domingo, 21 de julho de 2013

Papa e vaticano, tirem as mãos de nossos corpos!



          Por Livia Barbosa e Marie C.




No último dia 11 de julho, a classe operária protagonizou um importante dia nacional de atos e protestos, com cortes de ruas e paralisações. O dia nacional de lutas marcou sua entrada em cena, após um mês de intensas mobilizações de massas, que balançaram a estrutura do governo questionando a crescente precarização da saúde, da educação, do transporte e das condições de vida da população, além dos gastos exorbitantes do Estado para os mega eventos que o Brasil sediará. O governo do PT e a própria Dilma enfrentam as inúmeras reivindicações da população, em meio ao país que prometia ser a potência e oferecer a alternativa da crise que se abriu em 2008, já que continua com a taxa de desemprego em 5,8%. Não sabem como responder ao sentimento que os trabalhadores e o povo voltam a ter de que é preciso lutar e é possível vencer. Depois da tentativa clara de desvio das mobilizações com a proposta de um plebiscito nacional por uma reforma política, a presidente foi obrigada a se pronunciar, alegando que “ouve a voz das ruas” e que as manifestações são legítimas. Nada disso foi sem repressão.

É nesse cenário nacional que nos próximos dias Dilma receberá de braços abertos o Papa argentino Jorge Bergoglio, de “mãos dadas” com Cristina Kirchner e Sebastian Piñera (mestres em reprimir as recentes mobilizações na Argentina e Chile e que também seguem proibindo o aborto enquanto milhares de mulheres morrem diariamente). Este Papa tão bem recebido pelo governo brasileiro foi aliado da sanguinária ditadura argentina, inclusive entregando militantes de esquerda e membros da própria Igreja que se colocavam contra ao Estado, e hoje expressa o auge da hipocrisia e da contradição, ao dizer que apoia as manifestações da população, desde uma instituição que possui banco cuja fortuna é avaliada em 6 bi. Assim, espera-se milhares de jovens que chegam ao Rio de Janeiro para a Jornada Mundial da Juventude, evento organizado pela Igreja Católica e os governos federal e local.

Apesar da hipocrisia do Estado em se dizer laico, sabemos que a igreja é um dos pilares fundamentais que sustentam o sistema capitalista e prova disso é que os governos federal, estadual e municipal terão nada menos que R$ 118 milhões dos cofres públicos gastos com a visita papal, e segundo o próprio governo, a igreja deve arrecadar no mínimo cerca de R$140 milhões com as taxas de inscrições de “seus fiéis”! Uma das perguntas que temos que nos fazer é pra onde vai toda essa fortuna? Irão para os cofres da igreja católica e o modo de vida altamente suntuoso dos padres e bispos? Estes que hipocritamente discursam em nome da “justiça social” e contra a miséria e pobreza no mundo enquanto sequer trabalham, mantêm um grande contingente de padres pedófilos e vivem banhados em ouro!  

Tanto a FIFA, quanto o Vaticano, após a maior mobilização da juventude das últimas décadas, que denunciavam a precariedade dos serviços públicos e condições de vida, vem ao Brasil pra realizar mega eventos, bancados a milhões pelo Estado brasileiro, enquanto as condições de vida da população não se alteram. Não à toa, até mesmo o Papa tem que dizer que são “justas” as reivindicações do povo brasileiro, querendo inclusive se colocar como “parte” desta mobilização. Nada mais hipócrita.
Como não podia deixar de ser, Dilma, Cabral e Paes organizaram um absurdo efetivo policial destacado para manter a ordem burguesa e reprimir as manifestações que irão acontecer nos próximos dias no Rio de Janeiro. Oficialmente, o “trabalho” da polícia na repressão das mobilizações de julho já contabiliza 15 mortos, dos quais 13 foram assassinados no Complexo da Maré, no próprio Rio de Janeiro. A cidade que já antes se encontrava militarizada por conta dos grandes eventos que o Rio já começa a sediar, contará com mais de 14 mil policiais e militares, incluindo as Forças Armadas e soldados à paisana. Isso é expressão de como o Estado, o Vaticano, e as megaempresas contratadas para o evento se armam até os dentes para garantir seus lucros enquanto a população sequer tem acesso a condições básicas de vida.

O atrelamento do governo brasileiro à igreja católica não é de hoje. Em 2008 foi reafirmado o Acordo Brasil Vaticano, que concede à instituição a isenção fiscal e determina que todas as escolas públicas garantam ensino religioso como extra-classe, combatendo o caráter laico do estado e da educação. Além disso, a “Carta ao Povo de Deus”, dirigida à população evangélica antes de sua eleição, marca Dilma rifando os direitos das mulheres e dxs LGTTBIs em troca de bases aliadas e mais influência em áreas mais valiosas para seu partido.

No último período, Dilma chegou ao nível absurdo de ser conivente com a entrada na presidência da Comissão dos Direitos Humanos (CDH) de um dos mais asquerosos e reacionários representantes da bancada evangélica, o deputado federal e pastor Marco Feliciano (PSC-SP) que tem um vasto histórico de declarações homofóbicas e racistas e é um dos maiores entusiastas dos projetos de lei “Estatuto do Nascituro” e “Cura Gay”. Nesses últimos dias, mais um escandaloso ataque aos direitos das mulheres surgiu por parte da Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que exige que Dilma vete um projeto que regulamenta o atendimento emergencial às mulheres vítimas de violência sexual, impedindo assim que essas tenham acesso a profilaxia, ou seja, medicamentos contra doenças sexualmente transmissíveis, coquetéis anti-HIV, pílula do dia seguinte  e tratamento psicológico. Isso é um brutal ataque aos direitos humanos, e aos direitos das mulheres!

