quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Amanhã na USP Seminário "Precarização, Apartheid e desmanche". Com Diana Assunção e Ricardo Antunes.

DESFORMAS
Centro de Estudos Desmanche e Formação de Sistemas Simbólicos

DESFORMAS - CENEDIC – CEMARX

Seminário – PRECARIZAÇÃO, APARTHEID E DESMACHE

19.NOV.10 - Sala 100 Prédio das Ciências Sociais- FFLCH

14:30 - DIANA ASSUNÇÃO
(Secretaria de Mulheres do Sintusp e do Pão e Rosas)

A precarização tem rosto de mulher

Com a ofensiva neoliberal que se impôs contra a classe trabalhadora nas últimas décadas, os capitalistas procuraram tirar proveito de todo tipo de divisão nas fileiras do proletariado, para enfraquecer suas lutas e impor condições diferenciadas de exploração. As condições de opressão sobre as mulheres forneceram um dos fatores mais eficazes para esse objetivo.

Nesse sentido, o combate contra a opressão às mulheres, do ponto de vista classista, deve estar conscientemente ligado ao combate a todo tipo de divisão das fileiras da classe trabalhadora, numa perspectiva de luta de classes.

A constituição da Secretaria de Mulheres do Sintusp, não por acaso realizada após a importante greve protagonizada pelo Sindicato em 2009, visa responder a essa questão. De acordo com seus objetivos abertamente declarados, a Secretaria é uma ferramenta de luta do conjunto das trabalhadoras, em aliança com as estudantes. Buscamos desde o início estabelecer uma relação especial com as trabalhadoras terceirizadas da USP, explicando a essas mulheres que queremos estar lado a lado com elas na luta contra a divisão imposta a nossa classe.

15:10 - RICARDO ANTUNES
(IFCH/ UNICAMP)

Do infoproletariado à informalidade ampliada: as formas de ser da precariedade

Nossa aula pretende apresentar algumas teses que conformam o modo de ser da precarização do trabalho hoje.

Vamos explorar analiticamente, os seguintes pontos: a degradação do trabalho no século xx e xxi e suas diferenciações; a era da informatização e informalização do trabalho; a perenidade e a superfluidade do trabalho; o trabalho imaterial e as novas formas do valor, bem como a nova morfologia do trabalho hoje, com destaque para o infoproletariado e a precariedade, dentre outros pontos.


PARA CONFERIR A PROGRAMAÇÃO COMPLETA (2010-11) ACESSE O BLOG DO DESFORMAS: http://desformas.blogspot.com/

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Pão e Rosas convida: debate sobre "violência contra as mulheres"

DIA 19/11, SEXTA, ÀS 19h


Local: Casa Hermínio Sacchetta de Cultura e Política,
Av. Anchieta, 51, Centro- Campinas, ao lado do "Pastel Voga

domingo, 14 de novembro de 2010

SINTUSP: Uma chapa combativa e classista para defender os lutadores!

Por Diana Assunção
trabalhadora da Faculdade de Educação e
membro da Secretaria de Mulheres do SINTUSP

Enquanto o governo e a Reitoria tentam destruir nosso Sindicato e a organização independente dos trabalhadores, inicia-se o processo de eleições para o SINTUSP. Trata-se de um momento importantíssimo, onde devemos buscar organizar os setores mais combativos que se expressaram durante as últimas greves para avançar em seu classismo, ou seja, para a compreensão profunda de que mesmo divididos em diferentes funções, categorias, regimes de trabalho (efetivos, temporários, terceirizados) e até em diferentes países os trabalhadores são uma só classe que têm em comum a exploração que lhes impõem os patrões e o governo. Devemos a partir desta ótica avançar na construção de um sindicalismo diferente do que temos visto nacionalmente – em especial os que já são diretamente dirigidos pela burocracia sindical, mas também os que se contentam em fazer um sindicalismo de esquerda que não se coloca no enfrentamento direto com a burguesia e o governo.

Para nós, revolucionários, as organizações operárias e seus partidos devem intervir nos Sindicatos para construir frações revolucionárias, que, como dizia Trotsky, lutem inicialmente por dois pontos essenciais: a independência do Sindicato em relação aos patrões e ao Estado Burguês; e a democracia sindical. Desde este ponto de vista que nos últimos anos viemos intervindo como uma ala minoritária na Diretoria do Sintusp, buscando aportar para avançar nos elementos classistas de programa e prática sindical, por uma verdadeira democracia operária. Ao mesmo tempo, buscamos profundamente unir, em primeiro lugar, programaticamente os setores de trabalhadores de nossa categoria com todos os setores explorados e oprimidos da sociedade, começando pelos trabalhadores terceirizados e temporários da própria universidade, pois partimos de que os sindicatos ainda representam setores minoritários da classe operária e para chegar em setores mais amplos precisam romper com o corporativismo.

