quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Nota da agrupação Pão e Rosas sobre a Carta do EME da USP




Nós, do Grupo de Mulheres Pão e Rosas, soltamos essa nota para expressar nossa posição diante da Carta de Reivindicações redigida a partir do 2o Encontro de Mulheres Estudantes da USP. A carta será entregue à reitoria nesta quarta-feira (17), em um ato.
Assinamos criticamente a Carta, já que apresentamos alguns aportes e divergências em alguns pontos específicos. Reconhecemos a importância que teve o EME como um espaço de organização das mulheres na luta contra o machismo e a violência tão presentes na sociedade e que se reproduzem dentro da universidade. Temos acordo com vários pontos reivindicados pela carta, contudo temos algumas ressalvas.

Acreditamos que a USP têm se tornado um lugar onde a violência tem tido muito espaço. Tendo a noção que a universidade tem se mostrado, ao longo dos anos, cada vez mais fechada à população de fora (que é a população negra, pobre e trabalhadora que financia a universidade), defendemos uma abertura do campus que permita que todas e todos frequentem a USP e façam uso do seu espaço, tornando-o menos deserto, mais movimentado e, portanto, menos perigoso.

A questão do aumento da frota dos circulares, que aparece como uma reivindicação da Carta torna-se fundamental diante de um cenário onde esperar um ônibus sozinha, num ponto escuro, pode resultar num assalto, sequestro ou estupro. Porém, não podemos nos esquecer de que o busp atualmente só atende a uma parcela daquelas que frequentam a universidade: as estudantes, professoras e trabalhadoras efetivas, deixando de lado as trabalhadoras terceirizadas. Estas, que em sua maioria vivem na favela ao lado da USP, a São Remo, muitas vezes fazem o trajeto a pé até seus postos de trabalho no início da manhã, quando a USP se mostra desértica e, assim, bastante perigosa. Defendemos, portanto, que haja maior frota de circulares, mas que esses circulares atendam também às trabalhadoras terceirizadas. Pela efetivação de todas as terceirizadas sem necessidade de concurso público  Queremos de volta os circulares cinzas que não cobravam tarifa, sendo sua retirada um ataque a toda a população que não tem vinculo com a USP, mas que precisa andar pela universidade.
Vemos a importância da criação de um Centro de Referência, mas discordamos do caráter que o Encontro acabou por definir. Como escrito na Carta o Centro teria "envolvimento da comunidade universitária". Acreditamos que com essa formulação, a reivindicação deixa o centro nas mãos da reitoria, com as mulheres apenas como coadjuvantes de um processo no qual acreditamos que elas deviam ser linha de frente. As mulheres é quem deviam comandar esse Centro, que seria reconhecido pela Reitoria, e não o contrário. Isso porque deixar nas mãos da reitoria é iludir-se e pensar que ela levará até o final, de maneira consequente as nossas reivindicações, quando na verdade o que tem se provado é o contrário: Zago e os diretores em discussões sobre os recentes casos da medicina humilharam as mulheres que bravamente se colocaram, escancarado uma reitoria machista, que também é racista e homofóbica. Mesmo porque, vale lembrar que a SAS já possui um setor que seria responsável por ver casos de violência, mas desde 2009 só registrou dois casos no campus. Isso revela a falta de comprometimento da universidade com os casos de machismo que nos ocorrem cotidianamente.

O ponto que diz respeito a responsabilizar a reitoria por uma campanha contra a violência nos parece correto, porém é preciso fazer a ressalva do caráter dessa campanha. Acreditamos que, novamente, não devemos deixar nas mãos da reitoria decidir se e como será a campanha. Em última instância eles podem decidir coisas esdrúxulas, como veicular que "mulheres não devem andar sozinhas com mulheres" ou que "mulheres não devem usar roupas curtas", como já ocorreu em campanhas na UNESP. Por isso defendemos que todos os três setores que compõem a universidade, estudantes, funcionários e professores juntamente com os sindicatos, entidades estudantis e todo o movimento determinemos o conteúdo da campanha e que aí sim a reitoria se responsabilize em divulgar e nos fornecer a verba necessária. Que as mulheres sejam linha de frente numa campanha ampla contra a violência e que o movimento estudantil de conjunto tome como pauta as nossas reivindicações. É preciso ainda exigir que centros acadêmicos de nossos cursos criem uma secretaria de mulheres que, atrelados aos coletivos feministas de cada curso possam organizar-se e apurar casos de machismo não apenas em festas como também em aulas, assembleias e pelos corredores das faculdades.

Por fim, abordamos a questão da reivindicação da guarda feminina. Somos contra o aumento da frota feminina, pois acreditamos que isso cria apenas a ilusão de que com mulheres na segurança o problema da violência será sanado. Conhecemos o que a polícia brasileira faz nas favelas: muitas vezes temos policiais negros matando pobres e negros. Sabemos que a polícia é um aparato do Estado, que cumpre uma função e pouco importa se o policial será negro, mulher ou mesmo lgbt, enquanto estiver na estrutura policial irá cumprir as ordens do Estado. E nesse momento o papel que a guarda universitária vem cumprindo é semelhante ao da polícia, sendo responsável por vigiar quem faz parte do movimento e reprimindo diretamente as mobilizações. Foi a chefe de segurança Ana Lucia Pastori quem coordenou juntamente com a policia militar, a retirada dos piquetes e a repressão policial aos trabalhadores durante a greve. A guarda universitária atualmente está a serviço das ordens do reitor e não é colocando mulheres dentro desse aparato que conseguiremos sanar o problema da violência. Tampouco isolando a USP do resto da sociedade. É preciso abrir o campus, para que toda a população frequente a universidade!

Chamamos todos os estudantes, professores e funcionários juntamente com o apoio dos centros acadêmicos, DCE, SINTUSP e ADUSP a se mobilizarem numa grande campanha contra a violência dentro do campus. Tomando como exemplo os trabalhadores da USP, que se posicionaram contra os estupros ocorridos na Faculdade de Medicina. Somente a aliança entre os trabalhadores e estudantes é que pode dar uma resposta efetiva aos casos de violência dentro da universidade.


