segunda-feira, 6 de junho de 2011

Professoras, lutemos pela legalização do aborto! Por Paulinha Berbert, professora de Sociologia na Zona Norte de SP, militante do Pão e Rosas e da corrente Pela Base


Em abril deste ano aconteceu a Convenção da Oposição Alternativa da Apeoesp, quando foi definido um programa comum com o conjunto dos companheiros que combatem a burocracia governista da Bebel e da Chapa 1. Nós – do grupo de mulheres Pão e Rosas, que também compomos a corrente Professores PELA BASE – travamos uma luta política importantíssima, mas dessa vez em torno de um tema que é, ou deveria ser, um consenso entre a esquerda: a bandeira da legalização do aborto.


Os companheiros da ala majoritária da Oposição, o PSTU, apresentaram uma proposta de programa contra as opressões que não incluía a luta pela legalização do aborto. Defendemos então a inclusão desta bandeira, que é histórica do movimento de mulheres. A partir daí abriu-se o debate para o conjunto do plenário e infelizmente os companheiros mantiveram a sua proposta inicial, sob o argumento de que a defesa do aborto livre, legal, seguro e gratuito “não dialoga com a categoria”. Depois de muita discussão e crise em sua bancada, o PSTU teve que fazer um recuo tático, dizendo que era consenso colocar o direito ao aborto no programa, mas não como eixo. 

A discussão que colocamos naquele momento é a mesma que reproduzimos agora: qual é tarefa histórica dos ativistas que compomos a Oposição Alternativa senão a de nos chocarmos com a consciência média do professorado paulista, majoritariamente lulista e dilmista, que ainda alimenta muitas ilusões no PT e na ArtSind-Chapa 1? E nesse sentido, a bandeira da legalização do aborto cumpre um papel fundamental! Para além do simples fato de que a nossa categoria é esmagadoramente feminina, e a sua participação ativa na luta pela legalização colocaria este combate em um papel muito superior, o debate da questão dialoga, e muito com as posições dos nossos colegas. 

Dialoga porque questiona preconceitos inculcados pela ideologia burguesa e cristã sobre o papel das mulheres nas mentes de muitos educadores. Dialoga porque desmascara a posição demagógica de Dilma, do PT e de seus representantes no movimento sindical, como a Bebel, que dizem estar ao lado das mulheres e de seus direitos, mas não exitam em rifar nossas reivindicações para manter o apoio eleitoral de setores conservadores. Dialoga porque discute a necessidade da autonomia que precisamos ter sobre os nossos próprios corpos e que não podemos mais deixar que milhares de nós sigamos morrendo por abortos clandestinos. Dialoga, mas não se adapta aos elementos atrasados que o professorado paulista ainda carrega consigo.

É preciso deixar claro que a prática política do PSTU é permeada pela concepção de não se chocar coma consciência dos trabalhadores, sob o pretexto de “querer dialogar”. O que os companheiros perdem de vista é que, para além da importância em si da luta pela legalização do aborto, a discussão desta bandeira com a base da categoria é uma oportunidade valiosa de fazê-la avançar. E é esta justamente a tarefa da Oposição Alternativa: fazer o professorado paulista avançar politicamente a partir de um programa que responda as  nossas principais demandas (como a unidade de nossas fileiras, a defesa da educação pública de qualidade, o aumento salarial) e que levante com centralidade as bandeiras democráticas, como a legalização do aborto!

As professoras do Pão e Rosas gritamos: basta de mulheres mortas por abortos clandestinos!
Anticoncepcionais e contraceptivos gratuitos e de qualidade!
Que a Oposição Alternativa organize uma grande campanha pela legalização do aborto junto à categoria!

Sobre o livro“A precarização tem rosto de mulher” Extratos da resenha publicada na Revista ContraCorrente, por Paulinha Berbert

Elas são as primeiras pessoas para as quais dou‘bom dia’, negras, uniforme azul que as diferenciam de todos os outros funcionários da escola estadual onde trabalho. “Tão cedo no batente?” – pergunto  às 6h40. “É claro, professora. Tudo precisa estar em ordem pra quando vocês chegarem, não é?” – responde uma das duas terceirizadas que limpam uma escola que atende mais de 800 alunos.
Entram todos os dias às 5h da manhã, saem às 16h, param meia hora para o almoço que trazem de casa, zanzeam com vassouras e baldes nas mãos. Sempre juntas, a única coisa que lhes dá identidade é as luvas que usam, que têm seu nome escrito. Ali ninguém fala com elas, nem os alunos, nem os demais funcionários e professores. (...) Mas eu ouvia aquelas mulheres e me lembrava de outra que conheço, tão parecida com elas – Silvana, resolvi falar do livro. “Vou trazer um presente pra vocês na segunda-feira ...”. “O que, professora? Não precisa se incomodar com a gente!”. “É um livro que fala sobre vocês, sobre mulheres terceirizadas, que dão duro, trabalham limpando um lugar, à noite chegam e casa e trabalham  mais ... Acho que vocês vão gostar!”. Mostro a elas o piloto do livro, que estava na minha mochila. Na capa duas terceirizadas, usando uniformes escuros e com vassouras na mão, uma diz para outra: “Olha, podia ser a gente!”. 

Leia a resenha na íntegra no blog de Paulinha Berbert:  http://carregobandeira.blogspot.com

Dilma, basta de trocar nossos direitos para salvar seus políticos corruptos!


É uma realidade concreta a discriminação e agressão sofrida pelos homossexuais em nosso país, são vários os casos de violência contra eles por parte de grupos de ultra-direita, que ainda contam com a o apoio ideológico de deputados reacionários como Bolsonaro. E nas escolas não é diferente, alunos, professores e funcionários homossexuais são vítimas constante de agressões, perseguições e assédio moral.

Esse debate ganhou espaço na mídia, nas salas de aula e entre professores em virtude da confecção de um kit anti-homofóbico elaborado pelo MEC e ONGs, que seriam distribuídos nas escolas de todo o país. De novo os setores conservadores saíram da toca e pressionaram o governo para que retrocedesse na distribuição desse material, e Dilma mostrou a que veio! Na semana passada proibiu a distribuição do kit por conta de uma negociata com a bancada evangélica e católica em troca da não acusação ao ministro Palocci, que mais uma vez foi pego em trambiques. A direção da Apeoesp, inclusive a nossa presidenta, Bebel (Chapa 1), se calou vergonhosamente!

Se por um lado, a cartilha do MEC não é o suficiente para combatermos a homofobia e a violência contra homossexuais, por outro lado, este é um debate fundamental de fazermos dentro de nossas salas de aula e como conjunto do professorado. Sabemos que a atividade do professor tem um caráter particularmente ideológico e podemos ser um contraponto de reflexão e crítica para nossos alunos. 

Precisamos colocar de pé uma ampla campanha contra a homofobia e violência aos homossexuais em todas as escolas!

 É preciso lutar pela educação sexual em todos os níveis de ensino, com a escolha do conteúdo decidida pelos professores e estudantes através de seminários em cada local de ensino! 

É preciso cobrar do nosso sindicato que organize uma ampla campanha em defesa dos direitos dos homossexuais, além de estarmos, os professores da rede estadual, ao lado dos ativistas LGBTT lutando por seus direitos!

Pelo exercício da livre sexualidade!

Por uma educação laica sem a interferência da Igreja!


Pão e Rosas entrevista a professora potiguar Amanda Gurgel (entrevista na íntegra)

Publicamos abaixo a entrevista na íntegra com Amanda Gurgel, professora do Rio Grande do Norte e militante do PSTU, onde buscamos a opinião desta professora - que tornou-se nacionalmente conhecida - sobre os eixos da campanha que o Pão e Rosas vem levando adiante como parte da Chapa 2. Como expressamos neste material, há uma série de debates que queremos travar com as companheiras de outras correntes que compõe a Chapa 2, como a necessidade de lutar pela efetivação sem necessidade de concurso público, ou a necessidade de levar de frente a discussão sobre a legalização do aborto. Abaixo, as opiniões de Amanda e sua luta.