Nós, que estamos construindo uma corrente político-sindical nas três universidades estaduais paulistas, fizemos um chamado ao Coletivo Piqueteiros e Lutadores, que hoje compõe a direção majoritária do Sintusp, a organizar uma chapa unificada dos setores combativos nestas eleições, pois consideramos que, apesar de nossas diferenças, seria um erro gravíssimo nos dividir neste momento. Propusemos este chamado, a partir de uma discussão programática que leve em consideração tudo que até hoje aprovamos em nossos Congressos e Assembléias, que já expressam uma base importante para um programa de classe. Diante da resposta positiva dos companheiros – que infelizmente se negaram a organizar uma convenção aberta para discutir o programa com os setores combativos de maneira mais ampla e democrática – nós vamos organizar reuniões em diversas unidades com outros ativistas e trabalhadores, buscando novos companheiros para fazer parte deste processo tendo como tarefa nº 1 a defesa dos lutadores e lutadoras.

SURTO DE CÓLERA NO HAITI: Mais um capítulo criminoso da política de ocupação

Por Simone Ishibashi

O Haiti encontra-se imerso em meio ao agravamento de fome, miséria e sofrimentos inauditos para a população. Em semanas o país se viu sendo assolado pelo pior surto de cólera. Desde meados de outubro cerca de 583 pessoas morreram, enquanto estima-se que cerca de 7 mil pessoas teriam sido infectadas. O surto já atingiu a capital Porto Príncipe. Agravando ainda mais a situação, o país também foi assolado pela passagem do furacão Tomas, que matou 21 pessoas.

Porém, nada disso tem “causas naturais”. O surto de cólera que castiga a população haitiana é uma decorrência direta da política do imperialismo norte-americano, que segue com um imenso contingente de tropas no país, e da ocupação da Minustah, chefiada pelo governo brasileiro de Lula desde 2005. O Haiti, que há cinco anos sofre os efeitos da ocupação foi assolado por um imenso terremoto em janeiro deste ano, que matou milhares de pessoas, e arrasou sua capital. A política dos EUA, da Minustah e da ONU foi de aumentar os efetivos militares e investir em incrementar a repressão sobre o povo. Enquanto isso, a infra-estrutura, precária mesmo antes do terremoto, e reduzida a pó após este, além dos hospitais, escolas e moradias destruídas seguem formando montes de entulhos nas cidades, o que cria as condições para a proliferação de todos os tipos de doenças, gerando uma situação completamente insalubre. A atuação das tropas imperialistas e da Minustah frente ao surto de cólera é mais uma demonstração de que para estes a vida dos haitianos nada vale.

Enquanto o povo haitiano sucumbe na miséria, doença, humilhação e opressão, o governo brasileiro chefiado por Lula, em um de seus últimos atos no poder acaba de aprovar cerca de R$ 10, 1 milhões de indenizações para os familiares de 18 militares que serviram na Minustah. Ao povo haitiano a única coisa que o governo brasileiro dá são mais mortos, mulheres estupradas e repressão a todos que lançados pelo desespero tomam ações que questionam a ordem. Sabe-se que as tropas brasileiras que foram ao Haiti são responsáveis por sangrentos assassinatos em massa, e pela brutal opressão que agrava ainda mais as péssimas condições de vida dos haitianos, que ao contrário do que propaga a imprensa burguesa encontra-se em franca piora desde o início da ocupação em 2005. A reacionária ocupação do Haiti é uma das políticas que será continuidade pela presidente eleita, Dilma Roussef. É preciso acabar com a ocupação do Haiti, reivindicando que toda a ajuda humanitária seja controlada pelas organizações dos trabalhadores e populares.



segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A respeito do InterUnesp, da homofobia na USP e do racismo contra os nordestinos. Espectros do capitalismo em decadência: respondamos à altura!