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Diana Assunção: “Avança a organização das mulheres trabalhadoras da USP”



Nesta semana se realizou o V Encontro das Mulheres Trabalhadoras da USP, que reuniu muitas das trabalhadoras que foram linha de frente da vitoriosa greve de 118 dias. Na mesa estiveram Maíra Rodrigues, da APEOESP Santo André e Silvia Ferraro, do Movimento Mulheres em Luta. Sobre o Encontro, Diana Assunção, diretora do Sintusp e responsável pela Secretaria de Mulheres declarou que “O Encontro foi um forte avanço da organização das mulheres trabalhadoras da USP. Depois de uma greve de 118 dias foi muito mais claro para o conjunto das trabalhadoras presentes que a luta contra a opressão as mulheres não está descolada da luta contra a exploração capitalista, pelo contrário, opressão e exploração se combinam para favorecer os capitalistas.”




Tratando de temas muito sentidos pelas mulheres, o Encontro votou uma série de resoluções, dos quais Diana ressalta que “Votamos uma pauta de reivindicações das mulheres trabalhadoras da USP onde exigimos que nenhuma mulher seja morta por aborto clandestino, como foi o caso de Jandira e Elisangela, e também repudiamos a morte de Cláudia, vítima da mais brutal violência policial. Para além das questões mais gerais, colocamos como centro a luta contra a desvinculação dos Hospitais Universitários e do Centro de Saúde, bem como queremos continuar com força na campanha pela contratação de enfermeiras para atender as mais de 1000 mulheres na fila do papanicolau”. Ainda sobre a pauta de reivindicações, Diana agregou que “Temas como mais creches, licença maternidade, contratação imediata de funcionários e vários outros foram tratados no Encontro, fortalecendo a luta das trabalhadoras. Também definimos que no próximo ano deveremos organizar um Seminário de Formação Política para o conjunto da categoria avançando também junto com todos os trabalhadores”.












Sobre os escândalos na Faculdade de Medicina, Diana declarou que “O Encontro também foi espaço de debate sobre esses casos, reafirmando repúdio à Faculdade de Medicina que junto com o Reitor Zago continuam acobertando os estupros. Queremos a punição de todos os culpados e fim imediato dos estupros dentro da USP. Também estamos exigindo que a Reitoria e todos os órgãos cabíveis divulguem o número de denúncias de estupros dentro da USP, pois não divulgar estes números é parte do acobertamento dos casos, não querem mostrar a verdade. Nós consideramos que os trabalhadores tiveram uma ação exemplar com as fotos de apoio às vítimas e que devemos aprofundar a nossa auto-organização para poder avançar na luta contra a violência às mulheres”.









Diana também colocou que votou-se moção de apoio à luta das trabalhadoras e trabalhadores da empresa terceirizada Construir, na Universidade Estadual do Rio de Janeiro, e que ao final do Encontro as trabalhadoras tiraram fotos de apoio ao levante negro nos Estados Unidos, com a frase “Eu não consigo respirar”, além de uma homenagem aos 43 estudantes mexicanos. “Acredito que demos passos importantes na organização das mulheres trabalhadoras, fruto do impulso de nossa greve, o que somente contribui pra avançar a luta do conjunto dos trabalhadores. Um Sindicato combativo e classista deve levar adiante com toda a força a luta dos setores oprimidos, levantando-se como verdadeiros tribunos do povo contra toda forma de violência e horror que vivemos nesta sociedade capitalista”.












Original: Palavra Operaria
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terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Os concursos de beleza e os padrões de beleza que a sociedade capitalista impõe as mulheres

Por: Odete Cristina

Mulheres lindas, altas, com cabelos perfeitos, corpo esbelto e curvilíneo, rosto encantador, vestidas em longos vestidos de gala. O imaginário dos concursos de belezas está muito presente na vida das mulheres em nossa sociedade.

Mulheres lindas, altas, com cabelos perfeitos, corpo esbelto e curvilíneo, rosto encantador, vestidas em longos vestidos de gala. O imaginário dos concursos de beleza está muito presente na vida das mulheres em nossa sociedade.
Mas essa é uma realidade distante da grande maioria das mulheres, que apenas acompanham esses concursos pela televisão ou pela internet. Pois, suas vidas são quase sempre tomadas pela jornada extenuante de trabalho, pelo cuidado com a casa, com os filhos e com os maridos ou, quando jovens, pelos estudos e a vida de “adolescente comum”. Todo o glamour e elegância dos concursos de beleza passam muito longe da realidade cotidiana da maioria das mulheres dentro desse sistema capitalista.
Recentemente uma sul-africana, Rolene Strauss, foi eleita Miss Mundo. Rolene é alta, magra, com longos cabelos lisos e olhos verdes, dona de um perfil físico muito diferente de suas conterrâneas, em sua grande maioria negras, com cabelos crespos e olhos escuros, exploradas e oprimidas por anos de segregação racial e pelo racismo ainda muito forte na África do Sul. O tipo físico da Miss Mundo 2014 está muito mais próximo de todas as suas adversárias do concurso, mesmo sendo mulheres de vários lugares do mundo, do que da maioria das mulheres sul africanas.
Isso se dá porque esses concursos de beleza não representam as mulheres de todos os países do mundo, mas sim, todas aquelas que reproduzem o tipo físico ideal imposto pela sociedade. Todas as integrantes desses concursos, apesar dos diferentes países, seguem o mesmo padrão: são altas, magras, corpo perfeito, sempre lindas e elegantes. Esses concursos elegem aquela que atende o padrão de beleza mais adequado dentro dos padrões impostos por uma sociedade machista, que enxerga a mulher como um produto.
Além propagandearem a mulher mais bela de todas, reafirmando dessa forma a lógica de competição entre as mulheres, esses concursos servem com artifícios para que a poderosa indústria da beleza venda seus produtos. Ao estabelecerem um padrão de beleza, tão diverso da realidade da maioria das mulheres, eles abrem caminho para que esse padrão seja almejado e para isso oferecem o seu produto como meio de alcançar essa beleza.
Tudo isso faz com que todos os anos milhares de mulheres sofram com transtornos alimentares e psicológicos, derivados da preocupação com o peso ideal, alimenta a indústria das cirurgias plásticas e a venda de produtos de beleza, que supostamente são a solução dos problemas das mulheres. Esses concursos afetam a subjetividade das mulheres de uma forma tão intensa e sutil que muitas vezes não nos damos conta. Mas estamos sempre querendo chegar ao peso ideal, insatisfeita com nossos corpos, com nosso cabelo, tudo porque não estamos dentro dos padrões estabelecidos pela sociedade.
Milhares de mulheres entram em depressão ou desenvolvem outras doenças porque não correspondem ao perfil de mulher bonita que o capitalismo impõem. Para além disso, milhares de mulheres sofrem com a inferiorização da sociedade e delas próprias diante de sua aparência física, isso atrapalha não só subjetivamente, mas também nas relações pessoais, sendo muitas vezes um empecilho para que elas se relacionem com outras pessoas.
Os concursos de beleza são um meio de perpetuar um padrão de beleza universal da mulher. O capitalismo impõem um tipo ideal de beleza afetando, dessa forma, a subjetivamente da maioria das mulheres que claramente não fazem parte desse padrão e vendendo assim os seus produtos. Mas faz isso de forma sutil e com tantos requintes de elegância e glamour que na maioria das vezes essas mesmas mulheres são o público que assiste fervorosamente esses concursos, na esperança de que um dia possam chegar a esse padrão de beleza ideal.
Original: Palavra Operaria
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quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Bolsonaro deveria esta preso por incitar a violência contra as mulheres

