Mostrando postagens com marcador Teoria. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Teoria. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Wendy Goldman lança "Mulher, Estado e revolução" no Brasil




Em maio de 2014, a historiadora Wendy Goldman estará no Brasil para um ciclo de conferências de lançamento de seu premiado  Mulher, Estado e revolução: política familiar e vida social soviéticas, 1917-1936, publicado pela Boitempo Editorial. Durante os dias 19, 20 e 21 de maio ela passará pelas cidades de Campinas, São Paulo e Rio de Janeiro em eventos gratuitos e sem necessidade de inscrição, seguidos de sessões de autógrafos.

Ganhador do prêmio Berkshire Conference, o livro examina as mudanças sociais pelas quais passou a sociedade da União Soviética nas duas décadas após a revolução de 1917, com foco nas mulheres e a relação que estabeleceram com o Estado revolucionário. Analisando a estrutura familiar, a sexualidade, o casamento e o divórcio na União Soviética, a obra explora como as mulheres responderam às tentativas bolcheviques de redefinição da instituição familiar.

Programação completa:

Campinas
Quando: 19/05 | 17h30 | Debate “A emancipação das mulheres: o debate e os desafios da luta contra o machismo como parte da experiência da revolução russa”
Com: Wendy Goldman, Diana Assunção e Renata Gonçalves
Onde: Unicamp | Auditório I do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH)
Realização: Boitempo, Edições Iskra e Grupo de Pesquisa “Para Onde vai o Mundo do Trabalho?”
Apoio: Programa de Pós-Graduação de Sociologia da Unicamp, Programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais da Unicamp e Centro Acadêmico de Ciências Humanas (CACH)

São Paulo
Quando: 20/05 | 19h30 | Debate com Wendy Goldman, Andrea D’Atri (Argentina), Sofia Manzano e Diana Assunção
Onde: USP | Anfiteatro de História | FFLCH 
Realização: Boitempo, Edições Iskra e FFLCH/USP
Apoio: Sintusp

Rio de Janeiro
Quando: 21/05 | 16h | Debate com Wendy Goldman, Andrea D’Atri (Argentina), Diana Assunção e Carlos Eduardo Martins
Onde: UFRJ | Sala 109, Evaristo de Moraes Filho | Térreo | IFCS 
Realização: Boitempo, Edições Iskra e Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia (PPGSA) Apoio: Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Confirme presença na página do evento no Facebook
Confira mais informações dos eventos no site da Boitempo
Acompanhe a página especial do livro no Facebook aqui

*****
Mulher, Estado e revolução
Política familiar e vida social soviéticas, 1917-1936
Wendy Goldman

A Boitempo, em parceria com a Edições ISKRA, publica o premiado livro Mulher, Estado e revolução: política familiar e vida social soviéticas, 1917-1936. Escrito por Wendy Goldman, historiadora e professora da Universidade Carnegie Mellon (EUA), especializada em estudos sobre a Rússia e a União Soviética, a obra ganhou o Berkshire Conference Book Award ao examinar as mudanças sociais pela qual passou a sociedade soviética nas duas primeiras décadas pós-revolução, com foco nas mulheres, e na relação que estabeleceram com o Estado revolucionário.

O livro retrata as grandes experiências da libertação da mulher e do amor livre na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) depois da Revolução – e por que falharam, quando entrou em cena a burocracia stalinista. “Seu tema é a difícil relação entre vida material e belos ideais”, afirma Goldman. O livro examina as condições materiais da União Soviética logo após a Revolução e explora questionamentos relevantes para qualquer movimento social: quando um novo mundo poderá ser criado? Quais são as condições necessárias para se realizar ideais revolucionários? É possível que se crie total liberdade sexual para homens e mulheres sob condições de desemprego, discriminação e persistência de atitudes patriarcais? O que podemos apreender dessa experiência, depois da Revolução Russa? Combinando história política e social, o livro recupera não apenas as lições discutidas por juristas e revolucionários, mas também as lutas diárias e ideias de mulheres trabalhadoras e camponesas.

Ao chegarem ao poder em 1917, como resultado de uma revolução, e com esperanças de construir um mundo novo, muitos juristas, educadores e outros militantes sonharam com novas possibilidades. Os bolcheviques lutavam para que, sob o socialismo, a instituição “família” definhasse; para que o trabalho doméstico não remunerado das mulheres fosse substituído por lavanderias, creches e refeitórios comunitários; para que o afeto e o respeito mútuos substituíssem a dependência jurídica e financeira como base das relações entre os gêneros. Uma geração de legisladores soviéticos se empenhou em concretizar essa visão e como parte dela, em 1920, legalizaram o aborto, que passou a ser considerado um serviço público e gratuito.

É importante destacar que os bolcheviques tiveram uma política aberta sobre as relações pessoais, especialmente considerando o atraso social e cultural da Rússia. A ideia de “amor livre” e as relações hierárquicas entre pais e filhos foram temas amplamente debatidos. “Em uma cultura patriarcal, os pais exerciam um controle tremendo sobre as mães e as crianças. Tomavam decisões sobre o matrimônio, a educação e o trabalho. Os bolcheviques queriam abolir esse controle, em favor dos direitos do indivíduo, do ser humano”, afirma Goldman. "Questionaram as hierarquias de todo tipo, não somente aquelas dentro da família. O Exército Vermelho foi reconstruído sob novas regras, mais democráticas em termos de relações entre oficiais e soldados. As escolas tornaram-se mistas, e os professores, estudantes e trabalhadores criaram Sovietes para governá-las. Os juristas discutiam o ‘desaparecimento’ da lei e do Estado e faziam leis destinadas a alentar esse objetivo. Inclusive desafiaram as hierarquias na arte e na música. Na década de 1920, os músicos soviéticos experimentaram uma ‘orquestra sem diretor’. Foi um momento de grande nivelamento e de experimentação apaixonante em todas as áreas da vida”.

No entanto, uma década e meia depois, com a atuação de forças contrarrevolucionárias, a legalidade do aborto foi revogada e a experimentação social deu cada vez mais lugar a soluções conservadoras, que reforçaram as amarras da família tradicional e o papel reprodutivo da mulher. A autora analisa nesse contexto como as mulheres responderam às tentativas de refazer a família, com Stalin defendendo a “volta à família e ao lar”; e como suas opiniões e experiências foram utilizadas pelo Estado para atender as suas próprias necessidades. A edição brasileira do livro será enriquecida com fotografias da época e textos complementares, como o texto de capa de Liliana Segnini, professora do Departamento de Ciências Sociais da Unicamp, e o prólogo escrito por Diana Assunção, historiadora e militante dos direitos das mulheres.
Dia Internacional da Mulher, 1917, Pitsburgo, Rússia


Trecho do livro:
“Uma vez que havia expectativa generalizada de que a família iria definhar, a questão de como organizar o trabalho doméstico provocou extensa discussão. Lenin falou e escreveu repetidas vezes sobre a necessidade de socializar o trabalho doméstico, descrevendo-o como ‘o mais improdutivo, o mais selvagem e o mais árduo trabalho que a mulher pode fazer’. Sem poupar adjetivos duros, escreveu que o trabalho doméstico banal ‘esmaga’ e ‘degrada’ a mulher, ‘a amarra à cozinha e ao berçário’ onde ‘ela desperdiça seu trabalho em uma azáfama barbaramente improdutiva, banal, torturante e atrofiante’. Lenin obviamente desprezava o trabalho doméstico. Argumentava que ‘a verdadeira emancipação das mulheres’ deve incluir não somente igualdade legal, mas também ‘a transformação integral’ do trabalho doméstico em trabalho socializado.”

Sobre a autora:
Wendy Goldman é professora do Departamento de História da Carnegie Mellon University e especialista em estudos políticos e sociais sobre a Rússia e a União Soviética. Autora de diversos livros sobre o terror stalinista, gênero e classe trabalhadora, já foi traduzida para o russo, espanhol, italiano, alemão, francês, tcheco e japonês.  Com o livro Mulher, Estado e revolução, ganhou o Berkshire Conference Book Award, em 1994. É diretora de um intercâmbio universitário entre a Carnegie Mellon e a Universidade Estadual para Humanidades, em Moscou.