Por Simone Ishibashi, diretora da revista Estratégia
Internacional Brasil e dirigente da LER-QI
"Até agora, os homens formaram sempre idéias falsas sobre si mesmos, sobre aquilo que são ou deveriam ser. Organizaram as suas relações mútuas em função das representações de Deus, do homem normal, etc., que aceitavam. Estes produtos do seu cérebro acabaram por os dominar; apesar de criadores, inclinaram-se perante as suas próprias criações. Libertemo-los, portanto, das quimeras, das idéias, dos dogmas, dos seres imaginários cujo jugo os faz degenerar."
Marx, A ideologia alemã

Nas últimas semanas as páginas dos jornais foram inundadas com notícias que chocaram amplamente a opinião pública, ou pelo menos um setor desta que conserva o mínimo de razão e humanidade. Primeiro, a contaminação total e completa do debate eleitoral com temas como a religião, transformando discussões que deveriam ser políticas e em torno de direitos democráticos elementares, como o direito ao aborto, em um referendo sobre a religiosidade, que mais bem lembrava a Idade Média. Serra, cujo partido já encampa a “campanha pela vida”, que ao lado da Igreja se lança raivosamente contra o direito ao aborto, aproveitou para bradar em alto e bom som suas reacionárias opiniões sobre o tema. Dilma, para constrangimento de todas as mulheres do país, mergulhou com tudo na onda do obscurantismo e publicou uma vergonhosa carta se comprometendo a “não tomar nenhuma ação que fira a família brasileira”, entre outras declarações do estilo. Algum dos candidatos da burguesia se declarou, aproveitando a presença do “Santíssimo papa” em terras brasileiras em meio ao processo eleitoral, para condenar os escândalos de pedofilia – prática que data dos tempos imemoriais – da Igreja? Para questionar a atuação do papa, que todos sabem ter encoberto com um véu tecido com a mais asquerosa impunidade os padres que por décadas abusaram sexualmente de crianças em países como a Irlanda? Evidentemente, não. Ao contrário, todos rifaram o seu “espírito republicano” em troca do apoio da “imaculada” Igreja.

É com este pano de fundo que em um intervalo curtíssimo de tempo aconteceram o caso de agressão por homofobia a estudantes homossexuais da USP, o infame (para colocar um adjetivo publicável, pois o episódio merece outros impublicáveis para descrevê-lo à altura dos fatos) “rodeio das gordas” no InterUnesp, e após as eleições vieram à tona as declarações de uma estudante de Direito incitando a que se “afogasse” um nordestino e várias outras do mesmo teor. Em um intervalo de alguns dias tivemos diante de nossos olhos o inaceitável e repugnante show de horror condensado do reacionarismo capitalista em doses cavalares: homofobia, machismo e racismo expressados de maneira tal que realmente nos obriga a refletir mais pausadamente sobre o seu conteúdo mais profundo. Enquanto o Tea Party se alça à política norte-americana, com quatro senadores e dezenas de parlamentares, sob o lema “patriotas norte-americanos para retomar o que é nosso,” em nosso país os ventos regressivos sopram nos episódios acima citados. Enquanto nos EUA os direitistas mascaram que os arranha-céus e todas as riquezas norte-americanas emergiram sobre o sangue e o suor dos imigrantes, aqui em São Paulo, cuja construção teria sido impossível não fossem as mãos e a inteligência dos trabalhadores nordestinos, há poeiras de humanidade que clamam pelo seu afogamento! A quê isso corresponde?

Num nível mais imediato vemos que todos os três episódios recentemente ocorridos aqui foram executados por jovens, estudantes universitários (dois deles oriundos das principais universidades do país, a USP e a UNESP), provenientes da classe média. Isso questiona noções fartamente aceitas pelo senso comum segundo o qual estes seriam os setores ilustrados da sociedade e, portanto, os portadores de uma visão mais avançada. Não é de todo chocante que isso ocorra ai, pois de espaços de questionamento à ordem instituída, cada vez mais os planos dos governos para as universidades é transformá-las em centros de formação e reprodução da ordem capitalista. Isso inclui ideologia, valores e comportamentos. Em regra geral, não há, por exemplo, disciplinas que se dediquem a estudar a luta das mulheres ao longo da história. Poucas são dedicadas à trajetória das mobilizações dos negros. Porém, são iniciativas isoladas que obrigam a que se pense mais profundamente a serviço de quê e de quem está a universidade. A transformação desta realidade, a partir do combate pela real democratização da universidade, colocando-a a serviço dos interesses dos trabalhadores, é uma necessidade imperiosa.

