terça-feira, 24 de novembro de 2009

25 de novembro: Dia de Ação Contra a Violência às Mulheres! Organize um amplo e impactante 25 de novembro com o grupo de mulheres Pão e Rosas!

“Do rio que tudo arrasta, se diz que é violento. Mas ninguém chama violentas às margens que o comprimem”

Por Pão e Rosas Letras USP

Esses versos de Brecht expressam a nossa visão sobre a polêmica que se estabeleceu no curso de Letras em relação ao ocorrido na noite de quinta-feira da semana passada. Em meio à apuração da votação para o Caell, um grupo de pessoas entoou um grito de “gostosa”. Se dirigiam a uma militante que estava na mesa da apuração. Queríamos então que os autores da atitude machista se retratassem. E o que ouvimos, já do lado de fora do prédio, foram mais provocações e frases machistas. Filmaram, se esconderam e se trancaram no espaço dos estudantes; exigimos que apagassem as imagens, lembrando de todas as vezes em que os antigreves(istas) na universidade se utilizaram de edições bem arquitetadas postadas no Youtube para criminalizar o movimento estudantil e de trabalhadores na USP nesse mesmo ano. Apagaram, e então abrimos um corredor para que fossem embora. Demoraram, mais enfim saíram ao som das mulheres que mostravam que não engoliriam mais as manifestações machistas de setores de direita no curso em relação a mulheres do movimento estudantil.

Isso tudo se deu em meio a um clima de provocações e polarização que os setores próximos à “chapa do Fusca” – que é uma chapa que em seu programa defende o sistema em que vivemos, sistema esse que oprime e explora a imensa maioria da humanidade, e ainda com mais intensidade as mulheres, negros e homossexuais – levaram adiante contra as chapas “Estado de Exceção”, que compúnhamos, “Uma Flor nasceu na rua”, “Para que Poetas” e “AJR”. O “gostosaaa!” foi mais uma forma desse setor tentar desmoralizar o movimento estudantil que tanto detestam.

A nossa resposta não foi só em relação ao “gostosa”, mas a todas as provocações daqueles que querem destruir o movimento estudantil da Letras, este mesmo que se une aos trabalhadores para lutar pela universidade pública. Eles se utilizaram da opressão secular que o sistema capitalista impõe às mulheres para desmoralizar-nos. Foi um exagero? Vejamos: na universidade não encontramos um mundo de igualdades, nem entre as pessoas de diferentes sexos, nem de diferentes cores, nem de diferentes extratos sociais; aqui acontece exatamente como lá fora. A estrutura da nossa universidade é uma das mais elitistas, machistas e racistas desse país. Nela, são poucos os negros que entram para estudar e muitos os que entram para limpar o chão e ganhar um salário de miséria, e boa parte destes são mulheres. Nela, vemos uma burocracia encastelada que exclui a comunidade universitária e a sociedade – que a sustenta – das suas decisões, e que coloca cada vez mais nossa produção para gerar lucro para alguns poucos da FIESP e cia. Nela, vemos o silêncio dessa mesma burocracia frente aos atos de violência sexual contra estudantes mulheres nas moradias, que saem impunes. Nela, vemos o silêncio e a condescendência em relação ao assédio moral e sexual a trabalhadoras (como pudemos ver no caso da gripe A em que as trabalhadoras grávidas, que eram grandes alvos, não foram dispensadas, sob ameaças de terem seus salários cortados). Nela, vemos a academia, com suas teses rebuscadas, reproduzindo e muitas vezes justificando o machismo, a opressão, a exploração. E nela é que vemos que os estudantes não são iguais: alguns se colocam em defesa DESTA universidade (explícita ou veladamente), e outros querem transformá-la.

Esta universidade de uma só classe, a dominante e exploradora, abre espaço para a reprodução de uma opressão machista também entre estudantes. E nesse caso, a divisão entre nós também a trouxe, e esta só poderia estar a favor da direita. É contra a atitude desses estudantes, que reiteram a opressão existente na universidade, que nos revoltamos. E é dessa forma que nós, movimento estudantil, precisamos lutar contra a opressão às mulheres e contra aqueles que querem afundar o movimento.

