segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Operação Herodes escancara hipocrisia do Estado em negar direito ao aborto seguro e gratuito


Rita Frau, professora e militante do Pão e Rosas RJ


            Nesta semana foi divulgada pela mídia nacional a maior operação policial[1] contra uma quadrilha que mantinha sete clínicas clandestinas no município do Rio de Janeiro. Foram presas 57 pessoas e mandados de prisão e a apreensão em vários municípios do estado. Entre os presos estão policiais militares, médicos, sargento do Corpo de Bombeiros, militar do Exército, policiais civis e enfermeiros. De acordo com a investigação, esta quadrilha formava uma espécie de “holding” que administrava e atuava nas sete clínicas espalhadas pela Zona Sul, Norte e Oeste da cidade nos bairros de Bonsucesso, Campo Grande, Copacabana, Botafogo, Rocha, Tijuca e Guadalupe.

Uma verdadeira indústria de matar mulheres 

            Nestas clínicas eram realizados abortos até em adolescentes de 13 anos e mulheres que interrompiam as gestações com 7 meses, procedimento de alto risco para as mulheres, que no desespero de não levarem adiante a gestação se submetiam a situações como esta, que custava o valor R$ 7.500. Um dos médicos chamado Aloísio Soares Guimarães, que mora em Leblon, bairro rico da Zona Sul carioca, é acusado por realizar abortos clandestinos desde 1960, tinha uma conta na suíça de 5 milhões, e só em sua casa foram apreendidos 532 milhões entre dólares e reais.

            Apesar do presidente do CREMERJ (Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro), Sidnei Ferreira[2] defender a descriminalização e legalização do aborto, a instituição premiou o médico Evangelista Pinto da Silva Pereira[3] , um dos acusados pela operação, pelos cinquenta anos de carreira, mesmo ele já tendo oito passagens pela polícia pelo “crime” do aborto e agora foragido no exterior.

            O montante de dinheiro encontrado na casa do médico, e contas em bancos fora do país, mostra a grande indústria que gerava muito lucro para os envolvidos nesta máfia em detrimento da vida de centenas de mulheres. Cada aborto custava em média de 3 mil às 7.500 reais, e eram realizados em condições insalubres, onde as mulheres eram humilhadas e obrigadas a saírem das macas de cirurgia enxotadas para que pudesse ser realizado o maior número possível de procedimentos por dia.

            Com certeza a maioria desses médicos e enfermeiros não são os que defendem e impulsionam uma campanha entre a sociedade de médicos e enfermeiros pela legalização do aborto, pois seria contraditório com a manutenção do negócio que alimentam seus lucros e privilégios.

            O Estado do Rio de Janeiro em 2103 ultrapassou a marca de 67 mil abortos, segundo pesquisa feita por Mario Giani, do Instituto de Medicina Social da Uerj[4]. Se considerarmos que todos que foram feitos na clandestinidade fossem realizados em clínicas clandestinas e calcularmos o valor médio em 3 mil reais[5], daria um rendimento de 201 milhões de reais só no Rio de Janeiro. Se considerarmos o número de abortos clandestinos por ano no país em 800 mil, este valor seria 2 bilhões e 400 milhões de reais. Um faturamento que supera o faturamento tráfico nacional, que em 2010 chegou a 1 bilhão e 400 milhões de reais[6]
           
A hipocrisia e o envolvimento das instituições do Estado

            O nome da operação policial, chamada Herodes, faz referência à um rei conhecido por mandar matar sua família e todas as crianças que nasciam, com medo de que viessem tomar o seu trono, tenta dar o sentido de que é uma operação contra criminosos com desvios psicológicos que matam mulheres e crianças, justamente como forma de desviar o que está por trás desta verdadeira indústria de mutilação e assassinatos de mulheres.   
            Esta operação só reafirma o que foi comprovado no caso de Jandira e o que ocorre em tantos outros casos de mortes em clínicas clandestinas: o envolvimento e fomento destas máfias por parte do próprio Estado. É tão escandaloso, que não é possível esconder o sol com a peneira.
            As clínicas clandestinas de aborto no Brasil são rentável fonte de dinheiro para médicos, enfermeiros, policiais e sargentos do Corpo de Bombeiro, que envolvem também políticos e empresários.
            Ao mesmo tempo que se vangloria da “maior operação já feita contra o crime do aborto” o Estado  continuará alimentando esta indústria. Não foram poucas as vezes que esses médicos e policiais foram presos  e soltos e continuam lucrando com este negócio.
            E o discurso do Estado de que estão combatendo um crime que mata mulheres escancara sua hipocrisia quando na realidade também criminaliza as mulheres que realizam abortos clandestinos, tornando as vítimas como criminosas, que na maioria são pobres, trabalhadoras e negras como ocorreu recentemente com uma bancária de São Gonçalo que foi levada para a delegacia e obrigada a pagar uma fiança de 250 reais ao ter confessado para a médica que havia tomado um remédio abortivo. E está indiciando 35 mulheres, que ao invés de receberem cuidados médicos e psicológicos passarem pelo procedimento do aborto seguro e legal, serão tratadas como criminosas como os próprios médicos e policiais.
            A resposta do Estado também é uma forma de desviar a atenção que a própria mídia foi obrigada a dar com posições progressistas diante dos casos de Jandira e Elisângela, colocando a necessidade da sociedade combater a hipocrisia e retomar o debate sobre o direito da legalização do aborto.
           

Mais do que na hora de legalizar o aborto garantido pelo Estado

            A operação Herodes se vangloria da “maior operação” contra o crime dos “açougueiros” das clínicas clandestinas mas se silencia diante da falta de direito de escolha das mulheres, da falta das condições básicas para as mulheres exercerem a maternidade e terem acesso à um sistema de saúde público e de qualidade, e até mesmo da dificuldade que passam as mulheres para realizarem o procedimento mesmo nas circunstâncias legais.
           
