta dos trabalhadores. Se ocuparmos as fábricas quando os empresários querem fechá-las, além de impressionante, os empresários se assustariam! Porque se eles perceberem que os trabalhadores podem tomar a fábrica, iriam pensar um pouquinho. Seria impressionante num momento em que estão fechando fábricas sistematicamente... ainda mais as empresas que têm benefícios! Como nos contavam no debate de ontem os trabalhadores da Seat. Ontem lutávamos com medo, mas contra a ditadura de Franco, hoje acredita-se na democracia, mas o que há é uma ditadura patronal...”

Notas
[1] Que tem aversão às mulheres.
[2] “folloneras” era a forma pejorativa como chamavam as mulheres que se colocavam em luta, “rebeldes descontroladas”. Depois elas se apropriam deste termo de forma não pejorativa.