Essa é só mais uma prova de que para a igreja e esses setores ultra reacionários não importa que milhares de mulheres morram em decorrência de abortos clandestinos anualmente, que sejam violentadas e impedidas de terem cuidado médico ou obrigadas a carregarem em seus corpos um fruto de uma brutal violência como é o estupro! As mulheres seguem sem direitos para decidirem sobre seu próprio corpo! Seguem sendo condenadas a morte por um Estado que lhes tira o direito da autonomia de decisão e por uma Igreja que quer obrigar a tê-los mesmo fruto de uma violência!
Respeitamos as mulheres, os trabalhadores e a juventude em sua decisão religiosa mas denunciamos fortemente a igreja, o Papa e o Vaticano que vivem no luxo às custas da fé da população pobre e trabalhadora. Não devemos ter nenhuma confiança em um Estado que gasta milhões para a vinda de um representante de uma igreja manchada de sangue, que dirige diversos ataques à juventude, aos trabalhadores e condena as religiões africanas! Que excomunga uma família por terem lutado pelo direito ao aborto de uma criança de apenas 9 anos estuprada em Pernambuco como aconteceu em 2009! Um representante responsável por perseguições políticas e aliado da ditadura argentina, que se refere a relações homossexuais como "obras do demônio"! Não se pode confiar na instituição que condena milhares de mulheres à morte por abortos clandestinos! Não se pode confiar na instituição que condena ao suicídio milhares de LGTTBIs!

Fora Papa e Vaticano! Tirem as mãos de nossos corpos! Separação da Igreja do Estado! Fim do acordo Brasil-Vaticano!

Basta de mulheres mortas por aborto clandestino! Educação sexual em todos os níveis escolares, distribuição de métodos contraceptivos de qualidade pelo Estado e direito ao aborto legal, seguro e gratuito!

Fora Feliciano e toda a Comissão de Direitos Humanos da Câmara! Arquivamento do Estatuto do Nascituro (Bolsa-Estupro) e da “Cura-gay”!

Expropriação de toda a riqueza das Igrejas Evangélica e Católicas! Destinar este dinheiro e os R$ 188 milhões para educação, saúde e transporte gratuito e de qualidade! Basta de pri

vilégios aos padres, que comecem a trabalhar! Punição aos padres pedófilos!

Basta de assassinatos de homossexuais, travestis, transexuais! Pela livre determinação dos corpos e construção física livre de gênero!

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Todxs às ruas nesse 11 de julho para lutarmos por nossos direitos!

                                        
 
Por Pão e Rosas Campinas

Nesses últimos 10 anos de governo e Lula e Dilma, o que avançou de fato foi o Brasil PRECÁRIO, da criação de empregos terceirizados, que mais contratam mulheres pobres e negras, sob condições precárias e que ainda dividem xs trabalhadores em efetivos e terceirizados, quando não causam as centenas de mortes no trabalho todos os anos sem os direitos básicos garantidos. Este foi o avanço petista em empregos e que manteve xs travestis e transexuais marginalizadxs a ele. Continuamos às ruas para denunciarmos que ainda persiste a precariedade dos serviços públicos de saúde, transporte e educação, que não garantem as mulheres e LGBTTI´s uma vida digna de fato. Agora Dilma e os políticos parasitas e corruptos do Congresso que governam para os ricos, os capitalistas e o imperialismo, querem passar, além dos ataques aos nossos direitos democráticos, mais um ataque brutal a classe trabalhadora: a terceirização para todos os níveis de trabalho! BASTA de trabalho precário e semiescravo que tem rosto de mulher, pelo fim da terceirização e pela efetivação de todxs xs terceirizadxs sem concurso! 

É preciso que estejamos nas ruas junto aos trabalhadores e a juventude e que nos façamos ouvir nesse dia 11 de julho, com um grande grito de BASTA às mortes por aborto clandestino e de homossexuais e mulheres no Brasil, de BASTA à “cura gay” e ao “estatuto do nascituro (bolsa estupro)”. Dilma faz dos nossos direitos moedas de troca e os entrega a fundamentalistas religiosos, cujas doutrinas não devem fazer parte da política! Defendemos toda a liberdade religiosa e isso só pode acontecer com um Estado laico! BASTA de rosários em nossos ovários e BASTA de ilusões em um governo que não quer, nem pode responder aos nossos anseios! BASTA de travestis e transexuais terem como única forma de trabalho a prostituição! Temos de tomar as mulheres indianas como exemplos, sermos milhares nas ruas contra a violência do Estado que proíbe o aborto, vamos arrancar nosso direito à vida! 

A luta das mulheres e LGBTTI´s deve ser uma bandeira de toda a classe trabalhadora que não pode se desligar das demandas legítimas de luta levantadas pelas centrais sindicais, por melhores condições de vida, transporte, salários dignos, saúde e educação. Por isso, a partir do PÃO E ROSAS, fazemos um chamado a todas as mulheres e LGBTTI´s a comporem ativamente, desde seus locais de trabalho e estudo, os atos, atividades e paralisações nessa quinta feira de luta classista, que deve marcar a entrada em cena da classe trabalhadora e suas organizações nas maiores mobilizações de massas do Brasil nos últimos 20 anos. Essa é a única classe, que para nós, é capaz de fazer avançar nossas demandas, junto à juventude, para arrancarmos todos os nossos direitos e superarmos a miséria desse sistema que nos oprime e explora! 

Pelo FIM da Terceirização! EFETIVAÇÃO de todxs xs tercerizadxs sem concurso ou processo seletivo! Pelo arquivamento imediato da PL 4330/04! Por trabalho igual, salário igual e direitos iguais!

Basta de mulheres mortas por aborto clandestino! Pela Livre Determinação Dos Corpos: Pela Legalização do aborto! Por educação sexual para decidir, contraceptivos gratuitos para não abortar, aborto legal, livre, seguro e gratuito para não morrer! Pela livre construção física de gênero!

FORA FELICIANO! Fora fundamentalistas religiosos! Pela retirada imediata do Estatuto do Nascituro e da “Cura Gay”! Pelo Estado laico!


No vai-e-vem da Cura Gay não deixaremos passar mais nenhum ataque às mulheres e LGBTTIs

Por Rita Frau e Virginia Guitzel, 
militantes do Pão e Rosas, grupo de mulheres e diversidade sexual


Há apenas duas semanas o Brasil vivenciou o maior levante de juventude desde 1992 com o Fora Collor. A juventude recuperou a confiança em suas próprias forças, com corações e mentes nas ruas, levando diversas bandeiras progressistas sentidas pelo conjunto da sociedade como o direito ao transporte público, à educação e à saúde e bandeiras em dialogo com a necessidade de garantir direitos iguais para todos.