            Para terminar com a máfia da indústria do aborto clandestino e femicídio que atinge milhares de mulheres por ano, até mesmo a mídia reconhece que já passou da hora de colocar um ponto final na hipocrisia do Estado, governos e do parlamento e colocar em pauta a legalização do aborto.

            As organizações feministas devem ser chamadas a participar da investigação dos crimes cometidos pelas clínicas clandestinas como o único caminho para garantir a punição exemplar a todos envolvidos porque não é possível confiar na justiça, nos policiais e no Conselho de medicina do Rio de Janeiro que acobertam os médicos. Também devem ser confiscados todos os bens dos policiais, médicos e enfermeiros envolvidos.

            O movimento de mulheres e as organizações de esquerda e de direitos humanos devem encarar a luta pelo direito ao aborto, legal, seguro e gratuito como algo urgente e elementar na vida das mulheres, assim como fazer uma campanha pela retirada do indiciamento de dezenas de mulheres que já estão na lista da Operação e contra criminalização de qualquer mulher que passou pelo procedimento de aborto nestas clínicas. O silêncio dos candidatos do segundo turno para a presidência mostra que tanto Dilma quanto Aécio são conviventes com estas máfias e serão responsáveis pela continuidade de milhares de morte de mulheres no Brasil todo ano. Por isso já passou da hora da retomada de uma grande campanha por um projeto de lei pela legalização do aborto impulsionada nos locais de trabalho e estudo que tome as ruas para terminar de um vez por todas com as mortes e garantir o direito de escolha de todas as mulheres.
           







[1]    http://oglobo.globo.com/rio/policia-prende-57-pessoas-entre-elas-seis-medicos-em-megaoperacao-contra-clinicas-de-aborto-ilegal-14239131
[2]    http://www.ofluminense.com.br/editorias/cidades/presidente-do-cremerj-quer-aborto-legalizado
[3]    http://oglobo.globo.com/rio/interpol-deve-ir-atras-de-medico-acusado-de-dirigir-clinica-de-aborto-em-botafogo-14260242
[4]    http://oglobo.globo.com/rio/estado-do-rio-ultrapassou-marca-de-67-mil-abortos-no-ano-passado-segundo-levantamento-14029362
[5]             Média do valor mais barato de um procedimento realizado em clínica clandestinas
[6]    http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/brasil/2010/06/06/interna_brasil,196279/index.shtml

sábado, 18 de outubro de 2014

O Estado criminaliza as mulheres

Tatiana Cozarelli, Pão e Rosas Rio de Janeiro

No dia 28/09, dia latino americano e caribenho pela legalização do aborto, uma bancária de São Gonçalo, no estado do Rio de Janeiro, decidiu interromper sua gravidez, assim como as estimadas 2330 outras mulheres brasileiras que diariamente recorrem a esse procedimento. Ela ingeriu uma alta dose de medicamento abortivo e durante intensa hemorragia expeliu o feto no banheiro de sua tia que chamou a ambulância para socorrê-la. Ao invés de ir direto ao hospital, foi levada à delegacia após revelar a médica que havia tomado o medicamento. Para ser libertada e então levada a um hospital, a mulher teve de pagar 250 reais de fiança, respondendo ao processo que está tramitando pela Divisão de Homicídios da Polícia Civil.


Este é o terceiro caso de aborto nos últimos dois meses a ganhar atenção pública no Rio de Janeiro. Muito já foi escrito e dito sobre os terríveis casos de Jandira e da Elisângela, mulheres trabalhadoras do Rio de Janeiro que morreram na tentativa de realizar abortos em clínicas clandestinas mantidas por máfias que envolvem médicos e policiais. Estes três casos, somados aos milhares que acontecem ano após ano, nos demonstram não só a necessidade do direito ao aborto legal, seguro e gratuito, mas também a necessidade de que o Estado que crie condições materiais pra que mulheres possam ter o direito à maternidade e exercê-la plenamente.

O Estado é criminoso e as mulheres são as vítimas! 

O caso da mulher de São Gonçalo é diferente do caso de Jandira e da Elisangela porque ao sobreviver o Estado a trata como criminosa. No Brasil, provocar aborto em si mesmo ou permitir que outros o realizem é crime previsto pelo Código Penal com pena de detenção de um a três anos. É um absurdo que a mulher ao decidir sobre o que fazer sobre o seu corpo e a sua vida, seja penalizada. 



O Estado mata diariamente com a sua falta de investimento na saúde. Se esta mulher grávida morre na fila do SUS, o Estado fica impune. Esta grande hipocrisia do Estado que não se responsabiliza por um sistema de saúde de qualidade para a população causando até a morte, mas se intromete na autonomia do corpo da mulher e é responsável pela morte de mulheres que recorrem aos abortos clandestinos.

Além disso o Estado joga nas costas dos trabalhadores a responsabilidade por pagar os serviços básicos fundamentais que deveriam ser oferecidos gratuitamente com qualidade pelo próprio Estado, fazendo por exemplo, com que os trabalhadores paguem por planos de saúde. Ao mesmo tempo que o Estado direciona o dinheiro público para beneficiar os grandes empresários, como vimos na construção dos estádios para Copa em detrimento de melhorar a educação, o transporte público e a moradia da população. Neste caso, ainda mais absurdo, a mulher foi obrigada a pagar 250 reais de fiança, correndo risco de morrer a caminho do hospital, pelo fato do governo insistir na criminalização do aborto e ao mesmo tempo não fornecer condições adequadas para uma mulher trabalhadora exercer a maternidade.


No fim das contas as medidas de criminalizar e proibir o aborto são eficientes apenas para matar e punir mulheres pobres e trabalhadoras. Os números mostram que as mulheres continuam a interrompendo a gravidez e as consequências são a morte, sequelas, prisão e humilhação.