Ficha técnica:
Título: Mulher, Estado e revolução: política familiar e vida social soviéticas, 1917-1936
Título original: Women, the State and Revolution: Soviet Family Policy and Social Life, 1917-1936
Autora: Wendy Goldman
Prólogo: Diana Assunção
Orelha: Liliana Segnini
Páginas: 400
ISBN: 978-85-7559-364-6
Preço: R$ 49,00
Editoras: Boitempo e Edições ISKRA

*****

terça-feira, 29 de abril de 2014

As lições de 1917 na luta pela emancipação das mulheres

LANÇAMENTO MULHER, ESTADO E REVOLUÇÃO

Por Rita Frau, professora e da Executiva Nacional do Movimento Mulheres em Luta

Artigo publicado no Jornal Palavra Operária, n 104.                                                              
http://www.ler-qi.org/As-licoes-de-1917-na-luta-pela-emancipacao-das-mulheres

Nos dias 19, 20 e 21 de maio, em Campinas, São Paulo e Rio de Janeiro respectivamente ocorrerão as conferências de lançamento do livro “Mulher, Estado e revolução” com a presença da autora, a historiadora norte-americana Wendy Goldman. A publicação, uma coedição da Boitempo Editorial e Edições ISKRA, conta com prólogo de Diana Assunção.

Nem mesmo as mais avançadas “democracias” capitalistas conseguiram conceder às mulheres de forma simples e rápida direitos elementares como o direito ao aborto ou a possibilidade de se divorciar quando quisesse, de acordo com seus sentimentos. Mas foi com a classe operária chegando ao poder, em uma revolução que desatou com uma greve de mulheres operárias, que foi possível conhecer as medidas mais avançadas no que diz respeito a luta pela nossa emancipação. “Mulher, Estado e revolução” vem a publico mostrar os grandes debates entre os bolcheviques para lidar com o avanço nas medidas de libertação das mulheres e o fato de que só seria possível a emancipação completa das mulheres em uma sociedade efetivamente comunista, onde se impusesse o fim do valor, do dinheiro, da mais-valia e assim de todas as classes sociais. Por isso o estado operário de transição colocou em cena todo o processo de “metamorfose” interna da revolução, como já apontava Leon Trotsky em sua Teoria da Revolução Permanente.
Da socialização das tarefas domésticas para livrar as mulheres deste serviço atrofiante até a necessidade de que as mulheres passassem a dirigir o estado operário, muito se debateu e avançou no processo de libertação das mulheres. Como muitos bolcheviques diziam, todas as leis implementadas no estado operário deveriam, conforme se avançasse para o fim das classes, definhar. As leis eram dialeticamente implementadas também como forma de proteger as mulheres diante das mudanças radicais da sociedade, a contradição entre a forma de organização familiar capitalista – que impunha a dependência financeira das mulheres em relação aos homens – e o ideal do amor livre onde as relações estariam livres dos entraves capitalistas e cada relação seria definida por sentimentos mútuos.
Como Edições ISKRA queremos que esta elaboração seja um aporte para a luta das mulheres no Brasil, mas queremos retomar o debate que já completa mais de um século entre marxistas e feministas sobre qual a estratégia de luta das mulheres. Enquanto o feminismo da igualdade é expressão da integração cada vez mais profunda ao Estado burguês através de ONG´s e grupos feministas ligados ao governo que continuam enaltecendo a possibilidade de emancipação das mulheres no capitalismo, vemos também uma série de “feminismos” que se reivindicam radicais e que voltam a negar as contradições de classe voltando-se exclusivamente para a implementação de medidas individuais contra os homens. Todos estes feminismos são funcionais uns aos outros, algumas vezes com roupagem mais de esquerda, outras vezes mais radical, mas todos nutrem-se de um profundo ceticismo na classe operária – e às vezes ódio de classe – para buscar respostas imediatas a opressão cotidiana que vivem as mulheres.

Este livro é portanto uma ferramenta científica para trabalhadores e trabalhadoras, jovens e estudantes, avançarem em uma compreensão revolucionária da emancipação das mulheres, e também uma ferramenta de combate a todo tipo de ideologia feminista que em sua estratégia terminam negando a única possibilidade de emancipação para as mulheres: a tomada do poder pela classe operária, como fizeram as operárias e operários russos em 1917. Estamos na primeira fileira das demandas mais sentidas das mulheres, sobretudo as trabalhadoras, negras e pobres, e intervimos no movimento real de mulheres existente, mas com estas perspectiva revolucionária porque queremos ser sujeito do fim desta sociedade que nos relega somente miséria e opressão.

sábado, 27 de outubro de 2012

Do armário para às ruas de Antofagasta sem deixar de lado o "dia pela despatologização trans"


por Pan y Rosas - Chile

Tal como aconteceu nas cidades mais importantes do mundo, na capital regional se realizou uma manifestação onde se chamou a não tolerar as posturas discriminatórias que sem base cientifica alguma propõem alguns setores.

Com o fim de rechaçar as afirmações realizadas por setores conservadores do país que rotularam a homossexualidade como uma doença, cerca de 30 pessoas se reuniram durante este sábado nas ruas centrais da capital regional exigindo igualdade de direitos e respeito a diversidade sexual.


Trataram de comemorar o Dia Internacional pela despatologização da transsexualidade, que contou com atividades ao redor do mundo e que em Antofagasta foi convocada pela agrupação Pan y Rosas.
Somos combativos, revolucionários, somos gays e lésbicas que queimamos o armário’, gritavam os manifestantes em pleno centro da capital, despertando interesse entre os que passavam.
Desde a agrupação fizeram mais um chamado a participar durante esta quinta-feira (25) de uma “funa” contra o psicólogo local Peter Radic – quem em anúncios publicou ser capaz curar a homossexualidade, o lesbianismo, entre outros – por tentar lucrar mediante a difusão de teorias que são rechaçadas pela comunidade cientifica, que não considera a homossexualidade como uma doença.
Tradução: Virginia  Guitzel
Veja o video do ato


quarta-feira, 11 de maio de 2011

AMANHÃ (11/05) Lançamento do livro "A precarização tem rosto de mulher" na Unicamp:

Com esse livro, buscamos reconstruir a história de uma pequena, mas exemplar, luta operária contra as péssimas condições de trabalho na USP em 2005. Foi uma luta de trabalhadoras e trabalhadores terceirizados da limpeza. Seis anos depois a Usp, novamente, se torna palco de uma greve de trabalhadores terceirizados da limpeza, que radicalizaram ainda mais seus métodos. Parte dos lutadores terceirizados de 2005 voltaram a protagoni...zar em 2011 uma luta operária que avançou da demanda economica, pelo pagamento dos salários, ao romper com o cotidiano da comunidade universitária e se tornou uma luta política mostrando que a terceirização escraviza, humilha e divide, inclusive dentro do espaço elitizado e aparentemente intocável de mazelas que é a Universidade. As mulheres, maioria desses trabalhadores deram exemplo, em ambos os processos, de como lutar contra a precarização da vida, elas mostraram que a precarização tem rosto de mulher, mas que essas mulheres estão dispostar a lutar pelo fim de sua exploração: a luta continua!

 Para apresentar o livro contamos com a presença de:

Diana Assunção
organizadora do livro, diretora do Sintusp, dirigente da LER-QI e fundadora do Pão e Rosas

Glória Oliveira
trabalhadora terceirizada da limpadora União

Paula Marcelino
doutora em Sociologia pela Unicamp e autora do livro "A logística da precarização: terceirização do trabalho na Honda do Brasil"
Rita Frau
profª da rede estadual de SP, corrente de professores Pela Base e Pão e Rosas

11 de maio 
No Auditório II do IFCH   |   às 17h00

"Nos dias de sábado, a gente ali jogando água, todo mundo louco pra ir embora pra casa, e a encarregada cantando 'lerê-lerê'. Era uma humilhação, ela nos chamava de escravas"
(Silvana, trabalhadora terceirizada)

Organização:
Pão e Rosas
LER-QI e Independentes

Iskra Edições

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Ciclo de debates USP de pé: rodar o Rodas! "Precarização, desmonte, terceirização

CICLO DE DEBATES
USP DE PÉ: RODAR O RODAS!
Durante os meses de abril e maio o Centro Desformas e o Sintusp vão organizar uma série de debates sobre temas centrais que estão sendo discutidos na universidade. No momento em que os trabalhadores e trabalhadoras terceirizadas da limpeza acabam de protagonizar uma grande luta para arrancar seus direitos e exigir a efetivação, nosso ciclo de debates não poderia começar por outro tema. Em breve divulgaremos as próximas atividades. Todos e todas estão convidados a participar deste importante debate.