Por: Odete Cristina


Bolsonaro já deveria estar preso por ser defensor dos crimes da ditadura, inclusive crimes que usavam o estupro como métodos de tortura.


Bolsonaro já deveria estar preso por ser defensor dos crimes da ditadura, inclusive crimes que usavam o estupro como métodos de tortura. Assim como os torturadores e cúmplices da ditadura militar, que o deputado tanto reivindica em seus discursos com a certeza de que não haverá punição, agora Bolsonaro fez o absurdo de afirmou que não estupraria a deputada Maria do Rosário por que ela "não merecia".
O estupro é uma das mais perversas formas de violência às mulheres que se perpetua dentro dessa sociedade. A visão predominante que enxerga a mulher como uma propriedade do homem e o machismo aliado à exploração capitalista só são reforçados por discursos como esse, incitando a prática de estupros, porque possuem a certeza da impunidade.
Bolsonaro é parte dos que apoiam a violência das mulheres também quando apoia leis como o Estatuto do Nascituro, que "obriga" as mulheres que foram estupradas a levarem adiante uma gravidez que foi fruto de uma violência; e faz o Estado financiar uma "bolsa estupro" caso o genitor não se responsabilizar pelo filho. Isso é mais uma demonstração de seu reacionarismo e violência contra as mulheres.
Incitar a violência é crime, e Bolsonaro já deveria ter sido preso pelas inúmeras declarações racistas, homofóbicas e de incitação da violência que já cometeu. Se isso ainda não ocorreu, é porque ele é protegido por ser do PP, um partido da base aliada do governo, e porque o PT quer preservar o pacto de impunidade que impede que seja feita justiça contra os torturadores e assassinos da ditadura. Nada será feito no sentido de efetivamente combater esses discursos e os milhares de casos de estupros que acontecem em nosso país, alentados pelo mesmo. É necessária uma punição efetiva a todos aqueles que incitam a violência contra as mulheres e defendem os crimes da ditadura militar, como o deputado Jair Bolsonaro.
Seguindo o exemplo dos trabalhadores da USP, com campanhas contra os casos de estupro da Faculdade de Medicina e dos metroviários que se posicionaram contra a agressão a um casal homossexual dentro do metrô, precisamos levantar uma forte campanha pela punição efetiva de todos os crimes da ditadura militar e contra todos os discursos de ódio levantados por esses setores reacionários.
A aliança entre a classe operária e todos os setores oprimidos e explorados por esse sistema capitalista é a única que pode dar uma solução efetiva para essa berrante realidade do sistema capitalista.
Original: Palavra Operaria
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quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

"Aborto no Brasil: leis e dados" é tema de trabalho acadêmico na Newton Paiva

No mês de novembro o grupo de mulheres Pão e Rosas foi entrevistado por um grupo de estudantes de Psicologia da Universidade Newton Paiva, de Belo Horizonte, para um trabalho com o tema "Aborto no Brasil: lei e dados", como parte da disciplina Psicologia e Sociedade, que trata de temas contemporâneos e polêmicos, ministrada pelo prof. Alessandro Santos. Após essa importante iniciativa, buscamos também entrevistar as estudantes do grupo e abaixo reproduzimos trechos dessa entrevista que fizemos com as estudantes Dominique, Luiza, Marcela e Paloma, além do prof. Alessandro, e o vídeo resultado do trabalho feito pelo grupo.

Pão e Rosas: Por que vocês escolheram o tema do direito ao aborto?

Dominique: Quando a gente estudou o direito da mulher com o Prof. Alessandro, nosso orientador, ficou muito visível o quanto a mulher é invisível na sociedade, como não é colocada como sujeito, as leis que giram em torno do direito da mulher não tem visibilidade nenhuma, [o aborto] não é pautado de forma nenhuma. Quando foram lançados os temas que são socialmente polêmicos, o que mais encaixou para nós, frente aos direitos das mulheres, foi o do aborto. Queríamos saber por que não se problematizava, por que não se fala nisso e as leis no Brasil só retrocedem em relação aos direitos da mulher. E por ser mulher, por querer discutir o tema, saber quem é a mulher que aborta, quantas mulheres abortam, se elas estão morrendo ou não, o que isso causa na vida de uma mulher, querer saber aqui no Brasil o que devemos discutir sobre isso.

Luiza: É um tema que é pouco falado até na nossa área acadêmica. E até para nós mesmas, antes de fazer esse trabalho não tínhamos essas informações, descobrimos coisas que nem imaginávamos e pudemos passar para os colegas. O aborto é uma realidade e nós, como futuras psicólogas, precisamos estar dentro desse assunto, pois vamos tratar mulheres que abortam e precisamos saber tudo que envolve isso.

D: (...) Vimos o choque delas [as meninas da sala] e nosso também, com os dados, e de ver que países vizinhos descriminalizaram o aborto e isso foi totalmente contra o senso comum que se tem no Brasil, pois houve diminuição dos casos de aborto e das mortes.