Um tema onipresente, exceto para os políticos que governam para a burguesia



No último mês até mesmo grandes jornais vem trazendo editoriais escancarando a necessidade de tratar a questão do aborto como uma questão de saúde pública e evidenciando que mesmo sendo ilegal milhares de mulheres realizam e muitas perdem suas vidas, principalmente pelo impacto causado pelas mortes de Jandira e Elisângela.
Dilma nesses quatro anos governou em aliança com os setores mais reacionários das bancadas religiosas, e mais uma vez mostra que seguirá com esta aliança e o silêncio diante de mulheres mortas mantendo a legislação atual que permite o aborto nos casos apenas de risco de morte para a mulher, fruto de violência sexual e fetos anencéfalos. Agora no segundo turno a realidade de milhares de mulheres passa longe dos discursos de Dilma e Aécio na corrida eleitoral. Qualquer um dos dois que vencer a campanha não mudará uma vírgula nesta realidade que é a quinta causa de morte entre as mulheres e causa tanta dor para tantas mulheres e amigos e familiares que perdem suas mães, amigas, filhas.


Os candidatos da esquerda que apoiaram abertamente a causa, como Luciana Genro (PSOL) e Zé Maria (PSTU), apesar de terem tocado no tema em suas falas públicas, não mobilizaram suas bases partidárias com força para compor os atos que aconteceram nacionalmente dia Latino Americano e Caribenho pela Legalização do Aborto. É fundamental que PSOL e PSTU que falaram em defesa deste direito tranforme o discurso em um movimento real de trabalhadores e juventude em torno das demandas democráticas para impulsionar a partir dos locais de trabalho e estudo uma campanha pelo direito ao aborto legal, seguro e gratuito. 

Basta de mulheres criminalizadas e mortas por abortos!

Educação sexual nas escolas para decidir, anticoncepcionais gratuitos e de qualidade para não abortar, direito ao aborto legal seguro e gratuito para não morrer!



Pelo direito ao aborto legal, seguro, gratuito e garantido pelo SUS! Por um SUS 100% público, controlado pelos trabalhadores e usuários!

Pelo direito à maternidade! Por creches, restaurantes e lavanderias públicos!

Pelo fim do acordo Brasil-Vaticano! Por um estado laico de fato!  

sábado, 4 de outubro de 2014

Dilma Rousseff se cala sobre a legalização do aborto


Iaci Maria, Pão e Rosas Belo Horizonte - MG



Na reta final do primeiro turno das eleições presidenciáveis brasileiras, os temas relacionados às questões democráticas da população mais uma vez passam longe do discurso dos três principais candidatos. O grave problema social dos abortos clandestinos, que aflige milhares de mulheres, mais uma vez, não esteve entre os temas de Dilma, Marina e Aécio.

Na última quinta, 2 de outubro, ocorreu o último debate presidenciável, organizado pela TV Globo. Para além do clima amigável entre os principais candidatos, que representam os interesses dos empresários e banqueiros, o candidato Eduardo Jorge do PV direcionou sua pergunta à candidata à reeleição Dilma Rousseff do PT , questionando-a sobre as mortes por abortos clandestinos em seu governo e sua responsabilidade com isso.

O candidato questionou a presidenta a partir dos escandalosos casos de Jandira – mulher, mãe de dois filhos, que desapareceu ao sair para fazer um aborto e teve o corpo encontrado carbonizado algumas semanas depois1 – e de Elisângela – mulher que saiu para fazer um aborto e deu entrada e morreu no hospital no dia seguinte devido ao útero e intestino perfurados – ambas do Rio de Janeiro.

Já a presidenta Dilma utilizou mais da metade de seu tempo de resposta para desviar o tema. Apenas nos últimos segundos, Dilma defendeu que cumpre a lei que permite o aborto em apenas três casos, que são estupro, risco de vida da mãe, e fetos anencéfalos.

Em seu direito de réplica, Eduardo Jorge voltou a denunciar que a lei que criminaliza o aborto é responsável pela morte de tantas mulheres, como Jandira e Elisângela, mas apenas pediu que Dilma, se reeleita, reconsidere e pense em apoiar a proposta de revogação da atual lei. Na tréplica, a candidata foge novamente, e ao invés de responder sobre as mortes de mulheres das quais foi cúmplice durante seu governo, diz apenas que seu governo buscará dar apoio à juventude para prevenir a gravidez precoce, reforçando respeitar a legislação vigente Jandira e Elisângela passaram longe de sua resposta.

Todos os anos, milhares de mulheres mortas

No Brasil, cerca de 850 mil mulheres realizam abortos clandestinos todos os anos, sendo ele a quinta causa de morte materna. Dilma, já em 2010, pouco antes de se eleger como a primeira presidente mulher no país, declarou aos setores religiosos e conservadores que em seu governo não citaria o tema “aborto” e não mexeria na legislação atual. Cumpriu com sua declaração, e segue mantendo silêncio sobre as milhares de mulheres mortas todos os anos, como escandalosamente fez no último debate, mesmo sendo diretamente questionada sobre sua responsabilidade com essas mortes. Seu silêncio reforça suas alianças com as Igrejas e também sua responsabilidade pela triste realidade das mulheres que são obrigadas a recorrer pelo aborto clandestino.

Estamos a apenas dois dias do primeiro turno das eleições, com Dilma seguindo disparada com 40% da intenção de voto, na frente de Marina Silva (PSB) e Aécio Neves (PSDB), que se encontram empatados, deixando indefinido qual dos dois enfrentará a presidenta no segundo turno. Mas uma certeza esse último debate mostrou, em rede nacional na principal emissora brasileira, com picos de audiência maiores do que a audiência dos debates da Band, Record e SBT somadas: qualquer um dos três candidatos, se eleito – sabendo da grande probabilidade de reeleição de Dilma – seguirá mantendo o silêncio sobre o aborto clandestino, enquanto milhares de mulheres seguirão morrendo todos os anos devido a ilegalidade e negação desse direito tão democrático à vida das milhares.

Leia também:

  http://nucleopaoerosas.blogspot.com.br/2014/09/onde-esta-jandira-aborto-clandestino.html

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Secretaria de Mulheres do Sintusp: Até quando mulheres perderão suas vidas?