Flavia Vale - Pão e Rosas - Belo Horizonte - MG: O fenômeno do vídeo na internet expressa que há um enorme espaço para lutar contra as péssimas condições de trabalho do professor e para lutar pela educação pública de qualidade. Como você vê a questão, como acha que podemos coordenar as lutas efetivamente?

Amanda Gurgel: Então, o fenômeno do vídeo realmente abriu esse espaço pro debate da educação de um jeito que a gente nunca tinha visto. Inclusive com um espaço na grande mídia, que é um espaço que nós devemos utilizar na tentativa de ganhar a opinião pública para essa questão, já que existe todo um trabalho da ideologia feito para a divisão da classe trabalhadora, para que os pais dos alunos acreditem que os professores são responsáveis pelo caos da educação. Então, é um espaço agora que estamos tendo em diversos veículos, tanto da imprensa alternativa como da imprensa burguesa, da gente divulgar nossa campanha pelos 10% do PIB e esclarecer as pessoas quanto a essa questão, dos verdadeiros responsáveis pelo caos da educação que são os governos. Então, do ponto de vista prático, além das redes sociais, que nós não podemos desconsiderar o poder que essas redes sociais tem, além da atuação nesse ambiente da internet, estamos tentando ampliar essa luta à luta clássica, a luta nas ruas. Isso não é uma tarefa fácil, mesmo porque nossa principal entidade, a entidade que nos reúne em medida nacional, que é a Confederação Nacional dos Trabalhadores da Educação (CNTE), ela não está imbuída desse mesmo sentimento que nós estamos. Mesmo porque é uma entidade que está atrelada ao governo, e nós estamos tendo que construir essa mobilização nacional por outras vias. Nesse final de semana, eu vou me reunir com o pessoal na reunião da CONLUTAS nacional, eu estarei presente para que a gente possa desenvolver alternativas de mobilização real da categoria em nível nacional. Levando em consideração, ainda que se não tivermos o apoio da CNTE, e se as mobilizações não forem chamadas pela CNTE, isso vai ser um enfraquecimento para o movimento, já que uma paralisação que não seja convocada por uma entidade reconhecida oficialmente é considerada uma falta como outra qualquer. Assim, muitos trabalhadores talvez não queiram aderir pelo fato de não ter uma coisa oficial, mas a nossa batalha é para que a CNTE perceba esse momento que nós estamos vivendo agora, um momento histórico para o debate da educação, entenda a importância dessa mobilização nacional e que esteja junto com as redes sociais, enfim, com a minha imagem também que nesse momento, apesar de eu não ter qualquer tipo de vaidade nem me achar especial ou diferente de qualquer professor, mas afinal de contas a minha imagem está associada a esta luta, e que a CNTE venha somar suas forças à nossa.

FV: Sobre o kit anti-homofobia, como a Dilma cedeu à bancada católica e evangélica e retrocedeu mais em nossos direitos democrático. Qual o papel dos professores desde as escolas na luta pelos direitos dos homossexuais, como o casamento igualitário, a criminalização da homofobia, colocando os professores como aliados dos jovens para que todos possamos expressar livremente nossa sexualidade?

AG: Olha, se nós tivéssemos uma escola ideal, uma escola que fosse um ambiente favorável à construção do conhecimento, a função do professor seria a de realizar esses debates dentro da escola. No entanto, as nossas estruturas hoje na escola são estruturas que impedem qualquer tipo de debate, mesmo porque a maior parte do tempo dentro das salas de aula – isso você pode confirmar com qualquer professor – a maior parte do tempo nas escolas a gente passa para administrar o caos dentro da própria sala de aula. A hiperatividade dos alunos, a super lotação, no caso nosso no Rio Grande do Norte, o calor. Então, assim, nós não temos muitas condições de realizar debates dentro das salas de aula. Se nós tivéssemos uma educação, uma escola que fosse comprometida realmente com a educação transformadora, a nossa função seria essa, mas como nós não temos, infelizmente nós ainda precisamos entender e ter a consciência que precisamos ser pacientes com nossos colegas professores, que muitos ainda não alcançaram esse nível de consciência em relação aos segmentos que são oprimidos na sociedade, mais oprimidos que os trabalhadores de modo geral, que são as mulheres, os negros e negras, os homossexuais. Enfim, nesse modelo que nós temos hoje de escola, que é um modelo em que a escola funciona como um depósito - não é um chavão, é um fato - e que os professore têm atuado apenas como guardiões dessa crianças, o professor está um pouco limitado. Não tem muito como realizar esse debate, como contribuir pra isso dentro do ambiente escolar. Agora, em relação à Dilma, acho que não é uma surpresa, não podemos dizer que é uma atitude surpreendente, mesmo porque durante a campanha dela, ela utilizou como moeda de troca também a questão do aborto, entendeu? E cedeu à pressão dos evangélicos, negando uma luta histórica do próprio partido dela. Então, não só o kit gay, como a questão da defesa do aborto, como qualquer outra demanda que seja levantada dentro do governo Dilma, mesmo que seja uma luta histórica do próprio PT, a gente não tem dúvida que ela vai ser utilizada como moeda de troca, e que vai ser relegada ao mais baixo patamar, desde que seja pra atender os interesses do governo.

FV: ...do governo e desses setores também ...

AG: ...exatamente, a bancada evangélica, as bancadas moralistas fundamentalistas. Infelizmente...

FV: Agora, em relação ao aborto. Nós fazemos parte de uma categoria que mais de 60% são mulheres, como a luta por uma escola publica, gratuita, de qualidade e laica continua sendo fundamental, pra colocar mais do ponto de vista dos professores, apesar de todo atraso que tem na categoria, essa luta que a gente tem como CSP-CONLUTAS como ANEL.

AG: Sim, isso é um debate difícil demais porque, pra questão do aborto, por exemplo, existe todo um trabalho da ideologia e da mídia pra que seja, em primeiro lugar, feito uma confusão entre a legalização do aborto, o direito da mulher de fazer um aborto, e a defesa do aborto em si. Porque o nosso movimento não defende que as mulheres saiam por aí abortando ou que o aborto seja uma forma contraceptivo. Não é isso que nós defendemos. O que defendemos é que a mulher tenha o direito de decidir sobre seu próprio corpo e que ela não seja considerada uma criminosa por causa disso. Mas não é isso que é propalado pela mídia. O que é propalado é que nós somos mulheres que estão querendo fazer aborto a todo o momento e querendo que todas as mulheres façam aborto. E isso coloca já em choque essas mulheres, que constituem a maioria da nossa categoria, e que muitas são cristãs, e que já têm essa dificuldade de realizar na sua própria prática pedagógica a isenção do que se refere a essa ideologia, e que é reforçada ainda pela mídia dessa forma, distorcendo nosso discurso, distorcendo a nossa bandeira. Então, é um debate que nós, que estamos na vanguarda, temos a obrigação de levar pra dentro das escolas com muita paciência, porque eu tenho visto no meu espaço, onde atuo, nas escolas do RN, a mudança de concepção de alguns colegas. Então, em alguns momentos, eu passo a considerar algumas mulheres muito mais avançadas do que eu, porque são mulheres que tiveram uma formação cristã tradicional, que foram educadas para o casamento, para o cuidado com o lar e de repente estão defendo isso, defendendo que a mulher precisa ter o direito de decidir sobre o próprio corpo. Que se ela decidiu que ia fazer um aborto, é porque ela tinha essa necessidade e por isso ela não será considerada criminosa. Mulheres que tiveram essa formação extremamente tradicional e que estão voltando nas suas memórias e lembrando que as suas avós realizaram aborto, que as suas mães realizaram aborto, e que isso não fez delas mulheres criminosas ou menos cristãs. Então é um compromisso nosso, nós, que estamos na vanguarda, temos o compromisso de levar o debate pra dentro das escolas. Mas eu tenho ainda uma certa crítica ao nosso próprio movimento, que é a forma como nós levamos que não é muito didática. E eu percebo que no momento que você consegue trazer pra vida concreta, como esse exemplo que eu estou dizendo, como a minha avó, por exemplo, eu não tenho vergonha de dizer, eu chego na escola e digo: “olha, minha avó ela realizou dois abortos, minha avó era cristã, católica”. Então, assim, eu acho que nós devemos ter essa forma mais didática de dialogar com as pessoas. Uma das coisas, um dos elementos que as pessoas têm destacado para essa questão do vídeo e tal, do sucesso e tudo, é a minha linguagem, a forma como eu me expresso e tal, e que é minha, tudo bem, não tô dizendo que é melhor nem pior do que a de ninguém, mas que nós precisamos levar em consideração nesses momentos de dialogar sobre esse debate, entendeu? Nós não estamos abrindo, eu não to abrindo mão de nenhuma bandeira do nosso movimento, nem do movimento de mulheres, nem do movimento gay, não tô abrindo mão de nenhuma bandeira mesmo, nem do meu partido, nem da minha central, não tô abrindo mão de nada, mas, a forma como eu tenho me dirigido as pessoas, entendeu?, tem sido mais fácil delas compreenderem, apenas isso.