PeR: Vocês fizeram várias pesquisas sobre como o direito ao aborto é encarado no Brasil e no mundo. O que mais chamou atenção de vocês?

Marcela: O que mais me chamou atenção é o perfil da mulher que mais aborta, que são mulheres casadas, que já possuem um filho e tem estrutura e condição financeira para criar um filho, frequentam instituições religiosas.

L: Um dado que alarmou a gente foi a quantidade de mulheres que praticam o aborto, porque pensamos que é algo bem distante, mas não é. A quantidade é enorme e a gente não imagina os “contras” que acontecem, como as mortes. Não á algo que colocam pra gente, só colocam que a mulher que aborta é criminosa, mas não falam que a quinta causa de morte materna no Brasil é o aborto. Vi uma reportagem da Fiocruz que fala em quase 3 milhões de abortos em 2005. É assustador, é alarmante, ninguém tem conhecimento e é algo tão comum, que ocorre com pessoas próximas a gente.

D: O que mais me alarmou foi saber que as mulheres estão morrendo. É a mulher pobre e negra que morre no Brasil. Além das outras complicações que trazem o aborto clandestino, elas ficam com a possibilidade de não ter filhos. Porque não é a mulher que nunca vai querer ter filho que aborta, uma grande parte já tem filhos, ou querem ter depois e saber que isso leva mulheres à morte, ver que é um problema de saúde pública mesmo, é o mais alarmante. A mídia coloca de maneira sensacionalista, pouco problematiza e culpabiliza demais a mulher, não coloca para a grande massa que as mulheres morrem, adoecem, ficam com consequências psicológicas.

PeR: Qual foi a receptividade do trabalho, ao longo das pesquisas, entrevistas, e qual retorno vocês tiveram, após a apresentação?

M: A gente viu muito interesse das pessoas, porque quase ninguém sabe o que acontece. Tem um primeiro pré-julgamento, mas como era uma bancada e a gente estudou para isso, as pessoas chegaram perguntando como funcionava, o que pensávamos sobre isso. Se fosse uma conversa em outro ambiente, tenho certeza que a resposta dessas pessoas seria de julgamento, falar que tem que ser proibido mesmo. Como estávamos preparadas, conseguimos mostrar o outro lado, o que acontece de verdade, os fatos.

D: Ao expor os dados, eu expus que foi impossível pra gente ficar neutras frente ao tema da legalização. (...) Coloquei que éramos a favor da legalização do aborto no Brasil, para todas, em todos os casos. (...) Foram reações adversas, pessoas que se emocionaram, outras se afastaram, perguntando se somos a favor ou não. É a maior questão que fica, se somos a favor ou não. É o que a doutrina religiosa coloca, que se é favor do aborto é contra a vida, e é isso que as pessoas querem saber.

PeR: O que mudou na visão de vocês, após esse trabalho, a respeito da luta pela legalização do aborto?

L: Vou ser bem sincera, antes de fazer esse trabalho eu era contra a legalização. (...) Depois que fizemos o trabalho, fiquei muito impressionada com os casos, vi que é um problema de saúde pública, e o que causa nas mulheres essa clandestinidade. Isso me assustou muito, são muitas mulheres que morrem.  Hoje sou a favor da legalização do aborto, e com a implementação de educação sexual, como a Flávia colocou na entrevista que deu pra gente. (...) Hoje eu penso que é um problema de saúde pública, e nada mais justo do que ter uma assistência para quem quer fazer o procedimento, que tenha acompanhamento psicológico, como no Uruguai, e que as mulheres tomem suas decisões em cima do que querem, o que querem para sua vida e seu corpo. Mas que parem de morrer por causa disso! E que seja implementada a educação sexual, não só por causa do aborto, mas deve ser discutida na vida das pessoas, desde sempre.

D: O que mudou para mim é a questão da problematização do aborto. A gente precisa problematizar isso, colocar as questões atreladas ao aborto, as leis, políticas públicas, educação sexual nas escolas, desde o início da vida. A problematização vai trazer isso, e não só a legalização, não é só legalizar o aborto e deixar ver como fica. (....) Acho que falando mais sobre isso, na mídia, nas redes sociais, meios de comunicação, em casa, quanto mais problematizar, mais opções teremos para sair dessa situação que estamos. São 850mil abortos por ano, as mulheres estão morrendo, a sociedade precisa saber desses números e dessas mortes.

PeR: Como vocês chegaram até o Pão e Rosas?

D: No início do trabalho, eu pensei em conversar com alguma organização de mulheres, que estão mais “afiadas” no tema, algum grupo acessível, mais próximo, para nos orientar. O Prof Alessandro, sem nem pestanejar, falou do Pão e Rosas. Entramos em contato, e foi muito legal conhecer uma organização que não sabíamos que existia, o que era o Pão e Rosas, saber que tem núcleos ao redor do mundo e que tem um na UFMG, aqui tão próximo da gente. Muito bom saber que vocês existem e tratam desses temas, nos ajudou muito.

PeR: Alessandro, fale um pouco da sua preocupação com a proposta desse trabalho e sobre o excelente resultado mostrado pelo grupo.