(Ato Conta a Cura Gay em SP 26.06)
No dia 18 de Junho, enquanto centenas de milhares foram às ruas, aprovou-se na Comissão de Direitos Humanos e Minorias, presidida pelo homofóbico e racista Marco Feliciano (PSC), o projeto mais conhecido como “Cura Gay”, apresentado pelo deputado João Campos (PSDB/GO), que visava suprimir um dos trechos da resolução do CFP (Conselho Federal de Psicologia) que proíbe os profissionais da área de participar de terapia para alterar a orientação sexual e de atribuir caráter patológico (de doença) à homossexualidade. Entendendo que a homossexualidade é uma variedade da sexualidade humana, o CFP definiu (em 1999) que ela não poderia ser considerada como condição patológica, o que norteou a resolução até então vigente.

Diante das manifestações, atos e repúdio nas mídias alternativas contra este ataque brutal aos homossexuais, no dia 2 de julho, o próprio João Campos, presidente também da Frente Parlamentar Evangélica, retrocedeu em manter o projeto que iria para a Comissão de Constituição de Justiça, se depararia com o CFP, e retirou o projeto de lei da Câmara. O deputado usou a desculpa que não queria que o projeto “desviasse o foco dos protestos”. Este recuo é um importantíssimo fruto das manifestações que também levaram a bandeira contra a “Cura a Gay”, pelo “Fora Feliciano!” e contra a homofobia para as ruas, reafirmando a necessidade de lutarmos por nossos direitos nas ruas. Porém, não podemos nos enganar que a bancada evangélica e católica não está reorganizando um contra-ataque para reapresentar o projeto, e ainda mantém o Feliciano na comissão de direitos humanos e a tentativa de fazer passar o Estatuto do Nascituro, que é uma violência contra as mulheres. A retirada do “Cura Gay” de tramitação neste momento não exclui seu retorno em 2014, pois se fosse levado à votação e fosse rejeitado, só poderia voltar novamente apenas em 2015. Já está sendo apresentado pelo deputado pernambucano Anderson Ferreira (PR-PE), um novo projeto “Cura Gay”, em menos de 24 horas que foi arquivado o projeto de João Campos. É fundamental irmos por mais nas ruas e fazermos Feliciano cair da CDHM e barrar o Estatuto do Nascituro! Temos que barrar todos os ataques às mulheres e LGBTTIs!


Ato Contra ao Estatuto do Nascituro em São Paulo (15/06)

Apesar do discurso, Dilma e o PT são responsáveis 


Apesar de seu demagógico discurso com as mulheres, homossexuais e negros, o governo Dilma mantém alianças espúrias com as bancadas evangélicas e católicas e nos ataca e precariza ainda mais a vida dos LGTTBIs, das mulheres e dos negro/as que ocupam os piores postos de trabalho (terceirização), enquanto para as travestis e transexuais são empurradas à prostituição: a violência intensa de vender o próprio corpo para subsistir.


Ato contra a "Cura Gay" em Campinas (27/06)
É de inteira responsabilidade do PT e de suas alianças que esses ataques que cerceiam nossos direitos democráticos tenham se aprofundado. Dilma permitiu que Feliciano ocupasse a presidência da Comissão de Direitos Humanos e até hoje não se pronunciou sobre o Estatuto do Nascituro. E ainda mantém o Acordo Brasil-Vaticano assinado por Lula em 2008, que garante isenção de impostos à Igreja e ensino religioso nas escolas. Enquanto isso criminaliza 1 milhão de mulheres que continuam obrigadas a realizar abortos clandestinos no país, sendo a maioria de maneira precária levando-as à morte.

E a violência contra homossexuais segue, com muitos espancados diariamente. O Brasil é considerado o país mais homofóbico do mundo, onde ocorre 44% dos assassinatos no mundo contra homossexuais. E nos últimos 7 anos, o número de assassinatos aumentaram em 117%. Muitas dessas mortes são advindas diretamente da polícia mostrando que segue a tradição dos tempos da ditadura militar em que a policia se organizava para promover assassinatos e ataques a travestis e transexuais. 

Para arrancarmos nossos direitos é necessário romper com o governo Dilma que está do lado de seus aliados reacionários e não das mulheres, negros e homossexuais. 

O discurso do Papa que encobre a violência contra as mulheres e homossexuais 


É neste contexto que este mês chegará ao Brasil o Papa Franscico, para a Jornada Mundial da Juventude (RJ), que custará 118 milhões [1] pagos pelos bancos públicos, com apoio dos governos municipal e do estado do RJ (Cabral e Eduardo Paes) e do governo Dilma, que colocarão um forte aparato repressivo para “proteger” o papa, o que significará mais repressão ao povo pobre e negro. O ministro Gilberto Carvalho chegou a dizer que a vinda do papa será uma “purificação” combinada com a boa energia que está nas manifestações nas ruas. Tudo isso para encobrir o caráter anti-governista das manifestações, por demandas sociais como saúde e educação e contra os partidos da ordem.

Ato 28 de Junho, abertura do Encontro LGBT
há 44 anos da revolta de Stone Wall Inn.

Antes mesmo de sua chegada o papa faz um discurso reivindicando as manifestações da juventude por demandas sociais, mas este mesmo discurso hipócrita acoberta essa mesma Igreja que legitima a violência contra milhares de mulheres que morrem por abortos clandestinos e afirma que um “estupro é um crime menor do que um aborto”, e junto à bancada evangélica, a todo custo quer aprovar o brutal ataque contra as mulheres chamado Estatuto do Nascituro. Os arcebispos que estão preparando a chegada do papa soltaram uma nota através da CNBB dizendo que as manifestações “sustentam-se na justa e necessária reivindicação de políticas públicas para todos. Gritam contra a corrupção, a impunidade e a falta de transparência na gestão pública. Denunciam a violência contra a juventude”. Mas acobertam que milhares de padres da Igreja católica e pastores evangélicos estão impunes dos crimes de pedofilia e violência sexual contra homens, mulheres e adolescentes e que padres também estão envolvidos em esquema de corrupção e recebem dinheiro do Estado através das isenções de impostos para as Igrejas católicas.


Arquivamento do Estatuto do Nascituro Já! 