Agora, com Rodas nomeado reitor, não podemos deixar que esses setores cavem espaço entre os estudantes. Temos que dizer abertamente que os que propõem que o CA seja um mero distribuidor de riquezas “para mostrar que o capitalismo dá oportunidades a todos”, para tirar dos estudantes a sua ferramenta de luta, que são os CAs e DCE, estão do lado da reitoria que quer destruir o movimento estudantil e de trabalhadores. E sabemos que Rodas virá com pequenas concessões, por um lado, e com mão de ferro, por outro, para continuar a desenvolver aquele projeto de universidade. É como dissemos: “Fusca não anda sem Rodas!”. E na greve, onde estavam esses estudantes? Votaram contra a greve e em nenhum momento a construíram. E nas assembleias, aparecem? Se sim, somente na hora de votar contra greve e paralisação. Nos outros momentos não, pois não querem discutir dentro do movimento estudantil as suas posições ou fazer críticas para tornar o ME mais efetivo em sua luta.

Outra coisa que ninguém diz é que no meio do conflito e ao lado dos opressores estava o estudante da Letras que integra o CDIE, o mesmo grupo que chamou a polícia para reprimir o ME, que invadiu uma assembleia dos trabalhadores ameaçando Brandão e o Sintusp, que hoje levanta uma chapa para o DCE que institucionalize (por parte dos estudantes) a presença da PM no campus e que se diz abertamente antigreve. É esse tipo de estudante que Rodas quer: o que desarticule o ME e sua luta junto aos trabalhadores em prol de uma universidade democrática e pública.

Perante tudo isso, se coloca a necessidade de abrirmos um debate com a chapa eleita “Veredas”. Durante este ano diversos membros da gestão Olhos Livres e estudantes que compõem a nova gestão estiveram ao nosso lado para defender o Sintusp e combater os estudantes do flashmob (CDIE) que se organizaram contra a greve, dissolvendo o seu “ato”; estiveram ao nosso lado para lutar contra os professores fura-greves que intimidavam os alunos com provas e trabalhos; estiveram ao nosso lado para boicotar as eleições para reitor e impedir a entrada dos professores no CO. Quando os estudantes de direita, a mídia e a reitoria classificaram a luta dos trabalhadores e seus métodos legítimos de organização, como os piquetes e a greve, como violentos e intransigentes, a Olhos Livres/Veredas defendeu conosco o direito de lutarmos com intransigência em relação à direita e a burocracia acadêmica. Agora, em sua campanha, disseram que “o sertão aceita todos os nomes”. Foi um de seus apoiadores quem primeiro iniciou o coro machista. Em seguida, alguns integrantes da chapa se colocaram como protetores dos agressores, e agora cabe perguntar-lhes: são estes nomes os que aceitam?

Este é o primeiro momento em que a nova gestão terá de decidir que vereda irá trilhar: a das mulheres que se organizam contra a opressão – como uma luta que deve ser assimilada até o final pelo ME – ou a daqueles que as oprimem como uma “brincadeirinha”, com a intenção de desmoralizar o movimento. As divergências que temos dentro do ME devem ser debatidas politicamente, e não com os métodos da direita. Ou utilizam o mesmo argumento que os antigreves utilizaram contra a greve na USP, dizendo que somos truculentos e violentos ao nos organizarmos para lutar, ou se colocam claramente em defesa da luta contra a opressão, dizendo junto conosco que a organização e a luta dos oprimidos é justa e legítima, e injustos são os que oprimem e querem se safar como se nada houvesse acontecido; e com esses não há como abrir diálogo. Esperamos que os companheiros da Veredas revejam a atitude de alguns de seus integrantes e se coloquem, mais uma vez, ao nosso lado nesta luta.

Assim esperamos que se coloquem também os companheiros das chapas “Para que poetas?” e “AJR”, que se colocam como combativos e que agora tem mais uma chance concreta de mostrarem se estão dispostos a construir isto na prática, ou se sua combatividade serão palavras ao vento. Não estavam lá; mas esperamos que travem essa luta junto a nós.

Reivindicamos o ato que fizemos junto aos companheiros da chapa “Uma flor nasceu na rua!” como um exemplo, portanto, de luta contra o machismo e contra os estudantes de direita no curso. É preciso ver que medidas incisivas devem ser tomadas frente a violências contra as mulheres que se reproduzem na universidade, e que fora dela tomam proporções enormes. Não podemos nos esquecer que no Brasil mais de 90% dos casos de maridos que matam e LINCHAM suas mulheres saem impunes. Dizemos em alto e bom som: Queremos que a USP seja o exemplo de uma nova tradição no movimento estudantil nessa luta!