De uma perspectiva mais profunda, porém, estas ações correspondem em primeiro lugar à própria decadência da dominação burguesa e do capitalismo, que se faz sentir de maneira cada vez mais aberta no nosso presente imediato. Lênin, em sua famosa obra, O Imperialismo, tratou de demonstrar como a fusão do capital bancário com o capital industrial, transformando-se em capital financeiro, levaria à uma crescente tendência à criação de monopólios. Estes, por sua vez, tornariam as disputas por mercados mais acirradas e violentas. Daí a caracterização famosa de que vivemos em uma época de crises, guerras e revoluções. Só a classe trabalhadora e sua revolução poderiam dar uma saída progressista a esta situação. Porém, a revolução mundial teve sua dinâmica congelada, por uma série de fatores objetivos e subjetivos, o que culminou na restauração burguesa após a ofensiva neoliberal, e varreu, momentaneamente, o horizonte da revolução do imaginário da classe trabalhadora. A isso correspondeu a instauração de uma ideologia baseada no ultra-individualismo e consumismo exacerbado. Portanto, há a adoção de uma ideologia padronizada de comportamento, objetivo e estético, em que a humanidade se realizaria plenamente apenas na sua relação de consumo com as mercadorias. É o fetichismo das mercadorias elevada à sua máxima potência. Entretanto, hoje, a grande questão que se abre é que a crise capitalista mundial, a despeito dos ventos de crescimento econômico (até quando?) do Brasil, demonstra a validade da caracterização de nossa época feita por Lênin. Não é possível mais sustentar a realização humana nas mercadorias adquiridas a crédito. O sistema está se decompondo. E os setores mais reacionários da sociedade já começam a colocar em marcha sua reação ideológica, em doses ainda muito pequenas se comparadas aos anos 30 do século passado, já que a classe trabalhadora ainda não expressou sua força. Vemos isso no Tea Party. Com outras características, vemos isso de maneira menos diretamente política nos episódios de homofobia, racismo e machismo ocorridos nas últimas semanas.

Em segundo lugar há que se partir de que sem o preconceito, a homofobia, o machismo e o racismo, o capitalismo não se sustenta. O motivo é bastante concreto. Tem suas origens na própria acumulação de mais-valia, elemento básico e essencial do funcionamento da lei do valor que rege o capitalismo. A burguesia, para poder ampliar seus lucros, distingue os seres humanos entre várias categorias, alguns valem mais no mercado de trabalho, outros menos. Assim, características físicas, de gênero, de origem nacional e social regulam o valor da mão-de-obra. Se você é mulher, receberá menos pelo mesmo trabalho realizado por um homem. Se for mulher e negra, menos ainda. Se for mulher, negra e nordestina, é provável que o que receberá mal possa ser chamado de salário. E, por qual motivo, se muitas vezes faz o mesmo trabalho que outros que recebem muito mais? É aí que entra a importância dos preconceitos disseminados pela burguesia para sustentar o capitalismo. Por exemplo, a segregação racial nos Estados Unidos só foi abolida em 1964, justamente no momento em que o país abre as portas para a entrada massiva de mão-de-obra estrangeira, sobretudo mexicana. Ainda que o preconceito contra os negros persista, e nunca acabará enquanto houver capitalismo, houve um pacto através das “ações afirmativas”, que só pôde ocorrer por que a burguesia imperialista passou a extrair lucros da mão-de-obra proveniente dos imigrantes latino-americanos e hispânicos. O grande trunfo da burguesia imperialista norte-americana foi assim separar os trabalhadores hispânicos dos trabalhadores negros, impedindo que unissem seu combate ao preconceito em um combate contra a exploração.

De outro prisma, podemos dizer que da mesma maneira que a burguesia não pode explicar sua permanência como classe dominante, num sentido materialista-histórico profundo, pois se isso fosse feito se chegaria à conclusão que seu jugo atual é regressivo e provedor das misérias econômicas, morais e intelectuais que afligem a humanidade, tampouco os preconceitos disseminados pelo capitalismo podem ser apreendidos de acordo com um sentido minimamente coerente. Existem como afirmações apriorísticas, construídas historicamente, para garantir a extração de lucro e atender aos interesses das burguesias na exploração de suas próprias classes trabalhadoras, e no caso das burguesias imperialistas, para justificar o massacre e o espólio sobre os demais povos do mundo. Foi assim com a perseguição do nazismo aos judeus. É assim na perseguição de palestinos pelos israelenses hoje. Os preconceitos legitimam a idéia de que os dominadores são mais humanos que os dominados. De que a dominação não se dá por conta de interesses de uma classe, mas tem origens “naturais”.