Ato contra o Estatuto do Nascituro no Rio de Janeiro (15.06)
As manifestações conquistaram o recuo em relação à Cura Gay, por isso agora é necessário mostrarmos nossas forças e impor o arquivamento do Estatuto do Nascituro. Mais conhecido como “bolsa estupro”, aprovado em 05 de junho na Comissão de Finanças e Tributação, tem como objetivo dar posse ao Estado, às instituições religiosas e até aos estupradores do os corpos e da vida das mulheres, tendo um peso jamais visto na história do Brasil. Esse Estatuto, que oferece direitos e privilégios de cidadão ao óvulo fecundado, e estabelece que o aborto seja criminalizado inclusive nas situações em que é legalizado como no caso de gravidez decorrente de estupro e risco de vida da gestante, e na situação de feto anencéfalo, proibindo inclusive o uso da chamada “pílula do dia seguinte”.

Assim ignorando a 4º maior causa de morte das mulheres no Brasil por abortos clandestinos, que na sua grande maioria são mulheres pobres, negras e trabalhadoras, ainda propõe que além de seguir a gravidez contra a sua vontade, as mulheres convivam com os estupradores, tendo estes de pagar pensão até os 18 anos desse filho gerado fruto de uma violência. Permitindo que centenas de mulheres, inclusive lésbicas que sofrem com estupros corretivos por todo país, fiquem refém do estuprador, e caso este não seja reconhecido, do Estado (se responsabilizando pela bolsa-estupro). Esta absurda tortura às mulheres é um grande ataque para minar ainda mais a luta pelo direito ao aborto no país, que nos é negado pelo governo Dilma, Igreja, governos e o Estado e faz com que milhares de mulheres morram todos os anos na clandestinidade. 

Fortalecer o movimento pelo FORA FELICIANO! e pelo ARQUIVAMENTO DO ESTATUTO DO NASCITURO 


Neste dia 11 de julho, é necessário que seja parte das bandeiras da classe trabalhadora a luta contra a opressão com independência dos governos, do Estado, dos patrões, reivindicando o arquivamento do Estatuto do Nascituro, o Fora Feliciano e a legalização do aborto. Devemos unificar as demandas mais sentidas pela sociedade junto ao combate à exploração e à opressão. É fundamental que a juventude, as centrais sindicais, sindicatos, entidades estudantis, grupos de mulheres e diversidade sexual e de direitos humanos, levantemos as bandeiras dos setores mais oprimidos e voltemos para nossos locais de trabalho e estudo para elaborarmos um plano de luta para sairmos às ruas e arrancarmos nossos direitos!


Ato Contra a "Cura gay" em São Paulo (26/06)
Precisamos avançar e garantir a liberdade sobre nossa sexualidade e nossas identidades de gênero. Assim impor o arquivamento do Estatuto do Nascituro e arrancar a legalização do aborto. Levando a frente o FORA FELICIANO e a revogação de todos os membros da Comissão de Direitos Humanos que votaram a favor do projeto da Cura Gay, e a garantia de um Estado verdadeiramente Laico que rompa suas relações promiscuas com as instituições religiosas. Sem permitir nenhum projeto que ataque ou faça retroceder nossos direitos! 







Educação, precarização e opressão às mulheres


Por Julia Borges, professora do estado de SP na ZO, capital

No mês de maio estive presente representando o Grupo de Mulheres e Diversidade Sexual Pão e Rosas e a agrupação Professores Pela Base no 2º Encontro de Pedagogia da PUC – SP. Com o tema “A condição da mulher no mundo contemporâneo”. A discussão foi aberta pela Professora Priscila, do curso de Pedagogia e representante da APROPUC, que colocou todo um panorama histórico do surgimento da opressão à mulher intrinsecamente relacionada com o surgimento da propriedade privada, e de como o capitalismo se apropriou da situação de opressão já sofrida, obrigando as mulheres a estar sempre nos mais precarizados postos de trabalho, com os piores salários, sofrendo frequentes humilhações, cumprindo mais de uma jornada , tanto no trabalho como em casa, colocando que a única saída para o fim de toda a opressão à mulher é a emancipação da classe trabalhadora e o fim da sociedade capitalista, que se organiza de tal forma que a as opressões, às mulheres, os negros e aos homossexuais sejam pilares da ideologia que sustenta esse sistema de exploração, que somente a classe trabalhadora organizada é capaz de colocar abaixo.

Nós do Pão e Rosas, que estivemos compondo a mesa do encontro, também achamos que a plena emancipação da mulher só vai se dar com a derrubada do capitalismo e lutamos ao lado da classe trabalhadora. Hoje, vivemos num país onde temos uma mulher no poder, e onde nossos direitos continuam sendo rifados e usados como moedas de troca de um governo que precariza o trabalho, implementa por meio da terceirização em massa dos postos de trabalho, onde a maioria quem ocupa são mulheres e negras, a precarização da vida, com salários irrisórios, nenhum acesso aos direitos mais básicos conquistados pelos trabalhadores, total fragilidade nos contratos de trabalho, dividindo e humilhando a classe trabalhadora, que continua proibindo o aborto, sendo o responsável por milhares de mulheres trabalhadoras que morrem por abortos clandestinos, onde não temos o direito de exercer livremente nossa sexualidade e que nossa igualdade perante os homens é somente jurídica e não se dá na prática.

Ligado a isso falamos um pouco do livro “ A precarização tem rosto de mulher” que conta a historia de luta de trabalhadoras terceirizadas da limpeza da USP, que sofrem todos os tipos de opressões diariamente e que deram exemplo de luta  pelos seus salários e pelos seus direitos.  Um ótimo exemplo para ilustrar a discussão sobre ao precarização de trabalhos feitos pelas mulheres e por como as mesmas podem se levantar contra esse sistema, as trabalhadoras retratadas nos livros, dão exemplos não apenas por exigirem seus salários, mas sim por lutar contra o machismo que sofrem em suas casas e contra todo esse sistema de trabalho que coloca a mulher cada vez mais como maior alvo de opressão.