Alessandro: As meninas transmitiram o trabalho de um jeito muito legal. Eu dizia em sala de aula que o brasileiro tem o hábito de achar que sabe tudo de tudo. A leitura que faço é que ele sabe muito pouco sobre tudo que ele se aventura a falar. Sobre futebol, eleições, corrupção, aborto, direito, política, tem opinião sobre tudo. Mas faz toda diferença quando a gente faz um movimento. É a primeira vez que essa disciplina é oferecida, e eu tentei levar para dentro de uma disciplina uma série de temáticas que julgo importantes e que são pouco discutidas na universidade, com amigos, nos bares. Inclusive sobre o aborto, embora seja uma questão muito comum. (...) As meninas apontaram a questão da saúde pública, acho que é um eixo. Queria destacar as mutilações, a série de sequelas, de rótulos, de estigmas. Temos que pensar também na questão do corpo, a questão de gênero, de identidade, os problemas éticos, religiosos, filosóficos. (...) Eu avalio que é preciso que a universidade possa pautar esse tema, a universidade tem responsabilidade nessa discussão. Precisamos pensar na noção de direito, no acesso, na saúde, na possibilidade de uma pessoa ter autonomia nas escolhas que faz e o que faz com o próprio corpo. Precisamos pensar no papel do Estado, no controle do Estado, na segregação social, nos processos de criminalização em que nos encontramos. O que me chamou atenção [nessa disciplina] é que o grupo inteiro foi apontando uma mudança, que me pareceu muito interessante. (...) E aí, o que está em jogo não é necessariamente se é contra ou a favor, mas a abertura para a discussão e formar uma opinião, para sair desse lugar do senso comum ao qual somos convocados o tempo todo, mas não podemos responder desse lugar. Primeiro, pelo lugar em que estamos, que é a universidade. Segundo, porque somos responsáveis por ecoar e ampliar essa discussão, que é essencial, pois não é de poucos casos. (...) No caso do aborto, não é um problema de uma ou duas mulheres, mas de milhões de mulheres, um problema de um país. Esse tema não pode ser discutido só pelas mulheres. É preciso que as mulheres discutam esse tema, mas os homens também precisam se responsabilizar por isso. Saio positivamente impactado desse semestre, escutar as meninas do grupo é precioso, pois mostra um movimento. E eu entendo que é pra isso que serve a universidade, para pensar se as coisas são mesmo como devem ser. O processo todo trouxe uma problematização importante.


D: Trouxemos coisas que mudaram nossa visão, mas eu trouxe como pessoa, cidadã e sujeito na sociedade. Queria colocar o quanto me impactou enquanto psicóloga em formação. Esse tema precisa ser discutido, mas não só sobre o aborto. Esse tema abriu minha cabeça sobre o que eu vou fazer na minha profissão. Sobre o direito da mulher, a visibilidade que precisamos ter, nossa liberdade, enquanto sujeito frente a esses temas. Agora eu olho para frente e quero buscar fazer agora com que isso mude lá na frente. Na academia agora eu vou buscar caminhos que me levem a mudar essa realidade, fazer com que pelo menos no país em que eu vivo, isso tudo seja tratado de forma diferente, que tenha mais visão.

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Vídeo feito pelo grupo:


[https://www.youtube.com/watch?v=B2PkDwScGxo&app=desktop]

O debate entre Anitta e Pitty e a liberdade sexual das mulheres no capitalismo.

Por: Odete Cristina




Sábado passado foi ao ar um debate entre as cantoras Anitta e Pitty sobre a liberdade sexual das mulheres, antes mesmo do programa ir ao ar já havia gerado polêmica. O debate se iniciou pelo fato de que ambas discordaram sobre o avanço nos direitos conquistados pelas mulheres. Anitta afirmou que as mulheres estão quase iguais aos homens nesse quesito, o que Pitty discordou, pois para ela ainda precisamos conquistar muitas coisas. Depois avançou para um debate sobre o comportamento das mulheres.
Em primeiro lugar é preciso refletir sobre o que são esses direitos que Anitta aponta que a mulheres conquistaram no marco da sociedade em que vivemos. Vivemos em uma sociedade capitalista que usa da opressão de gênero e sexual para explorar ainda mais. Com o ascenso do neoliberalismo houve um processo maior de feminização do trabalho e também uma maior concessão nos direitos democráticos, como por exemplo o direito ao voto.
As mulheres burguesas conquistaram o direito de trabalhar, mas as mulheres pobres historicamente sempre trabalham. Não existe uma equiparidade salarial entre homens e mulheres dentro da nossa sociedade, sendo que as mulheres ganham até 30% menos que os homens, e quando são negras esse percentual se reduz pra quase 50%. Essa famosa conquista do direito ao trabalho é na verdade uma necessidade imposta pelo sistema capitalista que precisava aumentar seu exército de mão de obra. Além disso, os baixos salários pagos as mulheres servem como justificativa para rebaixar o salário de toda a classe trabalhadora.
Também é preciso refletir o que significa o direito ao voto no marco da democracia burguesa que vivemos hoje. Onde partidos pequenos e que representam os trabalhadores não podem ter candidaturas, nem sequer se legalizar e o cenário político é dominado pelos grandes partidos que servem aos interesses da burguesia. Nem mesmo uma mulher no poder pode garantir que as demandas das mulheres sejam atendidas. Para garantir sua governabilidade Dilma faz acordos com as bancadas religiosas e reacionárias do congresso e se cala sobre o direito ao aborto, deixando que milhares de mulheres morram todos os anos. Durante o seu governo houve um aumento na terceirização do trabalho, que em sua maioria são mulheres que precisam enfrentar uma dupla ou até tripla jornada de trabalho, pois o trabalho doméstico ainda recai sobre os ombros das mulheres. Os números de feminicídios e a violência contra a mulher ainda são chocantes.
Ao contrário do que diz Anitta estamos longe de alcançar os mesmos direitos que os homens. E apesar de Pitty pontuar isso, ela não faz um questionamento mais profundo sobre quem é o verdadeiro responsável pela repressão sexual feminina, se limitando a dizer que os homens não devem opinar sobre o que as mulheres fazem ou como se vestem. Contudo, dentro de uma sociedade divida em classes sociais como a nossa é muito difícil que todas as mulheres tenham os mesmos direitos. Pois o capitalismo usa da opressão histórica das mulheres, aliada a exploração e repressão dos nossos corpos para manter sua dominação. Para manter a dominação de uma classe sobre a outra.
Outro ponto polêmico foi quando Anitta afirmou que mulheres precisam “se dar ao respeito”, o que Pitty logo se posicionou contrária. Antes de cair em um debate moralista, o que pareceu para mim a polêmica entre as duas, gostaria de debater sobre como a repressão sexual, não só das mulheres mas de todas as pessoas, está profundamente relacionada com a sociedade em que vivemos e a dominação capitalista.
Para que o capitalismo triunfe é necessário que as pessoas trabalhem oito, dez horas por dias em um ritmo alienante e que não tenham o direito de exercer livremente sua sexualidade ou desenvolver qualquer outra potencialidade. O capitalismo se utiliza da repressão dos nossos desejos e do controle dos nossos corpos para garantir sua dominação.
O machismo ainda está muito presente na sociedade e isso parte da visão que vê a mulher como uma propriedade, inicialmente do pai, depois do namorado ou marido. Uma mulher que exerce plenamente sua sexualidade ou que veste-se como quer, vai contra a noção de que a mulher é mais uma propriedade do homem e contra o controle que o sistema possui dos nossos corpos. Como afirmava Marx as ideias dominantes de uma época são sempre as ideias dominantes da classe dominante dessa época. Enxergar a mulher como uma propriedade e reprimir nosso direito a plena liberdade sexual faz parte das ideias dominantes da burguesia para garantir a sua dominação e exploração sobre a maioria da população.
Por isso nossa luta pela liberdade sexual e combate ao machismo deve ser entendida como uma luta maior contra todo esse sistema de exploração e opressão que perpetua a repressão aos nossos corpos e da nossa sexualidade. A nossa luta deve ser parte de um novo projeto que revolucione não só os meios materiais, mas também os meios culturais. Uma sociedade onde todos possam exercer livremente sua sexualidade, livres de toda opressão e exploração.
Original: Palavra Operaria
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terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Mulheres deveriam receber mais do que os homens, segundo a OIT