Declaração da Secretaria de Mulheres do Sintusp 

 28 de setembro - dia latino americano e caribenho pela descriminalização e legalização do aborto


Mais recentemente vimos notícias de dois casos, em menos de um mês, de mulheres que perderam suas vidas ao recorrerem à prática do aborto ilegal. Jandira Magdalena de 27 anos e Elisângela 32 anos viviam no estado do Rio de Janeiro e o que mais essas mulheres tinham em comum? Eram trabalhadoras, mães de dois filhos e com muito esforço economizaram entre 3 e 4 mil reais para realizar o aborto. O motivo que as levaram à isso? Falta de condições de vida dignas e medo de perder o emprego.

Esta semana foi confirmado através de um exame de DNA que o corpo encontrado na zona oeste do Rio carbonizado, era de Jandira. E Elisângela teve o útero e intestino perfurados e morreu no hospital. Estes dois casos trouxeram à tona o debate sobre o tema do aborto e as consequências de sua ilegalidade mostrando através dos dados que esta questão precisa ser encarada de fato por toda sociedade e que é necessário acabar com a impunidade das máfias de clínica clandestinas que fazem do aborto um “negócio” com envolvimento de policiais e outras instituições do próprio Estado.

Um milhão de mulheres realizam abortos clandestinos todos os anos, e os dados do SUS mostram que são realizadas cerca de 243 mil curetagens, aproximadamente o mesmo número de internações por doenças como câncer, sendo o aborto ilegal a quarta causa de morte entre as mulheres.

Ao mesmo tempo que o Estado nega o direito ao aborto legal para todas as mulheres, fazendo com que a maternidade seja uma “obrigação”, não dá as condições básicas e dignas de atendimento à saúde e educação gratuita e de qualidade para que as mulheres exerçam a maternidade, além da precarização do trabalho, que faz com que as mulheres tenham os salários mais baixos e direitos negados.

Na USP acabamos de sair uma greve vitoriosa com a participação de muitas trabalhadoras de várias unidades, e uma de nossas bandeiras foi mais creche para todas as funcionárias e funcionários, luta histórica na USP, escancarando que este direito básico e democrático para todas trabalhadoras é negado pelos governos. Uma de nossas pautas centrais foi contra a desvinculação dos Hospitais Universitários (HU e HRAC) proposta pelo reitor Zago, e também dos Centros de Saúde, pois entendemos que este projeto visa a privatização da saúde pública que atende à população da ZO da cidade de SP, e através da Secretaria de Mulheres também lutamos pela contratação de enfermeiras para realização de 850 exames de Papa Nicolau para mulheres que estão na fila de espera à muito tempo, necessário para a prevenção de câncer. Queremos avançar neste e em outros debates com o conjunto dos trabalhadores, pra que mais nenhuma mulher morra por aborto clandestino.

Entendemos que a luta pelo direito ao aborto legal, seguro e gratuito garantido pelo SUS é lutar para que as mulheres deixem de morrer e para que possam decidir, uma luta que deve estar junto à luta pelo direito à maternidade e pela saúde das mulheres. Achamos que esta luta deve ser tomada por toda a classe trabalhadora para que nenhuma Jandira e Elisângela seja mais vítima. Justiça para Jandira, Elisângela e todas as mulheres mortas ou mutiladas por aborto clandestino!

A Secretaria de Mulheres do Sintusp estará presente no ato do dia 28 de setembro, dia latino americano e caribenho pela legalização do aborto, às 12h na Praça do Ciclista, e convidamos a todos a se somarem a esta luta.

Pão e Rosas no ato pela legalização do aborto em São Paulo

Participação do grupo de mulheres Pão e Rosas no ato pela legalização do aborto (28/09), em São Paulo



No Dia 28 de setembro – Dia Latino Americano e Caribenho pela Legalização do Aborto – ocorreram atos em diversas cidades da América Latina para lutar por esse direito das mulheres decidirem sobre seu próprio corpo. Em São Paulo o ato se deu na Avenida Paulista organizado pela Frente Feminista pela Legalização do Aborto e contou com a participação de diversas organizações de mulheres.

Frente à proximidade das eleições, vimos que muitas organizações não deram peso devido para o ato, mais preocupadas com as campanhas eleitorais e separando isso da luta pelos direitos das mulheres. As mulheres da Marcha Mundial de Mulheres, ligadas ao PT, estiveram presentes mas não tinham sequer um candidato que pudesse falar em defesa do aborto no ato, justamente porque o PT se cala sobre esse assunto. O mesmo podemos dizer do PSOL, que não levou nenhum candidato ao ato para prestar solidariedade à luta das mulheres. Já o PSTU, apesar de comparecer com duas candidatas (Ana Luiza, candidata à deputada federal, e Arielli, candidata à deputada estadual), não deu nenhum peso do partido para o ato, comparecendo com pouco mais de uma dezena de militantes.

O grupo de mulheres Pão e Rosas esteve presente com um bloco organizado muito expressivo para lembrar a morte de Jandira e Elisângela, duas jovens que morreram recentemente vítimas de aborto clandestino no Rio de Janeiro. Jandira desapareceu após entrar num carro que a levaria para a clínica clandestina e depois seu corpo foi encontrado mutilado e carbonizado. Elisângela morreu num hospital após um aborto clandestino mal sucedido que perfurou seu útero. O bloco do grupo de mulheres Pão e Rosas em SP carregava faixas, cartazes e seus integrantes vestiam camisetas que exigiam Justiça para Jandira e Elisângela e cantavam “Jandira, não vai passar! O aborto vamos legalizar!” e “Todas as Jandiras nós vamos vingar com a luta operária e popular!”.



