Outro ponto é que nos meses de abril e maio, professores do Estado de São Paulo se colocaram em luta numa greve contra as péssimas condições de trabalho e os ataques do governo do Estado aos professores e à educação pública, que se torna cada dia mais precária. A categoria de professores é formada ainda, em sua maioria, por mulheres, que levam duplas e triplas jornadas de trabalho, que para conseguirem se sustentar e sustentar suas famílias com o salário que recebem os professores, tem que se desdobrar dando aulas em diversas escolas, nos três períodos e ainda ao chegarem em casa enfrentam mais um jornada de trabalho com suas tarefas domesticas. Nessa greve os professores mais precários, os categoria O, tomaram a linha de frente dessa mobilização, se enfrentando com a burocracia sindical traidora que enterrou a nossa greve e diretamente com o a polícia, que ao lado da burocracia, reprimiu os professores em sua última assembleia. Essa greve e o protagonismo dessas professoras ficam como um exemplo para aqueles que estão estudando a educação e buscam perspectivas para muda-las. Durante toda a mobilização, a agrupação Professores Pela Base colocou como somente da união entre professores, estudantes, funcionários e comunidade é capaz de somar forças para derrotar os ataques à educação, estivemos atuando não só dentro das pautas da greve, mas denunciando também a precarização geral na educação, de como o exclui a classe trabalhadora das escolas e da universidade, de como o sucateamento do ensino acontece e de como esses fatores tornam nosso trabalho e o ensino cada vez mais precarizados. Lutamos também pelo fim da categoria O, para que os direitos sejam iguais a todos os professores, que exercem a mesma função e foram essas reflexões que buscamos passar também no 2º encontro de Pedagogia da PUC, buscando contribuir com experiência concretas para a reflexão dos alunos. E mostrando como a opressão e exploração à mulher trabalhadora também está fortemente presente na categoria de professores. 

As mulheres trabalhadoras dão, em todo mundo, exemplos de mobilização e de luta pelos seus direitos. Na Índia milhares saem às ruas contra a violência, no Egito tomaram a linha de frente da Primavera Árabe, no Chile em defesa da educação pública, gratuita e de qualidade.  Esses exemplos dessas mulheres, por dentro dos exemplos da luta de classes, que devem ser seguidos por àquelas que buscam a emancipação da mulher e entendem que, não são os homens os nossos inimigos, mas a burguesia e os patrões que exploram e dividem a classe trabalhadora. Assim, como disse profª Priscilla em sua intervenção, nós do Pão e Rosas acreditamos e lutamos pela total emancipação das mulheres, mas da classe trabalhadora de conjunto, e por isso lutamos pelo fim do capitalismo que sustenta essa opressão.




quarta-feira, 3 de julho de 2013

A educação política das mulheres invisíveis

Por Taynara Marques

Meu nome é Taynara Marques, estudante de filosofia, UFMG, e militante do grupo de mulheres Pão e Rosas. Este texto foi um trabalho da matéria de Filosofia e Educação, onde eu o apresentei em sala de aula, e foi justamente quando eu comecei a militar efetivamente. Eu decidi fazer esse trabalho pois a professora havia pedido que fizéssemos um trabalho relacionado com educação, e foi nesse momento que eu pensei no livro "A precarização tem rosto de mulher", e na educação política que essas trabalhadoras passaram, e assim se conscientizaram que eram exploradas e oprimidas pelo sistema, e através dessa educação política elas passaram a lutar, de maneira organizada, e se tornaram mais fortes.

***

Bom, vou iniciar minha apresentação já explicitando que vou falar de um outro tipo de educação, de uma educação que ocorreu fora da sala de aula. Educação essa dos trabalhadores mais precários, do setor mais explorado do país, que possuem menor acesso à educação, mesmo trabalhando dentro de universidades. Esses trabalhadores são na sua maioria mulheres, negras, que realizam uma dupla jornada de trabalho, ou seja, trabalham em empresas por baixos salários (limpando banheiros, inclusive os masculinos) e gratuitamente em casa, por serem responsáveis pelos serviços domésticos e cuidados com os filhos, além de não ter possibilidade de acesso ao ensino superior.

Por isso eu trouxe esse livro que chama “A precarização tem rosto de mulher”, que conta a história de uma luta travada na USP em 2005, por essas trabalhadoras terceirizadas. Com essa luta, essas mulheres colocaram na perspectiva política as suas aspirações por educação frente a vida. Ou seja, passaram a ter uma educação política. Começaram a perceber que tinham direitos e, o mais importante, que deviam lutar por eles. Essas mulheres andavam, muitas vezes, de cabeça baixa, e passavam despercebidas pelos corredores da universidade. Eram invisíveis para a sociedade. Depois de terem vivenciado esse processo de educação, passaram a andar de cabeça erguida. Através desse processo, segundo elas mesmas, ampliaram seus horizontes, que é um dos papéis centrais da educação. Essa ampliação de horizontes fez com que elas avançassem e transformassem a própria vida em vários âmbitos.Se organizaram enquanto classe operária, e passaram a fazer assembléias e eleições de representantes na base, as chamadas linhas de frente, obtendo uma luta mais estruturada. Entraram nas salas de aula para contar suas histórias aos estudantes, lugares que antes entravam só para limpar. Com isso, fizeram com que estudantes (com os quais eram antes proibidas de conversar) saíssem das salas de aula e as ensinassem e também aprendessem com a luta delas. Essa luta teve apoio do Sindicato de Trabalhadores da USP (SINTUSP), um sindicato combativo, que é de trabalhadores efetivos da USP, que as ajudou a conseguir avançar com a luta, já que seu próprio sindicato (SIEMACO), que era um sindicato pelego e estava a serviço do patrão. 

Todo esse processo de luta fez com que elas percebessem que o conhecimento produzido na universidade não estava a serviço delas, trabalhadoras, nem do povo. Perceberam também que eram exploradas e oprimidas, e que esse conhecimento deveria estar a seviço delas, dos trabalhadores e da ampla maioria da população. Com isso, aprenderam que deveriam lutar para exigir que suas condições de sobrevivência fossem garantidas pela universidade, e em maior nível, pelo Estado, como creches, lavanderias e restaurantes públicos, para acabar com as duplas e triplas jornadas de trabalho, e assim ter tempo para se dedicar aos estudos, à cultura, e a própria política. Através desse processo de conscientização, passaram a ter uma visão política crítica, que questionava o papel do Estado na precarização de suas próprias vidas, percebendo que o mesmo atua a serviço dos grandes empresários. Uma mostra disso é que hoje, no Brasil, vivemos sob o governo da presidenta Dilma, uma mulher, que ainda que tenha cedido algumas concessões para os trabalhadores, como o Bolsa-família, são pequenas concessões que não mudam a realidade brasileira da falta de acesso à educação, saúde, moradia, enquanto em seu governo, os bancos e banqueiros lucraram como nunca antes. Essas mulheres ainda ocupam os piores cargos, ou seja, o estado capitalista não dá qualquer saída progressiva às mulheres.