FV: Mas sendo você essa porta voz, como você faria o diálogo em relação ao direito à maternidade, ao direito ao aborto na nossa categoria, como você pensa em fazer isso?

AG: Mas eu faço, é isso que eu tô dizendo, eu já faço, já tenho dentro das escolas essa tarefa, entendeu? Me sinto nessa obrigação de fazer esse debate, e eu faço dessa forma. Gente, o que as mulheres, o que nós, mulheres feministas, estamos defendendo não é o aborto como uma forma de contraceptivo, de jeito nenhum, entendeu? Não é isso que nós estamos defendendo. O que nós estamos defendendo é que se uma mulher compreende que ela precisa realizar um aborto, ela não pode ser encarada como uma criminosa por causa disso. É apenas isso que nós estamos defendendo, né? E que principalmente ela possa ter acesso a esse serviço na rede básica de saúde, na rede pública, porque se é uma mulher que tem dinheiro, ela pode fazer, eu levo exatamente assim, entendeu? Se é uma mulher que tem dinheiro, se é a prefeita da cidade, por exemplo, que a gente não tem como ter acesso a informações sobre a vida privada das pessoas, nem interessa, mas se é qualquer pessoa que tenha dinheiro, ela faz num consultório médico, e isso não vai ser problema nenhum, nem ela vai ser exposta nem ridicularizada por causa disso, mas se é uma mulher da classe trabalhadora, ela vai colocar a vida dela em risco.A nossa única defesa é essa.

FV: Agora só para finalizar, última pergunta: Em São Paulo, no Rio Grande do Norte e em quase todos os Estados, a categoria de professores é dividida ao meio, entre efetivos e temporários, uma forma de enfraquecer nossa categoria e manter os trabalhadores com muita desigualdade de salários e direitos. Como é essa situação no Rio Grande do Norte, e que programa vocês levantam para acabar com esse problema?

A.G: Olha, no Rio Grande do Norte é muito parecida. É, na rede municipal nós temos, além dos professores concursados, normais né?, aqueles que são efetivos, nós temos educadores infantis, que é uma coisa que nem era mais para existir, né?, que foi num concurso recente, 4 anos atrás, a primeira turma de educadores infantis que entrou na rede municipal, que são professores que tem apenas o ensino médio, certo? E que pra uma jornada de 40 horas semanais, elas recebem o mesmo salário que nós recebemos pra uma jornada de 20. Então, a maioria, mulher, certo? E mulheres extremamente exploradas, né? Numa situação de exploração gritante, assim, até pelas condições que elas têm dentro das creches. Essas educadoras infantis que trabalham com as crianças de três meses até cinco anos de idade. Então, a primeira divisão que tem na rede municipal é essa, de professores efetivos, concursados, de nível superior e os de nível médio, que são os educadores infantis, além dos contratados, que são os precários, que a qualquer momento podem ter seus contratos rescindidos ou não renovados, e que estão, por exemplo, esse ano trabalhando desde o início do ano letivo sem receber um centavo. Não receberam ainda nenhum centavo, e não sabem sequer o valor do salário, qual vai ser o valor desse salário que eles não receberam ainda, certo? Na rede estadual, nós temos os concursados, que são os efetivos, temos os estagiários, que são os precários dos precários, que recebem menos da metade do nosso salário, e temos ainda (eu falei os estagiários e os contratados?) os efetivos, os contratados e os estagiários. Então, você até perguntou se não seria o caso da gente efetivar os professores que são contratados...

FV: Sem necessidade de concurso...

AG: ... sem necessidade de concurso. A bandeira nacional que a gente defende é a bandeira do concurso, entendeu? Agora, no caso aqui de Belo Horizonte, pelo que eu estou vendo, é tanto professor contratado que eu não sei se seria o caso da gente rever isso, e ter uma bandeira local que fosse para a contratação, a efetivação desses professores contratados. Agora, nacionalmente o que a gente defende é o concurso, entende? Eu não sei, realmente eu não poderia nem opinar sobre isso aqui, localmente, entende? Porque a bandeira que nós defendemos é que nós tenhamos concurso já, e que não tenhamos professores contratados, porque os professores contratados trabalham em condições ainda mais precárias do que nós, entendeu? Hoje, por exemplo, no Rio Grande do Norte a nossa categoria está quase que 100% em greve, mas o Estado se apóia nos professores contratados para dizer que as escolas estão funcionando. Porque são professores que não têm coragem assim, porque precisam desse dinheiro né? Precisam desse salário, que um dia eles vão receber, porque eles também estão trabalhando sem receber, até hoje na rede estadual né? E assim, nós não trabalhamos para fazer poupança, eu não conheço nenhum professor que tenha dinheiro guardado. Nosso salário ele é todo, tem o destino todinho, recebe o salário e ele já tá todo repartidinho para pagar nossas despesas. Então, o Estado se apóia nesses professores precários pra dizer que nosso movimento não é tão forte quanto a gente tá dizendo, entende? Então por isso nós não defendemos contratação, defendemos que haja concurso público imediatamente, e que sejam concurso que ofereça vagas suficiente para suprir as demandas da escola, entende? Essa é nossa bandeira a nível nacional.

FV: Ta ótimo. Você quer colocar alguma coisa mais?

AG: Queria pedir desculpas porque eu não respondi sua pergunta...

O povo árabe e a juventude espanhola nos mostram o caminho!