Os preconceitos e a opressão acabam tomando vida própria, rompendo as amarras da dominação econômica direta. Não se sabe se os três grupos de indivíduos do caso de homofobia da USP, do “rodeio das gordas” do InterUnesp, e a figura que clama pela morte dos nordestinos são parte da patronal diretamente. Mas o que eles manifestaram não era mera “alienação” juvenil, como muitos poderiam acreditar, mas uma posição inconsciente de classe, que antecipa uma ideologia perigosamente já experimentada na história. Digamos inconsciente porque nenhum deles se declarou abertamente membro de uma organização ultra-direitista. Porém, longe está de ser uma manifestação, condenável decerto, mas que não é para nada inocente.

Os nazistas, não nos esqueçamos, davam aulas em suas universidades sobre como as características físicas dos judeus demonstravam que seriam inferiores e que, portanto, seu extermínio era não só legítimo, mas necessário para que a humanidade se desenvolvesse em base a seus “melhores genes”. Menghele, o odioso médico que chefiou o campo de Aushwitz, realizou milhares de experimentos para alterar as características físicas dos detentos, como por exemplo, injetar tinta azul nos olhos das vítimas, numa tentativa de “arianizar” os que ali estavam. Mas estas lições de bestialidade que só as mais execráveis poeiras de humanidade poderiam executar foram antecedidas por uma preparação ideológica e material de anos a fio. Paralelo ao apoio nas classes médias arruinadas da Alemanha contra as organizações do movimento operário, os nazistas edificaram a ideologia segundo a qual as diferenças não poderiam existir. De que tudo que não seguisse os conceitos determinados pela “beleza e pureza” arianas deveria perecer. De que a superioridade de uns sobre os outros seria natural… Isso justificaria o comportamento de humilhação e opressão em proporções bárbaras de uns sobre outros? Em escala bastante menor, é certo, mas não estaríamos diante da emergência do embrião de uma ideologia similar, adequada às condições históricas atuais?

Trotsky, o grande revolucionário russo, analisando a situação francesa dos anos 30 da década passada, quando o país atravessava uma grave crise econômica, política e social, estando sob a dominação de um governo bonapartista de inspirações fascistas, questionará contundentemente a noção de que as classes médias são por definição os setores moderados e democráticos da sociedade capitalista. “Quando a classe média perde as esperanças é facilmente atacada pela raiva e se dispõe a abandonar-se a medidas das mais extremas. (…) O fascismo unifica e dá armas às massas dispersas; de uma ‘poeira’ de humanidade – segundo nossa expressão – faz destacamentos de combate. Assim dá à pequena-burguesia a ilusão de ser uma força independente. Ela começa a imaginar que, realmente, comandará o Estado. Não há nada de surpreendente em que estas ilusões e esperanças lhe subam à cabeça!”.

Assim, Trotsky dizia que uma parcela da pequena-burguesia se alia ao proletariado, enquanto outra se lança aos braços da burguesia. Evidentemente não estamos em uma situação em que isso ocorra da maneira como Trotsky aqui descreve. A polarização social está ainda longe de atingir um grau que abra este tipo de situação, sobretudo pela ausência de protagonismo da classe trabalhadora. Porém, a crise capitalista internacional segue vigente, e anuncia que estes momentos virão. Sua resolução muito dependerá da capacidade da esquerda de nos momentos preparatórios como o que vivemos, responder aos ensaios reacionários da classe antagônica de maneira contundente. É preciso, portanto, que a esquerda de conjunto se levante contra os episódios ocorridos, de maneira veemente, rompendo os limites da superficialidade, com que a mídia (e no caso da Unesp a própria reitoria) busca retratar tais casos, apesar de ter que condenar tais ações. O que está em jogo é a seriedade com a qual serão encarados os embates do futuro. Lênin, outro gigante da revolução, nunca esqueceu de chamar a atenção da juventude e das massas trabalhadoras para o fato de que a consciência da classe operária – certamente a classe mais prejudicada com o avanço de tais manifestações apodrecidas de vida, como a homofobia, o racismo e o machismo – não pode ser uma consciência política verdadeira, se os operários não estiverem habituados a reagir contra todo abuso, toda manifestação de arbitrariedade, de opressão e de violência, onde quer que se produza, quaisquer que sejam as classes atingidas; e a reagir justamente do ponto de vista revolucionário, e não sob qualquer ponto de vista. Nesse sentido, fazemos coro à pronta nota de repúdio solta pelo Sindicato dos Trabalhadores da USP (SINTUSP) acerca do caso InterUnesp.