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

No Haiti, nos morros e favelas, nos locais de trabalho, no campo, nas universidades, em nossas casas...

Basta
de violência contra as mulheres!

Chegamos ao mês da consciência negra num contexto de recrudescimento da violência policial e racista que sofrem as mulheres e o povo negro nas periferias e favelas do Brasil. Por isso, o 20 de novembro tem que ser um dia de denúncia e combate às atrocidades contra o povo negro, apesar de todos os discursos de que o racismo é coisa do passado. A presidenciável Dilma Roussef, declarou que o crime organizado cresceu nas favelas pela falta de intervenção do Estado, propondo a “disputa do bem”, que significa reforço e investimento da polícia nos morros, com controle militar sobre o cotidiano dos moradores e constantes humilhações à comunidade negra e pobre.

Obama, primeiro presidente negro dos EUA, desde sua candidatura fortaleceu um discurso a favor dos negros, mulheres e imigrantes, mas rapidamente prova que veio para aprofundar a política imperialista e não irá parar com a violência contra as mulheres dos povos oprimidos. Assim que assumiu a presidência, sua política foi de injetar bilhões de dólares no sistema financeiro para salvar os capitalistas da crise. Mantém suas tropas no Iraque, Paquistão e Afeganistão (e ainda assim ganhou o Nobel da Paz!) justificando ser a verdadeira “guerra contra o terrorismo”. Foi conivente com o golpe de estado em Honduras, que teve uma brava mostra das feministas em resistência, junto ao povo hondurenho se mobilizando contra o golpe. E no último dia 13/10 aprovou no Conselho de Segurança da ONU a manutenção das tropas no Haiti, dirigida pelas tropas brasileiras do governo Lula que quer “mostrar serviço” para o imperialismo e hipocritamente faz seu discurso humanitário, mas que significa para as mulheres, crianças e todo o povo haitiano, nada menos do que mais violência, estupros, assassinatos e repressão às mobilizações populares. Contra a violência às mulheres e crianças haitianas, gritamos: Somos as negras do Haiti! Fora as tropas da ONU!

No Brasil, vemos pela TV Lula se vangloriar que foi o primeiro país a sair da crise, mas esconde que a saída só valeu para os capitalistas que se beneficiaram com a injeção de 360 bilhões de reais, enquanto os trabalhadores e o povo brasileiro pagam os prejuízos. No campo, enquanto o MST é criminalizado, os capitalistas do agro-negócio ganham milhões com ajuda do governo. A Síntese de Indicadores Sociais, recente pesquisa publicada pelo IBGE, demonstra que o crescimento do país beneficiou apenas os grandes capitalistas, mas a miséria, a fome, a baixa escolaridade, a falta de um sistema de saúde digno se mantém para a maioria da população.

As mulheres, apesar de terem mais anos de escolaridade que os homens, continuam recebendo salários menores. A maioria das crianças continua em situação de pobreza. O povo negro continua tendo menor escolaridade que os brancos, recebendo menores salários, e se tratando das mulheres negras a situação é pior ainda, são as que ocupam os postos de trabalhos mais precarizados e sofrem cotidianamente com a violência policial nas favelas, vendo seus filhos serem mortos, além de serem estupradas pela polícia em suas operações facínoras nos morros. O governo está comemorando a vitória do Brasil para sediar as Olimpíadas em 2016 no Rio de Janeiro, mas isso significa maior repressão ao povo pobre das favelas, para afirmar a imagem do país receptivo fazendo a “segurança” dos turistas. Terá o aumento da prostituição infantil, do turismo sexual e da exploração das mulheres negras mercantilizando seus corpos com o slogan das “mulatas do carnaval”. Violência e repressão que será exercida também sobre mulheres e povo sul africano, com a Copa 2010 na África do Sul.