PRECARIZAÇÃO, DESMONTE, TERCEIRIZAÇÃO
 
Expositores: Jorge Luiz Souto Maior, prof. da Faculdade de Direito e Juiz do Trabalho
                   Marcus Orione, prof. da Faculdade de Direito
                   Diana Assunção, diretora do Sintusp, lançando o livro "A precarização tem rosto de mulher"
                   Glória, trabalhadora terceirizada da limpadora UNIÃO

DIA 29/04 às 12h30 no Auditório da História (FFLCH)            

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Participe do grupo de estudos: "As mulheres e o capitalismo. Entre a opressão e a luta pela emancipação"


1ª reunião  
Opressão das mulheres 
na sociedade de classes

26 de abril   terça    17h00
Sala 107  Térreo IFCS UFRJ
Largo São Francisco de Paula, 07 - Centro - RJ

Bibliografia

Andrea D’atri. Pão e Rosas: Identidade de gênero e antagonismo de classe no capitalismo. Ed. Iskra, 2008. [Introdução; Capítulos 6 e 7]


Andrea D’atri. As Mulheres e o Socialismo: Idéias, experiências e política emancipatória, 2007. Mimeo.


Heleieth Iara Bongiovani Saffioti.  A mulher na sociedade de classes: mito e realidade. Ed. Vozes, 1979. [Introdução; Parte II: Posição social da mulher na ordem escravocrata-senhorial e suas sobrevivênciis na sociedade atual – págs 160-184]

Disponível na pasta 93 na xerox do Gaúcho 4º andar

Próxima reuniões:

- A precarização do trabalho
tem rosto de mulher
11 de maio Quarta às 17h
Bibliografia já disponível
na pasta 93


- Corpos e a ditadura da beleza
 - Mulheres que lutam: Louise Michel e a Comuna de Paris (1871) e as mulheres na Comuna de Oaxaca (México, 2006)
- Direito ao aborto
- Sexualidade
 - Violência contra as mulheres
 - Educação. Questionando a formação de professores: racismo, machismo e homofobia

E mais...  Debates e Cine Pão e Rosas

Entre em contato:
paoerosasrj@gmail.com

terça-feira, 29 de março de 2011

Resenha do livro "A precarização tem rosto de mulher"*

Por Paula Berbert, graduada em Ciências Sociais
pela Unicamp. Estudante da Usp, professora da
rede estadual  paulista e militante do Pão e Rosas.

Elas são as primeiras pessoas para as quais dou ‘bom dia’, negras, uniforme azul que as diferenciam de todos os outros funcionários da escola estadual onde trabalho. “Tão cedo no batente?” – pergunto às 6h40. “É claro, professora. Tudo precisa estar em ordem pra quando vocês chegarem, não é?” – responde uma das duas terceirizadas que limpam uma escola que atende mais de 800 alunos. Entram todos os dias às 5h da manhã, saem às 16h, param meia hora para o almoço que trazem de casa, zanzeam com vassouras e baldes nas mãos. Sempre juntas, a única coisa que lhes dá identidade é as luvas que usam, que têm seu nome escrito. Ali ninguém fala com elas, nem os alunos, nem os demais funcionários e professores.

Três dias antes de escrever essa resenha tive uma oportunidade de conversar com elas de fato. Numa janela entre duas aulas, folheava um jornal quando entraram na sala de professores. “Precisamos limpar, você se incomoda?” – perguntou com simplicidade. “Claro que não! Aliás, sempre falo com você, mas não sei seu nome”. Começamos a conversar. Trabalham na escola há quatro anos, ali a terceirização começou a partir da cooperativa do bairro, que alistava mulheres para trabalhar na limpeza de escolas e organismos públicos da vizinhança. “Sabe, professora, é sempre com o pessoal daqui de perto, porque eles não pagam vale transporte”. Logo foram transferidas para empresas, com as quais a diretora negocia para mantê-las ali. Assim que começaram a trabalhar eram sete funcionários que cuidavam da limpeza da escola, que funciona nos três períodos, com mais 50 turmas, hoje são apenas duas trabalhadoras. Pergunto se houve aumento do salário, já que o trabalho aumentou mais de três vezes. “Não, professora, eles vão aumentando o trabalho e a gente vai dando conta. Tem que fazer o serviço todo, né?”. Falavam também que terminavam o dia exaustas, com pernas e braços doendo, depois era limpar a casa, fazer o jantar e preparar a própria marmita e também a do companheiro . Tão cansadas que nem a novela dava para ver direito. O salário às vezes atrasa, benefícios não têm nenhum. Eu ouvia aquelas mulheres e me lembrava de outra que conheço, tão parecida com elas – Silvana, resolvi falar do livro. “Vou trazer um presente pra vocês na segunda-feira ...”. “O que, professora? Não precisa se incomodar com a gente!”. “É um livro que fala sobre vocês, sobre mulheres terceirizadas, que dão duro, trabalham limpando um lugar, à noite chegam e casa e trabalham mais ... Acho que vocês vão gostar!”. Mostro a elas o piloto do livro, que estava na minha mochila. Na capa duas terceirizadas, usando uniformes escuros e com vassouras na mão, uma diz para outra: “Olha, podia ser a gente!”.

***

A terceirização faz parte da nossa vida cotidiana, na escola onde trabalho, no metrô que pego para chegar lá, que começa a ser privatizado e terceirizado, na limpeza do meu local de estudo, a Universidade de São Paulo, e em partes dos restaurantes desta universidade, na entrega do livro que lia horas atrás e da pizza que jantei ontem à noite. E como parte daquilo que é corriqueiro, muitas vezes passa por nós de maneira natural e irrefletida. O livro que apresento aqui, A precarização tem rosto de mulher, organizado por Diana Assunção, diretora do Sindicato de Trabalhadores da Usp (Sintusp), membro da Secretaria de Mulheres deste sindicato e fundadora do grupo de mulheres Pão e Rosas, nos mostra essa triste e injusta realidade, e narra uma luta importantíssima, travada em 2005 pelas trabalhadoras e trabalhadores terceirizados da Dima, empresa contratada para limpeza da Usp. Este é um livro militante, escrito de maneira simples e direta, acessível para jovens, estudantes, ativistas, militantes, estudiosos do tema da precarização e, especialmente, para trabalhadores. A partir de entrevistas com uma das principais protagonistas do conflito, Silvana, trabalhadora terceirizada, negra, mãe de família, a quem me referia, reconstruímos a história desta greve, em que os terceirizados se sublevaram contra as péssimas condições de trabalho, contra os assédios morais que sofriam das encarregadas, que chegavam a chamá-los de “escravos”, as humilhações da patronal e contra os atrasos do baixíssimo salário.

Logo que começaram a se organizar, os trabalhadores terceirizados da Dima enfrentaram muitas dificuldades. Estavam divididos em unidades diferentes da Usp, não podiam contar com o auxílio do seu sindicato, o SIEMACO (Sindicato dos Trabalhadores em Empresas de Prestação de Serviços de Asseio e Conservação e Limpeza urbana de São Paulo), constantemente sofriam ameaças de demissão e transferência para locais de trabalho longe da região do Butantã. As dificuldades eram muitas e a solução para elas ficou mais clara quando a organização dos terceirizados encontrou aliados, estudantes trotskistas da Usp, organizados no movimento A Plenos Pulmões, e trabalhadores efetivos da universidade e seu sindicato, o Sintusp. Exibições de filmes foram organizados por estes estudantes, dentre eles A greve, de Sergei Eisenstein, quando uma trabalhadora disse: “Tudo o que queremos fazer está nesse filme!”. Passaram eleger representantes dos trabalhadores terceirizados de cada unidade para compor o que eles chamavam de linha de frente. Eles discutiam semanalmente, debatiam sobre os problemas que aconteciam em cada local, pensando em soluções unitárias e coletivas. A luta contra a patronal se expandia, ganhava contornos mais claros.

Este livro discute as grandes questões sociais e políticas das últimas décadas a partir de um pequeno exemplo. Nos últimos anos vimos o avanço neoliberal sobre a classe trabalhadora, retirando direitos sociais historicamente conquistados, dividindo-a entre efetivos, terceirizados, temporários, sub-contratados, rebaixando a qualidade de vida de milhões. No plano ideológico, a academia e a ideologia dominante produziram rios de tintas sobre o fim da história e sobre o deslocamento da centralidade operária enquanto sujeito de transformação social. Ouvimos todos os dias que não se pode fazer muito contra o atual estado de coisas e que devemos nos conformar nos dedicando a projetos pessoais e ao nosso desenvolvimento individual. Mas a pequena luta das trabalhadoras e trabalhadores terceirizados da Dima questiona tudo isso. A auto-organização operária se mostrou viável, a necessidade de recomposição da unidade das fileiras da classe se mostrou fundamental e possível, a partir da localização do Sintusp neste conflito. Os avanços da subjetividade dos trabalhadores em luta se concretizou na vida de Silvana, que entendeu ali que se ela lutava contra o patrão da Dima, não podia ter “um patrão em casa”. Com dados sobre a trajetória da terceirização da Usp, o livro mostra que o processo mundial de precarização do trabalho tem sim rosto de mulher, e mostra que a sua superação também tem.