A esquerda, a classe trabalhadora, os movimentos de mulheres e de direitos humanos, bem como a juventude, sobretudo das universidades em questão, tem de responder à altura, não apenas punindo os culpados, mas criando um ambiente de completa e resoluta intolerância contra este tipo de manifestação. Colocamos nossos corpos, vozes, força e vontade na mais decidida defesa contra todas as opressões e discriminações!

Ato na Reitoria da USP: AMANHÃ 09/11, ÀS 12H

Boletim do Sintusp
A assembleia realizada na última sexta-feira, dia 5, discutiu sobre a organização e importância do ato unificado que estamos construindo com os companheiros estudantes. Logo pela manhã, a partir das 9h30, todos são chamados para a distribuição de Carta Aberta dirigida aos membros do Conselho Universitário, expondo nossa posição quanto aos temas e exigindo dos próprios conselheiros o debate sobre os temas: estrutura de poder na USP, Inclusp e carreira para técnico-administrativos com toda comunidade uspiana, pois são inadmissíveis que questões de tamanha importância sejam tratadas às costas dos principais interessados.
Fique atento à programação do dia e participe!

Terça, dia 9:
A partir da 9h30: panfletagem nos portões A e B, da reitoria;
12h: concentração e ato unificado, na reitoria.

Fim da Fuvest, Não ao vestibular!

Por uma estatuinte Livre e Soberana!

Por uma carreira construída pelos funcionários!

Retirada de todos os processos contra trabalhadores e estudantes!

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

SINTUSP: Moção de Repúdio aos agressores e autores do “Rodeio das Gordas”

Assembléia de Trabalhadoras e Trabalhadores da USP


Nós, trabalhadoras e trabalhadores da USP, reunidos em assembléia no dia 05 de novembro de 2010, repudiamos a realização do chamado “Rodeio das Gordas” no Interunesp deste ano, evento esportivo que reúne todos os campi da UNESP. Este ato, que consistia em “montar” sobre meninas gordas simulando um rodeio, é um ato execrável que devemos repudiar com todas as nossas forças, pois concentra a mais degradante e violenta opressão desta sociedade capitalista em que vivemos.

Não devemos aceitar a imposição de um padrão de beleza, tampouco devemos aceitar a naturalização deste tipo de violência, que ocorre todos os dias, às vezes de forma velada, às vezes de forma absurda – como no “Rodeio das Gordas”. Repudiamos também a Reitoria e as Diretorias da UNESP, que têm “mão firme” com os lutadores, e “mão leve” com os agressores, estando estes últimos até o momento sem nenhuma punição.

O Sindicato de Trabalhadores da USP (Sintusp) se incorpora ao chamado do Diretório Central de Estudantes da UNESP na convocação de um ato para o dia 17 de novembro em frente à Reitoria da Unesp e na realização de um grande Festival Interunesp contra a Opressão nos dias 26 e 27 de novembro.

Punição aos agressores! Por uma comissão independente de investigação!

Não ao “Rodeio das Gordas”! Basta de opressão e violência contra as mulheres!



05 de novembro de 2010

Contra a escravidão das formas! Sobre a juventude e o "rodeio das gordas", Interunesp-2010

Nas universidades públicas de nosso país, nos deparamos com fatos que expressam a degenerescência na qual está se afundando uma parte da juventude. Nos Jogos universitários inter-campi da Unesp, o Interunesp-2010, um grupo de jovens organizou um “rodeio de gordas”, que consistia em simular uma “conversa” para se aproximar de uma garota gorda e depois montá-la como se fosse um gado, e ganharia a competição aquele que conseguisse “montar” a garota por mais tempo.

Na USP, poucos dias antes, um casal de homossexuais foi agredido verbalmente e espancado em uma festa organizada pela Atlética da Escola de Comunicações e Artes (ECA), única e simplesmente por estarem abraçados. Ambos os casos nos fazem lembrar da “brincadeira” do jornal “O Parasita”, de estudantes da Farmácia da USP, que no semestre passado davam ingresso de graça a uma festa àquele que jogasse fezes em homossexuais.

Nas capas de dezenas de jornais no mundo nessa semana todo estampou-se na última segunda-feira: no Brasil elegeu-se a primeira presidente mulher do país. Dilma Rousseff, depois de um operário metalúrgico, uma mulher! Nos EUA, um negro. Na Bolívia, um indígena. Na Argentina, Cristina... Avanços no combate à discriminação, ao preconceito, ao racismo, ao machismo e à homofobia? A corrida eleitoral por votos, intensificada no segundo turno, mostrou que Dilma está convencida a não dar nenhum passo no sentido de avançar com demandas históricas das mulheres e os direitos dos homossexuais. O segundo turno foi uma disputa entre Serra e Dilma pelo posto de “o candidato mais anti-aborto”.

