sábado, 3 de julho de 2010

Greve da USP: Seus filhos não têm creche, nossos filhos passam fome

Por Diana Assunção da Secretaria de Mulheres do SINTUSP, dirigente da LER-QI e impulsionadora do Pão e Rosas.

Essa semana, os principais jornais da burguesia brasileira amanheceram escandalizados com um acontecimento que, segundo eles, era de enorme crueldade: o piquete da Creche Central da Universidade de São Paulo. Votado em assembléia dos trabalhadores e trabalhadoras da Coordenaria de Assistência Social da USP (COSEAS), da qual a Creche Central é integrante, o piquete foi uma ferramenta de defesa dos trabalhadores que haviam tido seus dias em greve descontados dos salários, numa atitude arbitrária por parte da Reitoria. Além disso, é preciso ressaltar que os piquetes fazem parte do direito de greve, sendo utilizados para impedir que a universidade funcione, e no caso da Creche Central impedir que a própria creche funcione. A maioria dos trabalhadores da COSEAS optou por este piquete para dar continuidade a nossa dura greve, e isso se trata, portanto, de democracia operária. Eram trabalhadores e estudantes, em sua grande maioria mulheres, que permaneceram em frente à Creche Central segurando cartazes que diziam “Abaixo o corte de salários!”. Do outro lado, se aproximavam pais e mães com suas crianças, prontos para se enfrentar com estes trabalhadores que se defendiam dos ataques da Reitoria e do governo. Quem estava dirigindo esta afronta ao movimento grevista era o presidente da APEF, oficialmente conhecida como Associação de Pais e Funcionários, e vulgarmente conhecida como Associação de Pressão aos Funcionários.

Mas grande parte deste setor que se mostrou escandalizado com o piquete na Creche Central não ficou nenhum pouco escandalizado com o fato de que mais de 1.600 trabalhadores, que tem por trás mais 1.600 famílias, terem seus dias cortados, o que significa consequentemente que passaram o mês sem dinheiro para se alimentar, comprar remédios, pagar suas contas, e inclusive utilizar transporte para levar seus filhos até a creche. Muitos dizem que existem “serviço essenciais” para o funcionamento da universidade, e que uma delas seria a creche. Mas por acaso alguém já parou para se perguntar se o salário não seria essencial para a existência dos trabalhadores? Vale ressaltar também que todos os pais que levaram seus filhos na creche no primeiro dia do piquete, são em sua grande maioria fura-greves que não estão nenhum pouco preocupados com os rumos da universidade, nem com os direitos dos trabalhadores e muito menos com os filhos dos outros. Estão preocupados apenas com os seus filhos. Como disse um professor da USP que tentou se atirar contra o piquete usando como escudo seus dois filhos “Eu mando na USP, tenho voto no Conselho Universitário”. A discussão, portanto, deve abordar esta contradição, se a crueldade está por parte dos que defendem a universidade e seus salários, ou por parte daqueles que, muitas vezes com o silêncio típico de quem fura a greve, acabam legitimando o ataque desferido pela Reitoria contra os trabalhadores.

A creche é uma conquista de greve

A fúria destes pais, assim como do Reitor, do governador de São Paulo, de colunistas das revistas mais reacionárias do país, entre outros, é uma das expressões da reacionária campanha contra o direito de greve legitimada pelo presidente Lula com suas afirmações de que “sim, deve-se cortar o ponto dos funcionários em greve”. O artigo publicado na Folha de São Paulo que relatava a quantidade de dias em greve durante os últimos anos na USP não relatou, ao mesmo tempo, a quantidade de benefícios que foram conquistados pelos trabalhadores da USP. Obviamente porque isso seria legitimar a greve como método de luta. Também por isso que hoje muitos dos pais que estão escandalizados com a greve de funcionários que se utiliza dos métodos combativos da classe trabalhadora (como piquetes e ocupações) querem apagar a história do movimento grevista na USP, que arrancou da Reitoria e do governo muitas conquistas, incluindo o direito à creche para trabalhadores, estudantes e professores.

A Creche Oeste da USP, por exemplo, foi fruto de muita luta das trabalhadoras, tendo sua origem se tornado muito conhecida pelas passeatas de mães trabalhadoras com seus bebês no colo. Conforme estudo sobre o tema “(...) as creches implantadas nas universidades públicas paulistas têm em comum o fato de se originarem a partir de uma mesma motivação - a movimentação dos funcionários em prol de atendimento para seus filhos durante sua jornada de trabalho na universidade, pautando o atendimento na figura da mulher que trabalha fora de casa, especificamente, da servidora pública” [1]. Ainda assim, nem todas as crianças da comunidade universitária têm direito à creche por falta de vagas e espaço, e nem todos os campi da Universidade oferecem este direito das trabalhadoras e trabalhadores.

Ao mesmo tempo em que deve-se resgatar o melhor da tradição das mulheres trabalhadoras que arrancaram do governo e dos patrões o direito à creche, devemos avançar pra que nenhuma criança fique sem creche. Lutar pela ampliação do atendimento em diferentes turnos, com mais contratação de funcionárias e funcionários para dar conta da real demanda que existe na Universidade. E devemos exigir que seja o Estado, no nosso caso a Reitoria, que garanta este serviço essencial para a vida das trabalhadoras, que é o cuidado com as crianças, muitas vezes incluído como tarefa natural das mulheres, configurando-se como parte da dupla jornada que oprime e explora ainda mais as mulheres trabalhadoras.

Viva a luta das trabalhadoras e trabalhadores das creches

É por tudo isso que diante da campanha reacionária na mídia contra as trabalhadoras e trabalhadores das creches da USP e contra o SINTUSP, devemos organizar desde já a nossa campanha em defesa destas lutadoras e lutadores das Creches, que estiveram na linha de frente das últimas lutas. Querendo ou não, esta greve, a ocupação da Reitoria, o piquete na Creche Central e a possibilidade de piquete no CCE, junto a organização desde a base dos trabalhadores e trabalhadoras da USP e o apoio de um setor de estudantes, professores e intelectuais foi o que permitiu o recuo da Reitoria e do Governo Estadual em relação ao corte de ponto, reforçando a legitimidade de nossa luta. Ainda que o acordo de final de greve diga que não haverá punição aos que exerceram o direito de greve, sabemos que Rodas já prepara seu plano de ataques a toda a vanguarda combativa que protagonizou esta greve. Por isso, nas Creches, não vamos aceitar nenhum tipo de perseguição nem assédio moral por parte de pais e das chefias. Por uma campanha em defesa das lutadoras e lutadores das Creches e em defesa do direito de greve! Abaixo o assédio moral às trabalhadoras! Ampliação de espaço, mais contratações e mais vagas nas creches para atender todas as crianças da comunidade universitária! Abaixo à dupla jornada! Viva a luta das Creches da USP!

[1] Histórico da implementação de creches nas Universidades Públicas Estaduais Paulistas: USP, Unicamp e Unesp

2 comentários:

nous disse...

Parabéns pelo texto!
Obrigada pelo apoio :)
Ana Helena

Thiago G. S. Freires disse...

Texto muito elucidativo!
Importante (re)afirmar que o serviço brevemente interrompido foi conquistado com interrupções, promovidas pelo mesmo movimento de greve.