O Pão e Rosas esteve presente também, junto à secretaria de mulheres do SINTUSP (Sindicato de Trabalhadores da Universidade de São Paulo), que acabam de sair de uma greve exemplar e vitoriosa, para exigir saúde pública de qualidade e que as mulheres tenham direito ao aborto seguro e gratuito, garantido pelo SUS 100% estatal. Babi, trabalhadora do Hospital Universitário da USP e do Pão e Rosas, lembrou que a greve de trabalhadores lutou em defesa do HU, contra sua desvinculação da universidade, que abre caminho para a privatização do hospital e também recordou que existem mais de 800 mulheres na fila do “Papanicolau” no HU por falta de enfermeiras que possam realizar um exame tão simples. As mulheres do Pão e Rosas cantavam “Saúde de qualidade já! SUS sob controle operário e pupolar!”. Babi finalizou dizendo: “Parte da nossa luta pelo direito ao aborto legal, seguro e gratuito passa também por defender os hospitais universitários contra o sucateamento e a privatização, para que o aborto seja realizado pelo SUS 100% estatal”.



O Pão e Rosas lembrou também que estamos nos aproximando das eleições e que existem duas mulheres entre os três principais candidatos à presidência do país. Marília, demitida política do Metrô de São Paulo e do Pão e Rosas, lembrou que tanto Dilma quanto Marina negam às mulheres o direito elementar a decidir sobre os seus corpos e suas vidas. “Aécio, Marina, não sou da sua laia! Fora já com a Dilma e leva junto o Malafaya!” e “Não somos uma no poder, somos milhares pelas ruas lutando por nossos direitos, com as mulheres da USP como exemplo!” eram dois dos gritos que mais se ouviam das mulheres do Pão e Rosas. Marília finalizou fazendo um chamado: “Quero dialogar em especial com as companheiras da Marcha Mundial de Mulheres, pois estamos a muitos anos lutando juntas pela legalização do aborto mas as companheiras insistem em depositar confiança no governo de Dilma e do PT, que já mostrou em mais de 12 anos de governo que não vai nos dar esse direito elementar. Nós vamos arrancar nosso direito através da organização das mulheres nas ruas!”.

Veja as intervenções:



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Levy Fidelix: um discurso para matar homossexuais

Fernando Pardal

http://www.ler-qi.org/A-homofobia-de-Levy-Fidelix-expressa-a-podridao-da-democracia-brasileira

Levy Fidelix é um desses personagens folclóricos que só a política brasileira é capaz de produzir. Encabeçando uma legenda de aluguel, o PRTB, Fidelix passou eleição após eleição sendo conhecido pelo povo brasileiro como o homem de uma única proposta, que em nada dialoga com os anseios de qualquer setor da população: o seu lendário “aerotrem”.

E poderia continuar sendo assim, apenas uma figura inexpressiva que demonstra o ridículo da política burguesa, se ele não tivesse ganhado o espaço nos debates que as emissoras burguesas se recusam a conceder para as candidaturas operárias como a de Zé Maria, do PSTU, ou Rui Costa Pimenta, do PCO.

Foi utilizando o espaço de um debate televisivo que, ontem, Levy Fidelix expressou o que há de mais reacionário e fascistizante na política brasileira, dando voz ao que setores conservadores como a bancada evangélica impõem de forma sistemática, mas menos escancarada, aos programas de todos os candidatos dos patrões. Perguntado sobre o direito ao matrimônio igualitário à população LGBTT pela candidata do PSOL, Luciana Genro, o candidato Levy Fidelix destilou seu ódio reacionário e homofóbico.

“Dois iguais não fazem filho”; “aparelho excretor não reproduz”, “não podemos deixar que tenhamos (...) esses que aí estão achacando a gente no dia-a-dia, querendo escorar essa minoria à maioria do povo brasileiro.”; “Nós tratamos a vida toda com a religiosidade para que nossos filhos possam encontrar realmente um bom caminho familiar.” Esses foram alguns dos termos que Fidelix utilizou para se posicionar no debate, não apenas dizendo que é contra o casamento igualitário, mas incentivando abertamente a violência contra os LGBTT, que no Brasil chega a níveis recordes, sendo o país com mais assassinatos e agressões homofóbicas no mundo.

Incrivelmente, a esse verdadeiro incitamento à violência homofóbica com tamanho entusiasmo, a candidata Luciana Genro se limitou em sua réplica a defender o casamento homoafetivo como forma de reconhecer qualquer tipo de família, e afirmou ainda ser “uma das que mais defende a família nessa campanha eleitoral” por ser a única que está “defendendo todas as famílias”. É dessa forma, “moderada”, que o PSOL pretende se apresentar como alternativa eleitoral: contra o ódio reacionário e homofóbico, seu programa limita-se ao nível mais elementar, que é a defesa do casamento igualitário, mas sem dar nenhum nível de resposta aos absurdos que Levy Fidelix disse ao afirmar que “não se deve tolerar essa minoria”.

Em sua tréplica, Fidelix ficou à vontade, sem nenhuma resposta à altura de Genro, para continuar dizendo que, se o casamento igualitário for “estimulado”, a população brasileira seria reduzida pela metade e que se você andar na Paulista (avenida central de São Paulo) vai ver que “é feio o negócio” e concluir afirmando: “vamos ter coragem, somos maioria, vamos enfrentar essa minoria” e que “esses que tenham esses problemas sejam atendidos no plano psicológico e afetivo, mas bem longe da gente, bem longe mesmo porque aqui não dá”.

Na chamada democracia brasileira, um candidato se vê livre para, em um debate em rede nacional, incitar o ódio, e intolerância e a violência contra a população LGBTT, comparando-os aos pedófilos da Igreja Católica e dizendo que são doentes; enquanto isso, os crimes homofóbicos continuam batendo níveis recordes, e todas as candidaturas dos partidos dos ricos seguem à risca os mandamentos da bancada evangélica e dos poderosos pastores como Edir Macedo, dono da Rede Record de televisão, que são os mais ativos defensores da homofobia como política de Estado.