Levaram essa visão crítica para dentro de suas casas, pois perceberam que existe uma cultura machista enraizada em nossa sociedade que faz com que homens e mulheres achem natural que as mulheres sejam as responsáveis pelo trabalho doméstico e filhos. Essa cultura invadia as relações dentro de casa, e as trabalhadoras na luta contra seus patrão, aprenderam que não poderiam ter um patrão dentro de casa, começaram a compreender que a opressão sofrida dentro de suas próprias casas, era uma forma de dividir a classe operária e fortalecer a dominante. E assim discutiram com seus maridos e filhos, e passaram a dividir as tarefas domésticas, pois essa era a maneira de romper com a opressão que os dividia enquanto trabalhadores.

Através dessa educação política, essas mulheres avançaram para lutar pelo fim de todo trabalho precário, pois para o mesmo trabalho elas deviam receber o mesmo salário. E para isso, era necessário o fim da terceirização, que divide e humilha os trabalhadores, e a efetivação de todos trabalhadores terceirizados, sem a necessidade de concurso público, pois já provaram saber fazer os serviços que sempre fizeram.

Por isso a necessidade de que essas lições, aprendidas e ensinadas por essas mulheres, e que não são ensinadas na universidade, deveriam ser passadas adiante, e por isso a necessidade do surgimento desse livro. Esse livro não deve ficar na prateleira, e sim ser passado adiante, como uma ferramenta de educação. Ele mostra a realidade da precarização do trabalho, principalmente para as mulheres, e incentiva a luta contra as condições miseráveis de trabalho e da vida. Num mundo baseado na exploração e na desigualdade social, onde a vida é tratada com mercadoria. Como disse a professora Bia Abramides, da PUC de São Paulo, o livro é “uma rica experiência na qual as mulheres trabalhadoras exploradas, em sistema semi-escravo, buscam a auto-organização”, que é um rico processo de se educar e conscientizar a partir das lutas, único meio que essas mulheres tiveram para ter acesso a algum tipo de educação. No caso, a educação política, a mais necessária para essas mulheres em sua atual situação de precarização. 

O professor Lincoln Secco, da História da USP, em meio ao processo de luta das terceirizadas em 2011, deixou bem claro como as lutas de classe foram retiradas dos currículos universitários e deixaram de ser parte da educação e produção de conhecimento da universidade. Mas mostrou também como a luta dessas mulheres obrigou que essa fosse novamente a pauta do dia, não mais sendo colocada nas salas de aulas, mas invadindo a universidade da maneira mais incômoda: pelos banheiros.

Toda essa precarização do trabalho não é uma realidade isolada da USP. Aqui na UFMG também vemos mulheres invisíveis pelos corredores, limpando nossos banheiros e salas de aula. Elas são impedidas de estarem aqui como nós, dentro dessa sala, devido ao filtro social do vestibular. Essa universidade também produz bastante conhecimento, e cabe a nós, estudantes, decidir como vamos utilizar esse conhecimento que estamos adquirindo aqui dentro da sala de aula.



terça-feira, 2 de julho de 2013

Pão e Rosas no I Encontro Nacional LGBT da CSP-Conlutas

Nesse fim de semana 28, 29 e 30 de Junho a CSP-Conlutas organizou o I Encontro Nacional LGBT, que retomou o espirito do grupo SOMOS quando este organizou centenas de LGTTBIs (Lésbicas, Gays, Travestis, Transsexuais, Bissexuais e Intersex) em 1980 para se solidarizar com a greve dos metalúrgicos do ABC, criando uma aliança estratégica com os trabalhadores. Partimos de uma central sindical anti-governista e se coloca na luta pelo socialismo.

Aprovamos diversas resoluções que devem ser levadas para o dia 11 de julho, quando haverá uma mobilização operária nacional. As bandeiras deverão ser as mais sentidas pela população, especialmente pelos trabalhadores negros, mulheres e LGTTBIs. Assim avançaremos na luta anti-capitalista, em aliança com estes setores para derrotar os governos, a polícia e os patrões.

- Fora Feliciano! Por um Estado verdadeiramente laico!

- Pela Revogação de todos os projetos que atacam os direitos dos negros/as, mulheres e LGTTBIs, contra o Estatuto do Nascituro!

- Contra a precarização do trabalho (terceirização) e a venda obrigatória do próprio corpo para subsistência (prostituição). Pela garantia de emprego com o salário mínimo do DIEESE.



segunda-feira, 1 de julho de 2013

Greve das trabalhadoras da Higilimp na USP: Em meio às manifestações de massas no Brasil, as mulheres trabalhadoras retomam os métodos da classe operária


Por Diana Assunção, diretora do Sintusp e militante do grupo de mulheres Pão e Rosas

Iniciada em 10 de junho a greve das trabalhadoras terceirizadas da empresa Higilimp, na Universidade de São Paulo, conquistou o pagamento dos salários da grande maioria das trabalhadoras e trabalhadores, bem como dos seus direitos trabalhistas. Foi uma greve que se inseriu nas lutas dos últimos anos contra a precarização do trabalho e pelos direitos das mulheres trabalhadoras. Neste artigo apresentaremos algumas conclusões desta luta para fortalecer a batalha estratégica pela efetivação de todos os terceirizados sem necessidade de concurso público ou processo seletivo bem como o fim das condições precárias de trabalho.
“Tem dinheiro pro empresário, mas não paga meu salário!”

A greve começou com a organização das trabalhadoras terceirizadas da Higilimp na Faculdade de Medicina Veterinária da USP. Os “boatos” de que haveria greve já estavam rolando desde cedo. Elas sabiam que não começavam do zero, e foi justamente uma das trabalhadoras que já havia protagonizado a greve de 30 dias da União, em 2011, que procurou o Sindicato dos Trabalhadores da USP.