Por: Flávia Ferreira


As mulheres, deveriam ganhar mais do que os homens, pois, mesmo com maiores níveis de escolaridade e produtividade do trabalho, recebem menos em relação aos homens.

Nesta última semana, foi divulgado recente estudo da OIT (Organização Internacional do Trabalho) sobre a situação global dos salários, que confirma em números, como o machismo se reflete na desigualdade de remuneração entre mulheres e homens, seja em países ricos ou pobres. Segundo o estudo, as mulheres, deveriam ganhar mais do que os homens, pois, mesmo com maiores níveis de escolaridade e produtividade do trabalho, recebem menos em relação aos homens. É mais um estudo de um órgão imperialista vinculado a ONU, que evidencia que o capitalismo não pode garantir nem ao menos o direito democrático de salário igual para trabalho igual.
Pelo estudo, as mulheres deveriam receber, no Brasil, um salário 11% superior ao dos homens. Mas, no país, as mulheres ainda ganham, cerca de 24% a menos que os homens para o mesmo trabalho. O levantamento aponta que as mulheres apresentam o trabalho mais rentável, mais produtivo para os capitalistas, mas recebem menos. Para a OIT, este é um problema global, até mesmo em países ricos e imperialistas como a Suécia e EUA. Neste último, a diferença de remuneração entre mulheres e homens é gritante, para cada 100 dólares recebidos pelos homens, as mulheres ganham apenas 64 dólares.
Na China, a remuneração das mulheres e dos homens deveria ser praticamente a mesma com um prêmio de “produtividade” de 0,2 por cento para as mulheres, ou seja, a produtividade das mulheres e dos homens no país asiático é quase a mesma. Mas as chinesas estão efetivamente recebendo 22,9 por cento menos do que os homens.
A Rússia, é o país que lidera o ranking do estudo da OIT com uma diferença salarial de 32,8% a menos de salário das mulheres em relação ao dos homens, se fossem receber pelo que produzem e por sua qualificação, receberiam um salário 11,1% superior ao dos homens.
É fundamental, que diante dessa realidade, a luta pela igualdade salarial entre mulheres e homens seja um combate efetivo e diário em todos os sindicatos, e não apenas mais uma campanha isolada do 8 de março, como faz a burocracia sindical. Deve ser parte da luta para que as mulheres estejam na linha de frente das batalhas de classe no movimento de trabalhadores.
Original: Palavra Operaria
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sábado, 29 de novembro de 2014

Todo apoio às trabalhadoras terceirizadas da FCL-Unesp!

Não é novidade que a precarização do trabalho é uma dura realidade no país, os contratos terceirizados de trabalho agudizam a precarização quando, com ausência de direitos trabalhistas imprescindíveis, os trabalhadores ficam muito mais vulneráveis à ganância dos patrões. Recentemente tivemos mais uma notícia que merece todo nosso repúdio. A S&S empresa terceirizada responsável pela limpeza na FCL-UNESP de Assis não pagou o salário das trabalhadoras no quinto dia útil. As trabalhadoras resolveram não se calar, e, indignadas, se organizaram e paralisaram o trabalho do dia 11 ao dia 14 de novembro, o que gerou uma pressão da direção do campus à empresa.

No dia 14/11 enfim o pagamento caiu, deixando vitoriosa a mobilização das trabalhadoras. No entanto, não se concretizou a promessa de uma suposta reunião de esclarecimento da empresa às trabalhadoras e pagamento das cestas básicas atrasadas no dia 20. Portanto, as cestas básicas seguem atrasadas. Exigimos que caiam imediatamente!

Na Unesp, diversas funções antes desempenhadas por trabalhadores efetivos hoje são terceirizadas! Desta forma, é de total responsabilidade não apenas da empresa, mas também da instituição, que terceiriza o serviço, criando péssimas condições de trabalho, além deste tipo de situação! Não é possível que uma instituição queira se alçar como uma das mais bem colocadas nos rankings internacionais, enquanto funciona com trabalho semiescravo!

Enquanto brotam os escândalos dos super-salários dos reitores, e de professores das estaduais paulistas, despejam sobre os trabalhadores efetivos e terceirizados as piores condições, aumentando cursos e prédios sem aumentar o número de trabalhadores, crescendo através do sangue, suor, das dores nas costas e da insegurança no trabalho.

Sabemos que a precarização do trabalho, chamada de terceirização, atinge toda a classe trabalhadora, porém, é a mulher trabalhadora a que mais sente o peso de toda a precarização e exploração vigente. A opressão e exploração às mulheres, tem sua funcionalidade para os governos e patrões para manter as mulheres trabalhadoras submetidas a superexploração capitalista, com os salários mais baixos, trabalhos mais precarizados, além das duplas e triplas jornadas de trabalho. Isto porque a mão-de-obra feminina, sendo considerada pela sociedade capitalista como inferior à masculina, recebe salários menores, e este fato serve como pretexto para que o salário de toda a classe trabalhadora seja rebaixado.  São, portanto, as mulheres, em sua maioria negras, que ocupam os postos de trabalho mais precarizados, com menor remuneração e com serviços que são, em sua maioria, extensão do serviço doméstico.