As candidaturas operárias sequer podem se expressar na televisão, e a única candidata de esquerda que pode debater se coloca o vergonhoso papel de limitar sua defesa da população LGBTT à defesa de um único dos tantos direitos civis que lhes é negado cotidianamente, sem denunciar de forma contundente a postura criminosa de Fidelix. Essa é uma demonstração não apenas da podridão da política dessa democracia dos ricos, mas de que os direitos dos LGBTT só poderão ser conquistados no Brasil com uma aliança desses setores à classe trabalhadora, que lute contra a homofobia e transfobia de forma independente da burguesia e contra os manda-chuvas das Igrejas evangélicas e seus políticos fantoches.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Manifestação no Rio de Janeiro pelo direito ao aborto legal

No dia 28/09 realizou-se na praia de Copacabana na cidade do Rio de Janeiro uma manifestação que reuniu cerca de 100 pessoas como parte das atividades que ocorreram em várias cidades da América Latina em referência ao dia Latino Americano e Caribenho pela descriminalização e legalização do aborto. Este ato foi organizado nas redes sociais e ocorreu em capitais como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre. O ato foi composto por feministas independentes, anarquistas e o grupo de mulheres Pão e Rosas.



Este mesmo dia foi marcado pelo enterro, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, de Jandira Magdalena dos Santos, de 27 anos, depois de quase um mês do seu desaparecimento após sair de casa com R$ 4,5 mil para realizar um aborto. No dia 24/09 foi confirmado que o corpo carbonizado sem a arcada dentária e as digitais encontrado em um carro na mesma região da cidade era o de Jandira.
Jandira é mais uma vítima das condições inseguras em que mulheres trabalhadoras, pobres e maioria mulheres negras, recorrem para abortar e ficam à mercê de máfias que tratam do aborto como uma “negócio” através clínicas clandestinas que funcionam em quartos alugados de casas sem nenhuma condição higiênica. No caso de Jandira, um dos acusados é um policial que cuidava da “segurança” do local onde era realizado o aborto e o homem que realizava o procedimento tinha falsa identidade se passando por médico.

         
No Rio de Janeiro os dados escancaram a realidade das mulheres que abortam em situações ilegais, só ano passado foram registrados 67 mil abortos .

Outro caso recente bastante divulgado pela mídia foi o de Elisângela Barbosa, de 32 anos, também do estado do Rio de Janeiro, que morreu em um hospital de Niterói, após um aborto numa clínica clandestina onde teve seu útero e intestino perfurados.

O Pão e Rosas esteve presente no ato com camisetas estampadas com o rosto de Jandira com a frase “Justiça para Jandira!” e “Pelo direito ao aborto legal, seguro e gratuito já!” e denunciou como mais uma vez esta questão vem sendo tratada na campanha eleitoral tendo duas candidatas favoritas à presidência, Dilma Roussef (PT) e Marina da Silva (PSB).


Rita Frau, professora e dirigente do Pão e Rosas declarou: “hoje é um dia marcante pois ao mesmo tempo que saímos às ruas para gritar “Basta de mulheres mortas por abortos clandestinos”, Jandira está sendo enterrada. São dois casos em menos um mês que tomaram bastante evidência na mídia mostrando que a sociedade não pode mais fechar os olhos ou tratar de maneira hipócrita a realidade de milhares de mulheres. No Brasil a aliança no Congresso com bancadas evangélicas e católicas faz com que nossos direitos continuem relegados e mais uma vez vemos nas campanhas eleitorais que duas mulheres candidatas não significa nenhum avanço, pois negam este direito em detrimento da aliança com os setores reacionários desta democracia dos ricos. Por isso o Pão e Rosas também veio afirmar “Nem Dilma, nem Marina, somos todas Jandira e Elisângela”.


Frau agregou: “infelizmente é um ato ainda pequeno pelo tamanho da importância e urgência que se faz a aprovação de uma lei no país que garanta o direito ao aborto legal, seguro e gratuito pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para que mulheres deixem de morrer. As feministas que apóiam o governo e a candidatura de Dilma, como a Marcha Mundial de Mulheres, não estão presentes pois tiveram uma posição divisionista realizando no dia 26/09 um ato de 50 pessoas sem nenhuma organização conjunta com os demais movimentos. E infelizmente as agrupações feministas impulsionadas pelos partidos de esquerda (PSOL e PSTU) também não vieram com sua militância organizada. Ao mesmo tempo que candidatos destes partidos defendem no programa eleitoral a legalização do aborto, eles mesmos não estão presentes no ato e na prática infelizmente vemos que este programa não é uma campanha real impulsionada pela maioria dos sindicatos e entidades estudantis dirigidos pela esquerda nos locais de trabalho e estudo”.

O ato se concentrou no forte de Copacabana e percorreu a Av. Atlântica onde os participantes cantavam “Neste dia se escuta um só grito! Aborto legal, seguro e gratuito!” e “Jandira presente, Elisângela presente, todas as mulheres que morrem por abortos clandestinos, presentes!”. Encerrou-se na frente do Hotel Copacabana Palace com intervenções.

Desiree Carvalho, coordenadora do Centro Acadêmico do Serviço Social (CASS) da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e militante do Pão e Rosas, falou: “é importante que a gente debata esta questão em todos os locais de estudo e trabalho, por isso esta semana fizemos uma roda de conversa sobre o tema entre os estudantes do Serviço Social, um curso que tem na sua maioria mulheres. Temos que denunciar o Estado e os governos que ao mesmo tempo nos negam o direito ao aborto legal, não dão condições para exercermos a maternidade, como o direito à creche. Na UERJ esta é uma pauta concreta pois são muitas estudantes que também são trabalhadoras e não têm acesso à creche sendo obrigadas a deixar de estudar”.



Veja os vídeos das intervenções de Rita Frau e Desirée Carvalho:



Wendy Goldman visitando a fábrica Madygraf (ex-Donnelley)

Wendy Goldman: “Não poderia estar num lugar melhor que este”.

Sábado, 27 de setembro de 2014 – Edição do dia – A historiadora estadunidense está na Argentina, convidada pelo grupo de mulheres Pão e Rosas. Uma de suas atividades foi visitar à gráfica ex-Donnelley de Garín que está funcionando sob controle operário. 