Diante do respiro econômico que se liga a uma maior precarização do trabalho, recentemente diversas categorias se mobilizaram e enfrentaram a patronal, o governo e a burocracia sindical em importantes greves. Correios, metalúrgicos, professores, garis, bancários, INSS, só para enumerar alguns... Ainda que muitas destas greves tenham sido por reivindicações de melhorias de salários e condições de trabalho, esta é a prova de que a classe trabalhadora mobilizada e disposta a lutar, é capaz de derrubar os diários ataques de que são vítimas. O grande exemplo de luta foi a greve impulsionada pelos trabalhadores e trabalhadoras da USP, que vêm travando uma importante batalha junto aos estudantes e professores, e têm sido vítimas da intensa repressão por parte do governador Serra, a reitora Suely Villela e a polícia: todos representando os interesses burgueses e agora com seu mais novo representante, o novo reitor Grandino Rodas. Esses lutadores, como os trabalhadores do MST, que além de brutalmente assassinados são massacrados pelo governo de Yeda Crusius e difamados pela mídia burguesa, são ainda chamados de vândalos pelo presidente, deixando claro seu forte atrelamento com os latifundiários e políticos envolvidos em assassinatos de trabalhadores rurais sem terra. Recentemente, o governo Yeda mandou invadir a sede da FAG (Federação Anarquista Gaúcha) como mais uma demonstração de repressão por parte do Estado contra a mobilização dos movimentos populares e da classe trabalhadora. Basta! Diante disso gritamos: Abaixo a repressão! Por uma ampla campanha nacional contra a repressão aos movimentos sociais, sindicais e camponeses e contra a repressão policial aos negros e pobres nas favelas e periferias!

A caminho do dia 25 de novembro, dia internacional de combate à violência contra a mulher, nos deparamos com barbáries sustentadas, legitimadas e potencializadas pela exploração capitalista. São estupros, espancamentos, assassinatos, exploração sexual e tráfico de mulheres e meninas. Mulheres imigrantes vindas da Bolívia são vítimas da exploração das indústrias têxteis. Além de violência física e sexual, a precarização e superexploração do trabalho feminino também são uma forma de violência contra as mulheres, assim como o assédio moral nos locais de trabalho. O Estado e a Igreja nos privam de decidirmos sobre nossos próprios corpos, enquanto o aborto clandestino tem como conseqüência a morte de milhares de mulheres. E o direito à maternidade plena segue sendo negado com um sistema de saúde público precário, pressões dos patrões para que as mulheres não engravidem, entre outros fatores. E o que faremos agora com o acordo entre Lula e o Vaticano, que somente dá mais privilégios à Igreja? A mesma Igreja que se impõe sobre a vida das mulheres que morrem por conseqüências de abortos clandestinos, também se impõe sobre a vida de milhões de pessoas quando condena o uso de camisinhas que além de prevenir gravidez indesejada, previne várias DST’s, quando nos aproximamos do Dia Internacional de luta contra a AIDS, 01 de dezembro.

E nesse mesmo Brasil, o país onde a burguesia brasileira nos oferece uma demagógica “emancipação” através de uma suposta “liberdade sexual” e da exposição de nossos corpos, casos como o da estudante Geisy, ao ser ameaçada de estupro e agredida pelos estudantes da UNIBAN por usar um vestido curto na universidade, é produto de uma moral burguesa que mercantiliza o corpo da mulher, para controlá-lo. Mas é também produto de uma sociedade dividida em classes, onde o poder de uma instituição de ensino como a UNIBAN está nas mãos de uma cúpula de diretores onde os estudantes e funcionários não têm voz. Tanto é que a resposta da UNIBAN foi a expulsão da jovem, com um recuo rápido, quando distintos setores da sociedade se pronunciaram diante de tamanho reacionarismo. É preciso lutar pela punição e destituição da direção desta universidade, assim como pela estatização e por uma estrutura de poder democrática como única saída real para que a comunidade universitária tome para si os destinos da universidade. Enquanto isso não acontecer, novas Geisys surgirão, talvez de forma mais dissimulada, latente, escondida, mas sempre como forma de perpetuação dessa opressão milenar que sofremos. As estudantes vítimas de assédio sexual nas moradias estudantis devem se unir às estudantes das universidades privadas numa luta contra a opressão às mulheres, mas entendendo que se trata de uma luta maior contra esse sistema de ensino excludente, machista e racista, e conseqüentemente, contra toda esse sistema capitalista.