Desde dezembro do ano passado temos acompanhado as mobilizações do povo árabe contra seus governos ditatoriais, umbilicalmente ligados ao imperialismo europeu e estadunidense, que ataca os direitos e as condições de vida do povo pobre, aumentando a pobreza e a carestia de vida. O povo tunisiano e egípcio, nas ruas, aliado à juventude, à setores importantes do movimento operário, contanto inclusive com uma participação massiva de mulheres, ocupou as ruas e praças, recolocando a perspectiva – tão atacada pela burguesia – de que sim, é possível agir e protagonizarmos mudanças históricas de grande magnitude! Governos foram derrubados e a classe trabalhadora recobrou a confiança em suas próprias forças! O que vemos acontecer em Barcelona e Madri vai no mesmo sentido, ensina uma lição particularmente importante para os professores: o papel transformador e explosivo que a juventude pode cumprir! A juventude espanhola demonstra nas praças, ao lado do povo, que não podemos aceitar a idéia de geração perdida, que tantas vezes se expressa dentro das nossas salas de aula! Os jovens podem cumprir um papel fundamental na luta contra os governos, se rebelando contra as amarras impostas por essa sociedade de opressão e exploração, nos sacudindo com a energia transformadora daqueles que não carregam o peso das derrotas do passado e se dão a tarefa de desatar o futuro.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

AMANHÃ (11/05) Lançamento do livro "A precarização tem rosto de mulher" na Unicamp:

Com esse livro, buscamos reconstruir a história de uma pequena, mas exemplar, luta operária contra as péssimas condições de trabalho na USP em 2005. Foi uma luta de trabalhadoras e trabalhadores terceirizados da limpeza. Seis anos depois a Usp, novamente, se torna palco de uma greve de trabalhadores terceirizados da limpeza, que radicalizaram ainda mais seus métodos. Parte dos lutadores terceirizados de 2005 voltaram a protagoni...zar em 2011 uma luta operária que avançou da demanda economica, pelo pagamento dos salários, ao romper com o cotidiano da comunidade universitária e se tornou uma luta política mostrando que a terceirização escraviza, humilha e divide, inclusive dentro do espaço elitizado e aparentemente intocável de mazelas que é a Universidade. As mulheres, maioria desses trabalhadores deram exemplo, em ambos os processos, de como lutar contra a precarização da vida, elas mostraram que a precarização tem rosto de mulher, mas que essas mulheres estão dispostar a lutar pelo fim de sua exploração: a luta continua!

 Para apresentar o livro contamos com a presença de:

Diana Assunção
organizadora do livro, diretora do Sintusp, dirigente da LER-QI e fundadora do Pão e Rosas

Glória Oliveira
trabalhadora terceirizada da limpadora União

Paula Marcelino
doutora em Sociologia pela Unicamp e autora do livro "A logística da precarização: terceirização do trabalho na Honda do Brasil"
Rita Frau
profª da rede estadual de SP, corrente de professores Pela Base e Pão e Rosas

11 de maio 
No Auditório II do IFCH   |   às 17h00

"Nos dias de sábado, a gente ali jogando água, todo mundo louco pra ir embora pra casa, e a encarregada cantando 'lerê-lerê'. Era uma humilhação, ela nos chamava de escravas"
(Silvana, trabalhadora terceirizada)

Organização:
Pão e Rosas
LER-QI e Independentes

Iskra Edições

terça-feira, 10 de maio de 2011

Mais de 150 participam de debate contra a terceirização na Faculdade de Direito da USP

Publicamos abaixo nota extraída do site da LER-QI, sobre debate realizado essa semana na Faculdade de Direito da USP, onde Diana Assunção, diretora do Sintusp, dirigente da LER-QI e fundadora do Pão e Rosas e Glória Oliveria, trabalhadora terceirizada da limpeza da USP, estiveram ao lado dos professores Jorge Luis Souto Maior (USP) e Ricardo Antunes (Unicamp) discutindo a precarização do trabalho e a terceirização na universidade. A luta dos trabalhadores terceirizados e tercerizadas da USP de 2011 esteve em pauta e Diana Assunção apresentou o livro "A precarizaçao do trabalho tem rosto de mulher" que retrata a luta dos trabalhadores tercerizados e terceirzadas da USP que trabalhavam para a empresa 'Dima' em 2005/2006.


Por Celso Jr
Trabalhador da ECA e militante da LER-QI

Na última quarta-feira, dia 05, realizou-se na sala dos estudantes da Faculdade de Direito da USP (Lgo. São Francisco) um ato/debate contra a precarização do trabalho. Organizado pelo Centro DESFORMAS e pelo SINTUSP, o ato teve como convidados na mesa os professores Jorge Souto Maior (Juiz do Trabalho e um dos organizadores do evento), Jorge Grespan (USP), Ricardo Antunes (Unicamp), Glória Oliveira (trabalhadora terceirizada da limpeza) e Diana Assunção, diretora do SINTUSP e dirigente da LER-QI.

No debate que teve sala cheia em pleno horário de aula, o Prof. Jorge Souto Maior convidou os alunos presentes à refletirem sobre o papel social dos estudantes do Direito, frente à esta situação no país e a necessidade de passar pra ação ativa, contribuindo para acabar com o trabalho precário. Com mesmo entusiasmo, o sociólogo da Unicamp Ricardo Antunes, observou da necessidade de lançar uma ampla campanha para acabar com a terceirização dentro da USP, dentro das instituições públicas, mas também estender para o país. Disse que nunca havia imaginado, quando perto de se aposentar, que dividiria a mesa com uma trabalhadora terceceirzada, o que para ele era motivo de orgulho.

Glória expressou com muita emoção, a vida precária dos trabalhadores terceirizados que não podem conversar com estudantes, funcionários e docentes, dentro da universidade, e não tem direito à almoçar nos restaurantes universitários, nem deixar seus filhos nas creches. Relatou que ela foi transferida de um departamento à faculdade de Filosofia por ter conversado com estudantes e algumas colegas da limpeza. Mas por ironia, como ela mesma disse: "foi lá que encontrei minha outra família... que até já me fez correr de bombas da polícia no meio da rua", referindo-se aos estudantes que compuseram o bloco do 1º de maio, reprimido pela polícia militar, com bombas e balas de borracha. Foi aplaudida de pé pelos mais de 150 presentes.

Diana Assunção, lembrou a fala de um terceirizado durante uma reunião com estudantes da Ciências Sociais, quando após falar mais de 30 minutos sem parar, ele disse: "Desculpe falar tanto. É que há 14 anos não consigo conversar com estudantes aqui...", expressando a necessidade de lutar para que estes trabalhadores sejam efetivados, sem necessidade de concurso público. Diana também refletiu sobre a necessidade dos presentes pensarem algum apoio aos trabalhadores terceirizados da UnB, que estão em ameaça de serem demitidos, dentro de um plano de contingência financeira da Reitoria da universidade, mostrando que o processo da precarização é nacional e necessita ser combativo do “Brasil potência” à “USP de excelência”.
Após as exposições dos convidados, vários estudantes falaram no sentido de ampliar as discussões e a campanha. Inclusive organizar um fundo de "greve" ou solidariedade, pois os trabalhadores, apesar de terem recebido o salário e os custos rescisórios, ainda não puderam dar entrada no FGTS e seguro desemprego, pois o sindicato oficial da categoria (SIEMACO) não liberou os documentos necessários.

Com um importante protagonismo dos estudantes da Faculdade de Direito, houve também a proposta de organizar um comitê contra a precarização, dentro da faculdade de direito e um ato democrático contra a terceirização, no Lgo. São Francisco, relembrando as passagens históricas da luta de estudantes de direito e juristas contra a escravidão negra, no final do século XIX no Brasil, inclusive com atos dentro da Faculdade do Lgo. São Francisco. O Comitê Contra a Terceirização, que está sendo organizado da FFLCH tendo a frente o Bloco ANEL às Ruas, se colocou a disposição para ajudar a construção de um Comitê na própria Faculdade de Direito.

Diana saudou os professores presentes, relembrando que em um momento onde a maioria dos intelectuais está ao lado do governo ou cooptado pelo capital, era de extrema importância a presença destes professores junto aos trabalhadores mais explorados de nossa classe que começam a se levantar. O Prof. Jorge Grespan, que mediou o debate, agradeceu a presença de todos e aproveitou para divulgar mais uma vez o livro “A precarização tem rosto de mulher”, organizado por Diana Assunção, que estava sendo lançado naquele dia.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Louise Michel nas trincheiras da Comuna

Publicamos abaixo artido publicado na REVISTA PUC VIVA ESPECIAL 140 ANOS DA COMUNA DE PARIS [MAIO]. 

