segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Mulheres, sozinhas, é muito difícil!

Vamos juntas lutar pelos nossos direitos e pelo fim deste sistema de opressão e exploração!

No momento em que estamos escrevendo este jornal, após nossa 2ª Plenária onde reunimos cerca de 80 mulheres estudantes e trabalhadoras, a América Latina revive os tempos da ditadura. Hoje, em Honduras, mulheres e homens do povo pobre e da classe trabalhadora se levantam contra o golpe de Estado do qual foram vítimas, em 28 de junho. Feministas hondurenhas pedem solidariedade a todas as mulheres da América Latina. Nós, do Pão e Rosas, não podemos deixar de dizer, em primeiro lugar que: SOMOS TODAS HONDURENHAS!
Jornal do Pão e Rosas, agosto de 2009. [Clique aqui para ver em Pdf.]
Nossa agrupação, desde seu surgimento, discute a opressão da mulher partindo da realidade em que vivemos. No estouro da crise financeira internacional, em setembro do ano passado, nós do Pão e Rosas nos levantamos para dizer: que a crise seja paga pelos capitalistas! No 8 de março e no 1º de maio, quando o Brasil já tinha altos índices de demissões e perdas de postos de emprego, enquanto a burocracia sindical cumpria um papel de cúmplice dos grandes empresários, saímos às ruas e dissemos “basta de acordos e de demissões, nós somos mulheres que enfrentam os patrões”. Quando um representante da Igreja Católica disse publicamente que “o aborto é um crime pior que o estupro”, diante da gravidez de uma criança de 9 anos estuprada pelo próprio padrasto, o que lhe conferia risco de vida, afinal eram gêmeos e a menina pesava 36 kg, gritamos com muito ódio “basta de estupros, de morte e de dor, hipócrita Igreja está com o estuprador”. Nas universidades, fomos contra a corrente do conhecimento que quer nos apagar da história, dissemos não e publicamos “Lutadoras. Histórias de mulheres que fizeram história”. Nas universidades, as estudantes do Pão e Rosas gritavam “incorporação imediata de todas as trabalhadoras e trabalhadores terceirizados”, porque todas nós entendemos que a “terceirização escraviza, humilha, divide”. Repudiamos a prisão de mulheres por terem recorrido a abortos clandestinos, enquanto os políticos corruptos seguiam em liberdade. Denunciamos a situação de miséria a que foi submetida a população do Norte e do Nordeste diante das enchentes. Demonstramos que o governo de Lula é o principal agente da permanência das tropas brasileiras no Haiti, que violentam, estupram e matam nossas irmãs haitianas.

Estivemos na linha de frente da greve dos trabalhadores e trabalhadoras da USP, assim como nas universidades estaduais paulistas, na luta pelo fim do vestibular, contra essa estrutura de universidade elitista, racista e machista, nos enfrentando com a burocracia acadêmica, e até mesmo com a polícia do governo Serra. E hoje, frente às discussões que se abrem sobre as candidaturas para a presidência do país em 2010, em que o PT projeta a figura de Dilma Roussef e o PV convida Marina Silva a lançar uma candidatura, não podemos deixar de dizer que algumas mulheres ocupando cadeiras de comando dessa democracia dos ricos em nada significam a emancipação de nós mulheres. Ao mesmo tempo, não podemos deixar de dizer que uma mulher como Heloísa Helena, apesar de aparecer como mulher de esquerda para grande parte da população, não representa nossas demandas, sendo figura destacada de uma campanha reacionária ativa contra o direito ao aborto, enquanto tantas mulheres morrem por abortos clandestinos.