Por Gabriela Jaime e Clara Liz

      Traduzido de http://laizquierdadiario.com/Wendy-Goldman-No-podria-estar-en-un-lugar-mejor-que-este



Terminada a conferência de Wendy Goldman, para mais de 600 pessoas no auditório da Faculdade de Ciências Sociais (Universidad de Buenos Aires – UBA), [na quinta-feira, 25] Pão e Rosas (precursor da primeira edição em castelhano do seu livro “La mujer, el estado y la revolución”) a convidou para conhecer a experiência da fábrica Madygraf, ex-Donnelley, hoje sob gestão de seus trabalhadores. E, como não poderia ser de outra maneira, para conversar com a Comissão de Mulheres.
Durante a visita Wendy Goldman conversou com os trabalhadores sobre cada detalhe do processo de produção, mas também sobre a organização dos trabalhadores, sua história de luta e a situação atual da fábrica sob gestão operária.
Uma questão importante ressaltada pelos trabalhadores foi que a Madygraf é uma das fábricas maiores e mais modernas da indústria gráfica, por isso há interesse econômico de rematá-la, pelo alto valor do maquinário.
Um dos momentos mais interessantes deste diálogo com os trabalhadores se deu quando Wendy lhes perguntou por que não se contentavam em conseguir a legalização da cooperativa Madygraf e exigiam a expropriação, para estatizar a fábrica sob controle operário. A resposta foi contundente: “Porque somos trabalhadores e os trabalhadores não querem se transformar em patrões”.
Os trabalhadores a convidaram para tomar mate e comer petiscos preparados na cozinha da Madygraf. Espertos, os trabalhadores oferecem mate doce para ganhar sua simpatia, pois suspeitavam que os amargos não seriam do agrado dos paladares estrangeiros que não estão acostumados ao sabor da erva.
Nesse momento da visita se juntam as primeiras integrantes da comissão de mulheres que presenteiam Wendy com a jaqueta azul de Donnelley usada por seus trabalhadores, bordadas com a frase: “Famílias nas ruas, nunca mais!”
Depois se dirigem ao lugar onde funcionará a futura creche da Madygraf. Sol, da comissão de mulheres, explica que a urgência em organizar o jardim infantil é porque as mães necessitam trabalhar, inclusive as que até agora não trabalhavam fora, até que os trabalhadores da Madygraf voltem a receber seus salários que estão retidos pelo síndico da falência.
Wendy pergunta quantas crianças atenderiam. São entre setecentos e mil filhos de trabalhadores, mas Sol informa que estão organizando uma pesquisa para conhecer melhor as idades, condições de vida de cada família etc.
Em seguida, escuta atentamente a história de vida e solidariedade compartilhada pelos trabalhadores da [corrente sindical e política] Bordó Gráfica e suas famílias, narrada pelas mulheres.
Mas o relato mais incrível foi o das meninas dessas famílias operárias que contaram com palavras comoventes o que sentiram ao viver esta situação e acompanhar seus pais e mães nesta luta.
Uma das mães presente nos mostrou seu celular, com um desenho feito por sua filha de cinco anos. Após uma passeata em defesa do pagamento dos salários, na qual a menina foi com a mãe e o pai, ela desenhou os trabalhadores bravos. “Estão bravos porque querem que paguem seus salários”, explicou a menina.

Maria diz a Wendy que o nascimento da comissão de mulheres, no contexto da luta contra as demissões, que ainda não terminou, fortaleceu a unidade das famílias trabalhadoras e isso fez com que a comissão de mulheres continuasse atuando. Todas concordam que isso foi porque haviam entendido a necessidade não apenas de se organizar em defesa do trabalho de seus maridos, mas também por suas próprias reivindicações como mulheres.
Anahí relata que conquistar esta organização foi custoso, tiveram que se impor e fazer discussões políticas até com seus companheiros. Contando casos divertidos, mas cheias de convicção, iniciaram a mudança na relação de irmandade e solidariedade em suas famílias. Como elas cantavam em uma de suas canções: “corações valentes, dos patrões e dos maridos, independentes”.
Wendy se despediu dizendo que o que viu diante de si é maravilhoso e que não poderia estar num lugar melhor que este.
Os trabalhadores e a comissão de mulheres da Madygraf estão escrevendo uma história diferente de tudo o que nos têm ensinado que é natural e inevitável. Um caminho de emancipação, de luta contra a exploração e a opressão.

Veja o vídeo com filhos e filhas de trabalhadores da Madygraf. Uma das crianças, Priscila, de 11 anos, explica para Wendy que os trabalhadores votaram o nome Mady para a cooperativa em homenagem a uma das crianças, filha de um trabalhador, que tem paralisia infantil. Diz também que os filhos estão em muitas passeatas com seus pais e mães, e decidiram chamar-se “Pequenos de pé”, para mostrar que apoiam a luta dos seus pais.

https://www.youtube.com/watch?v=x0RSGbifwXQ



quarta-feira, 24 de setembro de 2014

"Os números do horror"

Assim se referem a respeito das dramáticas estatísticas sobre femicídios as professoras e os professores de Melina na carta aberta publicada em La Izquierda Diario dias depois de seu desaparecimento. Nas últimas horas, com a confirmação de que o corpo encontrado sem vida numa galeria de esgoto era de Paola Acosta, e outro encontrado num córrego seria de Melina Romero, os números do horror se avolumam. E também crescem a dor e a indignação. Em Córdoba milhares de pessoas se mobilizaram por justiça para Paola.