Por Diana Assunção*


“Quando a multidão hoje muda,
ruja como o oceano,
disposta a morrer,
a Comuna surgirá.”
Louise Michel, 1871



A 140 anos da Comuna de Paris, descrita por Leon Trotsky como “um relâmpago, o anúncio de uma revolução proletária mundial” [1], prestamos homenagem a este capítulo da história que ainda hoje nos traz valiosas lições. Aqui, particularmente, voltaremos o olhar para uma personagem incendiária da Comuna. É Louise Michel, a mulher das trincheiras, que viveu como um ardente soldado. O jornal oficial da Comuna de Paris se referia a ela com as seguintes palavras “Nas fileiras do batalhão 61, combatia uma mulher enérgica; matou vários gendarmes e guardiões da ordem” [2].

Antes disso, vale rememorar os principais fatos, e também as principais lições que marcaram a Comuna de Paris. Entre os meses de março a maio de 1871, os trabalhadores parisienses conquistaram um órgão de poder, que seria o primeiro da classe trabalhadora mundial em toda a história. Por ter sido a primeira vez em que a classe operária fazia “tremer” a burguesia, sua resposta organizada foi uma enorme repressão, que durou semanas, com o saldo de mais de dez mil mortos. Mas a repressão foi incapaz de matar ou liquidar o espírito da Comuna, que permanece vivo em suas lições. Mas seu surgimento, ao contrário do que foi, por exemplo, a Revolução Russa, se deu de forma espontânea, e não de forma consciente. Como explica Vladimir Ilich Lenin:

“A Comuna surgiu espontaneamente, ninguém a preparou de forma consciente e sistemática. A desgraçada guerra com a Alemanha, os sofrimentos da cidade sitiada, a greve operária e a decadência em ruínas da pequena burguesia; a indignação das massas contra as classes superiores e as autoridades que haviam demonstrado uma incapacidade absoluta, a surda efervescência no seio da classe operária, descontente com sua situação e ansiosa por um novo regime social; a composição reacionária da Assembléia Nacional, que trazia temor quanto ao destino da República, tudo isto e muitas outras coisas se uniram para impulsionar a população parisiense à revolução de 18 de março, que passou o poder, inesperadamente, das mãos da Guarda Nacional às da classe proletária e da pequena burguesia, que se havia unido a ela. Foi um acontecimento histórico sem precedentes” [3]

Conquistando o poder, o proletariado parisiense conseguiu suprimir a burocracia e estabelecer a eleição dos funcionários pelo povo. Ao exército regular contrapôs o povo armado, além de tomar uma série de medidas como perdão de dívidas de aluguéis atrasados, também estabeleceu que qualquer funcionário público recebesse o salário equivalente ao de um operário, eliminando assim os privilégios desta camada da sociedade. Decretaram a separação entre a Igreja e o Estado, declarando como propriedade nacional todos os bens da Igreja. E pela primeira vez na história, foi proclamada a igualdade de direitos para as mulheres. Era a classe trabalhadora demonstrando ser capaz de cumprir as tarefas democráticas que a burguesia somente pode proclamar, em palavras.

Das lições que se fica da Comuna, Lenin aponta duas essenciais, dizendo que o proletariado deteve-se na metade do caminho. Não expropriou os expropriadores, tendo sido tomados pelo sonho de idealização da justiça suprema sem a apropriação de instituições como, por exemplo, os bancos. Também, ao invés de exterminar seus inimigos, buscou agir moralmente sobre eles, deixando como secundárias as ações militares na guerra civil, e abrindo espaço para a contra-ofensiva do governo [4].

Em 1917, contudo, Lenin recuperava o que numa expressão era a ditadura do proletariado, que surgida da Comuna foi tomar vida na primeira revolução operária vitoriosa: “Eis o verdadeiro segredo: era ela, acima de tudo, um governo da classe operária; o resultado da luta entre a classe que produz e a classe que açambarca o produto desta; a forma política, enfim encontrada, sob a qual era possível realizar-se a emancipação do trabalho” [5].

O que resumimos acima em alguns parágrafos foi um processo intenso sobre o qual se debruçaram centenas de historiadores, pesquisadores, mas principalmente revolucionários que a partir das lições da Comuna de Paris repensaram as formas de se enfrentar com a burguesia para evitar a enorme derrota que sofreram os combatentes da Comuna. Dentre estes, destaca-se Louise Michel, que foi levada a julgamento pelo papel que cumpriu como uma das mais enérgicas combatentes da Comuna. O destino de milhares de combatentes, assassinados pela contra-revolução, foi o mote central da defesa de Louise Michel, que pedia o mesmo destino de seus irmãos de classe: “já que todo coração que bate pela liberdade só tem direito a um pouco de chumbo, eu peço a minha parte!” [6].

Na Comuna, era uma ardente lutadora, que sempre estava na primeira fileira ou na retaguarda, para conter os que fugiam. Combatia sem parar, inclusive procurando outros batalhões quando o seu descansava. Foi a expressão máxima da participação das mulheres na Comuna, desde a luta para igualar os direitos entre homens e mulheres, até o combate nas trincheiras. Ela vestia uma farda da guarda nacional, o que era incomum na época, já que se tratava de um traje exclusivamente masculino. No seu julgamento, foi questionada sobre isso “Parece que você usava vários trajes na Comuna. Você usou trajes de homem na Comuna?”. Ela assistiu o fuzilamento de inúmeros amigos, incluindo seu companheiro Theóphile Ferré, a quem vai dedicar o poema “Os cravos rubros” onde diz “Digam que, pelo tempo que é rápido, tudo pertence ao que está por vir. Que o dominador vil e pálido, também pode morrer como o dominado”.

Neste mesmo momento, Vitor Hugo, um dos mais famosos escritores da época, passa a trocar correspondências com Louise, e neste momento lhe dedica o poema “Viro Major”, considerado uma afronta aos repressores da Comuna. Louise passa a reivindicar, diante do fuzilamento de seus amigos e de seu companheiro, o direito de assassinato do juiz que os condenou. Mas ela foi presa em dezembro de 1871, quando então a levaram a julgamento no VI Conselho de Guerra. O relatório de seu processo demonstra como Louise era ardente e incendiária. Diante do tribunal, seguiu dedicando sua vida, e sua morte à honra da Comuna. A audiência, que ocorreu em 16 de dezembro, começava com as acusações:

“O processo de Louise Michel. Relatório da Gazette des Tribunaux. Sexto Conselho de guerra (em Versalhes). Presidência do senhor DELAPORTE, coronel da décima segunda cavalaria. Audiência de 16 de dezembro de 1871. (...) Portanto, a nossa opinião é que há motivos para julgar Louise Michel por: 1) Atentado tendo como objetivo mudar o governo; 2) Atentado tendo por objetivo incitar a guerra civil levando cidadãos a se armarem uns contra os outros; 3) Por ter, num movimento insurrecional, usado um uniforme militar, carregado armas aparentes e fazer uso delas; 4) Falsificação de documento “privado” por usurpação de identidade; 5) Uso de documento falso; 6) Cumplicidade por provocação e organização de assassinato de pessoas detidas como sendo reféns pela comuna; 7) Cumplicidade de prisões ilegais, seguidas de torturas corporais e de mortes, ajudando os autores que as cometeram. Crimes previstos pelos artigos 87, 91, 150, 151, 159, 59, 60, 302, 341, 344 do código penal e 5 da lei de 24 de maio de 1834.”