São diversas as formas de violência contra as mulheres e homossexuais em nossa sociedade, e a barbárie desse "rodeio de gordas" é expressão nefasta da naturalização da violência contra as mulheres, um episódio orquestrado com premeditação pela internet, sem que nenhum dos agressores tenha sido punidos até o momento; assim como nada foi feito para punir os agressores uspianos. É essa juventude adestrada pelos valores conservadores, reacionários, e burgueses, que ateia fogo em índios, que espanca empregadas domésticas, que joga calouros ao afogamento, que agride homossexuais e que monta em mulheres como se fossem gado; que “brinca” com a vida dos setores oprimidos da sociedade e que mata. Essa juventude é o exército reservista da burguesia brasileira, os porta-vozes da reação. Este setor da juventude está reproduzindo, acriticamente, uma moral atrasada que só faz jogar a humanidade cada vez mais no atraso. A atividade humana, e suas opiniões ou desejos, não é natural, mas é histórica e, portanto, reflete o nível de desenvolvimento da sociedade, o quanto esta sociedade, tal como está organizada, permite aos indivíduos a sua livre expressão, o exercício da sexualidade, a reflexão sobre as relações sociais que estabelecem, o questionamento que se traduz em práticas que avancem na liberação humana do preconceito e opressão castradores. Para garantir a estabilidade de uma sociedade que oprime, que explora e escraviza milhares de seres humanos é essencial naturalizar a violência e torná-la cotidiana. É essencial ao projeto da burguesia – de manter a humanidade na miséria e escravidão – disciplinar o espírito humano, embrutecê-lo até a estupidez. Na escravidão, os negros e negras eram tratados como animais; em pleno século XXI, mulheres fora do padrão de beleza imposto socialmente são tratadas como touros. Esse o país “desenvolvido” e da “igualdade” que Dilma vai governar.

A criação de um padrão estético imposto às mulheres e a naturalização de sua imagem enquanto um objeto de consumo e prazer para terceiros também fortalece ações como a do InterUnesp. As indústrias de cerveja, como a Skol, um dos patrocinadores desse evento, explora a imagem da mulher na TV como objeto sexual. A mídia burguesa com suas novelas e programas lavam as mentes da sociedade impregnando valores e padrões que sirvam tão somente para o enriquecimento de empresários, o consumo, o adestramento de acordo com a ideologia burguesa e o adoecimento. O controle da sexualidade e dos corpos imposto no capitalismo é responsável também pela proeminência de novas enfermidades, a anorexia, a bulimia, a depressão.

A imposição por parte da classe dominante de papéis sociais considerados como "normais", "naturais" a homens (macho-alfa, chefe de família e heterossexual) e a mulheres (dona de casa, mãe, esposa submissa, heterossexual) autoriza agressões constantes àqueles que subvertem essa ordem de papéis sociais. Não à toa, os e as homossexuais são brutalmente perseguidos como doentes, seres pecaminosos e pervertidos ou diretamente criminosos.

Enquanto um terço das famílias é sustentado unicamente por mulheres, nesse último processo eleitoral, a despeito de que as mulheres tiveram visibilidade, a valorização da família nos discursos dos então presidenciáveis teve destaque, com um apelo voltado a uma família monogâmica nuclear burguesa, com pai provedor, “macho”, viril, a mulher submissa, abnegada e altruísta, e crianças que sejam criadas dentro desses valores. O controle da sexualidade e dos corpos foi tema de destaque nas eleições, contra os direitos das mulheres e dos homossexuais. As vítimas desta política: milhões de seres humanos oprimidos, humilhados, reprimidos e explorados todos os dias.

Na Unesp, as reitorias e diretorias locais, em casos de assédios, estupros e agressões, já mostraram que não estão dispostas a romper com a lógica social corrente de opressão às mulheres e aos homossexuais deixando impunes os agressores. Da mesma maneira, Serra/PSDB e Dilma/PT, com o empurrão de Marina Silva e Cia. religiosa, ergueram um altar eleitoral sobre o sangue de milhões de mulheres que realizam abortos clandestinos, enquanto os corruptos e padres e bispos pedófilos gozam de impunidade. Dilma venceu o tucano paulista. Uma mulher, a primeira presidenta do Brasil, que vai governar para os ricos e desferir ataques aos direitos sociais, como já sinalizado que em seu governo irá atacar a previdência social. Hoje milhões de pessoas, jovens e trabalhadores na França vão às ruas para lutar contra a reforma da previdência que inclui a extensão da idade de aposentadoria, nos mostrando que é possível e é preciso lutar em defesa dos nossos direitos.