Contando com a apresentação das professoras Claudia Mazzei, da Universidade Federal de Santa Catarina, e Maria Beatriz Costa Abramides, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, esta publicação discute o processo da precarização, e da terceirização como uma de suas facetas, enquanto um processo mundial. A breve explanação sobre este tema em seu prólogo ganha carne nos artigos dos anexos. Um deles sobre a vida e luta de Konstantina Kuneva, trabalhadora terceirizada que sofreu um brutal atentado da patronal por sua organização política na Grécia em 2008, abalada pelas primeiras conseqüências da crise capitalista e também pelas primeiras respostas das massas. O outro é uma entrevista com duas dirigentes operárias do novo sindicalismo de base na Argentina, em que Catalina Balaguer e Lorena Gentile relatam suas lutas em defesa dos direitos das trabalhadoras e no combate contra a terceirização.

A precarização tem rosto de mulher é parte da coleção Iskra Mulher, que já publicou outros títulos, como Pão e Rosas – identidade de gênero e antagonismo de classe no capitalismo e Lutadoras – histórias de mulheres que fizeram história, e foi organizado por militantes da Liga Estratégia Revolucionária (LER-QI) e do grupo latino-americano Pão e Rosas, que organiza mulheres trabalhadoras, efetivas e terceirizadas, estudantes e jovens também na Argentina, Chile e México. Esperamos com essa publicação aportar para a reflexão, estudo, organização e luta daqueles que não naturalizam a divisão e exploração da classe trabalhadora, e que este livro seja um instrumento de combate à terceirização, que como diz a campanha de nosso grupo de mulheres, “escraviza, humilha e divide”.

***

Lançamos o livro no momento histórico em que vemos uma nova “primavera dos povos” na Tunísia, Líbia e Egito, onde as massas se levantam contra governos ditatoriais e pró-imperialistas que durante décadas oprimiram e espoliaram os trabalhadores e o povo pobre, e saem às ruas exigindo a queda destes ditadores e reivindicando também melhorias nas condições de vida, aumento de salários e liberdade de organização política. Estas mobilizações foram antecedidas por conflitos importantes na Grécia, Espanha e França, onde a classe trabalhadora recorreu aos seus métodos históricos de luta como piquetes, paralisações, manifestações de rua e greves gerais para combater as conseqüências da crise econômica, que se manifestam nas políticas governamentais destes Estados endividados, que têm por objetivo descarregar em suas costas o custo da crise capitalista. Vemos essas respostas iniciais das massas questionar o triunfalismo da burguesia, que imperou nas subjetividades dos trabalhadores e da juventude. Ao contrário dos postulados de Fukuyama, a história continua e as massas mobilizadas demonstram nas ruas a sua força.

Por outro lado, no Brasil, onde os “tempos” da crise são mediados por um crescimento econômico baseado na alta dos preços das commodities e no consumo do mercado interno, ainda prima uma subjetividade gradualista e passiva. Apesar do crescimento vertiginoso dos postos de trabalho precário, das enchentes que assolam a população pobre nas favelas, morros e periferias, da violência policial contra a população negra, parte importante do povo tem ilusão de que a eleição da primeira presidenta, Dilma, pode solucionar os problemas que ainda afetam o país. Inclusive um setor importante do movimento de mulheres, que naturalizou a posição escandalosa da então candidata, usando a bandeira histórica da legalização do aborto como moeda de troca nas eleições, para ganhar o apoio de setores católicos e evangélicos.

Com esta publicação também queremos dialogar com essa realidade, em que vemos a crise capitalista se desenvolver e ganhar concretudes desiguais e combinadas no globo. É preciso que nos apropriemos das lutas, ainda que pequenas, que a classe trabalhadora começa a travar no Brasil. Essa é a forma de não partirmos do zero e aprendermos com as lições das vitórias e também das derrotas da classe. Por isso convidamos todas e todos a lerem o livro A precarização tem rosto de mulher e difundi-lo de forma militante, como um instrumento que sirva para fortalecer aqueles que lutam contra este sistema de exploração e opressão.

Resenha publicada na Revista Contra Corrente - revista Marxista de Teoria, Política e História Contemporânea, Nº 5.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Amanhã na USP Seminário "Precarização, Apartheid e desmanche". Com Diana Assunção e Ricardo Antunes.

DESFORMAS
Centro de Estudos Desmanche e Formação de Sistemas Simbólicos

DESFORMAS - CENEDIC – CEMARX

Seminário – PRECARIZAÇÃO, APARTHEID E DESMACHE

19.NOV.10 - Sala 100 Prédio das Ciências Sociais- FFLCH

14:30 - DIANA ASSUNÇÃO
(Secretaria de Mulheres do Sintusp e do Pão e Rosas)

A precarização tem rosto de mulher

Com a ofensiva neoliberal que se impôs contra a classe trabalhadora nas últimas décadas, os capitalistas procuraram tirar proveito de todo tipo de divisão nas fileiras do proletariado, para enfraquecer suas lutas e impor condições diferenciadas de exploração. As condições de opressão sobre as mulheres forneceram um dos fatores mais eficazes para esse objetivo.

Nesse sentido, o combate contra a opressão às mulheres, do ponto de vista classista, deve estar conscientemente ligado ao combate a todo tipo de divisão das fileiras da classe trabalhadora, numa perspectiva de luta de classes.

A constituição da Secretaria de Mulheres do Sintusp, não por acaso realizada após a importante greve protagonizada pelo Sindicato em 2009, visa responder a essa questão. De acordo com seus objetivos abertamente declarados, a Secretaria é uma ferramenta de luta do conjunto das trabalhadoras, em aliança com as estudantes. Buscamos desde o início estabelecer uma relação especial com as trabalhadoras terceirizadas da USP, explicando a essas mulheres que queremos estar lado a lado com elas na luta contra a divisão imposta a nossa classe.

15:10 - RICARDO ANTUNES
(IFCH/ UNICAMP)

Do infoproletariado à informalidade ampliada: as formas de ser da precariedade

Nossa aula pretende apresentar algumas teses que conformam o modo de ser da precarização do trabalho hoje.

Vamos explorar analiticamente, os seguintes pontos: a degradação do trabalho no século xx e xxi e suas diferenciações; a era da informatização e informalização do trabalho; a perenidade e a superfluidade do trabalho; o trabalho imaterial e as novas formas do valor, bem como a nova morfologia do trabalho hoje, com destaque para o infoproletariado e a precariedade, dentre outros pontos.


PARA CONFERIR A PROGRAMAÇÃO COMPLETA (2010-11) ACESSE O BLOG DO DESFORMAS: http://desformas.blogspot.com/

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

FEMINISMO E MARXISMO

Publicamos abaixo a fala de Andrea D'Atri* no
IV Simposio Lutas Sociais, GEPAL-UEL, Londrina - Brasil

Sendo um simpósio sobre as lutas sociais, quero fazer uma homenagem a dez jovens torturados e assassinados pela ditadura genocida Argentina, faz –hoje- exatamente trinta e quatro anos, na operação militar conhecida como A Noite do lápis. Neste momento, em Buenos Aires, milhares de estudantes de ensino médio e superior estão demonstrando em comemoração a esta data, mas também em defesa da educação pública e gratuita, em um processo de luta que leva várias semanas de assembleias nas faculdades e escolas, e manifestações.

Em menos de um século a vida das mulheres mudou muito mais radicalmente que a vida dos homens.

As mulheres invadimos as escolas e as universidades que nos haviam sido vedadas durante séculos. Nós, as “irracionais”, agora podemos ser filósofas e matemáticas, historiadoras, médicas, engenheiras e artistas. As mulheres, hoje somos maioria entre os que alcançam altos níveis de educação.

Mas também, atualmente, as mulheres e as meninas somos setenta por cento dos analfabetos do planeta.

Hoje, como nunca antes na história, as mulheres ingressamos ao mundo do trabalho: nos últimos dez anos se multiplicou nossa presença no mercado de trabalho e a tendência não cessa. Somos professoras, enfermeiras, tecelãs e cozinheiras, como o temos sido sempre. Seguimos semeando a semente e recolhendo o fruto, limpamos nossas casas e as dos demais. Mas também manejamos máquinas e ferramentas, caminhões e foguetes, perfuramos o solo em busca de petróleo e mergulhamos no fundo dos oceanos.