Ao ser questionada sobre o que teria a declarar em sua defesa, Louise inicia uma das mais históricas defesas em um tribunal. Começa dizendo que não quer se defender e não quer ser defendida. Que pertence inteiramente à revolução e que declara aceitar a responsabilidade de seus atos. Louise reafirma seu compromisso com a Comuna e com aqueles que deram sua vida à Comuna. Como ela dizia em seu famoso poema, “Quando a multidão hoje muda, ruja como um oceano, disposta a morrer, a Comuna surgirá”, a Comuna surgiu, sob a vida de muitos combatentes, mas sob a vida destes combatentes ficaram as lições imortais desta Comuna. Louise desafia a justiça, e todos os juízes daquele tribunal a condená-la à morte: “Vocês dizem que eu sou cúmplice da Comuna. Claro que sim, pois a Comuna queria acima de tudo a Revolução Social, e a Revolução Social é o maior dos meus desejos. Me sinto honrada em ser uma das promotoras da Comuna. (...) Tomem a minha vida se quiserem”.

Pedem novamente que fale algo em sua defesa, mas Louise mantém-se firme, e confirma todas as acusações, incluindo a de ter incendiado Paris, segundo ela para colocar uma barreira em chamas contra os invasores de Versailles. Insistem por uma defesa, e ela responde que se a deixarem viver, ela não irá parar de gritar vingança. O juiz responde “Eu não posso te dar a palavra se você continuar nesse tom!” ao que ela responde “Eu acabei! Se vocês não são covardes, me matem!”. Depois destas palavras, que causaram uma profunda emoção no auditório, o conselho se retirou para deliberar. Depois de alguns instantes, ele volta à sessão para o veredicto. Louise Michel é condenada por unanimidade a deportação para um forte. Levam a acusada e lhe dão o julgamento. Quando o escrivão diz que ela tem 24 horas para pedir uma revisão, ela grita “Não, não tem apelação! Mas eu preferia a morte”.

O emocionante julgamento de Louise Michel, uma das communards, levou-a a deportação por 20 meses. Lá, presa, recebe a visita de Paul Lafargue, também combatente. Na conversa, depois publicada por Lafargue, Louise declara:

“Não sinta pena de mim, estou mais livre do que muitos daqueles que andam ao céu aberto. Suas cabeças estão presas, estão acorrentadas por sua propriedade, por seus interesses econômicos (ou financeiros), as tristes necessidades de suas vidas. Estão absorvidos de tal maneira que não podem viver como os vivos, como seres. Da minha parte, vivo a vida do mundo. Eu sigo com entusiasmo os movimentos revolucionários da Rússia, Alemanha e França, todos os lugares. Sim, sou uma fanática, e como todos os mártires, o meu corpo não sente a dor quando os meus pensamentos me transportam para o mundo da revolução” [7]

Louise também organizou o Clube da Revolução, e lutou pela educação profissional e pela criação de orfanatos laicos, o que naquela época era uma inovação. Participou da I Internacional, onde fundou a União de Mulheres para a Defesa de Paris e a Ajuda aos Feridos. Certamente foi uma das personagens mais célebres da Comuna de Paris. Hoje, reivindicada por muitos anarquistas, a trajetória de Louise, com seus erros e acertos, deve nos levar a refletir sobre as conclusões mais profundas a que chegaram os revolucionários russos no início do século XX sobre a Comuna. Como demonstramos acima, sobre os erros cometidos que levaram a classe trabalhadora parisiense a “parar pela metade”, faltou-lhes também um partido revolucionário, que pudesse confluir com o melhor da vanguarda operária e das massas parisienses para levar a experiência da Comuna à vitória. Um erro que, talvez, fosse inevitável para a época da Comuna, quando o proletariado recém se formava como classe independente na sociedade moderna. Mas que hoje podem, com toda certeza, ser evitados, bastando para isso tirar as lições das batalhas de classe que se deram da Comuna até os nossos dias. Como na Revolução Espanhola, onde um batalhão internacional recebeu o nome de “Louise Michel” em sua homenagem, os 140 anos da Comuna devem nos fazer rememorar a experiência incendiária desta mulher e lutadora. Viva os 140 anos da Comuna de Paris.


* Diana Assunção é Diretora do Sindicato de Trabalhadores da Universidade de São Paulo (Sintusp) e dirigente da Liga Estratégia Revolucionária – Quarta Internacional (LER-QI). Fundadora do grupo de mulheres Pão e Rosas no Brasil, organizou os livros “Lutadoras – Histórias de mulheres que fizeram história” e “A precarização tem rosto de mulher”. Artigo publicado na Revista PUCVIVA da APROPUC [www.apropucsp.org.br].

[1] Leon Trotsky, Lições da Comuna.
[2] I. Boyer, Louise Michel. A Virgem Vermelha.
[3] V. I. Lenin, A Comuna de Paris.
[4] Leon Trotski, A Comuna de Paris, 2011, Edições ISKRA/Centelha Cultural, Brasília, DF
[5] “O estado e a revolução”, Vladmir I. Lenin.
[6] “O processo de Louise Michel”, do site http://enjolras.free.fr/. Tradução de Jair Urbano.
[7] “Uma visita a Louise Michel, por Paul Lafargue”, do site www.marxists.org. Tradução de Luis Siebel.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

A participação das mulheres na Comuna de Paris

Transcrevemos abaixo a exposição de Andrea D'atri na Conferência: A participação das mulheres na Comuna de Paris, realizada no Evento Nacional "140 anos da Comuna de Paris" - organizado pela Universidade Federal da Fronteira Sul - Campus Chapecó (Santa Catarina, Brasil)


Desde meados do século dezoito até meados do século dezenove, com a produção artesanal, expande na Europa, o modo de trabalho por peça, feito principalmente pelas mulheres em suas próprias casas, e desenvolve-se rapidamente a indústria têxtil.

Esta tendência à proletarização das mulheres tornou a "mulher trabalhadora” em uma figura problemática, que desafiava a idéia de feminidade de ideologia patriarcal dominante e representava um dilema entre o "dever ser" de sua feminidade e o trabalho assalariado.

Emergia assim, com a figura da "mulher trabalhadora", uma oposição antagônica entre a casa e a fábrica, a maternidade e a produtividade, os valores tradicionais e a modernidade imposta pelo capital.

A figura da "mulher trabalhadora" dá origem a um intenso debate entre aqueles que defendiam seu direito à inclusão na produção social, e as pessoas que rejeitaram essa participação com alegaçoes baseadas em posições tanto libertárias como também profundamente sexistas.

Marx e Engels entenderam que se opor a incorporação das mulheres na produção social, citando os males que traz para a sua existência, não é realista: o desenvolvimento industrial arrasa com todos os costumes e valores existentes, as mulheres e as crianças são incorporadas à produção, apesar dos conservadores moralistas e socialistas pequenoburgueses.

Portanto, ante à inevitável incorporação das mulheres na força de trabalho explorada pelo capital, exigiram a sua participação nas organizações de trabalho, nas fileiras proletárias para que não sejam só carne de exploração, mas também sujeitos conscientes na luta pela sua libertação.

Assim, apesar da oposição dos anarquistas, defenderam a organização da Secção Feminina da Associação Internacional dos Trabalhadores, liderada por Elizabeth Dimitrieff, que depois foi enviada como representante à Comuna de Paris, expressando a solidariedade do movimento operário.

Exatamente o contrário do anarquista Proudhon, também da Primeira Internacional, que expressou seus preconceitos mesquinhos quando ele considerou "fatal e estúpido todos os nossos sonhos sobre a emancipação das mulheres, e [recusou] qualquer tipo de direito e iniciativa políticos, [afirmando que] “para as mulheres , a liberdade e o bem-estar consiste apenas no casamento, na maternidade, no trabalho doméstico, na fidelidade ao marido, na castidade e na aposentadoria."

Proudhon também argumentou que as mulheres tinham apenas dois destinos possíveis: dona de casa ou prostituta e, portanto, se opôs à incorporação das mulheres na produção. Quando a costureira francesa Jeanne Deroin foi indicada como candidata nas eleições de 1849, Proudhon declaurou ela inapta em razão de que os órgãos para alimentar os bebês que possuem as mulheres, não as tornava adequadas para a votação. Jeanne Deroin respondeu a ele, pedindo que lhe mostrasse o órgão masculino que o permitia votar.