Andrea D’Atri

O índice de femicídios na Argentina é altíssimo. Segundo a Casa del Encuentro, em 2013 houve 295, isto é, um a cada trinta horas, que deixaram 405 meninas e meninos órfãos. Melina e Paola, dolorosamente, engrossam as estatísticas de 2014. Em todos esses assassinatos um elemento se repete: as mulheres vítimas são um objeto de maltrato, prescindível, descartável, e o móvel é o ódio misógino.
A sociedade se escandaliza quando estes crimes veem à luz. E é fácil que os meios de comunicação os contabilize à monstruosidade do assassino: centenas de punhaladas, esquartejamentos, filhas e filhos como prostrados espectadores, corpos jogados em lixeiras, córregos, esgotos. Entretanto, um monstro é uma “produção contra a ordem normal da natureza”, isto é, algo insólito, estranho, uma raridade que abala a norma e o esperável, o cotidiano, o conhecido. Porém, lamentavelmente, a estatística de um femicídio a cada trinta horas na Argentina demonstra que não se trata de algo insólito nem estranho. Os femicídios não são uma excepcionalidade, mas – como dizem as professoras e os professores de Melina – quase uma regra,  algo “normal”. Uma regularidade abominável nos faz lembrar que uma de nós será assassinada a cada dia.
Em algumas ocasiões, os autores justificam sua ação como se fosse uma repentina perda de autocontrole ou do controle da situação. No entanto, a violência contra as mulheres mostra, ao contrário, o mais alto grau de controle que alguém possa exercer sobre alguém. Se a violência femicida, na maioria dos casos, pode ser prevista é justamente porque é o resultado de uma escalada de assédio, violência verbal, psicológica, econômica, física que expressam a naturalização do controle e do domínio dos homens sobre as mulheres.
E a finalidade desta violência não é apenas a morte das vítimas, mas o disciplinamento do corpo, do desejo, do comportamento, da vida das mulheres sobreviventes. Porque, diferente de outros casos de violência intersubjetiva, a que se exerce contra as mulheres parte das normas socioculturais que estabelecem como elas deveriam ser e como deveriam se comportar, o que se espera delas. Enquanto outras formas de violência atuam desestabilizando e atacando a ordem social estabelecida, a violência estrutural contra as mulheres atua, ao contrário, como um elemento que contribui para manter uma determinada ordem na qual as mulheres permanecem subordinadas. A violência contra as mulheres atua como um mecanismo coercitivo que, junto com outros mecanismos de consenso, naturaliza a norma social, tornando invisível o caráter histórico da atribuição de funções próprias e imanentes dos gêneros, dos papéis que são efeito desta naturalização da opressão e, ao mesmo tempo, um dispositivo para sua perpetuação.
“O direito a uma vida livre de violência” é uma das consignas mais repetidas pelos movimentos de mulheres. Sabemos que as experiências de violência contra as mulheres não constituem casos isolados, mas, longe de serem naturais, as situações de opressão, discriminação, degradação e subordinação vividas pelas mulheres têm origem histórica, o que permite visualizar, então, a possibilidade de que também desapareçam. Isso requer uma luta muito mais radical para eliminar pela raiz um regime social assentado na violência da exploração e da opressão. É o único caminho realista para gozar da plenitude da vida, do pão e também das rosas. E para que se faça verdadeira justiça a todas as Paolas e Melinas deste mundo.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Em vermelho vivo

Terça-feira, 23 de setembro de 2014 – Edição do dia – 

Legalizaram o aborto 50 anos antes da Grã Bretanha; descriminalizaram a homossexualidade 77 anos antes da Alemanha; permitiram o divórcio 70 anos antes da Argentina. Como tomaram, há quase um século, o céu por assalto?  


Andrea D’Atri

A revolução russa de 1917 transformou tão radicalmente a vida privada que se compararmos aquelas medidas e as ideias que as inspiravam com a política social e os valores que prevalecem atualmente diremos que o mundo atrasou cem anos. Esta é a primeira conclusão que se depreende da leitura de “A mulher, o Estado e a revolução” da historiadora norte-americana Wendy Z. Goldman que na quinta-feira 25 se apresentará no auditório da Faculdade de Ciências Sociais (Universidad de Buenos Aires - UBA).
Sua investigação demonstra, minuciosamente, que para a direção do Partido Bolchevique a emancipação feminina era uma tarefa fundamental que se sustentava em quatro pilares programáticos: a incorporação das mulheres ao trabalho assalariado, a socialização do trabalho doméstico, a extinção da família e o amor ou união livre. O bolchevismo encarnava a herança libertária das rebeliões de escravos da Antiguidade que havia ressuscitado nas seitas igualitaristas e comunistas do início do capitalismo. Era herdeiro do socialismo utópico e também dessa crítica implacável que Marx e Engels haviam alvejado, com ironia, o matrimônio burguês e a família no Manifesto Comunista: uma herança revolucionária que a princípio do século XX pode tomar forma em um dos países mais atrasados do mundo, transformando a vida de milhões de seres humanos.
O stalinismo necessitou da derrota física de uma geração inteira de bolcheviques para fazer retroceder estas conquistas no terreno da vida privada. Porém, a consequência do bolchevismo se mostra – neste livro de Wendy Z. Goldman – como uma verdadeira antítese. As mulheres voltaram aos seus lares; o trabalho doméstico recaiu novamente sobre suas costas; a família tradicional se fortaleceu inclusive pela propaganda estatal e o amor livre foi qualificado como “desvio pequeno-burguês”. Daí em diante todas as correntes políticas tributárias do stalinismo estabeleceram que as mulheres e suas demandas eram secundárias na luta revolucionária.
Atualmente, quando as relações interpessoais se degradam na satisfação do individualismo mais grosseiro; quando o trabalho flexibilizado e precário impõe que todos os vínculos de emprego se submetam ao contrato temporário; quando a vida pessoal foi despersonalizada é tentador o espelhismo conservador de matrimônios e famílias tradicionais que se apresentam como oásis em meio ao deserto. Junto com o enterro da revolução o capitalismo sepultou também a audácia que alimentava a imaginação revolucionária para transformar a vida privada.
Por isso o livro de Wendy Z. Goldman é importante não apenas para reconstruir estes aspectos menos conhecidos da façanha da Revolução Russa de 1917, mas também para que em nossa luta presente e futura por uma sociedade liberada do jugo da exploração incluamos a disputa contra os valores e costumes impostos pela classe dominante e sua cultura.

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Conheça a edição brasileira do livro “Mulher, Estado e Revolução”, publicado pela Edições Iskra e Boitempo Editorial. Prólogo de Diana Assunção, diretora do Sintusp e fundadora do grupo de mulheres Pão e Rosas Brasil.

Para adquirir o livro mande email para: paoerosasbr@gmail.com