Nós, trabalhadores e estudantes, devemos tomar com centralidade a luta contra a terceirização, pois está é parte fundamental da luta contra a precarização do trabalho, dos serviços públicos, da privatização e pela unidade dos trabalhadores. Lutar sem ver a terceirização como um poderoso inimigo e os trabalhadores terceirizados como fundamentais aliados, seria ceder a uma pressão corporativista e não responder a altura os ataques que sofremos.

As trabalhadoras de Assis dão um exemplo, e tem toda solidariedade de nós, do grupo de mulheres Pão e Rosas, no apoio às companheiras!

Pelo imediato pagamento das Cestas Básicas!
Pela efetivação imediata das trabalhadoras terceirizadas, sem concurso público!

Pela unidade dxs trabalhadorxs! Igual trabalho, igual salário! Pelos direitos da mulher trabalhadora!


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terça-feira, 25 de novembro de 2014

Basta de violência contra as mulheres



Dia 25/11- dia internacional de luta contra a violência contra as mulheres

Rita Frau, professora, militante do Pão e Rosas e da Executiva Nacional do MML

Os casos mais recentes que ganharam a mídia como o caso de Jandira, morta pela máfia do aborto clandestino no Rio de Janeiro e os estupros na Faculdade de Medicina na USP ecoaram o grito entalado na garganta de milhares que sofrem com a realidade da violência contra as mulheres no Brasil. Todos os dias em cada canto do país milhares de mulheres são vítimas de abortos clandestinos  que levam à morte, femicídios, mutilações, estupros, assédio moral e sexual, estupros corretivos, violência policial, exploração e precarização do trabalho.

Á cada 2 dias uma mulher morre por aborto clandestino, a cada 12 segundos uma mulher sofre violência. São ao menos 50 mil mulheres estupradas por ano, sem contar os casos que não chegam à ser denunciados.

As alianças e os lucros são mais importantes que a vida das mulheres



Mais uma eleição se passou e o que vimos foram alianças espúrias com setores reacionários que são coniventes com as milhares de mortes de mulheres por abortos clandestinos. Dilma Rouseff mais uma vez se negou a defender a legalização do aborto em detrimento de suas alianças com setores como Eduardo Cunha do PMDB e da Igreja católica e evangélica que formam a bancada “pró-vida” e mantém a tentativa de passar projetos de leis como o “Estatuto do Nascituro”.

No Rio de Janeiro, a Operação Herodes, conhecida como a maior operação contra a máfia das clínicas clandestinas, arma o palco para a impunidade dos que matam e lucram bilhões a partir do sofrimento de mulheres e sequelas de abortos. A polícia tentou indiciar o ex-marido de Jandira e uma amiga por apoiarem a decisão de Jandira pelo aborto, mas foi negado pelo Ministério Público. Mais uma demonstração da grande hipocrisia das instituições estatais que estão envolvidas nas diversas formas de violência contra as mulheres, como o envolvimento de policiais no crime de estado contra Jandira.

Não esqueceremos jamais dos assassinatos dos filhos e maridos das mulheres negras e pobres das periferias e favelas, como os casos de DG e Amarildo no Rio de Janeiro. E  Claudia, trabalhadora precária negra, pobre e arrastada como um objeto pela polícia nas ruas da Zona Norte do Rio.

No Haiti, o governo do Brasil segue servindo à dominação imperialista norte-americana e beneficiando os lucros das multinacionais que sugam o suor dos trabalhadores haitianos, com a manutenção das tropas brasileiras no Haiti que são recorrentemente acusadas de estupros contra as mulheres haitinas.

A  burocracia acadêmica para abafar os casos de estupros na faculdade de Medicina da USP, finge que nada acontece mesmo diante do sofrimento de jovens estudantes que viviam no silêncio e com medo, comprovando que os privilégios e interesses de uma casta de professores são mais importantes do que o combate à violência que sofriam as estudantes.

A violência contra as mulheres também se expressa na precarização do trabalho quando as mulheres ocupam os postos de trabalho mais precários, na maioria das vezes recebendo salários mais baixos do que os homens, e no caso das mulheres negras mais  ainda. Trabalhos tercerizados, temporários e precários que levam as mulheres a adoecerem e não terem dirireitos trabalhistas garantidos.

A violência à serviço da exploração capitalista

Os assassinatos são o último elo da cadeia de violência que sofrem as mulheres. Toda as outras formas atingem diretamente a forma como nos constituímos como sujeito. Sofremos agressões verbais com o machismo dentro e fora de casa, na escola somos subjugadas e condicionadas à um comportamento, somos vítimas de um padrão de beleza que nos adoece,  nos leva a competição com outras mulheres e nossos corpos são vistos como mercadorias e propriedade que podem ser usados, descartados e violentados.

Esta ideologia surge no desenvolvimento da propriedade privada, que também se expressa nas relações sociais à serviço da dominação da burguesia e manutenção do sistema capitalista que reproduz e se sustenta através da exploração e opressão.  Quando essa ideologia é reproduzida no seio da classe trabalhadora através de preconceitos, machismo, homofobia, racismo, fortalece a exploração da burguesia. Dizemos que quando uma trabalhadora é violentada por um trabalhador, é um passo atrás na luta contra este sistema de opressão e exploração. 

A recente campanha dos trabalhadores da USP contra os estupros na faculdade de Medicina mostram um grande exemplo de como deve ser tomada a luta contra a violência contra as mulheres pelas organizações e a base dos trabalhadores.  A luta contra a exploração e pelos direitos da classe trabalhadora não é separada da luta contra toda a forma de opressão e violência contra as mulheres. 

Esta campanha nos mostra que cada passo da classe trabalhadora em luta contra a violência é um passo para o fortalecimento dos trabalhadores contra a divisão da classe tomando para si a luta contra toda forma de opressão e contra a exploração e deve ser tomada de exemplo por todas as organizações de trabalhadores.

Sejamos milhares de mariposas lutando por nossos direitos

O dia 25 de novembro surgiu em homenagem as irmãs Mirabal, conhecidas como Mariposas, no I Encontro Feminista Latino Americano e Caribenho realizado em Bogotá, contra a Violência contra as mulheres. Patria, Minerva e Maria Teresa Mirabal foram assassinadas dia 25 de novembro de 1960 pela ditadura de Rafale Trujillo. Elas se auto-identificavam como Mariposa 1, Mariposa 2 e Mariposa 3 militando em resitência contra o regime militar e foram assassinadas por serem  valentes lutadoras contra a ditadura. O repúdio ao assassinatos delas abriu o caminho para a caída do ditador Trujillo.