As palavras de ordem já mostravam o contorno de classe da manifestação. “Tem dinheiro pro empresário, mas não paga meu salário!” gritavam as trabalhadoras da Higilimp, com energia pra enfrentar este desmando patronal. Como viemos denunciando há anos, as empresas terceirizadas são pequenas máfias que de tempos em tempos atrasam o salário dos trabalhadores e simplesmente “desaparecem”. A Reitoria da USP, verdadeira responsável pelo trabalho terceirizado, junto com o governo do Estado dirigido pelo PSDB de Geraldo Alckmin, sempre “lava as mãos” e coloca representantes “bonzinhos” para fazer parecer que estão ao lado das trabalhadoras contra a “empresa corrupta”. Uma hipocrisia.

Para tudo isso contam com os burocratas sindicais do Siemaco, que a todo o momento querem impedir a luta e organização das trabalhadoras, “controlando” por cima as migalhas e humilhações da patronal, fazendo parecer que trata-se de um estado de coisas imutável. Mas as trabalhadoras mostraram que não é bem assim.

A revolta também tem rosto de mulher: retomando os métodos da classe operária

Em 2011 publicamos o livro “A precarização tem rosto de mulher” para dar ênfase ao amplo contingente feminino no país ocupando os piores postos de trabalho. As lutas que vem ocorrendo de lá pra cá – inclusive internacionalmente como efeito da crise capitalista – nos fazem dizer que a revolta também tem rosto de mulher. O trabalho precário é explosivo, porque as condições são extenuantes, não há “nada a perder”.

Mais uma vez na USP, agora com a greve da Higilimp, as mulheres estiveram na linha de frente. Ouvíamos trabalhadoras de mais de 40 anos com certa intimidade no carro de som, depois nos diziam “Nunca peguei num microfone”. São mulheres proletárias, negras, homossexuais, que faziam pela primeira vez uma greve. Mas também justamente por isso parecia muito fácil aprender a fazer uma greve: “Se não me pagar, a USP vai parar!”.

Mas foi de ousadia tremenda ver que as trabalhadoras não se contentaram com a greve ou com as palavras de ordem no carro de som. Era necessário atacar o coração daquela universidade de excelência e por isso nada mais justo do que um piquete de trabalhadoras terceirizadas na Reitoria da USP durante 5 dias. São os métodos da classe operária sendo retomados pelos setores mais superexplorados dos trabalhadores, em sua maioria mulheres.

Varrer a burocracia sindical, não vão tirar as nossas forças!

Mais uma vez a radicalidade e explosividade da luta dos precários teve que se enfrentar diretamente com o que pode-se chamar na linguagem marxista de “polícia do movimento operário”. Estamos falando da “burocracia sindical”, ou seja, aqueles sindicatos que, ao contrário de defender os trabalhadores, defende os patrões. Para isso tentam, ao máximo, desmoralizar os trabalhadores, fazê-los acreditar que não devem se organizar para conquistar suas reivindicações através da luta de classes. Disseminam a confiança de que as trabalhadoras busquem suas reivindicações apenas através da justiça burguesa e, por esta via alimentando a passividade dos trabalhadores e ao mesmo tempo assegurando  a “paz social” tão necessária à preservação da “ordem social” que mantém intactos os lucros e negociatas patronais e do próprio governo.

As trabalhadoras da Higilimp tiveram que enfrentar a chantagem da burocracia, que a todo momento lançava confusões e buscava dividir as trabalhadoras, atacando os sindicatos combativos como o Sintusp para não perder o controle e cumprir seu papel de “mediador” nos conflitos de classe. Nesta situação, apesar de toda a combatividade e claras manifestações do ódio de classe e do rechaço à burocracia sindical que as trabalhadoras demonstraram espontaneamente, cobrou seu preço o avanço ainda insuficiente do nível de auto-organização das trabalhadoras, que se nos métodos radicalizados expressavam um importante avanço na consciência, a falta de assembleias mais sistemáticas, comissões votadas pelas trabalhadoras, que elas tomassem todas as decisões de forma coletiva, foi um limite deste processo que deve ser tomado como lição para avançar nas próximas lutas.

Fica claro, mais uma vez, que o levante dos trabalhadores precários no Brasil não se dará por fora de um embate frontal com esta burocracia seja governista ou da direita que atua para amortecer os ânimos da classe que tudo produz. Mas as manifestações que marcavam o Brasil, que também influenciavam as trabalhadoras a gritar contra o “aumento do busão!”, apontam o início de um processo que pode questionar profundamente a contenção que o governo do PT e sua burocracia sindical tem significado para os trabalhadores.

Um Sindicato para fazer a diferença na luta de classes

Já há vários anos o Sintusp vem fazendo parte da luta dos trabalhadores precários. Não somente porque isto já é parte de nosso Estatuto considerando que todos os trabalhadores não-efetivos da USP também são base de nosso Sindicato e defendendo sua incorporação ao quadro efetivo sem necessidade de concurso público sendo vanguarda da luta contra a precarização no Brasil; mas também porque as várias lutas que viemos participando e apoiando criaram uma “memória viva de lutas” na região da Zona Oeste de São Paulo.

Muitas trabalhadoras e trabalhadores alternam seus empregos entre os postos terceirizados da USP e as fábricas da região. Muitos moram na São Remo, ou nos bairros do Rio Pequeno, Jaguaré, entre outros. Muitos já viveram ou já viram uma greve. Já viram ocupações de Reitoria pelos estudantes, já viram os piquetes dos trabalhadores da USP. É uma memória viva, que cria um pano de fundo combativo e classista, que criam melhores condições para que os trabalhadores terceirizados possam levar à frente lutas como a da Higilimp que chegaram a impor à patronal e à Reitoria a conquista de suas principais reivindicações, diferentemente de outros locais em que apesar de estourarem infelizmente não partem das mesmas condições que foram se forjando ao longo de anos.