A violência contra a mulher não é uma questão individual ou privada. A violência está diretamente ligada à opressão histórica da mulher que se inicia junto com o surgimento da propriedade privada. Nos dias de hoje, o capitalismo se beneficia super-explorando as mulheres, dividindo a classe trabalhadora e lucrando de maneira exorbitante, além de legitimar e justificar a violência contra as mulheres. Por isso dizemos que nossa luta não é apenas contra o machismo, e sim contra esta sociedade de opressão e exploração chamada capitalismo. E por mais que haja leis em defesa das mulheres, esbarram numa grande contradição: essas leis são feitas pelo mesmo Estado que garante manutenção dos órgãos de repressão e da propriedade privada, o mesmo Estado que reprime e mata.

Mulheres, é necessário que acreditemos em nossas próprias forças. É por isso que neste mês de novembro queremos organizar um amplo e impactante dia contra a violência às mulheres que seja combativo, contra o governo, classista e anti-capitalista. Também por tudo isso, estamos lançando a campanha pela retirada das tropas “Somos as negras do Haiti” e estamos participando de eleições estudantis na PUC-SP, na USP, na Unicamp e na Unesp, colocando toda essa luta como parte das chapas que impulsionamos. Também com esse espírito estivemos no Congresso Estatutário do SINTUSP, onde aprovamos a organização anual de um Encontro de Mulheres Trabalhadoras. Queremos que você, mulher trabalhadora, efetiva ou terceirizada, estudante, camponesa, dona de casa, desempregada, junte-se a nós nessa luta para gritar: Seja no Haiti, nos morros e favelas, em nossos locais de trabalho, no campo, nas universidades, em nossas casas: Basta de violência contra as mulheres!
...e que as mulheres do Haiti escutem nossas vozes!

O jornal do Pão e Rosas tem um espaço que é seu!

Abrimos as páginas do nosso jornal para as mulheres trabalhadoras em luta, para aquelas que sofrem assédio moral em seus locais de trabalho, para as estudantes, para as mulheres desempregadas e donas de casa... para todas que são oprimidas e exploradas e querem fazer escutar as suas vozes na luta contra esse sistema capitalista! Mande seu depoimento, texto, comentário, denúncia, relato, entrevista, poema para o email paoerosasbr@gmail.com


“A bala dos fuzis têm invadido nossas casas”

A violência policial vivida pela população e sofrida mais intensamente por moradores dos morros e favelas não tem limites! A bala dos fuzis têm invadido nossas casas e levado nossos amigos e familiares. Soldados da polícia com suas imundas botinas têm invadido as casas de moradores das favelas cariocas para roubar, matar e abusar das filhas e trabalhadoras.

No mês de setembro foi noticiado nos principais jornais o que a mídia hegemônica citou como “suposta violência sexual” de uma jovem no morro da Mangueira. A noticia no site G1 da Globo tem título “ Moradora da Mangueira acusa policial do BOPE de estupro” dando margem a manchete para uma invenção da menina. Toda a reportagem faz referência à moça como suposta vítima, levando sempre o leitor a indagar sobre a acusação. E muitos da população, comentários de fóruns nos jornais, insinuam que a moça era mulher de traficante, como se um fato justificasse o outro. Mesma postura quando algum morador de favela é assassinado por “bala perdida”, sempre a pergunta/justificativa é “ele era bandido?”. Porque se as respostas são afirmativas a população a favor da morte tem um argumento para o policial de “dever cumprido”.

Apresentada a introdução sobre o abuso sexual dessa moça, pensei antes de começar a escrever tal artigo na quantidade de violências que a mulher na sociedade sofre, moças namoradas de traficantes que são espancadas, ou quando com 13 ou 14 anos citadas nas letras de funk carioca como “novinhas” vendem seus corpos para homens muito mais velhos para sobreviverem. Independente do que diz a reportagem da moça ser ou não namorada de um traficante, que provavelmente já devia sofrer agressões, e a policia que além de invadir e violentar, já existe um ESTADO que a violenta em seus direitos de mulher e cidadã da falta de hospitais de qualidade, escola, lazer e todo conjunto de deveres que tem o ESTADO que só abastece o caveirão.

L. estudante de Ciências Sociais que reside numa comunidade no Rio de Janeiro


“Não vou esperar a massa do pão crescer e nem o jardineiro colher as flores”

Quando recebi o convite para escrever para o jornal, fiquei muito surpresa, pois hoje em dia é quase que impossível achar espaços disponíveis para secundaristas assim como eu, onde possamos expressar nossos pensamentos e ideais.