Mas também, agora, quando nós saltamos as valas que se interpunham entre o “mundo reprodutivo” do lar e do externo mundo do trabalho assalariado, a metade das pessoas que vivem de seu salário, trabalha em condições precárias. São um bilhão e oitocentos milhões de pessoas; a maioria mulheres. Tudo indica que isto irá de mal a pior sob o látego da crise econômica mundial que se desatou nos Estados Unidos e que agora transladou seu epicentro à Europa: na próxima década, dois terços da classe trabalhadora não terá contrato nem benefícios sociais e também, a maioria que estará nessas condições, seguirão sendo mulheres.

As pioneiras feministas do final do século dezenove teriam imaginado que, alguma vez, conseguiríamos que a reprodução sexual não fosse um fatalismo? Hoje, em dezenas de países existem direitos sexuais e reprodutivos, respeita-se legalmente a diversidade sexual, em dez países do mundo – entre eles a Argentina – está legalizado o casamento entre pessoas do mesmo sexo e em alguns se despenalizou o aborto.

Poderia se dizer que temos avançado enormemente, sempre e quando fizermos a ressalva de que meio milhão de mulheres morrem, a cada ano, por complicações na gravidez ou no parto, algo que, a esta altura do desenvolvimento científico e médico, deveria ser perfeitamente evitável. Fazendo um simples cálculo poderíamos dizer que, a cada cinco anos, produz-se a mesma quantidade de mortes de mulheres que as provocados nos cinco anos que durou o extermínio nazista em Auschwitz. A cada cinco anos, repete-se um campo de concentração de Auschwitz para as mulheres mais pobres do planeta.

Mas por acaso não é a primeira vez na história que as mulheres chegamos, em um número sem precedente, nos postos altos das instituições do Estado? Há mulheres presidentas e parlamentarias, mulheres em cargos ministeriais e a cargo das forças armadas, também há mulheres nas cortes e a frente dos sindicatos... só nos resta ocupar o trono do Vaticano!

Ainda que também temos que dizer que com o desentendimento ou com o aval, com o apoio e com a legitimação, com a participação ou diretamente sob as ordens de algumas destas mulheres, no mundo habitam mais de um bilhão e quinhentos milhões de pobres, que subsistem com menos de dois dólares diários. E setenta por cento somos mulheres e meninas.

A pergunta iniludível é: como pode ser que estejamos tão mal, se vínhamos tão bem? Esta é a reflexão que gostaria de fazer hoje com vocês.

Poderíamos começar por assinalar que, nas últimas três décadas, o imperialismo avançou sobre as conquistas da classe trabalhadora e dos povos oprimidos do mundo, mas que, diferentemente de outros momentos anteriores do século vinte, desta vez, o avanço “neoliberal”, pode-se levar a cabo com métodos relativamente “pacíficos”. Diferentemente da Segunda Guerra Mundial, nem nos Estados Unidos, nem na Inglaterra, Alemanha ou Japão, necessitaram de um Mussolini ou um Hitler, nem romper com a democracia burguesa, para destruir enormes conquistas das massas. O que alguns sociólogos chamaram o “pacto neoliberal” consistiu precisamente em dividir as massas em setores privilegiados das classes médias e trabalhadores (especialmente nos países centrais), enquanto a maioria se afundava na desocupação e na extrema pobreza, fazendo-se nas periferias das grandes metrópoles, relegados a sobreviver mediante a assistência estatal. Ao mesmo tempo, avançava-se na restauração do capitalismo também nos estados operários burocratizados do leste da Europa, Rússia e China, onde não só se produziu um enorme retrocesso nas condições de vida das massas desses países, senão que também se afetou as massas do Ocidente, com a incorporação ao mercado mundial capitalista de um bilhão e setecentos milhões de novos trabalhadores e trabalhadoras, o que serviu para atacar ainda mais as condições de trabalho em todo o planeta.

E tudo isto se fez da mão das direções reformistas das organizações de massas, que foram cúmplices diretos ou aceitaram estes ataques sem dar a batalha, como os sindicatos, os Partidos Socialistas – muitos dos quais eram governo na Europa, quando impunham estes mesmos planos neoliberais e os Partidos Comunistas que passaram diretamente do lado da restauração capitalista nos ex-estados operários. Como já dicemos, setores das classes médias e das classes trabalhadoras, foram cooptadas, integrados ao consumismo que reproduziu uma ideologia individualista profundamente reacionária, enquanto milhões se afundavam na miséria.

Para sustentar o processo de reformas, evitando a irrupção dos movimentos de massas, a fragmentação social também teve seu correlato político: desde os organismos internacionais imperialistas se estabeleceram relações “frutíferas” para o “desenvolvimento sustentável”, com os movimentos sociais e suas organizações. Quando a maior parte do programa “neoliberal” já se havia implementado, o Banco Mundial priorizou o financiamento de programas sociais sob os lemas da participação e a transparência. As organizações não governamentais foram as executoras privilegiadas de seus projetos assistencialistas focalizados. O Banco Mundial como o resto das agências de financiamento, cumpriu, neste período, um papel político e ideológico muito importante em relação ao controle social.

Em um círculo perverso, as políticas neoliberais que desmantelavam o Estado e as prestações sociais, que empurravam milhões de pessoas ao desemprego e criavam novas condições de exploração baseadas na fragmentação e na precarização do trabalho em todo o mundo... também iam acompanhadas da assistência social como política de contenção, para evitar a emergência dos excluídos. Essas políticas neoliberais incluíram a “cooperação” com as organizações não governamentais para que fossem estas mãos “privadas” as que pusessem os remendos necessários para evitar o transbordamento. A cooptação alcançou cifras indiscutíveis: em mil novecentos e setenta, as ong’s dos países latinoamericanos receberam novecentos e quatorze milhões de dólares; em mil novecentos e oitenta, a cifra ascendeu a dois bilhões trezentos e sessenta e oito milhões de dólares e em mil novecentos e noventa e dois, o dinheiro destinado às ong’s se incrementou em mais de quinhentos por cento.

Isto que é um processo geral, também foi uma transformação importante para o feminismo. Ainda que soe paradoxo, durante o período de maior contra-ofensiva imperialista contra as massas, suas organizações e as conquistas herdadas de décadas anteriores, a agenda feminista se converteu, em grande medida, em política pública dos Estados, dos governos e das organizações interestatais, incluindo os organismos financeiros. O feminismo, como movimento radical que re-emergiu ao calor da luta de classes mundial do final dos ’60 e princípios dos ’70, teve o mérito de impor sentidos, alcançando legitimidade entre públicos mais amplos. Mas esta legitimidade também foi às custas, ao passo, de sua reconversão em uma pletora de organizações não governamentais, perdendo seu filo mais subversivo. O feminismo obteve reconhecimento a troca de integração. Legalidade em troca de abandono da radicalidade anterior. O clima resultante foi a desmoralização e despolitização do movimento. O feminismo passou de questionar as bases do modo de produção capitalista a supor que a democracia burguesa é o sistema no que se pode ir conseguindo, paulatinamente, maior equidade de gênero, através de algumas reformas. A institucionalização do movimento também gerou uma “tecnocracia” de gênero e a fragmentação que converteu as demandas das mulheres em demandas parcializadas de assistencialismo.

Porque assim funcionavam estes projetos para o desenvolvimento e a promoção de um “feminismo de direitos”, o que verdadeiramente sucedeu é que cresceu fenomenalmente a desigualdade e, sobre milhões de mulheres, descarregaram-se as consequências mais nefastas do ataque imperialista às massas do continente. Na América Latina aumentou velozmente o que se denomina a “feminização da força de trabalho”, onde – como já assinalamos – a crescente incorporação das mulheres ao mercado de trabalho foi às custas de uma maior precarização, com as piores condições e sem direito a se organizar. Durante este mesmo período, os antigos ataques (vejámenes) contra as mulheres, transformaram-se em parcos “negócios”. A abertura das fronteiras para o comércio internacional, os paraísos fiscais, a concentração de mulheres jovens desarraigadas em enormes cidades-industriais de fronteiras, o crescimento do tráfico de drogas e a corrupção, permitiram que o tráfico de mulheres para snuff, pornografia, escravismo sexual e prostituição se transformou em uma colossal indústria que alcança a quatro milhões de mulheres e dois milhões de meninas e meninos a cada ano, produzindo um lucro de trinta e dois bilhões de dólares para os proxenetas (entre cujas redes, não é demais esclarecer que, sempre se encontram políticos, empresários, forças repressivas, funcionários judiciais, religiosos etc).