A juventude francesa deve nos inspirar não somente para lutar contra os ataques futuros, que agravam a condição de exploração dos oprimidos, mas para hoje colocar de pé uma ampla campanha contra a violência para que na Unesp, e em diversas universidades de todo país, todos saibam que na universidade onde a juventude reacionária que fez o rodeio das gordas, estudantes homens e mulheres se organizaram e expulsaram os agressores da Universidade. É preciso desde já, nos colocar intransigentemente contra humilhações e violências aberrantes. A inflexibilidade a casos como estes e uma ação decidida irá nos fortalecer para lutar para combater e transformar pela raiz a opressão das mulheres, para lutar pela revolução socialista e pelo fim da propriedade privada, rumo a verdadeira emancipação da humanidade.

Nós, do grupo de mulheres Pão e Rosas, colocamos nossas forças, para junto do Diretório Central dos Estudantes da Unesp, dos Centros Acadêmicos, e de centenas e milhares de estudantes, organizar um grande festival cultural e político, como parte de uma campanha contra o controle do corpo e da sexualidade e contra a violência às mulheres.

Pela expulsão imediata de todos agressores e seus cúmplices! Por comissões de estudantes e trabalhadores de apuração dos casos independentes das reitorias e da polícia!

Por uma ampla campanha contra o controle do corpo e da sexualidade! Basta de violência às mulheres e homossexuais!


Pão e Rosas participa de ato contra a homofobia na USP



Diana Assunção, da Secretaria de Mulheres do Sindicato de Trabalhadores da USP
Jennifer Tristán, do Bloco ANEL às Ruas e do Diretório Acadêmico da FAFIL na Fundação Santo André
Veja matéria do G1 sobre o ato.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Adunesp repudia preconceito e discriminação

Adunesp S. Sindical
Os fatos ocorridos durante os jogos universitários realizados em Araraquara, o InterUnesp, de 9 a 12 de outubro, merecem reflexão e posicionamento por parte da comunidade acadêmica e da sociedade. A conduta de um grupo de alunos, que organizaram um “rodeio” para conferir quem conseguiria ficar mais tempo “montado” em colegas obesas, exige um debate mais amplo.

Naturalmente, não se trata de conferir sensacionalismo ao caso, como vem fazendo parte da imprensa, sempre pronta a lucrar com a tragédia humana, nem de estabelecer um processo inquisitorial contra os autores. O que se deseja é extrair do fato a necessária reflexão, que contribua para que nunca mais ocorra nada sequer semelhante.

O que houve em Araraquara, longe de uma simples “brincadeira”, como procuram caracterizar seus autores, foi uma agressão à mulher e, também, à dignidade humana. O que houve foi violência física e psicológica, assédio moral, discriminação e preconceito. Se tudo isso é considerado inaceitável na sociedade em geral, mais ainda o deveria ser numa instituição que se julga a vanguarda do conhecimento e da democracia no país, na qual deveriam ser formados cidadãos críticos e progressistas.

Não podemos, em absoluto, banalizar o acontecimento, sob pena de que atos de violência contra minorias – sociais, políticas, étnico-raciais, religiosas, culturais, sexuais ­– sejam vistos com naturalidade. O “rodeio” humano de Araraquara, as agressões contra indígenas ou moradores de rua, contra mulheres e homossexuais... são fatos que guardam proximidade e florescem entre filhos da classe média.

A insensibilidade diante da dor do outro e o desejo inconsciente de eliminar os considerados frágeis ou, simplesmente, diferentes, refletem comportamentos que levaram, historicamente, a movimentos xenófobos e a extremos como o fascismo e o nazismo. Uma educação mais humanitária, por certo, ajudaria estes jovens a refletirem mais sobre a dor alheia.

A capacidade de nos indignarmos contra a opressão, em qualquer âmbito da vida em que ocorra, é um tesouro do qual não podemos abrir mão. É com ela que devemos contar para barrar os ataques à nossa prática docente, o produtivismo exacerbado que campeia na universidade pública, as pressões privatistas e a busca da saída individual diante das más condições salariais e de trabalho, entre outros.

Como diz a célebre poesia... “na primeira noite, eles se aproximam e colhem uma flor de nosso jardim...pisam as flores... roubam-nos a lua...arrancam-nos a voz da garganta... e não dizemos nada?”.