Talvez não exista um fator responsável por isso. Nós secundáristas talvez estejamos fechando os olhos para a realidade e deixando assim que outros decidam nosso futuro.

Em meados de agosto, a chapa da qual faço parte foi eleita com 98% de aprovação dos alunos. Esta aceitação nos tornou mais conscientes da realidade demonstrando assim a expectativa e a ânsia dos mesmos em ter um órgão representativo,que supra suas necessidades dentro da escola.

Algo perceptível desde o inicio da formação da chapa foi o sexismo junto com o machismo impregnado em alguns integrantes. Via-se de forma clara a exclusão de nós mulheres. Os homens sempre querendo ter voz ativa, assim ofuscando a voz feminina, tirando-nos assim uma das poucas situações em que pudéssemos nos sentir livres pra nos expressar, sem a presença da opressão que vivenciamos em nosso cotidiano ocasionado pelo machismo, ali sempre presente.

Em meio a tudo isso, fiquei espantada em perceber em como um órgão, cujo objetivo é o de tentar acabar com o preconceito, machismo e sexismo dentro do nosso meio escolar, que ainda esteja encarcerado essas práticas.

Por desprezar essas atitudes não pude me abster de cumprir meu dever em declarar que a mulher também tem poder. Assim criando a coordernadoria de opressões, até então nunca mencionada em reuniões. Logo de início houve a repulsa de alguns integrantes do grêmio e o julgamento pré- concebido de ser desnecessária a abertura para uma nova coordenadoria, mesmo tendo esta devida importância. Após várias tentativas os mesmos que se colocavam contra, baixaram a guarda dando abertura para poder começar a prática de um projeto de conscientização feminina com o preceito a valorização da mulher.

Até o presente momento nesta coordenadoria a única integrante sou eu, sendo que na sua maioria o grêmio é formado por mulheres.Na minha opinião o principal causador deste número lamentável é a falta de espaços parar divulgar os projetos e o moralismo aliado ao machismo presentes nas decisões dos(as) integrantes do grêmio, resultando assim na votação de todos os projetos apresentados por mim,sem alegações de motivos concretos.

Mais decidi: - Sou a voz que não irá se calar.

No meu mundo não vou esperar a massa do pão crescer e nem o jardineiro colher as flores.Vou ceifar o trigo, preparar a massa, para só depois colher as rosas e sentir o seu perfume.

Ana Caroline, estudante secundarista da ETE Albert Einstein, São Paulo

Trabalhadoras, vamos juntas lutar contra a dupla jornada!

Sheila Diaféria, militante do Pão e Rosas e servidora do Judiciário Paulista


Olho o relógio e dou um suspiro de alívio. 19 horas, enfim acaba mais um dia de trabalho. Bato o ponto e dirijo-me para a rua com uma sensação boa de ter cumprido minha jornada de trabalho. Durante o percurso até o ponto começam a surgir em minha cabeça as tarefas que me aguardavam em meu lar:
“Preciso preparar o jantar, lavar a louça, colocar a roupa para lavar, verificar o banheiro, recolher o lixo, os brinquedos e tudo o mais que estiver espalhado pelo caminho, conversar com minha neta, saber do seu dia e isto inclui neste curto espaço de tempo brincar um pouco também. Minha filha também cobra sua cota de atenção, quer conversar, contar o seu dia, seus problemas, pois sente necessidade de conversar com um adulto”.

Ao lembrar disso tudo tento criar forças e ânimo, pois são tarefas que não posso deixar para o dia seguinte. E assim, a noite se torna longa.

A classe trabalhadora feminina com toda certeza compreende o que estou falando.

Este trabalho “invisível”, feito majoritariamente pelas mulheres, permite que milhões de assalariadas e assalariados se levantem todos os dias para ir a seu trabalho. Mas a outra parte deste trabalho necessário, o que se realiza gratuitamente entre as quatro paredes da casa – ou seja, no mundo destinado exclusivamente à reprodução da força de trabalho – ninguém percebe.