Durante a greve, por exemplo, tivemos informações de que as trabalhadoras da Higilimp no Metrô também se levantaram e foram até o escritório da empresa para “quebrar tudo”, o que, se por um lado é uma mostra da enorme explosividade que a precarização produz entre estas trabalhadoras, por outro mostra a diferença de que na USP esta luta não parta do zero, mas possam se apoiar nesta memória viva e de ter ao seu lado um sindicato combativo e classista como o Sintusp e aliados da juventude e intelectuais. Isso se expressa em que apesar da “explosividade” que ocorre todos os dias entre as trabalhadoras das empresas terceirizadas, nos canteiros de obras e locais de trabalho muitas destas lutas não chegam a ter a mesma transcendência.
Na greve da Higilimp, isso se expressou tanto na divulgação feita pela própria imprensa que noticiou em vários jornais, quanto no seu resultado em que as trabalhadoras da Higilimp conquistaram praticamente o conjunto de suas reivindicações sem o desconto dos dias paralisados e demissões em massa. Isso tudo cria um ponto de apoio que permite os trabalhadores terceirizados, obrigados a olhar apenas pro chão, a enxergar um horizonte: a luta organizada dos trabalhadores contra esta miséria que é o capitalismo.

Uma estratégia para vencer

Nós da LER-QI viemos buscando contribuir cada vez mais para que as lutas não comecem do zero. A publicação da 2ª edição do livro “A precarização tem rosto de mulher” neste ano é parte desta proposta, de manter uma continuidade na luta contra a precarização do trabalho e na organização das mulheres trabalhadoras. Foi emocionante, nos dias de piquete, com muito cansaço, ver rodas de trabalhadoras lendo a sua própria história – o prólogo de nossa publicação. Silvana, Glória, Conceição, Ana, Tatiana, Nice, tantas mulheres que estiveram na linha de frente. Serão muito mais.

Neste sentido, queremos continuar debatendo com o conjunto dos trabalhadores, em especial com aqueles companheiros que sempre estiveram na linha de frente das greves, compondo os piquetes, os comandos de mobilização e de greve, queremos continuar discutindo com os companheiros do Conselho Diretor de Base e com o conjunto da Diretoria do Sindicato da qual também somos parte como minoria, a necessidade de avançarmos para uma estratégia para vencer pra além das reivindicações de cada luta. Se como revolucionários devemos estar na linha de frente da luta para arrancar cada direito dos trabalhadores, como os salários, devemos também contribuir para levar esta luta até o questionamento da Reitoria e do governo, exigindo a efetivação dos terceirizados como parte da luta contra a exploração capitalista. Para isto é fundamental que ao mesmo tempo que nos colocamos com tudo na luta com os terceirizados contribuamos com nossa experiência sindical para que eles tomem as suas próprias decisões, se organizem enquanto classe ao nosso lado. É preciso também ter uma política para trazer os trabalhadores efetivos: uma só classe, uma só luta.

Uma estratégia para vencer exige a unificação da nossa classe em torno de um programa independente que, para nós deve partir de exigir a efetivação de todos os trabalhadores precários e terceirizados com iguais direitos e iguais salários e sem necessidade de concurso no caso dos serviços públicos. Para isso propomos também que nosso Sindicato retome o debate na CSP-CONLUTAS, em torno desses pontos para um programa de ação contra a terceirização e a precarização do trabalho e contra o corporativismo, pela unidade das fileiras da classe trabalhadora. Ao mesmo tempo, uma estratégia para vencer exige uma forte aliança com outros setores, como no caso da USP são os estudantes.

Já nada é como antes: avançar na organização permanente dos terceirizados

Esta greve explodiu na mesma semana em que a luta da juventude contra o aumento do transporte desencadeou um processo de massas no país inteiro. Definitivamente nada será como antes. Se a classe operária ainda não entrou neste processo enquanto classe organizada – o gigante ainda não levantou por completo! – esta mesma classe assistiu a manifestações não vistas há décadas no Brasil.

O descontentamento operário e popular, as péssimas condições dos sistemas públicos, a corja de corruptos se utilizando do dinheiro público sob o suor e sangue dos explorados, o significativo aumento de greves reivindicativas, são todos elementos que começam a delinear a possibilidade de uma entrada em cena da classe operária. Esta entrada não se dará por fora de choques com a burocracia sindical, retomando os sindicatos como ferramentas de luta da classe operária e colocando de pé comissões por local de trabalho para incluir ampla massa dos trabalhadores que não estão representados pelos sindicatos oficiais.

Esta entrada em cena deverá se dar em exigência às centrais sindicais governistas, para que rompam com o governo, ao mesmo tempo que lutamos pela mais ampla independência dos sindicatos em relação ao Estado e à burguesia. Lutamos também pela maior democracia operária, para que os trabalhadores nos sindicatos e em suas comissões vivam uma verdadeira “escola de comunismo”, ou seja, como passar das decisões individuais pras decisões coletivas. Assim somos mais fortes como classe.

A experiência que viemos adquirindo nos últimos anos na USP e certamente em centenas de locais que sequer conhecemos, as lutas incendiárias dos operários da construção civil no Norte e Nordeste do país, o aumento das greves na indústria; são todos indícios que apontam a tendência de que, aqueles que mais sofrem com o velho, serão os que vão lutar com mais energia pelo novo. Apostamos que a classe superexplorada de nosso país será um batalhão que vai emergir deste Brasil profundo – racista, homofóbico, policialesco, assassino de indígenas – para desmistificar, de uma vez por todas, a ideia do “Brasil potência”.

A mudança na realidade nacional nos coloca a necessidade de aproveitar com força a entrada da juventude como “caixa de ressonância” dos sentimentos das massas, antecipando movimentações de classe, para que deste processo surjam centenas e milhares de jovens aliados à classe operária na luta contra a exploração capitalista. Ao mesmo tempo, coloca-se a necessidade imperiosa de organização permanente dos trabalhadores terceirizados junto aos sindicatos combativos, com apoio dos estudantes e intelectuais. Esta luta está colocada. Nos preparemos para os próximos enfrentamentos de classe não permitindo que a burguesia nos divida. Pela unidade dos trabalhadores! Igual trabalho, igual salário! Pelos direitos da mulher trabalhadora! Efetivação de todos os terceirizados sem necessidade de concurso público! Basta de escravidão capitalista!