Na época da Comuna, em França, as mulheres já tinham uma longa tradição de participação em lutas revolucionárias. Em 1789, durante a grande Revolução Francesa, as mulheres da burguesia haviam assumido reivindicações políticas e de direitos civis, enquanto as mulheres em bairros pobres desempenhavam um papel importante nas manifestações contra a carestia e a fome.

Foram estas primeiras revoltas contra a fome e a participação em lutas revolucionárias que permitiram, as mulheres dos setores populares, a experiência da ação social e política coletiva, quebrando o isolamento da casa.

Junto com a critica ilustrada de um setor das mulheres burguesas e instruìdas, a uma política masculina e burguesa que excluía dos direitos civis às próprias mulheres da classe dominante, serão experiências não ocorriam em vão e isso será mostrado durante o século XIX.

Anos mais tarde, durante a Primavera dos Povos em 1848, se destaca a presença de trabalhadoras, de inspiração socialista e comunista, que reivindicam a igualdade para as mulheres associada com a emancipação de classe, com o superaçao da ordem existente.

Naquele tempo, vigorava em França o Código Civil napoleónico, um dos instrumentos burgueses mais restritivos para o status social das mulheres, uma vez que despojava as mulheres de qualquer direito, submetendo-as inteiramente ao pai ou marido. Não reconhecia as uniões consensuais e os filhos nascidos de tais relações eram considerados bastardos.

As mulheres estavam privadas do direito de voto, enquanto que as trabalhadoras sofriam ainda uma maior exploração nas condições de vida miseráveis. O código estabelecia que as mulheres eram propriedade do marido e seu papel social era unicamente o de ser mãe.

Mas essa experiência na luta de classes na França foi um fundo revolucionário para as mulheres que, em 1871, vêem na Comuna a possibilidade de conquistar uma república social com igualdade de direitos.

Como é sabido, em 1870, o imperador Napoleão III tinha arrastado o país para uma guerra contra o poderoso exército da Prússia. Quando a notícia da derrota da França chegou a Paris, o imperador abdicou e uma república foi fundada, com a criação de um governo de defesa nacional, enquanto que a Prússia iniciou o cerco da capital francesa.

Milhares de parisienses formavam, então, as milícias da Guarda Nacional, onde alguns batalhões compostos principalmente pelos trabalhadores, elegiam os seus próprios funcionários. Quando em março de 1871, a Assembléia Nacional aprova uma paz humilhante, a Guarda Nacional não aceita o desarmamento.

Em 18 de marco de 1871, as mulheres foram as primeiras a dar o alarme de que as tropas do governo tentabam retirar as armas das colinas de Montmartre e desarmar Paris. Se puseram diante das tropas e impediram que as armas fossem retiradas, chamando o proletariado e a Guarda Nacional para defender a cidade.

Assim, começou 140 anos atrás, o gesto heróico do proletariado parisiense: a Comuna de Paris. A comunarda Louise Michel relata: “Eu desci do monte, com a minha espingarda sob o casaco, gritando: Traição! Nós pensávamos morrer pela liberdade. Nos sentíamos como se nossos pés não tocassem o chão. Se morressemos, Paris haveria se erguido. De repente, vi minha mãe perto de mim e eu senti uma terrível ansiedade, inquieta, tinha chegado, e todas as mulheres estavam lá. Interpondo-se entre nós e os militares, as mulheres lançaram-se sobre os canhões e metralhadoras, os soldados permaneceram imóveis. A revolução estava feita.”

A Assembleia Nacional, antes da rebelião de seu próprio exército e do povo de Paris, mudou-se para Versalhes, a fim de submeter, de lá, a capital rebelde. A rebelião do povo de Paris estabeleceu um governo revolucionário comunal, em seguida, instou a comunidade e outras cidades francesas a seguir seu exemplo e a se unir em uma federação.

Levantando uma bandeira vermelha no mastro do conselho, o primeiro governo operario e popular da história, rapidamente decretou a separação entre Igreja e Estado, e declarou de propiedade nacional todos os bens da Igreja, a revogação de todos os funcionarios do governo, a exigência de que os parlamentares não recebessem mais do que o salário de um trabalhador; a supressão do exército regular e sua substituição pelo povo em armas, cancelou os pagamentos de aluguel e proclamou a igualdade de direitos para as mulheres. A Comuna foi um brilhante exemplo de como o proletariado pode cumprir as tarefas democráticas que a burguesía só pode declamar.

Enquanto isso, o executivo acelerou o ataque contra os rebeldes sob o olhar de aprovação dos prussianos.

A resistência da gloriosa Comuna de Paris só podia se quebrar depois de semanas de combates sangrentos, que resultou em uma atroz retaliação e custou milhares de vidas, uma das mais cruéis repressões que registra a história. Morreram mais pessoas durante a última semana de maio do que em todas as batalhas da Guerra Franco-Prussiana, e mais do que em qualquer massacre anterior da história da França.

Mulheres corajosas participaram ardentemente da Comuna, empunhando as armas, resistindo contra a tropas francesas e os prussianas, até que a derrota os impôs a morte em combate, as deportações e as execuções.

As mulheres, como sempre fizeram em todas as batalhas da história, fizeram uniformes, trataram os feridos, deram suprimentos aos soldados. Milhares de mulheres costuravam os sacos para construir barricadas.

Em suma, elas também criaram cooperativas e sindicatos, clubes políticos participaram exigindo direitos iguais e criaram suas próprias organizações como o Comitê das Mulheres de Monitoramento, o Club da Revolução Social e a União das Mulheres para a Defesa do Paris, fundada por membros da Primeira Internacional, influenciada pelo pensamento de Karl Marx.

Mas também, na Comuna, pela primeira vez, cerca de três mil mulheres trabalhavam nas fábricas de armas e munições, construíram barricadas e recolheram as armas dos mortos para continuar lutando e formaram um batalhão feminino da Guarda Nacional, composto por 120 mulheres que lutarou nas barricadas de Paris durante a última semana de resistência da Comuna, quando todos morreram em combate.

Eram trabalhadoras, mulheres de bairros pobres, pequenas comerciantes, professoras, prostitutas e "suburbanas". Estas mulheres organizaram clubes revolucionários, como o Comitê de Vigilancia das Cidadãs e a União das Mulheres para a Defesa de Paris, assim como haviam feito antes das mulheres na Revolução Francesa de 1789. Mas, ao contrário das mulheres que participaram da Grande Revolução, desta vez, as que assim quiseram contaram com as armas que os proletàrios parisienses não as negaram empunhar, como as haviam impedido os revolucionários burgueses.

No início de abril, os jornais publicaram uma chamada na qual as parisienses foram solicitadas a apoiar a luta dos seus maridos e irmãos e também pegar em armas. Foi a chamada de Elizabeth Dmitrieff, representante que a Primeira Internacional enviou a Paris; ela incitou a criar comitês de mulheres em todos os distritos para formar União das Mulheres para a defesa de Paris. Esta organização reivindicou espaço para reuniões comunitárias e dinheiro para publicar panfletos.

A União das Mulheres organizou numerosas assembleias públicas, suas comissões organizavam o fornecimento de alimentos, enviavam ambulâncias e atendiam os feridos.

Quando o governo da Comuna decretou que as oficinas abandonadas deviam se se transformar em cooperativas de trabalhadores, a União das Mulheres exigiu a participação das trabalhadoras: "União de Mulheres requer a Comissão de Trabalho e Comércio do município, organizar e distribuir novamente o trabalho das mulheres em Paris, e instruir o Comitê Central o armamento militar. No entanto, como este trabalho não é suficiente para a massa de trabalhadoras, o comitê central também exige dar as Asociaçoes Produtivas a quantidade de dinheiro necessário para restaurar as fábricas e oficinas que os burgueses deixaram e que abrangem ocupações essencialmente construídas pelas mulheres ".