Em todas as sociedades divididas em classes existem três processos para a reprodução da força de trabalho: em primeiro lugar, certas atividades diárias para re-estabelecer a energia dos produtores como descrito nas primeiras linhas permitindo-lhes voltar a trabalhar; em segundo lugar, a responsabilidade em cuidar dos membros inativos (no sentido capitalista de “não produtivo”) das classes exploradas – crianças, idosos, doentes, desempregados – que cabe exclusivamente às “donas de casa” consideradas também improdutivas; em terceiro, os processos de “substituição” que renovam a força de trabalho, substituindo os membros das classes exploradas que morrerem ou não puderem trabalhar por novas gerações (gerar filhos).

Por tudo que foi explicado até agora, precisamos ter como meta nos reunir para trocar idéias sobre as nossas vidas e sobre tudo o que nos oprime. Ter clareza do que acontece no nosso país e no mundo como um todo, politicamente, socialmente, as tragédias do mundo e procurar explicações para tudo o que acontece. Com isso, veremos que a opressão da mulher foi construída historicamente a partir do estabelecimento da propriedade privada e que nossa luta contra a opressão passa pelo combate ao capitalismo – a burguesia, os governos, o Estado e todas as suas instituições. Com essa perspectiva, lutamos pelas nossas demandas. Pela efetivação das/os terceirizadas com salário e direitos iguais, pelo salário mínimo do DIEESSE para conseguir sustentar nossas famílias, por lavanderias e restaurantes comunitários, por creches e escolas 24 horas.

- A auto-organização para debater nossas dificuldades perante esta sociedade machista e capitalista;

- Unificação das fileiras de trabalhadoras terceirizadas com as trabalhadoras efetivas com salário e direitos iguais. Pelo fim das diferenças salariais entre homens e mulheres.

- Salário mínimo necessário para uma família (conforme cálculos do Dieese);

- Creche-escola 24horas (não apenas para trabalhar, mas para podermos ter uma vida social, cultural, política);

- A decisão de ter ou não filhos depende unicamente da mulher, por isso o direito ao aborto é um direito à vida. Não é certo que só as mulheres com dinheiro possam ter direito a esta escolha, porque têm condições de pagar por uma clínica cara e boa.

- Lavanderias e restaurantes comunitários para que não percamos horas com essas tarefas e tenhamos tempo para nos relacionar com nossas famílias, nossos companheiros e podermos estudar e nos reunir para debater nossos interesses.

Faço um chamado às mulheres que desejam mudar de fato esta sociedade elitista e racista a se reunir no grupo Pão e Rosas para que juntas possamos encontrar saídas para a exploração e opressão que sofremos nesta sociedade capitalista.

Falam as sapateiras de Franca...

Publicamos abaixo os depoimentos de Débora e Claudinha, integrantes do Pão e Rosas – Franca:

Quando falamos em Franca, logo pensamos: ”Capital Mundial do Calçado”, mas não sabemos o que vem por trás desse titulo. Uma realidade dura pra todos trabalhadores e trabalhadoras que somos explorados diariamente pra construir o império de nossos patrões. Trabalhamos em um ambiente sujo, sob forte calor, com uma carga horária intensa, com barulho quase que insuportável e em condições desumanas.

E a situação se agrava ainda mais para as mulheres. Nós, sapateiras, somos desvalorizadas – a maioria ganha um salário mínimo – trabalhamos em quantidade desproporcional ao que recebemos. Muitas de nós exercemos funções iguais de homens e nem por isso ganhamos o mesmo. E ainda enfrentamos dupla jornada, sim porque as que não são estudantes são em grande maioria mães de família que, além de trabalharem fora, ainda cuidam da casa, dos filhos, do marido, etc.

Quando abordamos a problemática da exploração feminina, das sapateiras, por exemplo, não tratamos de uma guerra de sexos nem de transformar a sociedade em matriarcal, com um feminismo sem nexo. Trata-se apenas de uma luta por melhores condições de trabalho, para nós, de valorização da mulher, de construção de um local de trabalho que não exija de nós a exaustão, que nos permita trabalhar, estudar, cuidar da família, sem esgotar nossas forças, e principalmente, que nos permita sermos MULHERES.
Mulheres que se amam, que se gostam, se valorizam, que gostem de si.
Para que ser sapateira, um dia, possa ser orgulho, não uma decepção.

Débora, sapateira e estudante de História

***
Tenho dezenove anos, curso Serviço Social pela UNESP e trabalho há dois anos numa empresa de calçados. Há pouco tempo faço parte do grupo Pão e Rosas – Franca, que atua unificando estudantes e trabalhadoras, por exemplo, trazendo à universidade discussões sobre a realidade das sapateiras.