Contra esta corrente que promoveu a institucionalização do movimento feminista, também surgiram grupos e correntes feministas que resistiram a esta tendência geral. Porque enquanto a maioria do feminismo se inclinou por uma perspectiva reformista, desenvolvida no marco institucional desenhado internacionalmente pela ONU; uma minoria se distanciou da disputa pelo poder do Estado, obrigada a relegar-se e autorelegando-se na criação de “contracultura” e “contravalores” opostos aos imperantes. Contra uma visão integrada do feminismo, a visão que – parafraseando a Umberto Ecco – poderíamos denominar apocalíptica, supôs que bastava lhe dar as costas ao poder existente para autoapoderar-nos, criando nossos próprios valores e nossa própria cultura na contracorrente do patriarcado. Isto também despolitizou a luta das mulheres por sua emancipação, redobrando-lhe exclusivamente no terreno da cultura e limitando o feminismo, em última instância, a pequenos círculos de “iniciadas”.

O sistema nos quer fechadas nesta falsa dicotomia: nos incorporamos ao Estado e suas instituições para reformar “desde dentro” o pouco que se pode, incorporando-nos a governos e regimes que se fundam, legitimam e reproduzem a ordem existente, ou melhor damos as costas às lutas onde se joga a relação de forças com as classes que exercem sua dominação através do Estado, sustentando que a única via de emanciapação é a auto-emancipação que se consegue quando se alcança a verdadeira consciência. O que, em certo sentido, era uma compreensível reação contra a institucionalização que havia absorvido as arestas mais revulsivas do movimento feminista, convertia-se prontamente em uma trava para o estabelecimento de grupos militantes, ativos, dispostos a avançar na construção de movimentos de mulheres verdadeiramente massivos, onde as demandas avançaram para a defesa de uma transformação radical, profunda, revolucionária da sociedade.

Como sair deste paradoxo? Isto é o que quero deixar aberto para o debate.

O que parecia um caminho que nos conduzia evolutiva e gradualmente a uma situação de maiores direitos, maior equidade e melhoras na vida das mulheres... desembocou nesta situação mundial de feminização da força de trabalho, feminização da pobreza, aumento inusitado da violência contra as mulheres...

Podemos manter a ilusão da integração que poderia sonhar o feminismo institucional? Aceitamos que se reduza ainda muito mais o círculo dos que podem viver criativamente a margem de milhões de seres humanos – em sua maioria mulheres – que vivem em um mundo que se afunda, cada vez mais, na barbárie? Então... Que faremos frente à crise que nos ameaça? Que rumos adotará o feminismo frente a solução de guerras, desemprego massivo, destruição do planeta e mais miséria que o capitalismo apresentará para sobreviver a si mesmo? Onde está escrito que a luta das mulheres tem que se reduzir, como diria um filósofo pós-moderno a “minimizar a crueldade”? Vamos nos colocar a perspectiva de uma nova sociedade, sem exploração nem opressão de nenhum tipo ou vamos eleger o caminho das modificações desta sociedade na que vivemos, para atenuar, ao sumo, alguns de seus mais brutais abusos?

Nunca é demais se remontar à Revolução Francesa de mil setecentos e oitenta e nove ou à Revolução Russa de mil novecentos e dezessete para demonstrar que frente aos grandes cataclismos sociais, políticos e econômicos, as mulheres seguem sendo os destacamentos de vanguarda que enfrentam as crises e as nefastas consequências que elas entranham para a vida cotidiana das massas. Já vimos lutar as mulheres do altiplano boliviano na Guerra da Água; as mulheres oaxaquenhas tomar literalmente o poder da comuna, organizando a resistência desde os meios de comunicação sob seu controle. As mulheres desempregadas na Argentina cortaram as estradas uma e mil vezes demandando trabalho genuíno e as trabalhadoras da têxtil Brukman puseram a produzir a empresa sob controle operário, resistindo ao desalojamento e à repressão, em plena crise nacional de 2001. Temos visto as feministas e mulheres em resistência de Honduras, durante meses, estar a frente da luta contra os golpistas e, nas colônias mais pobres de Tegucigalpa, vimos as mulheres organizando o território e a comunidade para resistir à repressão do exército e dos capangas.

Nesses novos ímpetos de milhões de mulheres trabalhadoras e dos setores populares radicam as forças das que dependerá o futuro do movimento de mulheres da América Latina. As feministas que sonham ainda com uma sociedade liberada de toda forma de opressão, não só não pode dar as costas a estes setores de milhões de mulheres do continente que emergiram à vida política nos últimos anos, senão que tem o dever de dirigir-se a elas, de se nutrir de suas lutas e colaborar com seus triunfos. Por isso consideramos que só desde a perspectiva de atacar o coração do capitalismo é que a demanda inclusive dos direitos democráticos mais elementares encerra um potencial subversivo. Por isso, lutamos para arrancar a este sistema todos os direitos dos que as mulheres temos sido privadas ao longo da história; mas o fazemos desde a perspectiva e com a estratégia do socialismo.

Devemos recuperar essa estratégia agora quando o sistema capitalista, nesta nova investida contra as maiorias exploradas e oprimidas do planeta (maiorias feminizadas), não deixa mais lugar para a ilusão da integração que poderia sonhar o feminismo institucional e reduz ainda muito mais o círculo de quem pode viver criativamente à margem de uma sociedade que se afunda, cada vez mais, na barbárie.

Para terminar eu quero trazer à memória uma mulher socialista norte-americana –Louise Kneeland- que, em 1914, disse: “O socialista que não é feminista carece de amplitude. Mais quem é feminista e não é socialista carece de estratégia.” Como se sucedeu outras vezes na história, confiamos em que serão novamente as mulheres mais exploradas e oprimidas de nosso continente as que impulsionarão o surgimento de um novo feminismo socialista que ainda espera ver a luz. “Socialismo ou barbárie”, nos disse Rosa Luxemburgo. E hoje essa premissa adquire uma vigência inusitada... especialmente para as mulheres... para as que não pedimos, senão exigimos, nosso direito ao pão, mas também às rosas.

Muito obrigada.

* Andrea D'Atri fundou a agrupação de mulheres Pan y Rosas na Argentina, que hoje está presente também no Brasil, México, Chile e Bolívia. Escreveu o livro "Pão e Rosas. Identidade de gênero e antagonismo de classe no capitalismo" é compiladora do livro "Lutadoras. Histórias de mulheres que fizeram história". É dirigente do Partido dos Trabalhadores Socialistas (PTS).

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Exitosa apresentação do livro Pão e Rosas em sua 4ª edição, desta vez no México

México, DF. 17 de julho. Pan y Rosas - México

Com o êxito da apresentação e participação especial da escritora, feminista e lutadora social, Francesca Gargallo, e quase uma centena de assistentes na Casa de Cultura “Casa de Ondas”, realizou-se a apresentação do livro Pão e Rosas: Identidade de gênero e antagonismo de classe no capitalismo, de Andrea D'Atri. Uma publicação em sua edição mexicana por “Armas da Crítica”.

O evento começou com imagens das atividades que realizamos como Pão e Rosas no México desde a formação da agrupação no início deste ano. Posteriormente mostramos um vídeo no qual a companheira Andrea D'Atri é entrevistada por distintas mídias na Argentina a respeito da opinião do Pão e Rosas sobre a nova legislação que permite o matrimônio entre pessoas do mesmo sexo. Então explicamos que neste momento a autora, junto às companheiras do PeR, se encontrava numa intensa campanha por plenos direitos para o movimento LGTTTI. Mais adiante, uma intervenção de um companheiro do público afirmou que foi o Pão e Rosas Argentina a primeira organização a chegar ao congresso, encabeçando a defesa do direito ao matrimônio entre pessoas do mesmo sexo. Assim demos início a apresentação, com a participação de Jimena Mendoza, dirigente da Liga de Trabalhadores pelo Socialismo, coordenadora da Cátedra Marxista Karl Marx e coordenadora da Editora Armas da Crítica.

Jimena falou da importância de fazer um trabalho paciente e persistente de difundir no México o marxismo como teoria crítica da sociedade, da importância de armar-se de uma teoria capaz de questionar as bases estruturais da sociedade capitalista, sobre o entendimento profundo do social. O questionamento da propriedade privada, do Estado, da exploração, da família, da igreja, das relações sociais é o patrimônio do marxismo e, através dele, se faz imprescindível recuperar seu legado usando “as armas da crítica” para combater os fantasmas que colaboram com a sustentação da exploração e dominação atual.