Por tudo isso não nos pode faltar o necessário repúdio dessa crise das “instituições do regime” da democracia em que vivemos, onde uma família Sarney é dona de um estado inteiro, submetendo toda uma população para manter seus privilégios, com o apoio do governo Lula, numa demonstração clara de que a democracia que muitos enchem a boca para defender é nada mais do que a democracia dos ricos. Enquanto o senhor Sarney, sua neta e o namorado dela passam muito bem com o dinheiro público, pelo menos 28 mulheres grávidas morreram pelas conseqüências da gripe A. Nas universidades, os estudantes e professores tiveram suas aulas adiadas por conta da pandemia, mas os trabalhadores não. Por acaso os e as trabalhadoras são imunes à gripe A? E aqueles que nos negam o direito ao aborto e dizem defender a vida, nada falaram sobre a morte do bebê de Manoela, no Rio de Janeiro, após o médico ter omitido seu atendimento, escrevendo indicações em seu braço, numa demonstração do que significa o sistema de saúde público brasileiro. Mas por que será que poderíamos ficar páginas e páginas enumerando as crueldades, os abusos, as violências contra as mulheres e a população pobre que vemos aumentar a cada dia? Trata-se de relações sociais onde predomina a maldade do homem? Não, companheiras. Trata-se de um sistema que tem como fundamento a exploração da maioria da população por uma pequena parcela de pessoas. E esse sistema se chama capitalismo.

É nesse cenário em que estamos apresentando a necessidade de construir um forte movimento de mulheres. Sim, acreditamos que é necessário lutar por todos os nossos direitos. Mas achamos que essa luta é indissociável da luta por uma outra sociedade, que possa nos dar as bases para acabar com a opressão. Isso porque, essa opressão, que antecede o capitalismo, aliada a ele se potencializa, multiplicando as amarras que relegam as mulheres às piores condições de vida. E as trabalhadoras sentem duplamente esse peso. É no capitalismo também onde vemos uma propaganda abusiva dos corpos das mulheres, não somente “vendendo” a idéia de um corpo feminino ideal e impossível de ser alcançado, mas também vendendo diretamente os corpos das mulheres, em poderosas redes de tráfico. Estupros dia e noite nas ruas, assédios sexuais nas moradias estudantis, e um grande silêncio e impunidade reina no país da repressão, com a polícia mais assassina do mundo, que é conivente com o assassinato de um jovem trabalhador negro e homossexual no dia da última Parada Gay em São Paulo. Sobre ele nós dissemos: Somos todas Marcelo Campos.

Não há emancipação possível enquanto a estrutura desta sociedade permanecer intacta, no seu fundamento de exploração de uma classe sobre outra, que utiliza a opressão da mulher para garantir a reprodução de sua força de trabalho através do trabalho doméstico não remunerado. É por isso que desde o nosso surgimento, como um movimento latino-americano, que existe na Argentina e no Chile, e também no Estado Espanhol, acreditamos que seria extremamente necessário dar respostas aos problemas das mulheres trabalhadoras, mas também da classe trabalhadora de conjunto, enxergando nela um aliado estratégico pelo fim deste sistema.

Levantemos todas, mulheres latino-americanas, assim como nossas companheiras hondurenhas, que são exemplo a ser seguido! Chamamos as mulheres de todos os países da América Latina, a construir um forte grupo de mulheres para lutar contra todas as formas de opressão e exploração que nos submete, subjuga e nos rouba a vida. Na 2ª Plenária do Pão e Rosas Brasil, a saudação das companheiras do Pan y Rosas da Argentina nos apontou que podemos e devemos nos colocar a perspectiva de juntas construir o Pão e Rosas em toda América Latina! Hoje, depois de uma atividade intensa do Pão e Rosas no primeiro semestre, acreditamos que estão dadas todas as condições para colocarmos de pé uma forte agrupação de mulheres, com centenas de companheiras trabalhadoras, estudantes, donas de casa, desempregadas... Venha construir conosco o Pão e Rosas!

Em nossa última plenária discutimos a necessidade e importância da periodicidade de nosso jornal e decidimos que nosso jornal será mensal. Agora você poderá ler as matérias do Pão e Rosas impressas todo mês.
Escreva para paoerosasbr@gmail.com e saiba como receber exemplares ou entre direto em contato com uma de nossas integrantes.

2 comentários:

Roberta disse...

Parabéens; Muuuitoo Booom !

Ação Feminista Curitiba disse...

"Mulheres, sozinhas, é muito difícil!"

parabéns companheiras!! todas unidas contra o capitalismo. Somos um grupo de curitiba e estamos linkando o blog de vcs. Saúde.