Acredito que iniciativas como essa são de fundamental importância, uma vez que, como tenho presenciado no meu dia-a-dia, minhas colegas de trabalho não se dão conta da dupla, ou até mesma tripla exploração à que são submetidas. Mulheres estas, que não apresentam nenhuma perspectiva de independência, e que em muitos casos, já se conformaram com a realidade em que estão inseridas.

Sei que não vai ser uma tarefa fácil, visto que, pela necessidade do emprego e medo de perdê-lo, muitos se negam a reivindicar seus direitos, e lutar por melhores condições de trabalho. Mas o que eu tenho aprendido com o grupo, é que não devemos desistir dessas trabalhadoras, planejando os meios corretos para chegarmos a elas, e fazer um processo de conscientização, não só dessas mulheres trabalhadoras, mas dos trabalhadores como um todo.

Então, tendo consciência da exploração sofrida, e de que a união e a organização entre eles são indispensáveis para lutar contra tais injustiças, os trabalhadores lutarão por si só, transformando esse projeto do grupo junto às sapateiras, apenas no primeiro passo rumo à vitória da classe trabalhadora.
Claudinha – sapateira e estudante de Serviço Social

Pão e Rosas no Congresso de Trabalhadores da USP

"Congresso do SINTUSP avança no classismo, na democracia operária e aprova organização de Encontro Anual de Mulheres Trabalhadoras da USP"

Após 57 dias de greve na luta em defesa de nosso sindicato, e agora na campanha que fazemos contra a repressão aos lutadores e lutadoras e pela democratização real da universidade, nós trabalhadores e trabalhadoras da USP realizamos nosso V Congresso Estatutário, que foi um momento de importantes discussões políticas sobre essa fundamental ferramenta dos trabalhadores que tanto vem sendo atacada pela Reitoria e pelo governo - o que tende a piorar com a "eleição-indicação" de Grandino Rodas para reitor. Somente um sindicato que prime pela independência política do Estado, dos governos e dos patrões, ao mesmo tempo em que se utilize do princípio da democracia operária, baseado nas assembléias das categorias, na rotatividade dos dirigentes sindicais e na organização pela base, poderá ser uma ferramenta a altura dos desafios e enfrentamentos que teremos pela frente. Para as mulheres trabalhadoras significou um grande avanço, porque o classismo aplicado no dia a dia é o que pode permitir que avancemos na luta pelos nossos direitos, lutando contra a dupla jornada e contra qualquer forma de violência às mulheres, e que nesse Congresso demos um primeiro passo, com a aprovação por aclamação de uma Secretaria de Mulheres que organize, entre outras atividades, um Encontro Anual das Mulheres Trabalhadoras da USP aberta a todas as categorias.

Diana Assunção, dirigente da LER-QI, integrante do Pão e Rosas e trabalhadora da Faculdade de Educação da USP

Pão e Rosas - Rio Claro e Araraquara: Chega de violência contra a mulher!

A mídia burguesa e todos que dela dependem para manutenção de seu status quo, insistem em se calar diante de atrocidades que acontecem com mulheres e meninas com a finalidade de abafar casos de estupro e/ou assédio sexual e/ou moral que ocorrem em diversos lugares, mas com uma característica em comum, a classe social dessas meninas.

Dentre uma lista de casos gigantesca, temos ainda exemplos em Rio Claro, onde no último mês cinco mulheres foram estupradas e a polícia fez seu papel, inventou histórias e, com a colaboração da mídia, questionou a veracidade dos casos relatados pelas mulheres. Desses cinco casos, três, incluindo de uma menina de apenas 13 anos que foi currada inclusive por um senhor de mais de 60 anos, foram desmentidos pela mídia. Ora acusando a mulher de infidelidade, ora questionando como uma mulher pode ser estuprada por seu namorado, ora dizendo de forma hipócrita que era pura invenção de uma mente fantasiosa e pervertida.

Diante de todos esses acontecimentos, a qual todas as mulheres estão sujeitas, fica claro que apenas as pobres sofrem com a impunidade e com o desrespeito das autoridades e de toda a sociedade. Com muita indignação nós do Grupo de Mulheres Pão e Rosas gritamos:

Chega de violência contra a mulher!


Leia em breve o texto na íntegra.