Mais adiante explicou que na palavra “abolir” se sintetiza o segundo objetivo do projeto editorial “Armas da Crítica”, pois é também um projeto militante de difusão para que as novas gerações encontrem na história e fundamentos do marxismo revolucionário um guia para a ação que recupere a necessidade de abolir – acabar radicalmente – com este sistema de exploração e miséria. Por isso, disse “nos orgulha iniciar este trabalho editorial com a publicação do Pão e Rosas, um livro que, sem o subsídio das grandes multinacionais da indústria editorial aos governos e aos fideicomisos, se esgotou em sua edição argentina, venezuelana e brasileira e que hoje, no México, tem encontrado grande recepção.” Além disso, demonstrou sua alegria ao saber que em vários países a versão digitalizada na internet ou as edições impressas do livro são utilizadas por muitas jovens companheiras que se aproximam do feminismo utilizando como parte da formação básica.

Logo inspirou a participação de Francesca Gargallo, feminista ativa de esquerda, com grande reconhecimento no México, escritora que já deixou um legado com suas elaborações políticas, filosóficas e literárias. Uma companheira de luta que participou junto às Feministas em Resistência da luta contra o golpe militar em Honduras.

Francesca fez uma introdução emocionada sobre sua aproximação com a agrupação Pão e Rosas durante o golpe militar, explicando que a semelhança que levou a nos encontrarmos na luta foi o fato de termos a mesma perspectiva feminista internacionalista. Durante o golpe de estado, o Pão e Rosas enviou uma correspondente em Honduras para documentar a participação das mulheres e das feministas em resistência neste país.

Posteriormente, explicou a importância de contar com um livro que oferece um resumo histórico, como o faz o livro Pão e Rosas, mostrando as contribuições das mulheres nas lutas no decorrer da história, sua participação no âmbito feminista e na luta por suas demandas. E neste marco, a importância de oferecer novas alternativas de formação para as novas companheiras que se aproximam da luta. Embora, explica ela, Andréa D’Atri não seja uma escritora profissional, procura apresentar o conteúdo de forma agradável, analisando como o ataque à mulher foi mais gritante sob o capitalismo, diante do qual sem dúvida não deixa de haver lutas, pelo contrário, as mulheres continuam sendo o indício de resistência e organização, como mostraram em Honduras.
Por último, tivemos a participação de Sandra Romero, por parte do Pão e Rosas, que destacou a importância desta publicação que tem um objetivo militante para nossa organização: Transmitir a vontade das muitas mulheres que ao longo da história deixaram lições de luta e organização, ainda mais no caminho que nos propusemos em nosso país de formar um movimento de mulheres em defesa de nossos direitos e contra o ataque que se aprofunda contra a mulher a partir da crise econômica internacional. Situação que traz à tona a discussão sobre como alcançamos o caminho pela liberação definitiva da mulher, muito ligado à luta pela emancipação da humanidade; caminho que, para nós, está estreitamente ligado à luta de classes.

Também salientou a necessidade de que em nosso país se faça uma continuidade entre a grande produção teórica do feminismo nas últimas décadas e as necessidades de organização e protesto contra a opressão e exploração em nosso país, no marco de uma perigosa aliança reacionária entre a Igreja e o Estado, que penalizou o aborto em 22 estados do país. Por isso que o livro Pão e Rosas deve servir como ferramenta de formação nessa perspectiva.

Assim, abrimos à participação do público, concorrido por muitas jovens e companheiros de diferentes áreas, que compartilharam suas dúvidas e reflexões por 30 minutos, mas que se converteu num agradável bate-papo sobre as perspectivas do movimento feminista em nosso país e as necessidades de luta para as mulheres, assim como a necessidade de dar peso a esta e outras leituras que nos levem à novas conclusões.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Ciclo de estudos "As mulheres e o Socialismo" no ABC paulista. Participe!

29/05, sábado, das 10h às 17h
A origem da propriedade privada e da opressão à mulher

A luta das mulheres e da classe trabalhadora: Flora Tristán, Rosa Luxemburgo e Clara Zetkin

As mulheres na Revolução Russa: seu papel e suas conquistas


Casa Socialista do ABC
Av. Príncipe de Gales, 527 - Santo André

Organização: Pão e Rosas
Apoio: Edições Iskra

Informações, bibliografia e inscrições, escreva para paoerosasbr@gmail.com

quarta-feira, 17 de março de 2010

"Pão e Rosas. Identidade de gênero e antagonismo de classe no capitalismo." Livro de Andrea D'atri

Prefácio
à edição em português

As mulheres chegaram ao poder? Pela primeira vez na história — quando publicamos a edição em português do Pão e Rosas — se conjectura que uma mulher possa ser a próxima presidente dos Estados Unidos da América. Recentemente, na Argentina, Cristina Fernández de Kirchner foi eleita presidente. O Chile é governado por uma mulher, bem como a Alemanha, e o mesmo acontece em países tão remotos como a Libéria. O destino de milhares de iraquianos é decidido (Clara Zetkin e Rosa Luxemburgo) por uma mulher tão poderosa como Condoleeza Rice, e outras mulheres não só ocupam os ministérios da Saúde e Ação Social, como também os de Economia ou de Segurança em distintos governos.

Mas enquanto o mundo assiste a esse acontecimento e os meios de comunicação prognosticam que se inaugura o “século das mulheres”, a vida de milhões de seres humanos, majoritariamente mulheres e meninas, transcorre entre as piores humilhações que se pode imaginar. Aumenta o trabalho precário das mulheres, chegando em alguns casos à escravidão; o negócio da prostituição e o tratamento dado às mulheres e meninas não deixam de crescer, amparados por redes mafiosas que envolvem funcionários, forças repressivas e o Estado. A violência sexista encontrou, inclusive, novas denominações, como a do femicídio, coma qual se tenta descrever o horror dos crimes contra as mulheres, os quais são antecedidos por torturas e violações sexuais, seguidos por impunidade e silêncio. As mulheres terem chegado ao poder não possibilitou que isso deixasse de ocorrer, mostrando uma vez mais — como se fizesse falta — que o problema não é só uma questão de gênero.

A barbárie que ameaça milhões de seres humanos, mas particularmente as mulheres e crianças, é também o resultado da combinação do patriarcado ancestral com a selvageria imposto pelo mais moderno sistema capitalista. Esse sistema econômico funciona, melhor ainda, sob a envoltura dos regimes democráticos, que apenas recentemente dão passos na participação das mulheres nos parlamentos, ministérios, tribunais, exércitos e, inclusive, nos mais altos cargos do poder executivo. Para milhões de mulheres, entretanto, a igualdade nos marcos deste sistema capitalista se apresenta como uma utopia inalcançável. Igualdade com quem? Não há igualdade sequer com o companheiro que, ao nosso lado, sofre também a exploração imposta pela minoria de proprietários dos meios de produção. Jamais se alcançará a igualdade com essa minoria que vive na abundância enquanto existir a propriedade privada, dividindo a sociedade em uns poucos que têm tudo e uma imensa maioria que só possui a força de seus braços para se manter na vida.

Hoje, duas classes se enfrentam para definir o futuro da humanidade: a burguesia imperialista e o proletariado. Como afirmou a revolucionária Rosa Luxemburgo, diante dessa situação só se pode esperar “socialismo ou barbárie”.Mas para construir o socialismo a classe trabalhadora não só necessita de toda a sua força, toda a sua resolução, toda a sua audácia, como também se desfazer das ficções com que a classe dominante encadeia seu pensamento para mantê-la domesticada. Entre as ficções das quais é necessário que a classe operária se liberte, se encontram os preconceitos sexistas que mantêm a submissão, a humilhação e os maus-tratos às mulheres, embrutecendo também os homens explorados que legitimam, justificam e reproduzem tais costumes.

Esperamos que agora, quando se acabam de cumprir os 90 anos da Revolução Russa, e este trabalho é publicado em sua versão em português, as reflexões aqui plasmadas sejam um pequeno incentivo que anime as novas gerações a se incorporar à luta consciente por um mundo liberado das cadeias que hoje pesam, duplamente, sobre as costas de milhões de mulheres.

Andrea D’Atri
Buenos Aires, fevereiro de 2008

Clique na imagem para ler o livro em pdf.

Título Original: Pan y Rosas. Pertenencia de género y antagonismo de clase en el capitalismo
Título: Pão e Rosas. Identidade de gênero e antagonismo de classe no capitalismo
Autor: Andrea D’Atri
Páginas: 200
Ano de publicação: 2008
ISBN: 978-8561474-00-3

Inclui um anexo de declarações, manifestos e documentos da história da luta do movimento feminista e de mulheres trabalhadoras.

Para adquirir um exemplar escreva para: iskra@ler-qi.org

sábado, 14 de novembro de 2009

Entrevista com Liliana Ogando Caló e Luis Siebel, das Edições ISKRA, sobre os Escritos Latino-Americanos de Leon Trotsky

Entrevistamos Liliana Ogando Caló e Luis Siebel, do CEIP León Trotsky e das Edições ISKRA respectivamente, sobre sua última publicação, os Escritos Latino-americanos de Leon Trotsky, grande revolucionário russo.