É com espírito e o exemplo dessas lutadoras encaramos mais um dia 25/11. A experiência de 12 anos do governo do PT e a reeleição de uma mulher já mostraram que para as mulheres,  leis como a Lei Maria da Penha e programas sociais, seguem sendo papel molhado,  e que tentativas de responder os setores oprimidos com política reformistas e paliativas não apagam a realidade do trabalho precário, assédios, mortes e sequelas por abortos clandestinos.

Precisamos de um forte movimento de mulheres que não alimente ilusões no governo Dilma pois este só governará para mulheres como Katia Abreu (PMDB) e outras que se beneficiam da miséria e exploração da classe trabalhadora e do povo pobre das cidades e do campo.

Apenas um movimento de mulheres com milhares de Mariposas independentes dos governos, patrões, Igreja e burocracias sindicais e aliando à classe trabalhadora que organize a luta contra a violência as mulheres nos locais de trabalho e de estudos para ganharmos as ruas, será capaz de arrancarmos nossos direitos.

Neste 25 de novembro o grupo de mulheres Pão e Rosas participará em várias cidades da América Latina e Caribe das atividades para exigir um basta de violência contra as mulheres! Pelo direito ao aborto legal, seguro e gratuito! Contra os estupros, feminicidios, a redes de tráfico de mulheres! Por todos os direitos das mulheres trabalhadoras!

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

“Temos um lema “mexeu com um, mexeu com todos”, e ela era nossa companheira”

À poucos dias da Marcha do Orgulho em Buenos Aires, o La Izquierda Diário conversou com Nando, trabalhador de MadyGraf (ex Donnelley), fábrica gráfica ocupada sob controle dos trabalhadores na Zona Norte de Buenos Aires, Argentina. Ele contou como defenderam uma companheira da fábrica, diante da patronal, quando ela decidiu assumir sua identidade de mulher trans que havia escondido para preservar seu emprego.

Publicado originalmente em: http://www.laizquierdadiario.com/Tenemos-el-lema-Si-tocan-a-uno-tocan-a-todos-y-ella-era-nuestra-companera  


Conte-nos como se deu a discussão com a companheira trans na fábrica


Começamos a discutir sobre a discriminação contra os setores gays, LGBT´S. Começamos a discutir que são companheiros e companheiras que podem decidir sobre sua identidade, e também fazer isso dentro da fábrica, dizendo que ninguém podia dizer nada. Assim fomos forjando a consciência dos companheiros para que nossa companheira trans pouco a pouco fosse assumindo sua identidade.

Ela começou a trabalhar com identidade masculina?

Sim, depois pouco a pouco foi se assumindo, viu que não ia ser discriminada, que a patronal não ia demití-la. Quando viu que a organização que havia dentro da fábrica defendia os direitos da comunidade LGBT e todos os que são discriminados por esta sociedade, e com a ajuda de um companheiro gay, ela foi se assumindo. As vezes perguntava se “se podia usar os seios”, e eu dizia a ela “você faz o que quiser, aqui ninguém vai te tocar, vamos manter seu posto de trabalho da forma que você quiser se manifestar”

Como os companheiros de trabalho encararam este processo de mudança?

O processo foi se dando, a princípio não entendiam muito, mas depois foi se naturalizando e se transformou na companheira, parte de todos.

E como atuou a patronal?

A empresa fez alguns comentários discriminatórios mas nunca se atreveram fazer nada com ela porque sabiam que se fizessem algo nós íamos defendê-la. Nós temos o lema “mexeu com um, mexeu com todos” e ela era nossa companheira. Nós, a partir da comissão interna, garantimos que a companheira tivesse seu espaço, seu banheiro e lugar aonde trocar-se. E a empresa teve que cumprir com isso para que ela pudesse estar cômoda.

Discutiu-se o matrimônio igualitário e a Lei de Identidade de Gênero na fábrica?

Sim, se discutiu, alguns estavam contra, outros à favor. O que mais se discutiu foi o tema da adoção, se uma travesti ou um casal de pessoas do mesmo sexo podiam adotar.
Os que estavam contra por preconceitos diziam: “O que vão dizer quando levarem as crianças à escola?”. “Quando vejam que pais são dois homens ou uma travesti?”. Nós lhes dizíamos que não tem nada a ver, que a educação passa mais por uma questão de respeito. Que o fato de que sejam filhos de casais com pessoas do mesmo sexo não significa que os vão maltratar ou algo assim. Que de fato, existem casais heterossexuais onde onde o homem bate na esposa, nos filhos, e por isso não tem nada a ver a identidade sexual com a educação e a crianção dos filhos.

Depois da aprovação de duas leis que mencionamos antes, existe um grande setor da comunidade LGBT que disse que vivemos em um país mais igualitário. Você que vem desta experiência dentro da fábrica, acredita que estas leis mudam profundamente as condições materiais deste setor?

Profundamente não, mas desde já é muito progressivo que existam estas leis. Mas o problema da discriminação, o problema social, é muito mais profundo.

Acredita que a luta da comunidade LGBT tem relação com a luta que vocês estão dando agora?

Sim, caminham juntas, porque acredito que a luta que estamos dando serve como uma experiência para uma nova sociedade. Nós acreditamos que se existe uma nova sociedade, aonde os meios de produção estejam à serviço de toda a população, onde não exista discriminação, a comunidade LGBT vai ter acesso ao trabalho como qualquer um tem. Muitas travestis se prostituem porque não têm trabalho. Por isso, neste sentido, caminham juntas para uma sociedade melhor, porque a luta dos trabalhadores é a luta da comunidade LGBT e vice-versa, a luta dos estudantes é nossa luta, a das mulheres também. Não vejo uma separação, porque para mim somos uma mesma classe que tem que brigar por todas nossas reivindicações, os estudantes, os aposentados, os professores, é uma batalha de todos juntos para construir uma nova sociedade para que todas as pessoas vivam melhor.