Entre as mulheres do Clube da Revolução brilha o nome de Louise Michel. Ela nasceu em 1830, era filha natural de uma empregada doméstica parisiense, mas foi educada e se tornou professora. Em sua formatura, ela se recusou a jurar lealdade ao Império e foi forçada a fundar uma escola gratuita para poder ensinar. De acordo com suas convicções, apelou pela educaçao profissional e a criação de orfanatos laicos, que na época era uma inovação difícil de aceitar.

Em 21 de maio, as tropas comandadas por Versalhes, invadiram Paris dando início a Semana Sangrenta. Os testemunhos da época dizem que quando a Comuna caiu, as mulheres, furiosas com o massacre, bateram nos oficiais militares e, em seguida, se atiraram contra as paredes à espera de serem fuziladas.

A proprietária de um restaurante está sendo julgada por ter roubado uma loja de estátuas para igrejas, com o propósito de construir uma barricada. "Você usou as estátuas dos santos para levantar uma barricada?", perguntou o juiz. "Sim, é verdade. Mas as estátuas eram feitas de pedra e os que morreram eram da carne ", disse a comunarda.

Desta época data a lenda das incendiárias, embora as investigações diferem em afirmar se os incêndios que ocorreram em várias partes da cidade foram causados ​​por forças contrarevolucionarias ou se foram as mulheres que resistiram até o último dia nas barricadas as que botaram fogo em Paris, foram elas que pagaram com a deportação, prisão, e sua própria vida, passando para a história como incendiárias. A República se propôs a sufocá-las.

Em Paris, as trabalhadoras e os trabalhadores resistiram ao selvagem e vergonhoso ataque do exército comandado pela burguesia francesa, com quem colaborou o inimigo da Prússia, libertando os prisioneiros de guerra para que eles pudessem se alistar e lutar contra o proletariado francês em armas.

Mulheres e homens da burguesia, que fugiram de Paris diante do poder operario que passou a ameaçar seus privilégios de classe, trabalharam como agentes e informantes do governo repressivo.

Finalmente, quando veio a derrota dos comunardos heróicos, as mulheres da burguesia voltaram para suas casas e andaram pelas ruas de Paris, com alegria pelo retorno da "ordem", molhando, como mostraram algumas gravuras da época, as pontas de seus guarda-chuvas no sangue ainda fresco daqueles homens e mulheres que, tragicamente, tornaram-se mártires.

Louise Michel apresenta-se aos juízes, pedindo-lhes a morte. Como seus irmãos de classe, reinvindica morrer no Campo de Satory, onde, na noite de 27 de maio, milhares foram massacrados pelas tropas de Versalles. Mantém uma atitude heróica ante o tribunal, um exemplo de firmeza e convicção revolucionária, rechaçando os advogados designados, e apresentando sua defesa pessoalmente.

Perante o tribunal que a condenou, disse: "Eu pertenço inteiramente à Revolução Social. Declaro aceitar a responsabilidade por minhas ações. Devo ser excluída da sociedade e os digo a vocês para fazerem isso. Uma vez que, aparentemente, todo coração que bate por liberdade tem direito a um pouco de chumbo, exijo minha parte! Se você me deixar viver, não deixei de clamar por vingança e denunciar, em vingança dos meus irmãos, os assassinos do Comité das Graças ".

Ela acabou sendo deportada por nove anos na colónia penal de Nova Caledônia, onde ensinou os nativos a pensar em liberdade, acompanhando-os em sua rebelião contra o domínio colonial francês.

Quando retorna a Paris, é punida com seis anos de prisão por liderar uma manifestação de desempregados que acabou com as janelas quebradas de padarias e açougues. Na ocasião, ela carregava uma bandeira negra, que mais tarde foi tomada como um símbolo da luta dos anarquistas.

Retomou sua militância: em suas palestras divulgando a idéia de libertação através da revolução social; contra a pena de morte e a favor da greve geral. Entre 1890 e 1895, viveu em Londres onde ela escreveu alguns de seus poemas e de romances e suas memórias da Comuna.

Em Marselha, em 1905, enquanto proferia uma conferencia diante de uma audiência operaria, morreu ela que depois foi chamada de "A Virgem Vermelha". Uma multidão se juntou ao seu cortejo fúnebre.

Mas Louise não era a única mulher que, corajosamente, participou dos dias memoráveis ​​da Comuna de Paris. Podemos também nomear André Léo responsável pela publicação do jornal La Sociale, Beatriz Excoffon, Sophie Poirier e Anna Jaclard, da Comissão das Mulheres para Vigilancia; Marie-Catherine Rigissart, que comandou um batalhão de mulheres, Adelaide Valentin, que chegou ao posto de coronel, e Louise Neckebecker, capitã de companhia, Nathalie Lemel, Aline Jacquier, Marcelle Tinayre, Otavine Tardif e Blanche Lefebvre, fundadoras da União das Mulheres, Josephine Courbois, conhecida como a rainha das barricadas.

Como não é difícil avaliar, a unidade com as mulheres burguesas era impossível nas barricadas. Duas classes se confrontavam abertamente e as mulheres se alinharam de acordo com seus interesses de classe para os dois lados da linha de fogo. 

É que no século XIX, as contradições que surgiram no começo durante o século anterior, são exibidos em todas as suas dimensões. O proletariado faz a sua entrada na história como uma classe distinta que se rebela contra a exploração brutal do capital. Como e evidenciado por estas lutas, incluindo centenas de greves, passeatas, sabotagem e revoltas do movimento operário do século XIX, a história do século XX é o colapso daquele frente unica entre burgueses e proletários, que tinham lutado contra o clero e aristocracia constituemdo os estados capitalistas modernos.


O proletariado, que tinha sido aliado da burguesia contra o absolutismo feudal, tornou-se abertamente em potencial inimigo. A burguesia, intimidada pelo medo que inspira o proletariado em armas, agora é impotente para realizar sua missão histórica.

Essa rejeição contra as massas transformou-se em rios de sangue na Comuna de Paris, e não havia como voltar atrás. Neste novo período histórico, como é observado por várias autoras, tanto nas lutas e nas novas formas de organização social, as mulheres trabalhadoras e dos setores populares foram uma vanguarda importante entre as massas que "empurram para a frente "em uma luta que as enfrentava com outras mulheres que haviam sido, outrora, as suas aliadas.

É a acentuação do antagonismo de classe que a frente da luta das mulheres por seus direitos é dividida em duas grandes tendências. Enquanto as mulheres que pertenciam às classes dominantes continuam a se rebelar contra a desigualdade de direitos formais em relação aos homens da mesma classe, mas apenas raramente em solidariedade com as mulheres das classes mais baixas, as mulheres da classe trabalhadora e dos setores populares, empurram fundamentalmente, as lutas da sua classe pelo seus direitos e, neste contexto, reivindicam seus direitos como mulheres.

A significativa participação das mulheres na Comuna de Paris, revolucionou o movimento operário francês, que deixou sua marca antifeminista proudhoniana e começou a ter uma atitude mais aberta com as mulheres politicamente ativas da classe trabalhadora.

Ante cada revolta da classe trabalhadora, em todos os acontecimentos da luta de classes e em todas as partes do mundo, sempre que os explorados enfrentam a opressão, as mulheres ocupam um lugar de vanguarda, como tem fizeram na Comuna de París. É que, tal como dizia o revolucionário Leon Trotsky, quem mais sofreram com o velho são aqueles que lutam com mais fervor pelo novo. Ou, nas palavras da comunarda Louise Michel: "Cuidado com as mulheres quando se sentem enojadas de tudo o que as rodeia e se levantam contra o velho mundo. Nesse dia nascerá o novo mundo."