Pão e Rosas: O que são os Escritos Latino-Americanos de Leon Trotsky?

Luis: Os Escritos Latino-americanos reúnem os principais escritos e discussões realizadas sobre o nosso continente no último exílio de Trotsky no México. Possuem a particularidade de ser o produto de um encontro histórico bastante inesperado: Trotsky, uma das principais figuras da política mundial e ator de primeira ordem na Revolução Russa de 1917, encontra-se com uma realidade em grande medida ainda inexplorada naqueles anos pelos marxistas. Assim, por um trabalho que foi realizado pelo CEIP da Argentina há 10 anos – quando da sua primeira edição em espanhol -, foram reunidos estes escritos. Além disso, refletem o pensamento maduro de Trotsky, após a sua elaboração definitiva da teoria da revolução permanente no final dos anos 1920 e após confrontá-la com as distintas e complexas realidades da luta de classes nos anos 1930. A visão apresentada por Trotsky sobre a América Latina era também parte de toda uma corrente (se assim pudermos definir) de interpretação alternativa da formação do capitalismo no continente, que se formava através dos diferentes grupos trotskistas e que deixou bases importantes para nós hoje. Desta forma, ainda que tenha sido uma experiência interrompida, pois também o trotskismo “clássico” entrou em crise após os anos 1940; a partir deste ponto de vista, estava longe daquilo que definia Deustcher sobre Trotsky como um “profeta desarmado”: as correntes trotskistas, em muitos países, foram verdadeiras alternativas ao stalinismo nos anos 1930.

Liliana: Os textos compilados são muito interessantes porque permitem fazer uma leitura da “questão latino americana” sob a ótica de Leon Trotsky, ainda que não sejam parte de uma elaboração sistemática dele, em se tratando de escritos esparsos motivados por uma série de razões. Trata-se de recuperar outra linha na historia do marxismo latino americano, a do trotskismo, raramente colocado em discussão nos estudos críticos e inclusive marxistas sobre a América Latina. Pensar na revolução latino-americana é se perguntar sobre o caráter e a dinâmica, quais são as alianças de classe necessárias, as demandas a resolver, os métodos de luta, a direção política da revolução etc. Nesse sentido encontramos nos Escritos Latino-Americanos uma resposta alternativa, dialética, ao conjunto da orientação etapista e mecanicista dos Partidos Comunistas que divide países maduros e não maduros para a revolução proletária e considera progressivo o papel das burguesias nacionais na luta pela libertação nacional, e que tanta influência teve nas correntes políticas e nos intelectuais de nosso continente.

Luis: Através de textos, artigos, entrevistas, inéditos em português publicados nesta edição, Trotsky desenvolve os principais conceitos dos fenômenos políticos que se apresentaram durante seu exílio no México, como o cardenismo; a política norte-americana no continente sob o governo Rooselvet, a estatização dos sindicatos na época imperialista, ao mesmo tempo em que interage com as principais reflexões dos trotskistas mexicanos sobre a revolução mexicana, que são uma leitura da teoria da revolução permanente em um novo nível de concretude e que confirmam sua veracidade histórica.

Pão e Rosas: O livro fala sobre a Revolução Mexicana de 1910. Quais foram suas principais lições?

Liliana: Ao fazer esse balanço, ele sinala um conceito fundamental que é o atraso histórico do qual é portadora a revolução mexicana.

Pão e Rosas: O que isso significa?

Luis: Que surgindo em um momento de transição, entre o fim do capitalismo de livre competição e o começo da época imperialista, era uma revolução burguesa atrasada, e isso tinha conseqüências. As tarefas democráticas contra a ditadura e fundamentalmente agrária foram assumidas pelo movimento camponês de forma radicalizada. O campesinato mexicano que teve a enorme virtude de alcançar o nível elevado de radicalidade mostrou seus limites para apresentar uma alternativa nacional contra o projeto da burguesia. A revolução mexicana permitiu comprovar mais uma vez, no cenário da luta de classes, o diagnóstico da teoria da permanente que nega qualquer possibilidade de um regime democrático intermediário, nem burguês nem proletário, liderado pelos camponeses. Demonstrava que os camponeses constituem uma enorme força revolucionária, porém impossibilitados de impor uma política própria. Era necessário superar e derrotar a burguesia constitucionalista que se oferecia como alternativa ao porfirismo, derrotando-a com a tomada do poder do proletariado e dos camponeses.

Liliana: Há que reconhecer que, como assinalava Trotsky, neste mais de meio século as burguesias nacionais se demonstraram incapazes de libertar nossos países das amarras da dominação imperialista e a questão agrária continua sendo uma tarefa pendente que deverá resolver o proletariado, a única classe capaz de liderar essas tarefas, como força social decisiva.

Pão e Rosas: No começo do ano, as Edições ISKRA publicaram o livro Lutadoras. Histórias de mulheres que fizeram história onde muitas mulheres latino-americanas foram retratadas. Vocês teriam algo a falar sobre a história das mulheres mexicanas?
Liliana: A história das lutadoras mexicanas é também a história da luta de classes no país. Importantes lutas, protagonizadas por operários e camponeses mexicanos no início do século XX, que antecedem a Revolução Mexicana de 1910, tiveram participação ativa das mulheres. Na publicação Lutadoras, destacamos a história de Lucrecia Toriz, uma operária têxtil originária de Veracruz, que teve importante participação na greve Rio Blanco, ocorrida em 1900, abarcando operárias e operários têxteis de três estados do país. Os grevistas reivindicavam jornada de 8 horas, aumento salarial e melhores condições de trabalho. Esta greve foi marcada por duros confrontos com a patronal, que fechou as fábricas que não estavam em poder dos trabalhadores e se colocava contra qualquer negociação das reivindicações, o movimento grevista, entretanto cresceu e foi adquirindo cada vez mais força. Em 7 de janeiro, operários e operárias se concentraram em frente a fábrica Rio Blanco para impedir a entrada de fura-greves, ocorrendo um confronto entre a patronal e os grevistas, com tiros disparados por agentes na patronal que provocou um incêndio em uma tenda montada em frente à fábrica. Os operários e operárias espalharam-se pela região e tomaram alguns quartéis e estações de trem, que sofreram repressão estatal. Essa revolta de operários foi duramente reprimida pelo Estado e há relatos de Lucrecia Toriz, discursando contra os repressores em meio a multidão, com fuzis apontados em sua direção. Após essa sanguinária represália não se mais registros históricos sobre a vida da operária.

Pão e Rosas: Qual a importância de publicar esse livro hoje, num momento em que a América Latina vê golpes de estado, grandes greves operárias e mobilizações?
Luis: Consideramos que a obra de LT constitui uma alternativa para o século XXI. É que Trotsky atuou nos anos mais convulsivos de nossa época, começando pela primeira guerra mundial, o crack de 1929, fenômenos de revolução e contra-revolução abertos como, a revolução espanhola e o fascismo, a burocratização do primeiro Estado operário, ou seja, sua obra foi construída ao calor desses acontecimentos e longe de só analisá-los, sua política foi de apreendê-los e tirar lições para intervir neles.

Liliana: Ainda que as analogias não sejam uma fiel reprodução de fatos acontecidos, a importância de obra de Trotsky se acrescenta se consideramos que a crise internacional aberta com a queda do Leckman-Brothers nos EUA, em 2008, abre perspectivas comparáveis ao da convulsionada década dos 30. Já na América Latina começam a se delinear projetos políticos como os populismos nacionalistas, como é o caso do chavismo na Venezuela, ou o golpe de estado institucional na Honduras que provocou a resistência operária e popular, ou a maior ingerência imperialista no continente com a instalação de sete novas bases militares na Colômbia.

Luis: A publicação desta obra tem esse duplo objetivo, conhecer suas reflexões sobre a América Latina para convertê-las em um ponto de apoio de interpretação dos novos problemas de nosso século, em nosso continente. Um dos nossos principais propósitos, através da difusão das obras do marxismo revolucionário das Edições Iskra, é reivindicar e recriar o pensamento marxista. Nós acreditamos que à luz da luta de classes e das experiências das ultimas décadas, será possível enriquecer no que diz respeito à obra de Leon Trotsky seu método e o desenvolvimento de suas próprias reflexões.

É possível consultar o catálogo da editora http://www.ler-qi.org/spip.php?rubrique184 e para entrar em contato envie um email para iskra@ler-qi.org